A sobrinha da Helô
48 Tiago em conflito.
A porta do quarto de Helena estava entreaberta, permitindo ver a luz que entrava pela janela, também aberta, vindo até o corredor.
Tiago ficou uns segundos parado no corredor olhando para aquela luz, até ter a coragem definitiva de ir para o quarto.
Ele resistira a sair do quarto toda a manhã. Não conseguira dormir nem um minuto. A aparência, mesmo depois de um banho, era terrível. Vestia o pijama apenas, descalço, cabelo desalinhado e grandes olheiras sob olhos avermelhados.
Assim que o pai o deixara sozinho, ele se permitiu sofrer pelas perdas. Confuso, ele ia das lembranças de Helena sangrando no carro, sendo levada pelos comparsas, para as lembranças da mãe, e quando conseguia parar de pensar nisso, lembrava do avô desaparecido. A sensação é de que estava perdido, e sozinho. Não podia confiar em AnaLu, Camila estava longe, a mãe morta, Helena sabe-se-lá onde, assim como o avô, e o tio Pedro estava com raiva dele. Ninguém em quem ele poderia se apoiar estava perto.
Só depois de duas horas nesse sofrimento, mais ou menos quando a luz do sol começou a aparecer no quarto, é que a mente começou a clarear e ele começou a juntar algumas peças.
Se sentando a beira da cama, Tiago apoiou as mãos e se inclinou para a frente. Ele fechou os olhos diante da conclusão mais óbvia, e ainda assim dolorida.
O amor tinha feito ele se cegar diante de todas as evidencias, e agora ele via como fora usado. Apertando entre as mãos o colchão, ele cerrou os dentes e segurou um urro de raiva, enquanto lágrimas de ódio corriam do rosto.
Ele se ergueu furioso, rodando num mesmo ponto, as narinas dilatadas, respirando rápido. Ele olhou para a porta imaginando se alguém poderia ouvi-lo.
"Coloquei todo mundo em perigo pela minha idiotice."
Tiago colocou as mãos no rosto, tentando conter a raiva, tentando pensar no que faria.
Colocou então as mãos na cintura e calculou os atos.
— Como eu fui idiota! – ele murmurou para si – Burro. – ele falou mais alto, chutando a cama – IMBECIL... – ele gritou socando o ar – IDIOTA! – ele começou a chutar os móveis perto, bater portas e gavetas – AAAAAAAAAAAA... – ele gritou enquanto batia mais uma vez a porta do roupeiro.
— Tiago! – Analu batia na porta – Tiago? Você está bem.
Ele esperou uns segundos antes de responder. Se ergueu e foi até a porta, sabendo da sua aparência deplorável, abriu apenas uma fresta e respondeu amargo.
— Sai daqui, AnaLu, eu sei que você não se importa comigo. Sai.
— Tiago? – ela falou para uma porta fechando, quase chorando – Tiago? Eu quer...abre essa porta, Tiago! – ela tentou dar uma ordem à porta fechada.
Mas o irmão já se trancara no banheiro.
Do corredor apareceram dois policiais que correram ali para saber a razão do barulho. Bufando, eles deram as costas a ela.
Magnólia apareceu quase junto com eles, e foi a única que ficou ali no corredor, observando a neta sofrendo para a porta de Tiago. Um sorriso desenhando nos lábios, que sumiram logo a seguir.
De onde Magnólia estava dava para ver quem vinha da direção da escada, e Camila apareceu daquele lado, parando assustada um instante, antes de seguir até a avó com o olhar desafiador.
— Mas isso é um....- Magnólia começou.
— Nem começa! – Camila disse erguendo a mão esquerda no ar – A sua ladainha não funciona comigo. Não gasta seu veneno comigo, vovó.
Camila passou por Magnólia em direção da irmã, que ouvira a voz da irmã e se virara para as duas.
O olhar de ódio de Camila não sumiu diante da irmã, apenas amenizou.
— Sai, eu quero falar com o Tiago. – ela falou cruzando os braços, cerrando os dentes.
— Isso já é demais. Vou chamar a polícia! – Magnólia falou em tom ameaçador.
— Sem problemas, vovó, tem um monte lá embaixo. Quer ajuda? – Camila se virou para avó, olhar furioso – CORRE AQUI. UMA ASSA....
Camila não terminou a frase, AnaLu a puxou pelo braço direito, a colocando na parede.
— Cala a boca Camila!
Magnólia franziu a testa para a cena.
— Covarde. – Camila murmurou entre os dentes.
— Irresponsável. – a outra respondeu também entre os dentes.
— O que é isso? Agora as duas vão brigar aqui no corredor? – Magnólia falou se aproximando, tentando ouvir o que diziam.
As duas mantiveram o olhar e depois se largaram. Respirando fundo, Camila foi bater na porta de Tiago.
— Não tenho tempo para vocês, duas cobras traidoras.
AnaLu fechou os olhos e respirou fundo, de costas para a avó, observou a irmã batendo na porta do quarto de Tiago.
Magnólia soltou uma risada que mais parecia um grito.
— Eu jurava que você não me surpreenderia mais, Camila, mas se voltar contra a sua própria irmã! O que houve entre vocês? – Magnólia perguntou se aproximando.
— Por que você não vai pro inferno de uma vez? – Camila cuspiu as palavras para a avó e voltou a se concentrar em chamar o irmão – Tiago! Abre aqui, eu preciso falar com você.
— Esquece, Camila! Ele não vai abrir tão cedo. – AnaLu a segurou.
— Deixa seu irmão em paz, menina. Não vê que ele está sofrendo com tudo o que aconteceu com o seu avô?
Camila que encarava AnaLu, franziu a testa e olhou intrigada para a avó.
— O que tem meu avô? – ela então se lembrou da bagunça que estava lá embaixo, que ela não quis perder tempo perguntando a razão, mas agora parecia a coisa mais certa a fazer, quando se trata da casa de Magnólia – O que você fez, bruxa? – ela empurrou a irmã de lado e foi até a avó a encarando – O que você fez com o meu vô, sua maldita!
— Eu? – Magnólia parecia acuada, e isso fez AnaLu esboçar um leve sorriso – Você está mais louca do que quando saiu daqui, Camila. — Magnólia se recompôs erguendo o queixo — Isso é coisa daquela feiticeira mãe do fren...
— Para de enrolar! – Camila a pegou pelos braços.
— Você está me machucando.
— Diz! O que você fez dessa vez? O que fez com o meu avô?
— Eu não fiz nada. Que loucura é essa? – Magnólia se soltou dela, passando as mãos onde a neta a apertara – A sua amiga Helena é quem deve ter feito algo.
Camila não segurou mais a raiva, deu um passo a frente e esbofeteou Magnólia, que voltou o rosto surpresa apenas para levar outro tapa no mesmo lado esquerdo do rosto e se afastar.
— Isso mesmo, Magnólia, Daqui pra frente cada vez que você conta uma mentira pra mim é um tapa. – Camila falou andando pelo corredor, fazendo Magnólia se afastar, o olhar estarrecido, AnaLu parada em frente a porta de Tiago, as mãos sobre a boca – O primeiro foi por dizer que não fez nada com o meu avô, o segundo foi por colocar a culpa na Helena. O próximo vai ser por qual mentira?
Ela terminou a frase erguendo a mão direita ameaçadora.
Magnólia estava lívida, a mão esquerda sobre o rosto quente e vermelho dos tapas. Sem coragem de responder, ela apenas se virou no corredor e foi chamar policiais para tirar Camila dali.
Camila sorriu vendo a vilã quase correndo pelo corredor e se virou para Analu.
— Você é louca? – AnaLu sorriu para a irmã e então fechou a cara – Já pensou o que ela pode fazer?
— Esse é problema de vocês! Não sabem lidar com a cobra. Ficam o tempo todo com medo do que ela pode fazer, enquanto ela faz tudo usando justamente esse medo. Fala! O que aconteceu?
— Você já falou com a ...
— Sim, já falei com ela. Me contou o que eu imagino, seja tudo. Eu quero saber daqui. O que aconteceu com o vovô? O que tem a Helena?
AnaLu resumiu o ocorrido.
Camila suspirou fundo quando ela terminou. O desespero crescendo.
— Eu preciso tirar o Tiago daqui. Ninguém está seguro perto dessa...
Ela foi bater na porta do irmão.
— Camila. – AnaLu se virou para ela – Não sei se ele vai querer ir contigo.
— Assim que ele souber a verdade, vai.
— Você vai mesmo jogar tudo isso na cabeça dele agora?
— Não tem tempo de ser delicada, AnaLu. Se ainda há chance do vovo e Helena estarem vivos, só expondo essa maldita é que...
Tiago abriu a porta interrompendo elas.
Ambas suspiraram aliviadas e então apertaram os lábios, olhando o estado do irmão. Olhos vermelhos, olheiras, cabelo molhado escorrendo, o torso nu, com o calção do pijama apenas, e descalço.
— Tiago...
— Camila. – ele fungou, cruzando os braços, se contendo – Voltou pra família.
Camila franziu a testa e piscou algumas vezes.
— Não...sem tempo, Tiago. Eu preciso fal...
— Quem não tem tempo sou eu, Camila. – Tiago a cortou, olhando dela para a Analu – As coisas aqui, como você pode ver, estão de pernas pro ar, e seria de muita ajuda se você não viesse piorar.
Camila e AnaLu deram um passo para trás, surpresas.
— Tiago...- AnaLu foi quem falou, sendo interrompida por uma mão direita de Tiago, erguida.
— Você é outra. Acho que o melhor...- ele abaixou a cabeça, evitando encara-las – é que você seguisse o exemplo da Camila e saísse dessa casa, AnaLu.
Camila olhava de um para o outro confusa.
— Mas...Tiago. O que aconteceu?
— Você saberia se não tivesse fugido daqui. – ele respondeu ainda olhando para o chão.
— Ali. – Magnólia chegou com dois policiais relutantes – Retirem ela, por favor. E com retirem, eu recomendo que seja até a delegacia. Ela era muito amiga da tal marginal e pode muito bem ter ajudado em tudo isso.
Os policiais não se mexeram, olhando pros irmãos que olhavam de volta para a avó, todos agora de braços cruzados e olhar apertado. Tiago puxou o ar e virou o rosto para trás.
— Mas que absurdo! Helena nunca faria mal pra ninguém aqui. A única que faria algum mal e de....
— Já chega, Camila. – Tiago a interrompeu – A situação é séria demais para você vir com seus delírios. – Ele falou sem olhar para a irmã – Se você não tem nada de bom pra acres...
— Eu não acredito nisso. – Camila o olhava incrédula – Você está mesmo concordando com isso? Tiago é a Helena, ela e você...A Helena, Tiago, te ama! Nunca faria isso. E deve estar correndo perigo. Precisa da nossa ajuda.
Ele ergueu o olhar marejado para a irmã, apertando os lábios.
— Esquece, Camila. – AnaLu puxou a irmã – Tiago já foi envenenado.
— Não! Isso tá errado. Ele tem que saber a verdade. – Camila se soltou da irmã e encarou o irmão – De onde veio essas mentiras, Tiago, veio muito mais outras. A Helena não ia fazer isso. E você sabe! – ela pegou ele pelos braços – Escuta, mano, a vo...
— Chega! – Tiago a interrompeu – Não quero saber o que você pensa sobre alguém que você nem mesmo conhece! O que importa aqui é que o vovô está sumido. Se você não tem nada a acrescentar de bom, não precisa nem falar. E, sinceramente, eu concordo com a vovó. – ele passou pelas irmãs e apontou para os policiais – Vocês, levem ela pra delegacia. De todos na casa a Camila era a que mais conversava com a Helena, deve saber algo que ajude na investigação. Vai saber o que a...aquela garota fez na cabeça da minha irmã.
Os policiais se olharam e foram até Camila.
Magnólia parecia em êxtase, sem acreditar na cena. Analu e Camila mal respiravam.
— Eu...Tiago. O que você...? – Camila o olhava confusa e decepcionada – Você está cometendo o maior erro de todos, Tiago. – Camila olhou para AnaLu e para os policiais – E olha que essa família tem muito erro pra contar.
Camila olhou mais uma vez para o irmão que não levantava o olhar para ela, e saiu, erguendo o queixo quando passou pela avó, seguida pelos policiais.
AnaLu se alarmou com a frase da irmã, e foi até ela.
— Eu vou com você.
AnaLu acompanhou a irmã e os policiais.
Tiago tinha a cabeça baixa, ouvindo os passos deles para fora, e o de Magnólia vindo até ele, abraçando-o.
— Meu neto. Que bom. No meio de toda essa desgraça na nossa família, você veio para a luz. Começou a enxergar as coisas como elas são.
— Vó. – Tiago a afastou com cuidado – Eu preciso de um tempo. Acho que hoje não vou conseguir ir na fábrica. – ele não levantou o olhar pra ela, falava de cabeça baixa e braços cruzados – Se você puder...
— Eu aviso, filho. É melhor mesmo você descansar.
Ela o levou até a porta do quarto, Tiago ainda de cabeça baixa, e saiu sorrindo. Assim que se livrasse dos policiais na casa, ligaria para Tião parabenizando.
Agora, já quase noite novamente, quando haviam apenas uns poucos policiais pela casa, e a avó estava no quarto dela sem ninguém mais na casa, nem os empregados, Tiago se arriscara a sair do quarto e olhar a situação. Ele teve quase o dia todo para reunir força e pensar no que faria.
Tiago olhou ao redor, procurando sinal de alguém por perto. Vendo que estava só, foi até a porta do quarto de Helena. Fechou os olhos e baixou a cabeça respirando fundo. Olhou para trás e viu a porta do quarto do avô aberta. Fungando ele foi até lá.
A cama, o armário, os aparelhos, tudo revirado. A sensação é que teve uma briga ali. Tiago pensou no avô, frágil, sem poder andar...ele franziu a testa e olhou novamente para o quarto. Tinha sinal de sangue perto do armário, mas na cama apenas uma grande bagunça.
Tiago ensaiou ir até lá quando ouviu um barulho alto vindo do quarto de Helena, seguido de outro, como se quebrando algo. Sem esperar resposta ele foi até o quarto, encontrando o policial federal que viera com o delegado e Tião, parado na porta do banheiro da Helena. O mesmo tipo que analisara o cadáver possivelmente atingido por ela.
— Oi. – o tipo disse para Tiago, enquanto enjugava as mãos em uma toalha, ainda parado na porta do banheiro – Desculpa o barulho. É preciso quebrar algumas coisas quando se quer algumas respostas.
Tiago só assentiu. A voz do outro saía mais suave, mas Tiago sentiu aquele arrepio passar pelo corpo, reconhecendo ela.
— Você finalmente saiu do quarto. – o outro jogou a toalha no chão e foi até a cama, apontando uma cadeira do quarto para Tiago sentar, sendo obedecido – Eu soube o que você fez mais cedo. É realmente algo muito forte, ter a namorada acusada de sequestrar o próprio avô e ainda indicar a irmã como possível cumplice.
— Eu não acusei ela.
— Eu sei. Mas no mínimo a colocou em uma situação bem complicada. A garota ficou mais de hora tentando explicar que não tinha qualquer outra relação com Helena, e nem sabia onde ela estava. Ao menos ela tinha a sua outra irmã para ajudar. – o agente agora media Tiago, que estava sentado, olhar vidrado para a frente, corpo curvado e os cotovelos apoiados nos joelhos, tentando fingir indiferença – A AnaLu parece ser aquele tipo de pessoa que só quer ajudar, mesmo. Às vezes isso pode ser mal interpretado. – Tiago limpou a garganta, puxou o ar e se recostou na cadeira, cruzando os braços – Não se pode julgar alguém por querer fazer algo bom, não é?
— Sim. Pode sim. Eu consigo julgar quando a pessoa acaba fazendo mais mal que bem. Às vezes ser honesto ajuda mais.
O outro manteve o olhar fixo em Tiago, que não desviou.
— Entendo. Então você não mentiria, ou fingiria não saber algo para proteger alguém que ama?
O agente falou indo até a frente de Tiago e se sentando a beira da cama, se inclinando para a frente, fazendo o Leitão prender o ar.
Tiago virou o rosto.
— Talvez... — Tiago então considerou que a pergunta poderia dizer mais — E como isso poderia ajudar?
O agente apenas sorriu.
— Não sei. Tem coisas que só descobrimos se fizermos. — Tiago já estava se irritando com o jogo do outro – Por exemplo. – o agente se levantou – Quando cheguei aqui o delegado tinha certeza de um trabalho da sua... – Tiago o encarou com raiva, recebendo um sorriso do outro que se virou indo pegar a mochila de Helena do chão, a que ela usou na viagem – bom, Helena. Depois ele cogitou que ela estivesse trabalhando com o infeliz da Van, e matado os comparsas. E agora ele simplesmente não sabe mais o que aconteceu exatamente e como a sua...Helena se encaixa nisso tudo. Sabe por que?
Tiago se manteve em silencio, observando o outro segurando a mochila de Helena.
— Porque há uma pistola faltando. A mesma que parece ter feito o buraco no olho do cara lá embaixo. – o policial deu um meio sorriso – Enquanto quase todos os outros meliantes tem ferimentos feitos com um fuzil, semelhante ao usado pelo tipo da Van, ao tentar fugir da casa quando os policiais cercaram o portão. E com todos os meliantes, eu falo o cara que estava nessa banheira, que, por sinal, quebra muito fácil sob pressão, e mais quatro outros espalhados ao redor casa. Todos algemados, com sinal de ataque antes de mortos. O que é estranho, já que se vão matar todos eles, por que apaga-los antes não é? – Tiago olhou o outro, que deu um meio sorriso – Então agora o delegado está finalmente considerando a possibilidade de a Helena não ter participado ativamente de tudo, pois não faz sentido o cara que possivelmente matou cinco dos homens aqui, ser comparsa dela, que desapareceu antes dele tentar fugir, e depois de trocar tiros com colegas. E sabe o que ele ainda não descobriu e que possivelmente vai deixar a cabeça dele mais quente?
— Que há mais pessoas faltando?
O outro sorriu largo e puxou o zíper da mochila de Helena, balançando a cabeça para a revelação de que Tiago sabia mais do que disse antes.
— Não, que parte dos bandidos mortos eram seguranças na casa e foram contratados só algumas semanas antes disso tudo.
Tiago finalmente parou de fingir e se permitiu ficar surpreso. O outro aproveitou a atenção.
— Interessante não é? E o cara da Van, — o policial olhou sério para Tiago – não morreu. Está em estado grave no hospital.
— O que não é garantia de nada. — Tiago respondeu de alguns segundos de silenciosa surpresa.
— Isso é. Como podemos ver, nem uma casa muito bem guardada consegue proteger as pessoas, quem dirá um hospital. Por isso, às vezes, é bom manter essas pessoas afastadas, enquanto procura uma forma de afastar o real perigo. Mesmo que para isso tem que mentir.
Tiago finalmente se rendeu, e, respirando fundo, concordou com a cabeça.
— O problema é que nem todo mundo é bom mentiroso, e pode colocar tudo a perder.
— Nem sempre a mentira depende de quem fala. Se a pessoa quer muito acreditar em algo, a pior mentira soa como a melhor verdade. – o agente deu um passo na direção de Tiago e estendeu um celular, tirado de um dos seus bolsos – Aqui. Esse celular estava largado no quarto. Está descarregado. Acredito que não possua nenhuma prova. Fica com ele. E quando precisar de ajuda. Liga.
Tiago olhou o outro e respirou fundo, pegando o celular.
— Não se preocupa. Suas irmãs vão ficar longe – o policial foi até a porta observar se havia alguém por perto – enquanto você faz o que quer que você quer fazer. Mas é bom ser rápido. – ele voltou para a mochila de Helena, virando a mesma de cabeça pra baixo sobre a cama e fazendo tudo que havia dentro dela cair – As coisas vão ficar bem perigosas nos próximos dias. E não dá pra proteger ninguém por muito tempo. Nem as que estão longe.
Tiago balançou a cabeça afirmativamente, erguendo o celular no ar, mostrando que pegou o recado.
O outro espalhou as coisas da mochila pela cama, e suspirou, colocando as mãos na cintura.
— É, meu serviço acabou aqui. – ele olhou para Tiago que tinha o olhar preso nas coisas sobre a cama – Vou ver o quarto do seu avô e depois volto para recolher tudo isso.
O outro foi na direção da porta, deixando Tiago com os pertences ali.
— Espera. – Tiago o chamou antes de sair – Se...em caso de eu precisar ligar. Quem eu chamo?
O outro nem virou para responder.
— Henrique. Meu nome é Henrique.
— Obrigado, Henrique. Espero que tudo esteja bem, onde quer que esteja.
— Não se preocupe, tudo está se recuperando.
Tiago fechou os olhos e suspirou profundamente.
— Obrigado.
O outro nem estava mais ali quando Tiago agradeceu.
Tiago então se ergueu e foi até a cama de Helena, o olhar atraído por um objeto muito particular dentre os que pularam da mochila dela: um buque de rosas amarelas de plástico. Ele pegou o buque e levou ao nariz, sentindo o aroma da própria colônia. Um riso triste escapou dos lábios, enquanto ele lembrava da noite em que deu o buque para Helena.
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