A sobrinha da Helô
49 O buque de flores amarelas da Sobrinha da Helô
Notas iniciais
Helena secava o cabelo próxima a cabeceira da cama, enquanto Tiago terminava de colocar um paletó azul marinho. Ela ainda estava enrolada na toalha, e começava a olhar com curiosidade para o namorado, que afivelava um cinto azul escuro, vestindo uma calça branca e uma camisa azul claro, indo então se sentar na cama para colocar as meias e calçados. Ele olhou para cima, notando ela parada a sua esquerda, secador pendurado na mão.
— Que foi? – ele franziu a testa e sorriu com o jeito estranho que ela o olhava.
— Nada. – Helena olhou o secador e passou a mão no cabelo, voltou a olhar o namorado, agora terminando de colocar os sapatos, bem lustrados, e coçou o queixo com a mão livre – Tiago, impressão minha ou o encontro hoje vai ser bem formal?
Ele se ergueu, olhando se estava faltando algo, e então a mirou curioso.
— O que você quer dizer?
Helena jogou o secador sobre a cara e deixou os braços caírem ao lado do corpo, inclinando a cabeça para o lado direito, o olhando com as sobrancelhas erguidas.
— O que? – ele sorriu, dando um passo na direção dela.
— Tiago! – ela apontou para ele – Não me enrola! Você está todo... na beca! Tá com cheiro de coisa chique, isso. – ela cruzou os braços – Fala! Onde a gente vai?
Tiago a observou ainda alguns segundos, baixando levemente a cabeça, olhar risonho e sobrancelhas erguidas. Helena o encarou, erguendo o queixo. Ele sorriu e balançou a cabeça, indo até ela devagar, que o mirava com o olhar desconfiado se desmontando a cada passo dele, até que ele a pegou pela cintura, juntando os corpos.
— Você não precisa se preocupar, vou te levar num lugar só nosso. – ele se inclinou a beijando no pescoço, próximo a orelha esquerda, a fazendo sentir um arrepio bom, levantando o ombro esquerdo e inclinando a cabeça para aquele lado, soltando risinhos.
— Sei. – Helena agora segurava os braços dele, o afastando e sustentando o olhar intenso dele, fazendo Tiago se inclinar para trás a observando – Então não vai fazer diferença o que eu vestir?
Ele sorriu.
— Não. Até porque – ele passou a mão direita pelo cabelo dela, colocando uma mecha atrás da orelha esquerda de Helena – você fica linda de qualquer jeito. Com um vestido lindo ou com um short e regata.
— Uuum... – ela colocou os braços ao redor do pescoço dele e jogou o corpo para trás o fazendo se inclinar sobre ela – Então posso ir só de lingerie que não vai ter problema?
Helena apertava o olhar e mantinha a boca levemente aberta, as sobrancelhas erguidas, brincando com ele.
Tiago riu, jogando então a cabeça para frente encostando a testa dele na dela, mordendo o lábio inferior, fazendo ela sorrir.
— Eu não ia reclamar, não. Mas tem que lembrar que não vamos estar sozinhos. – ela fechou a boca e apertou mais o olhar – Ainda tem – ele a pegou pelo queixo, explicando – quem vai preparar a refeição e servir! Você é muito curiosa, Helena.
Ele disse a pegando pela cintura e a conduzindo de costas até a cômoda próxima da porta do banheiro.
— Você fica escondendo as coisas. Eu tenho que investigar! Esqueceu que quem faz a espiã aqui sou eu?
Ela tentava falar séria, deixando ele a conduzir devagar, levantando as sobrancelhas para ele, mas sorria.
Tiago abriu a boca também num sorriso, a escutando e levantando as sobrancelhas junto com ela, o olhar passeando pelo rosto dela até parar sobre a boca levemente aberta, enquanto a encostava no móvel.
— Espiã, é?
— Ahã.
— E o que você está espiando?
— No momento? – ela inclinou a cabeça para a direita, pensando na resposta e começando a descer as mãos pelos ombro dele, o olhar indo para o peito do namorado, suspirando e escorregando as mãos até alcançar a cintura de Tiago, que ela puxou para si, juntando mais os corpos, levantando então o rosto e sorrindo para ele que já a mirava intenso – Um porquinho bem... – ela parou de falar, a boca aberta esperando Tiago que aproximava o rosto com a boca também aberta.
— Uhm?
— ...gostoso.
Ela completou, sorrindo junto com Tiago, que a beijou, sugando os lábios dela enquanto Helena subia as mãos para a nuca dele, inclinando a cabeça para o lado e abrindo a boca, permitindo que ele aprofundasse o beijo, os dois estremecendo quando ele subiu as mãos da cintura dela até encostar na sua pele acima da linha da toalha, apertando e aproximando mais o corpo, a prendendo na cômoda, Helena jogando o corpo para trás, o fazendo se inclinar mais sobre ela, a mão esquerda na nuca dele e a direita indo até a gravata que ela puxou, o mantendo preso a ela.
— Helena. – ele gemeu, parando o beijo, os rostos ainda se encostando, as bocas abertas, puxando o ar com dificuldade – Você fica me provocando. Assim eu não saio daqui.
Tiago falou trazendo a mão esquerda até o pescoço dela, segurando seu rosto com a mão direita e a observando abrir os olhos, e um sorriso, para ele.
— Não me culpe por sua falta de foco, Senhor Leitão. – Helena passou o braço esquerdo pelo pescoço dele, o puxando para um beijo – Agora, — ela parou o beijo ainda o mantendo preso, a mão direita segurando a boca dele – pode ir, se conseguir.
Tiago puxou o ar e apertou os dentes, sorrindo e rugindo baixo enquanto passava os braços pela cintura dela a puxando para ele e beijando, sugando os lábios dela, soltando o ar em um gemido, ela segurando o rosto dele e abrindo a boca para receber a língua dele, gemendo. Ele a ergueu e a sentou na cômoda, puxando as pernas dela para ele, Helena se inclinando para frente e aprofundando o beijo, enquanto puxava os cabelos dele pela nuca, o fazendo jogar a cabeça para trás, mordendo o lábio inferior de Tiago, sentindo as mãos dele subindo pelas pernas até os seios, apertando, ambos estremecendo.
A campainha tocou insistentemente. Tiago se afastou, gemendo, a boca vermelha.
— Droga. — ele murmurou — É, eu preciso ir mesmo.
— Não precisa, não. – ela tentou segura-lo com as mãos no rosto dele – Esquece isso, Tiago. Não preciso de nada, só ficar aqui com você. – ela pediu sussurrando enquanto descia os lábios até o pescoço dele, o fazendo sorrir.
Tiago pegou o rosto dela com as mãos, mirando cada detalhe até parar nos olhos suplicantes dela. Aquele sentimento vibrando dentro dele, o fazendo suspirar. Com medo de falar, ele deu um beijo terno e demorado e se afastou, a deixando sentada, o observando sair ajeitando o cabelo.
Helena suspirou para o quarto vazio. Desanimada ela desceu da cômoda e foi até a cama. Além da sua mochila aberta e o secador, sobre a cama só tinham as pétalas de rosa, sobre as quais ela se deitou olhando para o teto.
Ela não sabia ao certo o que a estava incomodando. Quanto mais Tiago fazia por ela, mais envolvida ela ficava e maior era o medo de perder tudo. Ele chegava perto e ela esquecia tudo, até Tião. Ele saia e todas as preocupações e medos atingiam ela no estomago. Até ali a vida só tinha ensinado isso para ela: tudo acaba. Ela perdia tudo.
Mas e se não perdesse? Era só abandonar de vez a ideia de vingança contra Tião e fugir com o Tiago mesmo.
Ela sorriu e então a imagem de Edu, Pedro e Helô vieram a mente. Todos reféns de Tião. Não havia escolha de futuro para ela.
Helena esfregou as mãos no rosto. Não sabia como resolver, não queria mais estar no plano de pessoas que não se mostravam, e que ela não confiava, mas tinha que fazer.
Se envolver com Tiago complicou tudo, e ainda assim foi a melhor coisa que aconteceu. Parecia tão certo. Tudo era tão fácil com ele do lado. “Eu saí do rumo, mas não quero voltar. Só vai me afastar dele. Imagina quando Tiago souber que menti e que sou mesmo filha da Helô, talvez do Pedro e assim prima dele? E quando eles souberem que sou filha? Pra que fui me enfiar nessa confusão? Era só me vingar do Tião e agora eu quero proteger minha mãe, irmão, pai e ...o Tiago e a família dele.”
Helena pensou na família do Tiago, e sentiu novamente aquela sensação de frio no estomago quando imaginou as duas famílias juntas e bem, sem Magnólia, felizes, ela com Tiago juntos, pra sempre.
— Melhor eu me arrumar. – ela disse para si mesma balançando a cabeça e se erguendo rápido da cama.
Helena olhou o resultado no grande espelho que tinha no banheiro. Agradeceu mentalmente ter sido “adotada” por uma prostituta com muitas amigas que a ensinaram vários truques. O cabelo estava solto, mas levemente cacheado, caído sobre os ombros até a altura do peito, a maquiagem levemente marcada por um batom vermelho escuro matte, olhos marcados, mas sem exagero, permitindo algo leve. O vestido em vermelho degrade em faixas, ombro caído, marcando bem as curvas, com uma sandália plataforma, listrada em tom de bege e caramelo, davam o resultado que ela queria para uma possibilidade de encontro mais formal com Tiago.
Se o Tiago esperava dar uma surpresa para ela, quem sairia surpreendido era ele! Muito satisfeita com o resultado, ela voltou até a cama, procurando o celular, sem o achar. Então olhou para as cabeceiras e encontrou o que queria, um relógio. Ali dizia que já passava das onze horas da noite. Tiago estava fora faziam quase três horas, e não dera um único aviso.
Ela se sentou na cama e cruzou as pernas, apoiando as mãos no colchão, o corpo inclinado para frente. Inquieta ela se levantou e passou as mãos pelo vestido, vendo se estava tudo certo. Bufou e saiu do quarto, parando surpresa. Havia uma mesinha a meio metro de distancia da porta, com uma rosa dentro de um vasinho, e um cartão encostado nele, com seu nome.
Helena franziu a testa, pegando o cartão e abrindo.
“Siga as estrelas.”
Helena apertou os olhos e releu a frase, tentando entender, e então olhou ao redor. O corredor até a escada estava escuro, salvo uma pequena luz, vindo do que parecia ser um cordão pendurado no teto com uma ponta brilhando. Ela piscou várias vezes, enquanto começava a sorrir. Foi até a luz e percebeu outra na direção da escada, descendo, e vendo mais duas no caminho até a porta. Todo o ambiente escuro com apenas as pequenas luzes que pareciam cair do teto, acesas. Sorrindo, ela saiu para o corredor, e ele também estava escuro. Para o lado esquerdo do corredor não tinha nada, mas para o lado direito haviam várias daquelas luzinhas penduradas no teto, iluminando um caminho cheio de pétalas de rosas de todas as cores.
Ela colocou as mãos sobre a boca aberta, prendendo a respiração e depois a soltando devagar, a mão direita sobre o peito.
Respirando fundo ela fechou a porta atrás de si e foi caminhando devagar, apertando os lábios e tentando controlar a emoção. Mas a sensação de que estava num sonho, com aquelas luzes a guiando, o cheiro das rosas e a ideia de que estava indo até Tiago não permitiram tanto controle, e sentia a respiração ofegante e as pernas quase faltando. Chegando a uma escada, que levava a uma porta com uma grande estrela dourada colada, Helena puxou novamente o ar e balançou a cabeça.
Sorrindo, Helena subiu a escada.
Engolindo em seco, ela abriu a porta devagar. A porta dava para o terraço do hotel. Helena olhou primeiro para céu limpo e cheio de estrelas, sentindo o ar da noite no rosto e respirando fundo. Então olhou ao redor, notando que na direção do centro do terraço, a sua esquerda, havia um tapete de pétalas de rosas vermelhas, que alcançava um perímetro quadrado formado por mais pétalas, mas agora de todas as cores, sob uma mesa redonda e pequena, com uma vela tremulando e dois lugares postos.
Ao fundo, em um piano, começou a tocar “Back At One” de Brian Mcknight, interpretada pelo próprio pianista, que estava de fraque e se virara de costas para ela e de frente ao instrumento, fazendo Tiago e o garçom se virarem para ela. Pareciam estar esperando ela por bastante tempo.
O rosto de Tiago se iluminou ao vê-la, erguendo com orgulho um buque pequeno de rosas amarelas de plástico a frente do peito, e exibindo um sorriso quase tímido, de lado, os olhos brilhando para ela, fazendo Helena sentir o coração falhar uma batida e novamente acelerar.
Ela sustentou o olhar intenso dele, baixou a cabeça e começou a caminhar até ele, mordendo o lábio inferior, passando as mãos suadas pelo vestido, sem conseguir ouvir os próprios passos. Quando estava próxima dele, ergueu a cabeça o mirando com os olhos grandes e ressabiados, não contendo mais o sorriso quando ele ergueu até ela o buque, dando um largo sorriso e soltando a respiração presa quando ela finalmente ficou de frente para ele.
Passou alguns segundos com os dois só se olhando, Helena tinha quase certeza que dava para todos ouvirem as batidas do coração dela, enquanto Tiago mordia o lábio inferior, e olhava ao redor, suspirando.
— São para você. – ele indicou o ramo de flores de plástico – Acho que usaram todas as rosas de verdade, então – ele completou notando que ela cheirava as flores como se dela saísse perfume, fechando os olhos – eu tentei improvisar.
Helena abriu os olhos e o mirou intensa, com a respiração difícil, deu um passo à frente e o envolveu pelo pescoço com o braço esquerdo, pondo a perna esquerda mais a frente, entre as pernas dele, e o puxando para um beijo demorado e cheio de sentimento, o pegando de surpresa, fazendo Tiago erguer as mãos para cima e então segurar a sua cabeça, prolongando o beijo.
Helena interrompeu o beijo, afastando a cabeça e a jogando para trás, os olhos ainda brilhando, os dois sorrindo. Tiago passou a mão direita no rosto dela, fazendo Helena virar o rosto para beija-la, fechando os olhos.
— Você...demorou. Eu já estava quase indo te buscar. – ele sorriu largo para ela, ainda quieta, e, engolindo em seco, perguntou – Gostou?
Helena olhou para o lado, engoliu em seco e voltou a mira-lo.
— É... – Helena pensou em fazer jogo duro, mas Tiago a olhava com expectativa, desmanchando qualquer barreira dentro dela. Ela então o puxou pela gravata, enquanto sorria carinhosa, a voz quase falhando – a coisa mais linda que eu já vi. Tá tudo lindo. – ela suspirou, olhando para o peito dele, fugindo do olhar penetrante de Tiago, que engolia em seco – Perfeito.
— Engraçado.... — ele colocou a mão esquerda no queixo dela, tentando trazer o rosto para ele — foi o mesmo que pensei quando você apareceu na porta.
Ela riu, balançando a cabeça, voltando a olhar para o peito dele.
— Mas é um...porquinho, mesmo. – Helena suspirou, ainda olhando para a gravata dele, a alisando com o polegar da mão direita, enquanto segurava o buque na outra mão.
Tiago percebeu a emoção dela e deu um sorriso de lado, passando a mão direita pelo rosto dela, a pegando pelo queixo e a trazendo para um beijo terno, tomando os lábios dela devagar e puxando o ar.
Helena se deixou beijar, inspirando fundo, ela sentia como se o corpo todo estivesse quente por dentro, e uma variação de sensações que não sabia explicar, um agito na boca do estomago, as pernas pareciam faltar, o coração batia acelerado a fazendo sentir o ar faltar, algo que Tiago costumava provocar, só ele. E ainda assim toda vez era um acontecimento.
Tiago abriu os olhos devagar, afastando o rosto e percebendo que ela ainda mantinha os olhos fechados, o fazendo sorrir, pegar o rosto dela com as duas mãos e trazê-la para mais um beijo, soltando o ar e gemendo, ele sugou os lábios dela, se inclinando sobre Helena, a fazendo jogar o corpo para trás e gemer com ele, passando os braços pelo pescoço dele e abrir a boca, pedindo mais. Tiago passou os braços pela cintura dela e a puxou, aprofundando o beijo, a fazendo jogar o corpo para trás e segura-lo pela nuca com a mão direita.
Os dois pararam o beijo, sorriram, as bocas vermelhas, Tiago mordendo o lábio inferior, Helena sorrindo e olhando para a boca dele.
— Helena...
— Tiago...
Eles começaram juntos, e riram, ainda abraçados, ignorando o pianista e o garçom que mantinham suas funções, sem olha-los.
Tiago beijou ela na bochecha e desceu os lábios até a orelha direita dela.
— A noite é toda para você, Helena.
— Eu disse que só você bastava para mim. – ela se adiantou, trazendo a mão direita para acariciar o rosto dele, passando o polegar pelos lábios do namorado.
Ele ergueu a cabeça e suspirou, fechando os olhos e descendo o rosto até encostar no dela, a fazendo também fechar os olhos.
— Mas eu já sou todo seu.
Helena sentiu como que o coração desse um pulo ao ouvir a frase dita pela voz rouca dele.
Eles suspiraram, e Helena sorriu, sentindo novamente uma sensação que começava da boca do estomago e chegava ao coração, e então se espalhava pelo corpo, vibrante e morna.
— Eu tô entendendo o seu plano. – ela começou, os rostos ainda colados e olhos fechados, a voz aveludada — Quer me deixar melosinha. – ela disse, sem abrir os olhos, abrindo mais o sorriso e fazendo ele sorrir junto – Mas não é assim fácil. Tá?
Helena jogou o corpo para trás, fazendo Tiago se inclinar sobre ela, que ainda o envolvia pelo pescoço, ambos suspirando, sem desmanchar o sorriso e abrindo os olhos, os rostos ainda colados.
— Veremos. – Tiago respondeu, sustentando o olhar dela e esticando os lábios para um beijo estalado, puxando então o ar e gemendo quando finalmente se ergueu, ainda a abraçando, mas agora olhando para a mesa – Agora vamos ao jantar.
Tiago a largou e se virou para a mesa, entrelaçando os dedos da mão esquerda dele nos da mão direita dela, e a puxou, a deixando perto da mesa enquanto ia conversar com o garçom.
Se sentindo impossibilitada de parar de sorrir, Helena olhou todos os detalhes do jantar. Dois pratos rasos com garfo, colher e faca de cada lado, taças, um candelabro com uma vela solitária de lado, sobre uma mesa redonda, estrategicamente pequena, que por sua vez estava sobre um tapete de pétalas de rosas de todas as cores, e que se estendia uns dois metros para cada lado da mesa.
Helena então percebeu que ainda tinha na mão esquerda o buque de rosa amarela, e o trouxe para o nariz, mesmo sabendo que não teria perfume, ela fechou os olhos e inspirou fundo, sentindo então o odor que as pétalas de rosas aos seus pés, exalavam. Tiago se aproximou dela.
— Você quer tirar os sapatos? – ele perguntou, se aproximando.
— O que? – ela perguntou, erguendo a cabeça para ele e abaixando o buque, rápida.
— Faz parte da experiência. – Tiago então, meio sem jeito, começou a tirar os sapatos e meias.
Helena ergueu uma sobrancelha e balançou a cabeça negativamente.
— Vamos. Experimenta.
Ele insistiu, com tom maroto e sorrindo para ela, a fazendo dar uma risadinha e revirar os olhos. Helena então ergueu o pé esquerdo para tentar tirar a sandália, quase caindo, fazendo Tiago se adiantar até ela para dar apoio. Ela tirou os calçados olhando para ele, rindo e balançando a cabeça. Entregou os sapatos e sentiu o toque das pétalas sob os pés, e o perfume que exalavam. Era tudo surreal. Tiago colocou os sapatos de lado, e puxou a cadeira para ela sentar de um lado, ficando de frente para o piano. Ela sentou e colocou o buque do lado dela, enquanto Tiago se sentava a frente e o garçom se aproximava.
— Eu fiquei bem indeciso sobre o que seria o jantar. Então lembrei o que você costuma comer quando não janta com a gente. – nesse momento o garçom apresentou uma bandeja redonda com uma pizza de calabresa – Tem outros sabores, é claro.
Helena franziu a testa para Tiago e então jogou a cabeça para trás rindo, diante da pizza, batendo palmas. Ela esperava algo muito chique e que não conseguisse nem dizer o nome.
— Está bem! – ela voltou a olhar Tiago e respirou fundo – Já pode ir trazendo os outros sabores, que eu estou faminta!
O garçom foi trazendo os sabores para eles escolherem, colocando vinho do porto para eles tomarem, enquanto Helena e Tiago riam e comentavam dos sabores, e da bebida. Tiago mais de uma vez estendeu a mão sobre a mesa, pedindo a dela, e beijou.
Helena pegou a quinta ou sexta taça de vinho e começou a beber, rindo de algo que Tiago falou, olhando pra cima, percebendo o céu estrelado, e suspirando. Nunca se sentira tão feliz. Sabia que estava na cadeira, mas a sensação era de estar flutuando. Devia ser o efeito da bebida, ela pensou.
Eles já tinham parado de comer, só bebiam.
— De onde você tira essas ideias, Tiago? – ela se voltou para ele, depois de olhar de novo ao redor dela.
— Exagerei?
— Muito! Mas tá lindo. — foi a vez de Helena estender a mão e pegar a dele sobre a mesa, os olhos brilhando para ele, que se inclinou sobre a mesa, respondendo com um olhar carinhoso.
— Já disse, você me inspira.
Os dois engoliram em seco e então respiram fundo, voltando a se recostarem na cadeira.
Tiago tomou outro gole de vinho, observado por ela, que colocou a sua taça de vinho na mesa e puxou os lábios, os apertando, se inclinando novamente para frente, apoiando os braços na mesa, a cabeça inclinada para o lado direito e o olhar apertado fixo nele.
— Você pensou em tudo sozinho?
— Acredite você ou não! – ele respondeu balançando a cabeça afirmativamente, pousando novamente a taça e olhando para ela, tentando conter o sorriso orgulhoso.
— Uhm... – ela suspirou, erguendo o braço esquerdo e apoiando o queixo naquela mão – E eu sou a primeira a te inspirar assim? Nunca fez...algo assim para nenhuma outra?
Ele subiu o olhar da taça para ela, um meio sorriso se formando no canto esquerdo dos lábios.
— Por que eu faria? Nunca senti por nenhuma outra o que sinto por você. – ele terminou a confissão com a voz grave e olhar intenso, fazendo Helena sentir o ar faltar enquanto o estomago apertava.
Tiago, inspirou fundo e se inclinou para frente, puxando o lábio inferior e o molhando, para então sorrir para Helena, que mantinha os olhos grandes e brilhantes na direção dele, respiração presa. Ela então trouxe a mão esquerda para a boca e sorriu enquanto abaixava a cabeça, desviando do olhar dele, sentindo parte da pele do pescoço e bochechas como que queimando.
Helena pigarreou, mas sem conseguir para de sorrir, ela pegou a taça para outro gole, tentando não olhar para Tiago, e falhando.
Tiago notou o efeito que causou e inspirou fundo, abrindo mais o sorriso, se levantou decidido.
— Vem. – ele se ergueu, indo até o lado esquerdo dela e erguendo a mão esquerda na sua direção.
— Aonde? – ela perguntou, séria, com a voz baixa, erguendo a cabeça.
— Dançar.
Rindo da ideia, ela se ergueu, sentindo um pouco da tontura depois de tanto vinho, deixando Tiago guiar ela até quase um metro longe da mesa. O pianista então mudou a musica e começou a cantar Wonderful Tonight de Eric Clapton.
Tiago trouxe a mão esquerda dela até os lábios e beijou devoto, fechando os olhos e depois erguendo a cabeça, a mirando intenso, inspirou fundo e, ainda com as mãos deles no ar, entrelaçou os dedos deles.
Helena olhou para as mãos deles e sorriu, baixando então a cabeça, enquanto Tiago dava um passo a frente e trazia o corpo dela para junto do seu, com a mão direita na sua cintura, deitando o rosto na curva do pescoço dela, do lado direito, enquanto ela soltava o ar e respirava fundo, deitando a cabeça no ombro esquerdo dele, resistindo alguns segundos até fechar os olhos e respirar fundo, se deixando guiar pelo sentimento.
Ela já ficara muito mais próxima que aquilo dele, mas a sensação parecia nova, sentindo o perfume dele, o corpo quente dele junto ao seu, sentindo quando respirava e como o coração parecia bater no mesmo ritmo que o dela, a acalmando e a fazendo se sentir... completa. Parecia a melhor definição. Ela suspirou quase na mesma hora que ele, que experimentava a mesma sensação que ela.
Os dois dançaram enquanto a musica tocava, e mesmo alguns segundos depois de ela parar, fazendo o musico repetir a musica.
Tiago então ergueu a cabeça e beijou entre os cabelos de Helena, inspirando fundo, fazendo ela erguer o rosto para ele, e fechar os olhos quando ele encostou a testa dele na testa dela. Olhos fechados, ambos puxando o ar e o soltando ao mesmo tempo. Ambos aproximaram os lábios quentes e se beijando devagar, com delicadeza. Ambas as mãos agora entrelaçadas, largadas ao lado do corpo deles, enquanto sorviam um o lábio do outro.
Puxando novamente o ar e parando o beijo, Helena buscou sentir o rosto dele com o seu, passando o nariz pelo nariz dele, esfregando as bochechas e então passando os braços ao redor do tórax dele, o abraçando forte, para si, e enterrando o rosto entre o ombro e pescoço dele, suspirando e fazendo ele sorrir e passar os braços ao redor dela também, afagando o cabelo dela e pousando o queixo no ombro esquerdo de Helena.
Ficaram assim por mais uma musica inteira, até que o musico parou e olhou para o garçom. Já tinha passado e muito da meia-noite, horário máximo do serviço.
Tiago então ergueu o olhar, notou os dois parados, Helena ainda grudada a ele, dançando.
— Helena. – ele se ergueu, fazendo ela olhar para ele – Acho que a musica acabou.
— Musica? – ela piscou algumas vezes e olhou para trás, percebendo o musico em pé, perto do piano – Ah, sim! – ela virou para frente, sorrindo sem jeito – E agora? – ela respirou fundo, olhando para Tiago – O que mais você preparou?
—Bom. Tinha a sobremesa, mas já passou da hora de servir ela. – Tiago respondeu a abraçando de novo, e olhando de soslaio para o garçom que entendeu que já devia preparar a sua retirada, e chamou o musico a segui-lo – Então, — ele suspirou enquanto os outros saiam, Helena observando e erguendo as sobrancelhas para Tiago – só nos resta levar os potes de sorvete para mais tarde, e irmos nos arrumar para a ultima surpresa.
— Potes de sorvete? — ela o olhou interessada, e então franziu a testa — Ultima?
— Desta noite. – ele respondeu inclinando a cabeça, sorrindo e dando um beijo estalado nos lábios dela, e mais outros que desceram pela bochecha esquerda até o pescoço.
— Você está querendo dizer que vai ter surpresa todos os dias da viagem? – ela o envolveu com os braços pelo pescoço, jogando o corpo para trás, Tiago passando a segura-la pela cintura, balançando a cabeça afirmativamente, puxando o lábio inferior com o superior, contendo o sorriso enquanto a mirava com os olhos marotos – Porquinho, se você está fazendo tudo isso para me conquistar, lamento informar que você já chegou meio tarde! – ele ergueu as sobrancelhas e apertou os olhos, com a boca levemente aberta, quase sorrindo.
— Ah é?
— É. – ela concordou balançando a cabeça e inspirando fundo, olhando para a gravata dele e depois para a boca de Tiago, a voz grave – Você já me conquistou faz um tempo.
Helena ergueu o olhar, soltando o ar, tímida, ganhando um olhar intenso de Tiago. Ele então riu a erguendo para cima, jogando o corpo para trás, Helena dando gritinhos e fechando os olhos, as mãos apoiadas no peito dele, enquanto ele dava vários beijos na bochecha direita dela, entre risos e voltava a pousa-la no chão.
Ele pegou o rosto dela entre as mãos, e a beijou, intenso, correspondido com urgência por Helena, que subiu a mão direita para a nuca dele e o puxou para ela, abrindo a boca, inclinando a cabeça para o lado, estremecendo. Tiago desceu as mãos até o alto das costas e a puxou, juntando mais os corpos, enquanto Helena inclinava a cabeça para o outro lado, sorvendo e mordendo o lábio inferior dele, sorrindo antes de voltar a receber a língua dele, os dois gemendo.
Helena então sentiu Tiago descer a mão direita até a nádega dela e apertar, para então a puxar mais para si.
Ela parou o beijo, ambos arfando, rostos colados.
— Certeza que não quer comer a sobremesa logo? – ela perguntou sorrindo e inclinando a cabeça para o lado, olhando maliciosa para ele, que sorriu soltando o ar e deu um beijo estalado nela.
— Não. – ela sorriu mais com a resposta e trouxe as mãos para lapela do paletó dele, começando a tira-lo – Mas... – ele a parou – Eu vou ter que adiar mesmo assim. Não sei se vou conseguir parar depois que começar com a sobremesa.
— Assim espero! Quando começar a sobremesa é bom não parar mesmo. – ela falou o puxando pela gravata e dando um selinho – Agora vamos logo para essa surpresa que eu quero os meus sorvetes!
Tiago riu e se deixou ser carregado por ela, que o levava o puxando pela gravata até a saída. Deixando para trás os sorvetes, e o buque de flores amarelas em cima da mesa.
Tiago ouviu um barulho no corredor e acordou da lembrança daquela noite. Fungando, ele jogou o buque em cima da cama. Dali pra frente ele não poderia ter nada que o denunciasse.
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