Lara estava nervosa para seu primeiro dia de trabalho numa cozinha profissional, ganhou uma dólmã e estava radiante por isso, nunca tinha usado uma, visto que nas aulas práticas o uniforme era usado apenas pelos professores, restando aos alunos a utilização de aventais. Rafaela falou que a eles caberia inicialmente a higienização dos alimentos, depois eles se encaixariam na bancada mais apropriada. Bruno adiantou que era muito bom com entradas e saladas, momento em que Lara também falou que era boa com massas e molhos. Rafaela assentiu e falou que era bom os aprendizes terem em mente aquilo com o que queriam trabalhar.

A equipe do restaurante era relativamente pequena, sendo apenas seis pessoas mais os dois estagiários. Rafaela apresentou os dois novos funcionários e foi conversar com seu sous-chef Juán.

— O que achou deles? — perguntou ao grande amigo.

— Vamos ver cozinhando, mas são simpáticos. — falou rindo. — Teu gaydar também apitou pra Lara?

— Juán, não me enche a paciência que hoje eu não tô boa.

— Você nunca tá. Isso é falta de sexo. Sempre te falo isso. — falou abraçando a amiga por trás e saiu do escritório de sua chefe.

Rafaela sabia que há muito tempo não tinha um relacionamento por conta da sua rotina e da sua falta de vontade de se entregar a alguém. Seu último relacionamento sério foi aos 18 anos, mas durara pouco por conta da grande incompatibilidade entre ambas. Emma se doou para o relacionamento, fez de tudo para que desse certo, enquanto Rafaela fazia o mínimo. A chef sabia o que tinha perdido e sabia que não encontraria mais alguém que aceitasse ela do jeito que é.

A jovem foi interrompida pelos seus pensamentos quando Lara bateu de leve na porta e entrou.

— Eu estou muito nervosa. — falou antes de qualquer coisa e Rafaela a olhou chocada pela audácia da garota de entrar na sua sala para buscar consolo. — Desculpa ter entrado assim, mas é que eu não conheço ninguém e te admiro há tanto tempo que parece que você é a mais próxima de mim aqui.

— Isso é normal. — Rafaela disse mexendo na sua máquina de café fazendo a sua cápsula preferida para dar a garota. — Toma. — estendeu uma xícara para Lara. — Trabalhar em equipe é diferente, esses primeiros dias você vai perceber como é o trabalho de seus colegas, mais observar que trabalhar. Você não precisa mostrar serviço, não precisa sempre acertar, mas ter em mente que uma cozinha é como uma orquestra, se um sai do ritmo, tudo desanda. — falou e se surpreendeu com a paciência que teve.

— Obrigada. — Lara disse mais calma. — Isso é muito bom.

— É de licor. Meu preferido. — Rafaela lhe disse fazendo um café para si também. — Vou dar uma cópia do cardápio para vocês estudarem. Hoje vocês irão apenas higienizar os alimentos e observar.

— Ótimo gosto. — Lara disse lançando um olhar para Renata que a última não conseguiu decifrar.

Ao acabar seu café a estagiária saiu com a xícara em mãos, ao mesmo tempo em que Juán entrou na sala de Rafaela novamente.

— Mas será possível que não vou ter paz hoje? — Rafaela perguntou exasperada terminando seu café.

— A estagiária saiu bem animada daqui. — Juán sugeriu malicioso.

— Não pode se aproximar uma mulher de mim que você necessita mesmo tirar algo sexual disso, não é? — Rafaela perguntou se levantando para lavar a xícara, sendo seguida de perto por Juán.

— Claro que pode se forem hétero, mas essa aí… — ele não terminou de falar porque deram de cara com Lara secando a xícara que pegara emprestada na sala de Rafaela.

— Eu lavo. — ela disse percebendo que a chefa também lavaria a xícara. Rafaela murmurou um agradecimento e foi falar com a equipe.

Enquanto isso, Juán e Lara continuavam no mesmo local conversando.

— Então Lara me fala de você. Tem namorado? — o segundo em comando da cozinha perguntou de forma descarada. — É de Fortaleza mesmo?

Lara ficou constrangida, mas percebeu na pergunta que ela não fora mal intencionada, sendo apenas uma forma dele conhecer a nova estagiária.

— Não, sou de Sobral, mas moro desde o início do curso aqui com uma amiga. Só que acho que vou ter que me mudar, porque moro em um bairro bem distante daqui. — falou pensativa. — E não namoro, tenho focado em estudar.

Juán deu uma risadinha e foi cumprimentar a equipe também.

Lara percebeu que no Perle du Nord o movimento era intenso e a cozinha não parava, mas ela conseguira assimilar como cada bancada funcionava. Tudo era muito sincronizado, Rafaela coordenava perfeitamente sua cozinha sem precisar gritar ou aumentar o tom de voz. Lara estava maravilhada com a chef, ela era elegante, calma e tinha algo muito charmoso na forma como ela comandava aquela cozinha. Muitas vezes Rafaela percebera que estava sendo observada e dava de cara com Lara a fitando, mesmo se sentindo envergonhada a estagiária continuava atenta percebendo que a chef não se afetava com os olhares.

Ao fim do expediente pela manhã, às 15 horas, a equipe da cozinha foi substituída pela equipe de limpeza. Tudo funcionava bem ali, todos sabiam o seu papel. Além disso, reparara que a equipe era bem animada e a mais reservada era a chef Rafaela.

— Quando eu disse para você prestar atenção na forma de trabalharmos, não quis dizer que era para ficar olhando para mim. — Rafaela assustou Lara aparecendo por detrás da garota que deu um pulo se virando.

— Er.. Eu não estava olhando só pra você. — a mais nova falou corada.

— Geralmente, libero os estagiários 14:30, pra vocês se arrumarem e conseguirem sair até as 15. Sua aula é a noite, não é? — perguntou entregando o cardápio que prometera.

— S-i-i-m. — Lara respondeu gaguejando.

A estagiária foi se trocar e quando voltou viu que sua chefe estava abraçada com Vanessa, a cozinheira responsável pelas proteínas. Ficou observando por instantes e pensou se um dia chegaria e esse nível de amizade com a chefe.

— Novata, hoje a gente vai comemorar a admissão de vocês. — Patrick, o cara da salada falou – Bruninho aqui já aceitou. Se você negar, vai ficar com fama. — falou brincando e eu ri. — Vamos aproveitar que é nosso dia de folga da noite.

— Vou sim, onde vai ser? — perguntei me aproximando deles.

Foi Rafaela quem respondeu. Lara notou que ela estava com roupa de academia e uma jaqueta por cima do top. Foi inevitável que o olhar da estagiária não fosse para bunda de sua chefe naquela legging apertada que ela usava. Assim, a jovem quase não se dera conta que a sua chefe tinha falado um dos bares mais caros da cidade e possivelmente iria só para fazer companhia aos colegas, visto que o dinheiro do mês já estava contado.

— Então, marcado. — falou saindo.