A sobrinha da Helô

5 O pacto com a Sobrinha da Helô


O dia estava quente, e o caminho, apesar de ter algumas arvores, era abafado. A cidade toda fervia a simples permanência do sol sobre ela por algumas horas. Tio Pedro estava certo quando dizia que a cidade ficou feia e meio morta nos últimos anos. Quando Tiago era pequeno se lembrava de ver mais arvores e um ambiente bem mais agradável ao redor daquele rio.

Assim que acabou a fileira de casebres a beira do rio ele andou mais alguns metros e buscou com o olhar o tal ex-casebre da Helô. Mais a frente, atrás de umas arvores e matagal estava a ruína de um barraco de madeira bem a beira do rio, ainda com parte das paredes em pé. Ele não via a sobrinha da Helô. “ Me deu o cano”.

Tiago parou, parecia ter ouvido o barulho de alguém se mexendo entre as arvores ao seu lado e próximas ao casebre. Deu alguns passos naquela direção, quando ouviu Helena o chamando.

— Meu Deus, é por isso que demora anos pra chegar, vem se arrastando. Corre rapaz.

Ele olhou na direção da estrutura queimada e vindo da parte que limitava com o rio, um mini píer, Helena caminhava com cuidado, mão sobre os olhos, criando uma defesa contra o sol, cabelo preso num coque improvisado, com uma calça de couro preta e uma regata branca toda furada que deixava ver o sutiã preto por baixo. Ela parou próximo de um mini barranco a 10 metros dele.

— Você tem dicionário aí?

Ele olhou desagradado.

— Qual é a piada?

— Nenhuma, só queria uma ajuda pra te explicar o que significa CORRE.

Ela falou a ultima palavra tirando a mão da testa e o chamando com as duas mãos em direção do ex-casebre, dando-lhe as costas.

— Vai ser uma manhã longa. – ele resmungou pulando o mini barranco e indo atrás dela.

Ele seguiu a trilha deixada por ela e quando chegou no mini píer a olhou curioso.

— O que é isso? – ele apontou para um barco pequeno e velho de madeira.

Ela nem respondeu, só revirou os olhos pra ele.

— Eu sei que é um barco.

Helena se manteve silente, se ajoelhou e puxou com a corda o barco mais pra perto. Tiago riu de nervoso.

— Você tá brincando, né? Eu não vou entrar num barco pra conversar com você. Eu nem sei se consigo chamar esse conjunto de madeira velha de barco.

— Eu tenho cara de quem brinca, garoto? Mas numa coisa você está certo. Você não vai entrar nesse barco pra conversar comigo.

— Ah, que bom. Onde nós vamos?

— Você não me entendeu, se você quer conversar comigo, tem que entrar nesse barco comigo, mas você não vai entrar nele, se não cumprir alguns requisitos.

Tiago respirou fundo, passou a mão esquerda sobre a boca, e então para o maxilar direito e descendo ao pescoço, onde parou o coçando. Olhou firme Helena, que apenas levantou uma sobrancelha.

— Tá bom, vamos ver até onde vai. Quais requisitos?

— Primeiro, sem essa roupa.

— Hahahahaha você quer que eu entre aí pelado? – ele riu.

— Ok – ela já tinha se virado de costas pra ele, se ajoelhando pra pegar dentro do barco um saco preto com roupas – primeiro, não há a mínima chance de eu conscientemente me colocar num mesmo lugar com você pelado. Segundo, você vai entrar no barco usando essas roupas aqui. Eu quero ter certeza de que o que vou falar pra você, só você ouvirá. O que deixa bem claro que também não quero eletrônicos no barco.

Tiago a olhava firme, dentes cerrados, as mãos na cintura enquanto olhava da bolsa para o rosto firme da garota, e de novo para a bolsa.

— Nem pensar.

E deu as costas.

— Beleza. Me poupa tempo.

Ele começou a caminhar, enquanto ela ficou parada, girando a bolsa em uma das mãos, a outra mão na cintura, fazendo bico com a boca, fingindo desinteresse.

Tiago parou. Por mais que odiasse a garota e a ideia de entrar no seu jogo, sabia que a curiosidade sobre como ela sabia tanta coisa da família, se tinha informações de Isabela e o que queria, o perseguiria.

Respirando fundo ele se virou de novo rapidamente e passou rápido por Helena, arrancando a bolsa da sua mão e um sorriso do seu rosto. Ele entrou no ex-casebre para ter algum abrigo para se trocar. Helena ficou olhando pro rio.

O que mais irritou Tiago é que ela parecia ter adivinhado que ele ia tentar gravar o que ela ia dizer, e agora ele teria que deixar o gravador e celular com as roupas.

— Olha só, se você observar bem, tem uma cueca aí na sacola também...então... – disse Helena, alto, para ele escutar.

Tiago já ia colocando a outra calça quando ela disse isso. Ele parou com uma perna só vestida e olhou para ela, verificando se não o estava espiando.

— Isso é piada? Desde quando eu vou ter escutas na cueca?

— Xiiiu, quem falou em escutas? Você só tá colocando roupas para um passeio de barco.

Ela falou parecendo tentar disfarçar. Tiago fechou os olhos e balançou a cabeça negativamente tentando se controlar. Ele já tinha começado. Suspirou. Agora vai até o fim.

Com a roupa devidamente trocada, uma bermuda e uma camisa, ambas verde água, surradas, ele amarrou a sacola com as suas roupas e objetos e foi até Helena.

— Pronto.

— Deixa ver – ela pegou a sacola da mão dele e abriu, deu uma olhada e revirou para ver se o celular estava ali – olha, aquilo ali era um gravador, é?

Tiago fechou a cara, ela riu e amarrou o pacote olhando pra ele, debochando.

— Pronto, príncipe, pode subir na sua carruagem.

— Você vai mesmo insistir nisso?

— Olha, o que vou conversar é sério, então eu prefiro ter certeza absoluta que só eu e você ...

— Tá tá tá... – Tiago falou, pegando a sacola da mão dela e indo até o barco, alinhando ele no mini píer para poder sentar no que parecia ser a parte de trás, ou a “popa”, dele, deixando a "proa" para Helena, que olhava com cara feia para o transporte – Que foi? Não vai entrar? Ou eu vou lá e você me grita daqui as respostas?

— Muito engraçado. – ela respondeu engolindo em seco – Só não gosto de como isso balança. – ela olhou o barco de cabo a rabo analisando — Sem gracinha hein.

Tiago que estava irritado começou a ver graça na cena, e não resistiu.

— Vai ficar parada aí o dia todo? CORRE!

Ele fez o mesmo gesto dela de mais cedo, a chamando para o barco. Helena apenas olhou feio e ensaiou entrar de costas, colocando pé por pé enquanto tentava se segurar no chão do píer, fazendo o barco se afastar e os dois quase caírem. Por sorte Tiago segurou o barco e a ajudou a sentar.

— Ah, e melhor tirar esse coturno. Não é esperto entrar em um barco desse usando um sapato pesado. Se você cair é difícil nadar.

Ele agora se divertia com a situação. Ela olhou para os pés pensando no que ele disse. Pensou em não dar esse gostinho, mas teimosia e orgulho também matavam e ela gostava muito de estar viva. Tirou os sapatos e colocou de lado.

— Deu? Podemos? — ele perguntou.

— Podemos.

Ele a olhou levantando as sobrancelhas.

— O que, garoto? Leva essa coisa. Não tá vendo que nunca andei com isso?

Ele riu.

— E quem disse que eu sei?

— Tu sabe, tá na tua cara que tu sabe. Vai!

Ele a olhou firme e então bufou olhando para dentro do barco e ao redor.

— Cadê os remos?

— Remos?

— É, esse barco não se move com a força do pensamento, tem que ter remo.

Ela franziu a testa juntando as sobrancelhas enquanto pensava nesse pequeno detalhe. “Pescador safado me vendeu um barco sem remo!” Ela viu então algumas tábuas velhas meio soltas no mini píer, pegou um dos coturnos e bateu nelas até uma se soltar.

— Toma, teu remo. Agora vamos.

Tiago pegou o pedaço de madeira incrédulo. A garota era um teste mental constante. Novamente, já tinha ido longe demais para desistir. Ele então empurrou o barco para o rio, e começou a tentar remar com a tábua solta. Helena olhava para o rio temerosa. Eles já estavam há uns dez metros da beira do rio quando Tiago perguntou se já era bom. Helena olhou para umas arvores e balançou a cabeça negativamente.

— Ainda não. Pode seguir mais pro meio do rio, tem que ser bem afastado da beirada.

— Tá certo. – ele continuou remando – Só por curiosidade mesmo. De onde você arranjou esse barco?

Ela tinha a mão direita sobre os olhos para se proteger do sol, e usava a outra pra se apoiar no barco. Então o olhou analisando a pergunta.

— Tá vendo aquela arvore ali? – ela apontou para um lugar vazio na costa.

— Não tem arvore nenhuma ali. – ele respondeu depois de olhar atentamente e nada encontrar.

— Pois é, no tempo que você demorou pra chegar eu derrubei aquela arvore e construí o barco. Deu tempo até de ele apodrecer.

Tiago parou a encarando. Ela sorriu debochada. Ele balançou a cabeça para os lados e voltou a remar com maior força para chegar o mais longe possível.

— Pronto, aqui tá bom. – Helena falou quando já estavam há quase 100 metros do casebre – Vai!

Tiago finalmente fez uma expressão feliz naquela manhã.

— Ótimo. Primeiro, quem você realmente é? Por que eu não engulo isso de ser só a sobrinha da Helô querendo refazer as ligações familiares.

Ele colocou a tábua entra as extremidades e a usou como apoio enquanto se inclinava para a frente para fazer a pergunta. Helena o encarou, levantou a cabeça e coçou o rosto com a mão que protegia seus olhos.

— Ok. Você quer muito saber de tudo né?

Ele confirmou com a cabeça.

— Mas não pode. Nem eu sei. O máximo que você precisa e pode saber de mim nesse momento é que eu estou aqui sim pelos meus laços familiares.

— Isso...como assim você não pode me contar e nem mesmo sabe tudo sobre si mesma?

— Calma, porquinho – ela disse se inclinando pra ele – não esquenta a cuca senão vira toicinho.

Ele se irritou de vez se mantendo ereto, pegou a tábua a remar de volta pra costa.

— HEI! Não mandei você voltar. – Ela tentou se levantar para puxa-lo mas não tinha equilíbrio e jogou um dos coturnos nele. Tiago ficou ainda mais furioso e então ela pegou a sacola de pertences dele e abriu – Para se não eu jogo na água.

Na costa, escondido entre algumas arvores e observando os dois estava Valdir, que seguira Tiago até ali, conforme ordens de Tião, justamente quem agora ligava pra ele.

— Fala, Valdir, me ligou?

— Chefe, eu estou aqui vigiando o neto da Dona Mág, seu futuro genro, e ... – Valdir sorriu – olha que coincidência. Ele saiu bem cedo pra encontrar a sobrinha da sua senhora.

Valdir quase ficou surdo com o grito do outro lado da linha.

— O QUE? Que merda é essa Valdir? Onde eles estão?

— Então, é o fato mais interessante de tudo isso. Eles estão numa região perto da antiga chácara da família Leitão, num barco bem pobre de pescador, bem afastado da costa do rio, brigando.

— O que você tá dizendo? Explica isso direito.

— Olha, chefe, é o que dá pra explicar. O garoto chegou aqui, trocou a roupa boa dele por uma outra velha e saiu com sua sobrinha até não dar mais pra escutar nada do que eles falavam. Mas pelos movimentos deles, parece que estão brigando. Ela tá ameaçando jogar umas coisas pra fora do barco. Não parece um encontro amigável.

— Menos mal. Essa muleca já está passando dos limites. É mais perigosa do que eu pensava. Fique aí, eu quero saber cada detalhe desse encontro.

— Pode deixar, doutor. — Valdir levantou então seu celular para tirar algumas fotos.

— Você não se atreveria.

— Hahahahah – ela riu jogando a cabeça pra traz – você sabe que sim. Para logo ou os números de telefones das minas vão virar comida de peixe.

Tiago então tentou pular até ela, mas o barco desequilibrou e Helena deu um grito quase deixando tudo cair. Ele voltou a se sentar. Bufando.

— Já falei que é pra ficar calmo. – ela mantinha a sacola para o lado de fora do barco – O negócio é o seguinte; eu sou sim parente da Helô, meus interesses são sim minhas ligações familiares mas não só elas. – ela fez uma pausa, respirando fundo, esperando o susto do barco quase virando passar – Eu... o que vou te contar é bem sigiloso, e se você comentar, primeiro que ninguém vai acreditar em você, e segundo que nem eu mesma sei as consequências que pode ter. E acredite, podem ser bem sérias.

Tiago que fazia bico e olhava nervoso para ela, ficou ereto, alerta com o que ela disse.

— Certo, porquinho mansinho. Agora vamos conversar. – ela colocou as coisas de volta no barco, mas por precaução, atrás dela. Soltou o cabelo o ajeitando, tentando se acalmar e se inclinando para Tiago, falando em um tom de voz menor, continuou – Como você já deve saber o seu sogro é bem um desgraçado daqueles. Teu avô, que o coma o tenha, é mais santo que a santa que a sua avó finge ser... – Tiago se empertigou – quieto que tu veio aqui pra ouvir verdades, não reclama não! Como eu dizia... se juntar os bezerra e os leitão, não dá nem um churrasco de chepa. Carnes da pior qualidade, as gerações anteriores, claro. E quem muito bate, uma hora leva. E o Tião bateu feio em muita gente, inclusive em mim.

Tiago a escutava atentamente, segurando a tábua, se controlando. Helena observou os efeitos das palavras sobre ele.

— O fato é que agora tem gente preparada pra revidar. E essa gente, não adianta me perguntar quem – ela respondeu rapidamente ao ver ele abrir a boca – mantém contato comigo para que eu possa dar meus revides.

— Então você é parte de um plano contra o Tião?

— Sim e não.

— Claro! – ele disse irônico com um movimento de braços.

— Cuidado garoto, a ironia não lhe cai bem. O que quero dizer, é que de um modo amplo sou sim parte de um plano contra o Tião, o que eu só percebi ontem, mas de um modo restrito eu tenho meu plano de vingança. Não sei ainda como, só sei que eles me acharam para que eu pudesse ser mais uma bomba na cabeça do Tião. É só o que preciso fazer. Eles não me dizem o que fazer, apenas me dão as informações e dicas quando peço.

— E você vai se deixar ser usada?

— Sim e não.

Tiago revirou os olhos.

— Eu quero essa vingança ok? Mas não vou deixar ser usada. Então... eu vou fazer a minha própria garantia.

— Ah é, e qual?

Ela o olhou e deu um meio sorriso maldoso.

Foi a vez dele rir.

— Nem pensar.

— Você não queria saber como é que eu sabia sobre você e a Isabela?

Ele passou a língua pelos lábios nervoso.

— Olha aqui.

Helena pegou o celular, e mostrou as fotos dele com Isabela que Paulo havia mandado, tanto da noite do noivado quanto deles na rua, ela entrando no carro dele. Tiago a cada foto ficava mais nervoso.

— Como conseguiram essas fotos?

— Ótima pergunta, e é pra isso que preciso da sua ajuda, pra responder. Não era isso que você queria de mim? Saber como eu consegui informações sobre vocês e sobre a tal Isabelle?

— Isabela.

— Que seja.

— E eles podem te falar sobre ela, onde ela está? Eles podem investigar o que aconteceu naquela noite?

— Aí é que está o problema que nos coloca nesse barco furado, querido. Nunca me negaram qualquer informação sobre qualquer coisa. Mas quando eu perguntei da Isa, eles negaram! – ela o observou – É bem essa cara que fiz também. Ontem a noite quando perguntei dela me disseram que estava além do que eu podia. E nada está além do que eu posso.

— Então...? – Tiago parecia perdido.

— Então... eu sou a única pessoa que pode te ajudar a saber sobre a sua amante. – Tiago a olhou feio – Não há outro nome, querido. – Helena o encarou – E como eu te disse ontem a noite, para você ter as resposta que quer, tem que fazer o que eu disser.

— Pois lamento por você. — Ele se inclinou para a frente — Você pode até se deixar ser usada, mas eu não sou fantoche dos outros.

— Ô mais é hipócrita. Aprendeu com a vovozinha, é? E lá o que o Tião faz contigo não é manipular? Você não tá por acaso sendo usado de boneco? O Ken da Barbie doente? Me poupe, garoto!

Tiago tentou parecer ofendido, mas tem verdades que de tanto se lutar contra elas, uma hora se perde as forças. E ela disse algo que ele vem gritando pra si mesmo há muito tempo.

— Não me interessa. Sendo manipulado ou não pelo Tião, ao menos eu sei com quem estou lidando. – ele falou, erguendo o queixo.

— Sabe mesmo?

— Sei!

— Então tá. Fica assim... – ela é quem fazia bico furiosa agora – Segue com a tua vidinha de ilusão. Mas de agora pra frente, não me perturba mais com perguntinhas idiotas. Você merece bem a vida merda que tem. Não chega mais perto de mim.

— Pode deixar, que não vou pisar na cadeia pra te visitar não!

— Não me ameaça. Que não me escolheram pra bater de frente com Tião Bezerra à toa. Eu tenho bem mais na manga que um sorriso meigo e um celular com números importantes. É bom você...

— Eu não tenho medo de você.

— Outra prova de quão burro você é!

— Essa conversa acabou. – ele começou a remar de volta pra costa.

— Ela nunca existiu. – disse Helena o encarando.

Mas Tiago não se intimidou, estava determinado a entregar aquela bandida.

Helena bufava. “Como é que fui tão burra para acreditar que um maldito Leitão me ajudaria, ainda mais um tão idiota?” Ela respirou fundo. Tinha que se acalmar. Ele poderia dizer o que quisesse, nunca iam acreditar nele. Paulo montou uma ótima história com documentos e registros sobre ela. Além do mais, ela ia pensar em algo pra calar a boca do porquinho antes dele abrir ela. Sempre salvou a própria pele, não ia ser diferente agora.

Ela tentou relaxar. Colocou os pés para frente. Apoiou as mãos nas extremidades do barco e jogou a cabeça para trás, sentindo o sol no rosto. Já devia ser quase 11 horas. Estava forte.

Tiago estava concentrado no seu trabalho, mas parou por um instante quando a viu. Respirou fundo e quase pôde sentir aquele cheiro da pele dela, como na noite em que ela o atendeu na porta dos Bezerra. Voltou a remar com mais vigor, e tentou não olhar mais para ela. Quando já estavam a trinta metros da margem do rio, Tiago olhou para as próprias roupas.

Helena que agora já olhava pra frente seguiu o olhar dele e conteve um riso.

Ele franziu a testa.

— Você só pode tá brincando.

— É claro que eu tô brincando. – ela desatou a rir.

— Me diz que eu não troquei de roupa só ...

Helena se contorcia de rir.

— Ai... tu é muito besta, cara. Desde quando vai ter escuta na tua roupa? Tá se achando o 007?

Ela se abraçava para rir. Tiago estava puto com o quanto tinha sido idiota. Ela havia feito ele trocar de roupa só pra rir da sua cara. Furioso ele fez um movimento brusco pra balançar o barco, assustando Helena.

— Para – ela limpou uma lágrima no canto do olho – isso sim não tem graça.

— Eu acho engraçado.

Ele fez outro movimento, mas nessa hora Helena tentou se levantar para impedi-lo e acabou caindo na água. Tiago primeiro se assustou e então gritou:

— Tá vendo graça agora?

Helena lutava contra a água. Tentava emergir mas o desespero tomava conta dela. Ela não sabia nadar, tinha pavor de água. Sentia aos poucos a água entrando pelo nariz, pela boca, mal conseguia gritar por ajuda.

— Nem tenta, eu não vou cair em mais essa brincadeira.

Ele disse não dando importância para o desespero da outra, e voltou a remar. Mas começou a se preocupar.

— Alô, seu Tião. Não precisa mais se preocupar com a sobrinha da sua mulher.

— O que você quer dizer com isso, Valdir?

— É que seu futuro genro tá saindo melhor que a encomenda. Derrubou a garota no rio e agora tá vendo ela se afogar.

— O que? Tiago pirou?

— Mas não era isso que o doutor queria, a garota fora do caminho?

— Eu quero sim ela fora do caminho, mas desde que isso não envolva minha filha se casando num presídio. Faz alguma coisa pra evitar que esse muleque estrague meus planos de vez. Valdir? VALDIR? Desgraçado me deixou na linha.

Do outro lado da linha estava Valdir no chão, com um dardo no pescoço. Alguém se aproxima dele e retira o dardo. Pega o celular da sua mão, vasculha nele e olha em direção de Tiago e Helena, bem quando o primeiro vai pular para salva-la.A pessoa então se retira dali, correndo.

Tiago se desesperou quando notou que ela realmente não sabia nadar. Se levantou rápido e pulou na agua, virando com esse movimento o barco. Ele deu braçadas até ela e a puxou. Mas Helena estava desesperada, se debatia.

— Helena, para! Eu preciso... – ela quase o puxava junto pra baixo – Helena!

Tiago pegou os braços dela e puxou pra cima da cabeça dele, onde buscou com uma só mão segura-los, enquanto com o outro braço puxava Helena para cima do nível da agua, a enlaçando pela cintura.

— Helena! Eu não consigo com nós dois – ele tentava se manter emergido – você tem que me ajudar... se ajudar. Escuta, você precisa ficar calma.

Helena ainda se debatia, mas fez um movimento afirmativo com a cabeça enquanto tentava mantê-la fora d’água, olhos fechados.

— Me escuta. – ele tentava segura-la pra cima, a puxando mais – Você vai passar os braços pelo meu pescoço – Helena só concordava – e eu vou me virar. Assim, enquanto nado para a margem, você vem nas minhas costas. Você não pode me largar, ok?

Ela parecia mais calma e fez que sim. Tiago a olhou atentamente.

— Agora, faz um circulo com os seus braços.

Ela tentou abrir os olhos pra vê-lo. Mas não conseguiu. Apenas soltou seus braços da mão dele e fez o circulo. Do nada Tiago sumiu, foi para o fundo.

— Tiago?

Ele voltou de costas para ela.

— Me segura!

Ele tinha colocado a cabeça entre o circulo formado pelos braços dela e agora Helena ia sendo arrastada por ele até a beira do rio. Assim que pode se erguer, Tiago começou a andar, carregando, na verdade arrastando, ela, até deita-la no chão de terra, sob algumas arvores.

Tiago arfava. Se sentou do lado dela. A olhou e viu que não se mexia. Virou rápido e foi ver se respirava, sentir as batidas do coração. Mas não conseguia identificar nada. Se ajoelhou do lado dela e aproximou os lábios do dela.

— Nem nos seus melhores sonhos. — ela disse entre dentes.

Helena o parou colocando uma mão no seu pescoço. Abriu os olhos e então num movimento brusco se jogou em cima dele o prendendo no chão com o seu corpo, sempre com a mão no pescoço dele.

— O que você pensa que tá fazendo?

— Tentando te salvar? – ele disse acuado, segurando o braço da mão dela em seu pescoço.

— Depois de tentar me matar.

— Eu? Você caiu na agua sozinha.

— Mas é um dissimulado mesmo! Neto de porca, porco é.

Tiago se debateu furioso tentando tirar ela de cima. Mas num movimento que só podia ser de artes marciais, Helena, o mobilizou deitando o corpo dela em cima do dele, entrelaçando uma das pernas, e substituindo a mão no pescoço dele por um braço firme.

— Já te avisei, não tenta gracinha comigo.

Ele a olhou assustado.

— Entendeu o recado.

Ela soltou ele e começou a olhar ao redor, procurando algo. Não viu o capanga do Tião. Estranhou mas isso era bom.

— Sai de cima de mim.

— Ui, pra quem tava tentando me beijar até um minuto atrás.

—Sai!

Ela levantou o dorso mas continuou montada nele. Levantou os braços e deu um sorriso zombeteiro. Ele pegou ela pela cintura e puxou pra ele. Virou seu corpo sobre o dela e dessa vez ela é que estava presa embaixo do corpo dele.

“Outro revés! Esse porco maldito com cara de santo sempre me engana.”

Ela tentou movimentos com os braços mas ele prendeu os dois com as mãos dele. Tiago tinha o rosto a centímetros do dela. O rosto vermelho, lábios comprimidos, as gotas de agua escorrendo do seu cabelo pela face.

Helena engoliu em seco. Boca entreaberta, respiração difícil e olhar arregalado. Sentiu na hora uma falta de força pra lutar. E isso não era comum dela.

— E agora? Não vai pedir pra eu sair? – ele a desafiou.

— Não... tô bem confortável aqui. – ela devolveu, suspirando e revirando os olhos pra cima, desviando do olhar dele – Pode ficar.

Ela passou a língua rapidamente pelo lábio superior. Garganta seca.

Tiago bufou, levantou o dorso, ainda segurando os seus braços. Olhou um pouco pra baixo. Os furos na blusa branca perderam todo o sentido diante da visão que a mesma, molhada, fornecia. Ele ergueu a cabeça, e soltando ela disse:

— Nem nos seus melhores sonhos.

Helena suspirou quando livre. Fechou os olhos e depois o mirou com rabo de olho, irritada. Ele estendeu a mão pra ela, já estava de pé do seu lado.

Ela só deu um tapa na mão dele, e se levantou sozinha. Em pé, abaixou a cabeça, ficou tonta. Levantou muito rápido. Tiago se mantinha do lado dela, com as mãos na cintura. Helena olhou pra frente. Pro rio. O seu barquinho estava lá, virado. Inevitavelmente ela fez uma cara de lamento. Seu coturno preferido estava perdido, e dentro dele seu canivete.

— Ótimo. Minhas roupas de verdade se foram, e meu celular. E a minha carteira!

— Ô dó, e o seu gravador! – disse Helena fingindo lamentar.

Ele agiu rápido. A olhou sem paciência e a pegou pelo braço a puxando em direção da estrada.

— Que garoto grudento. Me solta porr..

Tiago parou do nada a fazendo esbarrar nele.

— Ih, cérebro pifou.

Ela então viu, na frente dele, o corpo do capanga caído. Até para ela aquilo era assustador. Helena ficou do lado de Tiago, e os dois se entreolharam.

— Você fez isso?

Tiago perguntou pra ela.

— Cê é louco? Quando é que eu ia fazer isso?

— Antes de eu chegar!

— Boa! Mas como eu faria isso se antes de tu chegar ele nem estava aqui?

— Como é que é?

— Me poupe, esse é um dos capangas do Tião. No caso é o que te vigia. Logo ele só chegou aqui com você ou pouco depois.

— O que você tá dizendo?

— Qual a surpresa? Não sabia que o Tião mantém seus alvos bem vigiados? Parece que não conhece tão bem o sogrão, né?

— Alvos? Se tem alguém que pode ser alvo dele aqui é você.

— Sim e não.

— PARA com essas resposta que eu odeio.

— Tá nervoso, dá um mergulho pra esfriar a cabeça. Aproveita e me traz o meu coturno de volta.

Ele foi pegar no braço dela mas ela já tinha desviado.

— Para de se fazer de idiota, garoto! Sim, eu sou um alvo do Tião, mas não, esse não pode ser o meu vigia. O meu era um tipo moreno, alto, que eu despistei desde a sua casa. Não sou besta de dar esse mole!

Ele novamente estava com o olhar assustado.

— Escuta.. – ela foi até o capanga para verificar se estava vivo – antes de eu vir pra cá me passaram uma lista dos empregados do Tião, os legais e ilegais. Nomes, famílias, fotos, e costumes. E esse aqui, parece ser o Valdir. Que por sinal é o mais lerdo. Chamo de gordinho. Que coisa hein porquinho, te deram o lerdo pra te vigiar. Eu me sentiria ofendida.

Tiago tinha agora a mão no rosto. Era informação de mais.

— Ele tá vivo? – Helena abriu a boca para responder e ele interrompeu irritado – E não me vem com “sim e não”.

— Nossa! Ele está em sono profundo. Deve ter sido atingido por um dardo tranquilizante. Olha ali um vermelho no pescoço dele. Preocupante...

— Sério? Você chegou nessa conclusão só agora?

— Olha, leitãozinho, eu venho de uma realidade em que os amigos dos meus inimigos, abatidos, são coisas boas. Mas aqui...

— Aqui...?

— Aqui não sabemos se foi um amigo ou outro inimigo que abateu. Uma coisa e você saber que tem o Tião na sua cola, dá pra controlar. Mas outra é ter mais alguém na cola do Tião, ou na sua cola e tirando o Tião do caminho. Ai – ela pressionou a mão na cabeça – é muita coisa pra pensar. Vamos.

— Pera aí, vamos deixar ele assim?

— É verdade. – Helena foi até o corpo e o remexeu procurando algo nos bolsos – Nada, só uma carteira – ela pegou e a abriu e retirou o dinheiro que tinha dentro mais cartão de crédito e alguns cartões profissionais de pessoas e empresas – quer saber? Vou levar a carteira. Por precaução.

— Você chama de precaução, eu chamo de roubo.

— Então é bom eu cuidar dos nomes dos nossos filhos né?! Você tem um péssimo gosto pra nomes. — ela falou se levantando, em tom sarcástico.

Helena saiu tomando a frente dele. Tiago olhou o corpo e coçou a cabeça. Depois correu até alcança-la.

— Espera! Eu falo sério, nós não podemos deixar ele assim!

— Quem disse? – Helena olhou firme para Tiago, parado a sua frente – Tiago, pensa bem. Esse cara tá te vigiando, sabe-se lá desde quando. Pior, ele pode estar te vigiando desde antes da sua boneca desaparecer. Já parou pra pensar que ele pode ter sido quem informou sobre seu caso com a coisinha, para o Tião? Que por sua vez pode ser o responsável pelo tal sumiço da garota?

Tiago parou um pouco para pensar. Olhou para o chão e depois para ela e fez sinal afirmativo com a cabeça. Helena sorriu e voltou a caminhar.

Ele correu, tomou a sua frente e pegou sua mão num aperto.

— Trato feito. Eu te ajudo, se você me ajudar a encontrar a Isabela.

Helena deu um passo pra trás e tirou a mão da dele. Tiago a olhou desconfiado.

— Acho que aquele nosso papo no presídio vai ter que esperar, né?