A noite ficou agradável até quase todos na mesa ficarem levemente embriagados. Todos riam alto até que Lara anunciou.

— Não vou mais beber se não vou vomitar. — falou e quase todos riram na mesa, mesmo Lara tendo certeza que apenas Rafaela se preocupou já que ficou séria a olhando.

Sob o olhar de sua chefe, Lara levantou e foi rápido ao banheiro já sentindo as ondas de enjoo a invadirem. Rafaela a seguiu levando uma garrafa de água para ela. Quando chegou ao banheiro, Lara estava de pé em frente ao espelho se concentrando para não vomitar, visualizou Rafaela que lhe deu a garrafa d’àgua.

— Bebe, vai passar mais rápido o enjoo. — disse se encostando na pia de costa para o espelho e ao lado de Lara.

— Eu tô muito tonta. — Lara falava sorrindo entre goles d’água.

— Parece que alguém não conhece limites. — Rafaela falou sorrindo.

— Já experimentou algum dia ser feliz, chefinha, sem esse monte de regras? — Lara perguntou e algum neurônio que ainda raciocinava percebeu que não fora uma boa ideia falar aquilo. — Desculpe. — disse se segurando na pia.

Rafaela não respondera, elas ficaram mais alguns minutos em um silêncio constrangedor.

— Acho que podemos voltar. — Lara falou envergonhada, mas quando desencostou da pia ficou um pouco cambaleante e utilizou do ombro de sua chefe para se equilibrar, o que a fez rir.

Quando voltaram a mesa, as duas perceberam que eles já estavam em clima de despedida.

— Rafa, leva Vanessa para casa, a gente vai dividir um uber moramos na mesma direção. — Juán falou apontando para si, Bruno, Patrick e Matheus. Rodrigo estava mais ou menos sóbrio e iria de moto. Ele perguntou para Lara onde ela morava, mas era muito distante da casa dele, assim como de qualquer outra pessoa.

— Posso levar as duas. — Rafaela disse e todos ficaram aliviados, inclusive, Lara.

Assim que se despediram, as meninas foram até o carro de Rafaela que tinha total condição de dirigir por ter parado de beber há um tempo atrás. Rafaela foi até a casa de Vanessa, onde ela morava com a mãe, chegando em menos de dez minutos ao local. As meninas se despediram e a jovem chef viu que sua estagiária não se aguentava de sono no banco ao seu lado.

— Onde você mora, sem limite? — Rafaela perguntou brincando. Lara murmurou seu endereço e Rafaela ficou chocada no quão distante era. — Não quer dormir no meu apartamento, amanhã posso te levar cedo a sua casa?

Lara se ajeitou no banco e ficou levemente alerta com a proposta. Ela concordou e tentou lutar contra o sono, não queria mais dar trabalho, mas aos poucos se sentiu dominada pelo cansaço. Não soube ao certo quanto tempo cochilara, mas acordou apenas em um estacionamento de um prédio com sua chefe lhe chamando.

— Desculpa, Rafaela. — falou caindo de sono, mas se levantando. Rafaela ria do estado da estagiária e a ajudou a chegar ao elevador.

Assim que chegaram ao apartamento Rafaela percebeu que tinha deixado a janela aberta quando sentiu o vento frio da noite. Lara olhou pela janela e viu que o apartamento ficava na frente da praia, próximo ao restaurante, ficou admirada em como a noite estava linda e aquilo pareceu despertá-la. O apartamento em que estava era organizado, com uma decoração neutra que não revelava muito sobre sua dona.

— Vem. — Rafaela a chamou. — Quer tomar um banho? — Lara assentiu. A chefe entregou toalha limpa para ela, assim como uma camiseta larga, que parecia masculina e um short de moletom. — Pode usar as roupas se quiser. Você consegue fazer tudo sozinha?

— Não sei, quer me ajudar a tomar banho? — Lara perguntou sorrindo de canto.

— Se tá boa pra fazer gracinha, consegue tomar banho e se vestir sozinha. — Rafaela disse abrindo a porta do banheiro de seu quarto para a garota.

Lara não sabia onde estava com a cabeça de dar em cima daquela mulher, mas não se arrependera, pois a outra a levou na brincadeira.

Após tomar um breve banho, Lara pegou as roupas que Rafaela havia lhe dado e vestiu o short e a camiseta sem sutiã, dobrando suas próprias roupas e colocando na bolsa. Quando saiu para o quarto, viu que Rafaela já havia tomado banho também e estava exatamente como ela, pelo menos achava, já que a camiseta era tão grande que não dava de ver o short.

Enquanto olhava pela janela, Rafaela lembrava de quanto tempo não trazia uma mulher para o apartamento, talvez já tivesse completado dois meses ou até mais. Aqueles pensamentos mexeram com ela e sentiu necessidade de se tocar, como não ocorria há muito tempo.

Lara ficou observando a chefe, ela era uma mulher maravilhosa, o contraste da sua pele branca com as tatuagens a deixavam instigante, como se atiçassem o desejo de conhecer aquele corpo e cada tatuagem por baixo daquela roupa. A estagiária não percebera até então como a admiração por Rafaela ultrapassava o campo profissional, mas jurou que aquilo era apenas a bebida mexendo com sua líbido.

— Você é linda. — Lara falou se aproximando de Rafaela ficando ao seu lado olhando pela janela que dava de ver um pouquinho da praia, visto ser a janela lateral a frente do prédio,

— Você também. — Rafaela disse se virando para Lara, ambas estavam no escuro, mas conseguiam se enxergar. Lara sentiu toda intensidade dos olhos verdes da mulher a sua frente, ela não esperava que ela respondesse ao elogio com outro.

— Foi por isso que me escolheu para o estágio? — Lara perguntou se arrependendo em seguida do que fez. Aquilo estragou qualquer clima que talvez estivesse rolando.

— É o que você pensa? — Rafaela perguntou sarcástica. Ela levava muito a sério sua profissão e seu restaurante para aturar que alguém lhe acusasse dessa forma. — Pode dormir na cama. Boa noite. Até amanha. — Rafaela falou pegando um travesseiro sem dar chance de Lara falar nada.

— Eu não vou dormir no seu quarto, posso dormir na sala. – Lara disse seguindo a chefe. — Vai dormir lá, por favor. Já não basta ter me dado abrigo, ainda vou roubar seu quarto.

— Fica tranquila, eu gosto de dormir aqui, faço isso toda hora. — Rafaela disse e Lara pensou ver uma tristeza em seu olhar.

Sem discutir Lara voltou para o quarto, estava muito cansada. Contudo, no momento em que deitou na cama percebeu que dormir não seria fácil, visto que sua cabeça estava pensando no que poderia ter acontecido se ela não tivesse quebrado o clima que pensava ter tido entre elas. Além disso, o cheiro dela impregnado nos lençóis não ajudava a clarear seus pensamentos.

Enquanto isso, Rafaela estava na sala pensando em como não se relaciona bem com pessoas, parece que sempre é mal interpretada por elas, por melhores que sejam suas intenções.