A solidão encontra companhia
3 Capítulo III
Lara estava ansiosa para que desse 22 horas e pudesse sair da universidade para ir ao barzinho. Ela estava bem-arrumada, mas de forma discreta, pois iria direito da universidade para o barzinho, ficando acertado com Bruno que dividiriam um motorista de aplicativo.
Assim que o professor liberou, Lara viu uma mensagem de Bruno afirmando que já havia chamado o motorista, ocasião em que a jovem foi até onde o colega se encontrava, o achando facilmente.
— Eu to bem nervoso, tenho cinquenta reais aqui, mas lá isso deve dar para uma água. — falou sorrindo envergonhado.
— Você tá rico se comparar comigo, amigo. — falei rindo enquanto entrava no carro.
Chegamos na frente do bar e passei um batom olhando no meu celular. Bruno foi um cavalheiro me esperando e dizendo que estava tudo certo.
Logo que entraram os jovens perceberam o luxo do local, os colegas estavam no segundo andar do bar, parte que era a céu aberto. Subiram completamente sem jeito e foram se juntar a eles. Todos comemoraram quando viram os estagiários novos, menos Rafaela que apenas deu um dos seus sorrisos sinceros.
Os recém-chegados cumprimentaram todos de um por um, momento em que Lara abraçou Rafaela. A mais nova ficou absorta no cheiro da chefe e percebeu constrangida que o abraço havia durado mais do que seria adequado. Rafaela estava de short jeans preto e uma camiseta simples branca com uma jaqueta por cima, apesar da simplicidade ela estava estonteante.
— Gente, bebe, que hoje olha quem paga. — Patrick falou para a loira e para Bruno apontando pra Rafaela que sorriu.
Rafaela já havia bebido bastante vinho antes de sair de casa e havia pedido uma garrafa no bar para ela e Vanessa. Assim, que seus novos estagiários chegaram, ela notou que Lara tinha um corpão e havia adorado seu cheiro. Nada daquilo importava para Rafaela a não ser como forma de apreciação, já que a brilhante cozinheira não se envolvia com pessoas próximas para não ter que lidar com sentimentos conflitantes.
— Posso tomar vinho? — Lara perguntou sentando ao lado de Bruno de frente para a chef.
— Pode, peçam o que quiserem. — falou para Bruno e Lara, reiterando que o consumo era por sua conta.
Bruno pedira um drink enquanto Lara pediu uns bolinhos e já bebia o vinho, acompanhando as mulheres do grupo.
— Queríamos conhecer vocês. — Matheus, outro colega de trabalho, afirmou. — A história de vida dos nossos novos alunos.
— Que emocionado, Matheus. — Rodrigo brincou e revirou os olhos.
— Não tem tantas coisas interessantes sobre mim. — Bruno disse pensativo. — Eu faço gastronomia contra a vontade da minha família que acreditam que eu não terei futuro no ramo. Eu tô muito feliz de finalmente estar estagiando e num restaurante altamente conceituado. — nesse momento Rafaela agradeceu pelo elogio não ter sido apenas para ela.
— Você é de Fortaleza mesmo? — Vanessa perguntou e ele confirmou com a cabeça bebericando sua bebida que havia chegado, enquanto todos olhavam para Lara.
— Sou de Sobral, também vim para cá sem apoio da minha família a não ser uma ajuda pequena que eles me dão financeiramente. Não consigo me conter de felicidade por ter conseguido o estágio, porque além de ser em um restaurante desse porte, eu estava precisando muito porque minha bolsa de pesquisa da faculdade já não é mais suficiente. — falou sinceramente Lara.
— Uma pesquisadora… Nossa chefinha adora pesquisadoras. — Juán disse cheio de malícia. Lara engasgou com o vinho enquanto Rafaela o olhava de forma fulminante. Aparentemente da roda ele e Vanessa eram os únicos que tinham liberdade de fazer brincadeiras pesadas com ela. Sem ligar para o olhar de sua amiga, Juán perguntou para Bruno o cortejando. — Namora Bruno? — perguntou com um tom sedutor.
— Sim. Com uma estudante de gastronomia também – ele respondeu acanhado.
— É incrível como a vida é regida pela sexualidade né? — Vanessa perguntou – A gente poderia querer saber qualquer informação deles, mas escolhemos justo algo tão pessoal.
— As pessoas elegem o que é importante na vida delas. Ás vezes a sexualidade é algo muito importante e tudo bem, né? — Rafaela falou.
— Acho que não é uma questão de eleição, é uma necessidade física, instinto. — Lara confrontou Rafaela. — Não é que seja um quesito da vida pessoal, tipo emprego, amizade, faculdade, mas algo relacionado com a natureza humana.
— O fato de atrapalhar é algo que a pessoa pode escolher, tem gente que vive procurando alguém pra transar, enquanto podia tá fazendo algo realmente útil. — Rafaela falou querendo finalizar a conversa, mas Lara insistiu.
— Sério que 40 minutos de transa atrapalha alguém? — perguntou irônica. — Ou namorar? Casar? Que noção deturpada da realidade.
— Pode não atrapalhar se for objetivo da pessoa, mas se coloca entre outros grandes objetivos. — Rafaela falou fitando Lara, admirando o fato dela discutir com ela de forma natural, como se fossem velhas conhecidas na mesa de um bar.
— A coexistência de objetivos não significa nada pra você né? — Lara riu e Rafaela desistiu de continuar a conversa apenas rindo sarcasticamente.
Todos a mesa pararam para assistir a discussão, a maioria ali sabia o que Rafaela pensava sobre relacionamentos, ela não servia para eles, não encaixava. Ela era muito dela pra se dividir com outra pessoa. As demais conversas na mesa foram bem mais leves. Rafaela se mostrou boa o bastante para falar sobre música e livros. Além do que revelou que adora viajar para os novos colegas, fato já conhecido pelos demais.
Os funcionários mais antigos do restaurante também se apresentaram. Patrick, Matheus e Rodrigo eram de Fortaleza e foram apresentados para Rafaela pelo chef Henri Bernard, todos eram mais velhos que a chef, mas demonstravam muito respeito por ela. Juán era amigo de infância de Rafaela, gay assumido, morava com um filho, mas nunca tivera um relacionamento sério nos seus 25 anos de vida, sendo seu filho fruto de uma noite irrefletida de sexo heterossexual. Vanessa era a única funcionária sem indicação ou próxima de Rafaela, mas com os cinco anos de funcionamento do restaurante solidificou uma forte amizade com a chefe. Rafaela foi a única que não falou muito sobre si, dizendo apenas o que qualquer site falaria, que era paulista, morava sozinha e cozinhar era o maior amor da sua vida.
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