A solidão encontra companhia
1 Capítulo I
Era mais um dia extremamente cansativo que terminava na vida daquela jovem e talentosa chef de cozinha. Rafaela Gauthier saía do restaurante Perle du Nord todo dia após 01:00 da manhã, fazia questão de ser a última a sair, de mostrar para os funcionários o quanto valorizava aquilo.
Aquela jovem e premiada chef de 23 anos não tinha férias desde os 14, quando era uma aprendiz do grande e também premiado chef chileno Henri Bernard, amigo da família, que abriu a mente da jovem para o mundo da culinária criativa. A jovem não precisou de muitos ensinamentos, pois, além do grande interesse pelos estudos culinários, ela tinha um talento nato para ser inventiva na elaboração de pratos dos mais diversos tipos.
Enquanto dirigia para o condomínio em que morava, Rafaela viu muitos bares com jovens da idade dela se divertindo, bebendo e dançando, luxos que a jovem raramente experimentou em sua curta vida focada em ser uma grande chef de cozinha. Apesar de ser a dona do restaurante, além de assinar o cardápio, a jovem vai ao mercado cedo pela manhã comprar os produtos frescos para as refeições do dia, função que poderia designar facilmente para outra pessoa, mas que seu objetivo de ser perfeita não permitia. Assim, segunda-feira, único dia que o restaurante não abria, a jovem realmente descansava, não se aventurando a sair.
Rafaela dormira 3 horas e meia, acordando 5:30 da manhã para cedo fazer o mercado quase que diário. Assim que terminou a compra dos produtos, dirigiu para o restaurante pelo trajeto conhecido. Ao chegar foi recepcionada por Francisco, o gerente do Perle du Nord, que administrava tudo ali e proporcionava à jovem o privilégio de se preocupar apenas com a cozinha.
— Bom dia, Rafinha. — cumprimentou a sua chefe com um sorriso sincero e com o apelido que poucos podiam chamar. — Quero lembrá-la que hoje será a seleção dos dois novos estagiários, filtramos os que mais se destacaram a nível curricular.
Rafaela suspirou descontente. Conseguiu ter seu próprio restaurante tão nova com a ajuda de seu professor Henri Bernard, que não quis ter nenhuma participação em termos de lucro no estabelecimento, mas exigiu que a cada dois anos, dois novos estagiários fossem contratados, como forma da chef retribuir tudo aquilo que lhe fora ensinado. Rafaela não ficara contente com aquela cláusula, não gostava de ensinar, não sabia ensinar e percebeu isso recentemente quando os dois estagiários que ensinara saíram sem nenhum sinal de que seriam chefs acima da média.
— Bom dia, Francisco. Eles chegam que horas e de que universidade são?
— São a maioria da federal, mas há alguns de muitas outras faculdades daqui de Fortaleza. Selecionamos dez pessoas que chegarão daqui 30 minutos. — Rafaela olhou para o relógio e viu que Francisco tinha marcado com os estagiários às 8 da manhã.
Ela assentiu e foi para a cozinha deixar as compras. As meninas da limpeza já higienizavam o salão do restaurante e algumas estavam na cozinha. Rafaela as cumprimentou e agradeceu indo ao escritório pequeno que mantinha ao lado da cozinha. Leu brevemente os currículos dos candidatos ao estágio, todos realmente eram bem qualificados, alguns estavam fazendo graduação em gastronomia, mas já tinham algum curso técnico em alguma área culinária. Lembrou de Victor e Fábio, meus dois ex-estagiários, que também tinham currículos brilhantes, mas não passavam nada daquilo para a forma como cozinhava. Enquanto revivia lembranças, Rafaela foi surpreendida por Francisco.
— Vai vê-los aqui, Rafinha? Ou na cozinha? — perguntou após uma leve batida na porta.
— Já na cozinha, não quero perder muito tempo. — falou prevendo o estresse.
Com os currículos em mãos, Rafaela foi até a cozinha onde um pequeno grupo de jovens da sua idade aproximadamente a esperavam. Todos se viraram e ficaram admirados quando a jovem celebridade chef entrou. Rafaela agradecia que aquela surpresa e admiração inicial duravam apenas durante a primeira semana.
— Bom dia. — falou tentando ao máximo soar simpática por mais que não conseguisse fingir tão bem. Eles responderam quase que em uníssono ao cumprimento.
— Desculpem o atraso, eu não conheço bem esse bairro, saltei na parada errada e tive que correr até aqui. — falou uma jovem nervosa que chegara correndo na cozinha. Rafaela fuzilou ela com o olhar, odiava atrasos e odiava selecionar estagiários, poderia eliminar aquela garota naquele mesmo instante, mas lembrou que não podia brincar com o futuro de alguém por conta das suas oscilações de humor. — Desculpa mesmo. — ela pediu com a voz chorosa, o que irritou mais a possível futura chefe.
— Bom, a minha seleção é bem simples, façam o prato mais adequado e que considerem a especialidade de vocês. Todos os ingredientes que precisarem estão atrás daquela porta. Vocês tem meia hora. — Rafaela apontou para uma sala onde ficavam os produtos.
Os candidatos já estavam em semestres avançados do curso, a maioria estava no quinto semestre e tinham uma boa noção de mise em place, colocando todos os ingredientes organizados na bancada. Após meia hora, Rafaela se sentou em uma mesa no canto da cozinha junto de Francisco para que ambos pudessem experimentar os pratos. Todos terminaram os pratos em tempo, então esse foi desconsiderado como critério de avaliação. Francisco pegou os pratos na ordem em que os currículos estavam organizados, enquanto Rafaela procurava se distrair com o celular para que não fosse influenciada no julgamento do prato.
Ela acompanhado de seu gerente experimentaria os pratos e julgaria conforme a dificuldade e o sabor. Após degustar um pouco de cada prato, Rafaela já tinha em mente a sua escolha, mas pediria a opinião de Francisco.
— Gostei do atum com salada ao molho, mas meu preferido foi o macarrão campestre. — disse ao seu gerente, incitando ele a dar sua opinião.
— Rafinha, eu não entendo nada de gastronomia e sei que me chama apenas por me considerar muito, mas ainda acharia mais adequado chamar seu sous-chef, o senhor Juán, porque pra mim todos os pratos estavam deliciosos. — falou arrancando uma risadinha da chefe, o que não era comum. Rafaela não chamava Juán porque não tratava com seriedade a questão dos estagiários, sabendo ser errado dar pouca relevância ao tema.
— Vocês foram muito bem. — Rafaela falou levantando da cadeira. — Foram selecionados porque se destacaram desde o princípio. — os jovens apresentavam nervosismo. — Percebi pratos muito simples, que poderiam ser feitos em dez minutos, e pratos que exigem várias técnicas, o que seria difícil de se fazer em meia hora. Dessa forma e sabendo dos critérios que utilizei, dê um passo a frente quem cozinhou o atum com salada ao molho. — assim que Rafaela falou um menino alto e loiro deu um passo nervoso a frente. — Qual seu nome?
— Bruno Ferrari. — falou tímido.
— Parabéns, Bruno, o peixe estava ótimo. — Rafaela disse forçando uma simpatia que não existia e prosseguiu antes que o rapaz falasse algo. — O dono do macarrão campestre. — Rafaela chamou e para sua surpresa a menina que chegara atrasada deu um passo sorridente para frente, já comemorando a futura notícia antes da hora. Rafaela olhou novamente a fuzilando, ocasião em que a jovem percebeu e parou de comemorar. — Qual seu nome? — Rafaela perguntou irônica.
— Lara Barros. — falou constrangida.
— Parabéns. O macarrão foi o prato mais completo dentre os apresentados. Você usou várias técnicas e aproveitou os ingredientes e o tempo. Conseguiu me surpreender com a ousadia, mas poderia não ter dado tempo. — Rafaela disse e a jovem assentiu séria, o que era difícil de acontecer, visto que a jovem era bastante brincalhona. — Aos demais, muito obrigada pela presença, vocês são ótimos cozinheiros. — Rafaela disse novamente forçando simpatia.
Após a despedida os candidatos pediram para tirarem fotos com Rafaela, que odiava tudo aquilo, mas tirava as fotos, visto que os jovens foram dispensados e precisavam de um acalanto. Após as fotos terem sido tiradas, Rafaela olhou para os novos companheiros de trabalho e suspirou sem saber o que fazer. Não sabia ensinar, não sabia nem como começar a falar com eles apesar de já ter tido dois estagiários antes.
— Se apresentem melhor, gente, por favor, um nome é só um nome. — Francisco disse alegre, adorava conhecer novas pessoas.
Lara riu do jeito dele, mas rapidamente ficou séria de novo quando percebeu que sua nova chefe não sorria e continuava impassível. Ela admirava Rafaela desde seus 16 anos e por conta da inspiração da jovem chef decidiu seguir na carreira e agora seria como um sonho trabalhar junto com a mulher.
— Eu sou Bruno, tenho 20 anos, estou no sétimo semestre de gastronomia na federal. — falou o loiro alto sem saber mais quais informações passar. Rafaela assentiu e olhou com desdém para Lara. Ela não gostara da garota desde o atraso, além disso, notou que a menina era bastante agitada e extrovertida, o oposto do que a chef considerava como boa cozinheira, mas ao escolher o prato dela sem saber de quem era, percebeu que estava errada sobre o perfil de um bom cozinheiro.
— Sou Lara, tenho 19 anos, também estudo na federal no quinto semestre, sou fã do seu trabalho e estou em êxtase de poder trabalhar aqui. Tipo… Você ganhou seu primeiro prêmio com a minha idade, meu deus, isso é muito legal. — falou acelerada do jeito que era mesmo.
— Eu não preciso de uma fã, Lara. — Rafaela a interrompeu antes que continuasse com os elogios. — Vocês se conhecem? — os dois novos estagiários se entreolharam e balançaram a cabeça negativamente. — Pelo que entendi então você só poderá estagiar por um ano? — perguntou Rafaela para Bruno.
— Sim, chef. — ele confirmou já com a forma de tratamento usada na cozinha.
— E você vai cumprir todo o contrato de dois anos já que está no quinto semestre, não é? — falou com Lara.
— Sim. — falou tímida. Tinha ficado envergonhada pela resposta anterior de Rafaela.
Francisco começou a falar sobre questões burocráticas da contratação, enquanto Rafaela foi para o salão e se sentou em uma mesa. Como a seleção acabara quase na hora de chegada dos funcionários, Rafaela decidiu que não iria para a academia como fazia de costume, tentaria ir a tarde ou fugir a noite do restaurante. Enquanto a chef mexia no celular, sentiu que alguém se aproximava e se sentou a mesa, ergueu os olhos e viu Lara lhe olhando com admiração. Rafaela revirou os olhos e ficou feliz ao lembrar que essa admiração toda passaria em uma semana no máximo.
— Posso ajudá-la? — perguntou para a nova estagiária.
— Francisco disse para aguardarmos o início do expediente depois que apresentou a cozinha e as panelas. Posso esperar aqui? — perguntou à chef.
— Onde Bruno está? — Rafaela perguntou.
— Fumando lá atrás. Não gosto do cheiro, por isso não fiquei com ele. — respondeu a aprendiz. — Você conseguiu muita coisa, muito cedo, não é? — Lara perguntou olhando para os certificados dos prêmios ganhos pela chef, que decoravam a parede lateral do Perle du Nord.
— Sim, privilégio de ter começado nesse mundo da cozinha cedo. — Rafaela falou.
— Sim, desde os 14 anos você já era brilhante ao lado de Henri Bernard. — Lara falou ainda admirando os certificados individuais da chef e aqueles que o restaurante fora premiado.
— Parece que eu tenho uma fã que estudou bastante minha história, não é? — Rafaela perguntou sorrindo dessa vez de forma verdadeira, o que fez com que Lara ficasse sem graça ante a primeira demonstração positiva de simpatia vindo da nova chefe.
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