A sobrinha da Helô

4 Tiago e a Sobrinha da Helô


Tiago olhou para a trilha a beira do rio a sua frente. Já estava sem esperanças de encontrar Helena. Como foi perder ela? Passou o dia procurando, e nada. Ela sumiu depois que soube do tio Pedro. Ela já tinha mostrado como poderia ser frágil, mesmo com tudo o que enfrentou até ali.

A angustia de quando soube que ela tinha fugido voltou a apertar forte no peito. “E se ela estiver na mão de algum inimigo ou sofreu algum acidente?” Ele balançou a cabeça fortemente tentando espantar este pensamento.

Notou então que as casinhas a beira do rio já tinham acabado, só restava a estrutura carbonizada do que foi uma vez o casebre da Helô. Ele olhou sem esperanças pra ela. A moto da Helena não estava ali. Não havia sinal dela. Ele virou as costas e ouviu um barulho de madeira cedendo e um grito e choro.

Tiago correu até o local, e, com cuidado, adentrou tirando o mato e os restos de madeira do caminho. Num canto, segurando um braço arranhando por um pedaço da parede queimada que acabara de ceder, estava Helena. Chorando, sentada no chão com a cabeça encostada no resto de parede que tinha atrás dela, parecia não ter notado Tiago chegar.

— Helena? – ele falou tentando se aproximar, se agachando.

Ela arregalou os olhos.

— O que você tá fazendo aqui? – ela disse tentando enxugar as lágrimas, colocando a mão no chão – sai daqui!

— Não, eu não vou. Eu não vou te deixar, Helena.

— Vai sim, sai... – ela fungava e as lágrimas pareciam verter com mais força – me deixa...

Ela falou já com a voz afinando, baixando a cabeça. Tiago se aproximou.

— Helena, me deixa te ajudar.

— Não – ela tirou o braço sobre o qual Tiago pousara uma mãe e se levantou, foi tropeçando até a beirada do chão que dava para o rio – você não vai me ajudar. Ninguém vai.

Ela tentou limpar o rosto das lágrimas. Tiago que a seguiu com o olhar sem se levantar voltou a cabeça pra frente e suspirou.

— Você não precisa se fazer de tão forte sempre. – ele se levantou e foi caminhando até ela – Hei, eu tou aqui, confia em mim, eu posso de ajudar.

Tiago pousou a mão direita no ombro direito dela. Helena não segurou mais o choro e abaixou a cabeça para outro soluço. Balançando a cabeça negativamente ela falou baixinho.

— Não cara... essa dor... você não sabe.

— Vem cá – ele puxou ela gentilmente pelo ombro a virando pra ele, Helena com a cabeça ainda baixa – eu sei sim, você sabe que eu sei dessa dor. Lembra da minha mãe?

(começa a tocar Raging Fire de Phillip Phillips)

Ela levantou a cabeça.

— Me abandonaram, Tiago. De novo. Eu perdi tudo, todo mundo, não tenho mais ninguém, DE NOVO – ela dizia com os seus olhos inchados fixos nos olhos dele, Tiago sentiu algo que não sabia explicar a não ser desespero, desespero de ver ela assim sofrendo e não poder arrancar essa dor com as próprias mãos – eu tô sozinha.

Ela abaixou a cabeça e o abraçou, deitando a cabeça no peito dele. Tiago a abraçou forte, pousou o queixo em sua cabeça e afagou o cabelo caído pelas costas nuas dela que usava um macacão frente única, preto.

— Não é assim...

— É assim sim – ela levantou a cabeça e a virou pro lado, não o encarando, enquanto passava as costas da mão no rosto – eu não tenho mais ninguém por mim. Agora só posso contar comigo.

— Hei – Tiago pegou o queixo dela com a mão direita, a fazendo encara-lo – você ainda tem a mim.

Ela soltou um riso descrente, balançando a cabeça negativamente.

— Acredita em mim. – Tiago aproximou mais o corpo dele no dela, se encaixando até ficarem quase um só, ele subiu as mãos pelos braços dela até segurarem o rosto o aproximando do seu – eu nunca vou te abandonar – ele a olhava firme, Helena puxou o ar, Tiago arfava – eu juro.

Tiago então fechou os olhos. Helena já tinha a boca entreaberta, a respiração acelerada, as batidas do coração tão fortes que ela não ouvia mais nada a não ser a respiração de Tiago e dela. Ele aproximou os lábios dele dos dela, passou o nariz levemente pelo seu rosto, as pálpebras tremendo, a fazendo fechar os olhos, e a beijou, levemente.

A explosão que ambos sentiram com o beijo fez ambos tremerem, e no momento seguinte Helena já tinha as mãos puxando os cabelos e nuca de Tiago mais próximo, aprofundando o beijo, que antes tímido agora era aberto e ávido, enquanto ele descia as suas mãos pelas curvas dela, sentindo o toque da pele macia dela, a puxando e unindo cada vez mais o corpo de um no outro, de modo que a luz da lua que os tocava não sabia dizer qual era qual.

“So come out, come out, come out
Won't you turn my soul
Into a raging fire
Come out, come out, come out
'Til we lose control
Into a raging fire

Quatro meses antes.

— O que é isso,Tiago? – Pedro se aproximou dos dois, e afastou o sobrinho de Helena – Que violência é essa?

Tiago passou a língua pelos lábios, nervoso.

— Tio, me desculpe mas é melhor o senhor não se meter. Minha conversa é com essa bandida aqui.

Ele mantinha o olhar firme em Helena, que se colocou atrás de Pedro, contendo um sorriso diante da irritação de Tiago, agora que estava a salva dele.

— Pera lá, Tiago – Pedro se enfureceu – isso não é um comportamento que se aceite, com ninguém, ainda mais com mulher. O que tá acontecendo contigo? Tá virando seu pai?

Tiago sentiu aquelas palavras. Olhou surpreso para o tio e depois balançou a cabeça negativamente.

— Não, tio, você não está entendendo, essa garota...

— O que, Tiago? Merece ser ofendida e agredida? É essa a sua justificativa?

Pedro então se posicionou diante de Tiago e cruzou os braços. Helena cruzou os dela, e escondendo o orgulho de Pedro, levantou as sobrancelhas encarando Tiago, que suspirou diante do tio e abaixou a cabeça.

— Claro que não tio.

Helena movia a cabeça afirmativamente enquanto continha um riso, e parou arregalando os olhos e mordendo os lábios para se conter quando Tiago levantou a cabeça e a flagrou. Ele então mordeu os lábios e respirou fundo, colocando as mãos na cintura.

— Desculpa, Helena.

Pedro deu um meio sorriso orgulhoso e se virou para Helena que mudou a feição rapidamente para inocente. Olhando para Pedro e depois Tiago ela balançou a cabeça concordando.

— Ótimo, esse é o sobrinho que conheço. – Pedro foi até Tiago e passou o braço sobre seu ombro. – agora vamos todos dormir.

— Espera aí, ela vai ficar aqui? – perguntou Tiago apontando para Helena.

— Claro. Helena é minha convidada. Não tinha lugar lá na Zuza então trouxe ela pra cá. Eu tenho que ficar por aqui mesmo para manter meus olhos no Ciro, ao menos tenho uma boa companhia, e de quebra protejo a sobrinha da Helo.

Essa ultima parte ele falou bem baixinho para só Tiago escutar. Helena fingiu que não ouviu.

— Mas, tio – Tiago tentou dar um sorriso simpático – ela é uma desconhecida. E, particularmente, acho que o senhor não está sabendo o tipo de...

— Ok, Tiago, já entendi que você não gosto da menina – Tiago franziu o cenho quando ele falou menina – mas ela precisa da minha ajuda e vou ajudar. Não me interessa o que Tião ou Leticia pensem dela.

— Nem o que eu penso?

— Se é influenciado pelo Tião, sua avó ou Leticia, não.

Com isso Pedro encerrou a conversa. Tiago suspirou de novo. Balançou a cabeça pra cima e pra baixo absorvendo as informações.

— Tá certo. Como o senhor quiser. Me desculpe. Eu vou dormir.

E Tiago cumprimentou o tio com a cabeça indo pelo corredor em direção a Helena.

— Tiago, seu quarto é lá pra cima.

— É... – ele olhou pros dois lados pensando – eu ia pegar um copo de água.

— Certo. Vamos Helena? Te acompanho de novo até seu quarto.

— Claro. Boa noite Tiago, durma bem.

Helena saiu um pouco mais a frente de Pedro e subiu as escadas tentando conter o riso.

Mas assim que ficou sozinha no quarto, a alegria passou. A atitude de Tiago foi perigosa. O que teria acontecido se Pedro não chegasse?

Ela pegou o celular e ligou para Paulo. Demorou quase 5 minutos até ele atender.

— Paulo, me escuta, preciso que você me dê mais informações dessa garçonete que o noivo da Leticia tava envolvido. Acho que tem mais coisa aí... – ela pausou diante da negativa do outro lado da linha – como assim o máximo que tu pode me passar é isso? Pensei que eu fosse ter tudo que era preciso para cumprir o plano contra o Tião, e no momento saber dessa garota é o que preciso para controlar o Tia...o que? Está acima do interesse do plano? Paulo... desligou.

Ela olhou incrédula o celular. Paulo nunca a deixara na mão. Desde quando passaram o seu contato e disseram que ele daria tudo que era necessário para conseguir se vingar de Tião e demais corja que prejudicaram a ela e a sua família, o cara sempre lhe passou serviço completo. Até mesmo aquela noite, quando, depois de acomodada por Pedro, ela pediu podres do leitãozinho ele mandou fotos de Tiago com a tal Isabela no meio da festa de noivado, ela jurava que tinha todo o apoio nos seus planos.

Ela jogou o celular na cama. É claro, a excitação de estar conseguindo finalmente conhecer suas origens e se vingar a fizeram esquecer que poderia ser uma peça no jogo de alguém maior, alguém que vai conseguir mais do que satisfazer um desejo de vingança contra aqueles cretinos. Ou não?

Helena se sentiu perdida. “E agora? Continuo com isso? Não posso confiar totalmente neles e ser outra usada! No que fui me meter?”

Mas ela nem conseguiu responder as próprias perguntas. Imediatamente ficou alerta ao ver a chave da porta pulando da fechadura enquanto a mesma era destrancada. Ela viu a maçaneta virar, se jogou para o lado da sua mochila e pegou seu canivete, foi até a cama fingindo dormir mantendo sob a manga do robe a sua velha amiga preparada para o intruso.

A pessoa abriu a porta e espiou para conferir quem estava. Entrou, fechou a porta atrás de si a chaveando de novo.

— Não precisa fingir que está dormindo não, eu ouvi que você estava falando com alguém, pelo telefone, imagino.

Na porta, com os braços cruzados e queixo erguido estava Tiago.

Ela levantou a cabeça, olhou e depois voltou a enfia-la no travesseiro.

— Cara, vê se me erra!

— Ah para de cena. Anda... — ele foi até a cama dela e a puxou pelo braço, sendo surpreendido por um canivete apontado pra ele — o que é isso?

— Se afasta de mim.

Ele se levantou a olhando assustado.

— Sabia que meu tio estava colocando uma bandida aqui mesmo.

— Pobre menino rico que ninguém dá importância...- ela ironizou Tiago enquanto se levantava ainda apontando o canivete para ele — quem mandou sempre fazer o bocó?

Ele a olhava furioso.

— Senta!

Ela apontou uma poltrona. Ele sentou.

— Fala!

— Falar? Quem tem algo pra falar aqui é você. De onde você é, o que veio fazer aqui, como sabe sobre mim e Isabela.

— Ah... por isso veio se metendo no meu quarto, chorar as mágoas de outro amor. Que deselegante.

— Não se faz de desentendida. E quer parar de me apontar isso?

— Não mesmo leitãozinho, já vi bocós com você aprontarem coisas bem más...

Ele a olhou intrigado.

— E sobre as suas perguntas. Eu não posso... — ele se levantou e ela também — responder agora. — ele parou, mudando a expressão de furioso para curioso — E nem aqui. — ela girou os olhos pelas paredes — Essas casas costumam ter ouvidos.

— Ah é?

— É!

Ambos balançaram a cabeça irônicos.

— Tá certo, te dou até amanhã.

— Ok, eu te dou o lugar. Sabe onde ficava o casebre da Heloisa?- ele fez uma careta de quem não sabia mas logo uma luz acendeu e ele afirmou que sabia — Certo. Chegue lá umas nove da manhã. Sozinho. Sem fazer o esperto.

— E daí você me conta quem você é e o que sabe sobre a Isabela?

Ele perguntou e ela foi até ele com o canivete apontado, o pegando pelo braço, abrindo a porta e o pondo pra fora.

— Daí eu conto o que você precisa e pode fazer. Agora, boa noite.

Ela fechou a porta na cara dele. Tiago suspirou. Não era o que queria mas já era algo. A garota é realmente perigosa.

Ele se virou e foi indo para seu quarto quando a porta do quarto abriu de novo.

— Espertinho. Já ia fugindo com a cópia da chave do meu quarto. Dá aqui.

Ele revirou os olhos e jogou a chave pra ela.

— Onde tu conseguiu isso?

— Eu ...- ele se aproximou dela devagar, falando baixinho o rosto bem próximo do dela — até posso te contar, mas não agora e nem aqui. Boa noite.

Ele deu as costas pra ela. Helena o viu indo embora sorrindo. "Quem te viu quem te vê, porquinho".