A teoria do caos

32 Capítulo XXXII - Sobre agentes do caos


Notas iniciais
E revoluções em andamento,

"Quando a verdade é substituída pelo silêncio, o silêncio é uma mentira."

Yevgeny Yevtushenko

Há que se dizer algo sobre personagens que assombram a narrativa, mesmo não estando lá fisicamente.

Se Hisashi Midoriya não tivesse visitado seu filho e esposa anos atrás, sua morte seria apenas uma nota de rodapé. Apenas um nome, apenas um mistério nunca resolvido. Não seria necessário saber sua história, não seria necessário contar sua influência.

Mas Hisashi Midoriya visitou seu filho e sua esposa.

E agora, do outro lado da câmera, havia um garoto.

Ele parecia inofensivo.

Cabelos bagunçados, postura contida, olhos grandes e verdes que pareciam mais pedir permissão do que desafiar. A voz era suave, hesitante em alguns pontos — cuidadosamente ensaiada para parecer improvisada. Mas para quem prestasse atenção... havia algo de afiado demais naquela doçura.

Mera percebeu de imediato.

Olhou de relance para a Madame Presidente sentada ao seu lado. O rosto da mulher era uma máscara de neutralidade, mas os olhos semicerrados e as mãos tensas em seu colo traíam a inquietação.

Ela conhecia aquele tom de voz que fazia uma pergunta soar como crítica, uma hesitação parecer humildade, uma resposta se vestir de inocência.

Hisashi Midoriya havia sido assim também.

No vídeo, a câmera tremia levemente, como se fosse uma gravação casual feita por colegas.

"— E você realmente acredita que pode se tornar um herói... sem uma quirk?"

A pergunta foi feita por um dos alunos da classe de negócios. Sua voz era neutra e polida. Mera talvez fosse um dos poucos ali além da mãe dele que sabia quem era: O filho da Presidente.

Ele era um dos poucos que conheciam a verdade: apesar dos registros oficiais, o garoto também era quirkless.

Izuku Midoriya piscou devagar. Depois, inclinou levemente a cabeça com um sorriso que parecia tímido demais para não ser ensaiado.

"— Bem... se o que define um herói é ter uma quirk, então temos um problema muito maior do que parece."

Ele mexeu em alguns papéis à sua frente, como se estivesse nervoso — um toque calculado.

"— Segundo dados da Associação Nacional, 10% da população nasce sem nenhum tipo de quirk. Esse número não está diminuindo. E quem entende o mínimo de genética sabe que não vai diminuir. Pessoas como eu nasceram ontem. Vão nascer amanhã. E daqui a cem anos, ainda estarão aqui."

"— E com isso você quer dizer...?"

"— Que estamos aqui para ficar. Que fazemos parte da sociedade, quer gostem ou não.

E, no entanto, quantos Pro Heroes sem quirk existem? Nenhum. Zero. E quando tentam... o sistema os apaga. O sistema tenta nos apagar, não importa o que tentemos fazer."

Mera sentiu a tensão aumentar ao redor.

Izuku continuou, a voz tão gentil que parecia uma confissão:

"— Coragem não depende de genética. Eu perdi amigos que nasceram como eu. Pessoas incríveis, que queriam ajudar, mas ninguém deu a elas a chance. Se eu conseguir mostrar que é possível... talvez a próxima geração tenha uma alternativa além do silêncio."

A câmera tremeu um pouco — quase como se o operador estivesse emocionado.

"— Então... sim. Eu quero ser um herói. Mesmo sem uma quirk.

Porque no fim, o que define um herói não é poder, é a vontade de salvar.

E isso, ninguém pode tirar de mim."

Mera observou a Madame Presidente de novo.

A mulher não se mexia, mas estava longe de ser por serenidade.

"— Hun." A voz do entrevistador tinha um tom que agora não escondia bem sua excitação. "São belas palavras. Você consegue provar?"

Izuku Midoriya sorriu e apontou seu dedo para a câmera.

"— Me assista. E veja." Fez um gesto para cima com o dedo e piscou. "O próximo serão vocês."

Izuku Midoriya não era apenas um garoto falando de sonhos.

Ele era o filho de um dos piores pesadelos da comissão.

E agora, com a ajuda discreta do próprio filho dela, estava desafiando — com carisma inegável — todo o sistema.

Hisashi Midoriya havia retornado para assombrar a Comissão de Segurança Pública dos Heróis por meio de seu filho.

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Apesar da luta brutal vista da arena, Izuku parecia estar em melhores condições do que se esperava — embora o lado direito de seu corpo ainda exibisse marcas evidentes.

Sua pele estava vermelha como brasa recém-apagada, o rosto levemente inchado, e parte de seu cabelo daquele lado havia sido queimado, criando um contraste estranho com o restante desgrenhado e intacto.

— Ele parece um morango tostado — comentou Todoroki, deitado na cama ao lado, a voz neutra, quase contemplativa.

Shinsou ergueu uma sobrancelha, ainda tentando recuperar o fôlego da corrida até a enfermaria.

— Que idiotice foi aquela? Vocês estavam tentando se matar?

— Eu estava ajudando um amigo — respondeu Izuku, sem nem levantar os olhos da armadura danificada que examinava junto com Mei, sentada ao seu lado. Shinsou não sabia como ela havia chegado tão rápido ali.

— Me explodindo? — Questionou Todoroki, secamente.

— Eu queria ganhar também — admitiu Izuku, dando de ombros com um meio sorriso, como se isso explicasse tudo. — E estamos bem. Mais ou menos.

Shinsou cruzou os braços, observando os dois. Izuku parecia descontraído demais para alguém que quase se desintegrou.

Todoroki, por outro lado, estava... calmo. Assustadoramente calmo. Havia algo em seu olhar que vagava distante, como se ainda estivesse preso em outra parte da arena — ou talvez, em outra parte da memória.

— Você usou seu fogo — Shinsou disse, de forma quase casual.

Todoroki não respondeu de imediato. Apenas assentiu com um movimento curto de cabeça.

— Conversei com Izuku enquanto a Recovery Girl cuidava da gente — disse, por fim, baixo enquanto os outros dois tagarelavam ao fundo. — Ele disse algumas coisas... e eu tenho muito em que pensar.

Shinsou não perguntou o que exatamente havia sido dito. Sabia que Izuku tinha esse dom estranho de dizer a coisa certa — mesmo quando parecia estar apenas cuspindo coisas aleatórias ou provocando todo mundo.

— Bom... estamos aqui se você precisar — ele disse, simples.

Todoroki levantou o olhar, levemente surpreso.

— É, eu sei. — Shinsou bufou, com um meio sorriso. — A culpa é do Izuku. Estar perto dele... é meio inevitável. Você acaba se envolvendo.

Todoroki considerou a ideia por um momento.

— Não parece... tão ruim — murmurou.

— Maravilha! — disse Mei, surgindo do seu lado do nada. Ele deu um pulo leve. — Temos que repetir algum dia o show pirotécnico de vocês. Foi lindo. Explosões, fumaça, destruição total. Um sonho.

— Eu quase morri. — disse Izuku, a voz estranhamente animada.

— Teria sido uma morte gloriosa. — Mei rebateu, sorrindo como se fosse o melhor elogio do mundo. — A armadura segurou melhor do que eu esperava. Com alguns ajustes, a próxima versão aguenta uma explosão maior. Quer testar?

— Talvez outro dia, obrigado.

A porta da enfermaria se abriu logo em seguida, e Recovery Girl apareceu, apoiada em seu bastão, os mirando de forma exasperada.

— Barulhento. Midoriya, Todoroki. Liberados. Mas nada de explodir nada no caminho até a arquibancada.

— Sem promessas. — Izuku cantarolou, já se levantando com cuidado.

Todoroki se ergueu também, os olhos ainda pensativos, mas com o semblante menos pesado.

— Vamos — disse Izuku, puxando Todoroki pelo braço. — Não podemos perder a luta da Yaoyorozu.

— Hiro tem algum plano, pelo menos? — perguntou Shinsou, curioso.

— Não faço ideia, mas sei que vai ser divertido.

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A arquibancada ainda estava agitada quando Izuku, Mei, Todoroki e Shinsou chegaram, os dois que lutaram com curativos visíveis e passos um pouco mais lentos que o normal.

— Vocês não deveriam estar de cama?

Taki se virou, os olhando criticamente.

— Izuku não podia perder o show de destruição animada. — Shinsou dedurou. — E acho que Recovery Girl não aguentava mais ele falando.

— Eu queria estudar a estratégia da Yaoyorozu — retrucou Izuku, ajeitando o suporte do braço e abrindo o caderno. — E o Hiro é imprevisível. Já pensou se ele animasse uma das colunas de sustentação da arena?

— Não dá ideias — Aya implorou. — Vai que ele ouve daqui.

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—E vamos começar mais uma luta em trio! Mais um aluno da classe de suporte, e um da classe A e um da B de estudos heróicos! Estamos com um tema, Eraserhead!

—Só espero que esses não destruam a arena também.

O apito soou, dando início à luta.

Yaoyorozu se moveu imediatamente, criando um escudo dobrável com precisão cirúrgica.

Awase avançou com agressividade, como era de se esperar. Sua mão brilhava levemente ao ativar sua Quirk Solda, mirando em travar os movimentos da oponente o mais rápido possível.

Do outro lado da arena, Hiro Watanabe simplesmente... se sentou. Cruzou as pernas com tranquilidade e bocejou, os observando.

— Ele... ele tá mesmo só sentado ali? — a voz incrédula de Present Mic ecoou pela arena.

A plateia riu, confusa. Alguns pensaram que ele estava apenas tirando sarro do evento.

— Ele sempre faz isso — comentou Aya da arquibancada, com um suspiro. — Treinou com o Izuku todos os dias, mas é preguiçoso demais.

— Passava mais tempo deitado do que em pé. — Izuku concordou, mas então sorriu, seus olhos analíticos, parecendo aguardar algo. — Mas quando se move...

Enquanto isso, Awase e Yaoyorozu já trocavam golpes com velocidade, criando armas e o atacando.

Ele tentou prender o escudo dela ao chão com um toque direto, mas ela reagiu com uma granada de luz, lançando-a aos seus pés.

Awase cambaleou, cego temporariamente. Foi nesse momento que Hiro finalmente se moveu.

Rápido.

Rápido demais para alguém que até um segundo atrás estava bocejando no chão.

Num piscar de olhos, ele apareceu atrás dos dois combatentes, quase invisível ao olhar comum.

— De onde ele surgiu?? — Alguém da sala B gritou confuso.

— Ele está querendo mesmo chamar a atenção de Yaoyorozu. — Taki assobiou. — Nunca o vi tão motivado.

Com um toque na faixa da cabeça de Awase e outro no bastão de estudo que Yaoyorozu descartara antes, Hiro ativou sua quirk.

Ambos os objetos estremeceram. E então... ganharam vida.

— MAS O QUÊ?! — Present Mic gritou.

— Ele treinou a vida inteira. — Aya explicou para os alunos confusos. — A família dele queria que ele fosse um herói.

— O único motivo de Hiro não ter entrado na classe de heróis, foi porque ele não quis. — Izuku completou, olhos atentos. — Na maior parte do tempo, ele não se esforça.

O bastão de treino virou contra Yaoyorozu, a faixa de Awase começou a se retorcer cobrindo seus olhos fortemente, o deixando cego ao redor.

Awase reagiu, mas Hiro se agachou escapando do golpe facilmente, uma mão tocando seu sapato, que arrastou Awase para longe.

A plateia explodiu em gritos de surpresa.

— Ele consegue animar tudo?! — alguém exclamou.

Hiro deslizava pela arena com uma calma quase debochada, tocando objetos deixados para trás com um simples gesto.

Em segundos, a arena virou um cenário de caos.

Ferramentas, armas criadas por Yaoyorozu começaram a se mexer.

Ela foi forçada a recuar, lutando contra suas próprias invenções — uma ironia cruel.

Awase, por outro lado, conseguiu escapar da faixa e arrancou seu sapato, aproveitando a distração para se aproximar de Yaoyorozu por trás.

Mas Hiro não deixava ninguém esquecer que ele estava lá.

Em segundos ele estava atrás dele, tocando nas suas costas.

O casaco dele se contorceu de imediato, amarrando suas mãos agressivamente e puxando-o para trás com brutalidade.

Awase perdeu o equilíbrio e caiu com força no chão, desacordado no impacto.

O árbitro sinalizou: Awase estava fora de combate. Inconsciente.

— E agora restam dois! — anunciou Present Mic. — A mente brilhante da Classe A contra o caos encarnado da Classe de Suporte!

Hiro, sorrindo, ergueu as mãos como quem dizia "sem ressentimentos".

Yaoyorozu, ofegante, limpou o suor da testa. Estava cercada por pedaços animados tentando derrubá-la, mas que pareciam perder a força com o passar do tempo. Seus olhos varriam ao redor, olhando Hiro, Awase e a arena.

— Ela está montando a estratégia. — Izuku murmurou. — Hiro já passou dos limites de uso da quirk, e ela percebeu.

— Como?

— Contando o tempo.

Como se estivesse ouvindo, o escudo caiu no chão e ela se moveu.

Com um movimento rápido, criou um canhão portátil de rede — uma versão reforçada e experimental que usaria normalmente para contenção de vilões.

— Será que ela deixaria eu analisar o material? — Alguém do suporte murmurou, animado.

Ela disparou.

A rede se expandiu em pleno ar, complexa e pesada como uma teia metálica viva.

Hiro tentou tocá-la para ativar sua quirk, mas não houve efeito. O cansaço do uso constante o alcançava.

Ele mal levantou a mão quando a rede o atingiu com força, lançando-o para fora da arena como um boneco de pano.

O alarme soou alto.

— VENCEDORA: MOMO YAOYOROZU! — anunciou Midnight, e a arquibancada explodiu em aplausos, ainda rindo da imprevisibilidade da luta.

Do lado de fora da arena, ainda parcialmente preso na rede, Hiro soltou uma risada cansada.

— Muito bem. — disse ele, erguendo o polegar. — Devia visitar a turma de Suporte qualquer dia. Você ia se divertir muito lá.

Yaoyorozu, arfando, acenou.

(Naquele momento, uma mudança aconteceu.

A satisfação pela luta, a pressão na criação na estratégia.

A noção de que aquilo foi por pouco, que precisava treinar seu corpo tanto quanto sua quirk.

Aquele momento mudou Momo Yaoyorozu.

Aquilo teria consequência.)

— Ele não perdeu tempo. — Taki comentou. — Para ele é como se tivesse ganhado.

A plateia ainda comentava animada:

— Aquilo foi a Quirk mais caótica que eu já vi.

— E ela venceu mesmo lutando contra o que ela mesma criou.

— Esse garoto é um completo agente do caos — Uraraka comentou, quase sorrindo. — Como vocês aguentam isso?

— Não aguentamos — respondeu Aya. — A gente só... aprendeu a lidar. Tipo com Izuku.

Izuku não respondeu, apenas deu um sorrisinho satisfeito, os olhos brilhando ao ver Yaoyorozu erguendo o punho no meio da arena, vitoriosa.

— Ela pode ser incrível. Um dia — disse ele.

Shinsou e Todoroki trocaram um breve olhar. Não era difícil perceber: Izuku realmente acreditava nisso. De forma genuína, sem reservas.

Era contagiante.

— E agora. — Izuku se virou, sorrindo para Shinsou. — Agora é sua vez. O que vai fazer?

Shinsou se ergueu, se espreguiçando.

— Vou seguir o que você faz.

— Hun?

— Vou me tornar um problema para todo mundo.

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Tensei havia planejado terminar sua patrulha mais cedo naquele dia.

Queria assistir à luta de Tenya no festival, torcer por ele da arquibancada.

Ele prometera estar lá, com aquele sorriso largo e o fazer passar vergonha.

Mas Hosu estava um caos.

A cidade fervilhava de tensão, os relatórios sobre movimentações estranhas e vilões avulsos se acumulavam como poeira sob a porta. Tirar o dia de folga era impossível.

Ainda assim, ele quase se permitiu uma esperança tola de encontrar Nora pelas ruas — aquele vulto silencioso e fora da lei que, apesar de tudo, fazia os becos parecerem menos ameaçadores.

As pessoas falavam o que queriam, mas Tensei sabia: Hosu era mais segura quando o vigilante estava por perto.

Ele queria acreditar que daria tempo.

Mas agora... estava caído em um beco escuro, o uniforme rasgado, os olhos arregalados e sem foco.

O gosto metálico de sangue se acumulava em sua garganta, sufocando sua respiração em espasmos úmidos.

Seu corpo não respondia. Paralisado.

A lâmina de Stain havia sido limpa com precisão. A mesma com que o cortara momentos antes.

A dor era surda.

A consciência oscilava.

Tensei pensou em Tenya.

Pensou se o irmão teria vencido a luta. Se teria conseguido sorrir.

Se teria lembrado dele.

Pensou se ainda o veria.

O céu acima do beco parecia distante demais.

Frio demais.

E o nome do irmão queimava silencioso em seus lábios, enquanto tudo ao redor mergulhava em sombras e sangue.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.