A sobrinha da Helô

1 Tiago conhece a Sobrinha da Helô


Notas iniciais
Capítulo com a visão de Tiago desta chegada.

Tiago respirou fundo, “agora lascou tudo mesmo”, pensou.

Leticia que já não o deixava respirar, sempre insegura quanto ao seu amor, e quanto a sua saúde, agora parecia estar ainda mais fragilizada com a situação calamitosa em sua casa.

É que se o relacionamento dos pais dela já não eram dos melhores quando Leticia estava doente, agora que se recuperou e o tio Pedro voltou para São Dimas, está ainda pior. Deixando Leticia irritantemente insegura, e ao mesmo tempo inspirando certo cuidado. Ele sentia a obrigação de cuidar dela, pois não queria ser o canalha, que além de não saber onde estava o amor da vida dele, que sumira depois de uma briga e poderia estar morta, ainda abandonava a noiva recém curada de um câncer em meio a uma tempestade familiar que não só envolvia o seu tio, como amor do passado da mãe dela, mas sua própria avó, como alvo de uma obsessão do pai de Leticia. E agora, ainda tinha essa prima louca que veio atribular ainda mais a relação familiar.

Helena, com “H”, como gostava de falar, entrou na família como um furacão, e de lá para cá se tornou o centro das atenções, inclusive da família Leitão.

A garota, segundo Leticia, chegou bem no dia em que, mais uma vez, sua mãe ameaçou sair de casa, desesperando a filha, que desmaiou. Quando a pousaram no sofá e Heloisa fora atender a porta achando que era um médico vizinho vindo ajudar, segundo relatara Leticia, que não sabia Tiago como mesmo desmaiada tinha visto a cena, surgiu na sua frente a tal Helena.

Todos esqueceram a situação de Leticia e imediatamente ficaram de queixo caído. Era a cara da mãe de Leticia há vinte anos atrás. Idêntica! Na casa deles tem fotos de Heôisa mais nova, que era modelo, em várias revistas, e, fora a pinta no queixo e o cabelo cacheado ombre hair, a garota era a mesma feição.

— Oi! Bom dia. Atrapalho? – teria dito a garota esticando o pescoço para olhar o interior da casa.

Todos calados, Heloisa pasma com aquela visão do passado na sua porta. Edu chegou na sala e deixou o copo de agua pra irmã cair, Tião nem mesmo sentiu a agua molhando os sapatos e Leticia acordou de vez do seu desmaio sentando no sofá pasma.

— Mãe? – disse Leticia assustada.

— O que? Que...como...quem é você?

Heloisa gaguejava diante da imagem a sua frente. Então a outra sorriu, e colocando gentilmente a mão no ombro da mãe de Leticia, disse em voz aveludada.

— Eu sou você do passado, e vim te ajudar a arrumar a sua vida.

Diante do olhar arregalado de todos a garota na porta gargalhou, e foi abrindo passagem por Heloisa para dentro da casa, se dirigindo até o sofá em que estava Leticia de boca aberta, passando a mão na cabeça raspada da menina como quem afaga um cão e se sentando do seu lado, jogando uma maleta e bolsas pro seu colo.

— Vocês são muito engraçados. Prazer, sou Helena, sobrinha da Heloisa.

A Helo moça disse isso levantando a mão para ser beijada, em direção a Edu, que a beijou cavalheiro e entrando na brincadeira. Helo ainda estava na porta, tentando assimilar. A garota estava num vestido tube preto, de couro, coturno e um batom vermelho que destacava os lábios naquele rosto de pele alva. E sorria desaforada. Podia ser muito parecida com ela, mas com certeza não era ela.

— Helo, que brincadeira de mal gosto é essa? – disse Tião apontando para Helena, que mexia agora no cabelo, o jogando para o lado e olhando pra “tia”.

— Não sei, mas vou descobrir. – ela saiu da porta em direção a suposta sobrinha – Explica isso direito, Helena, até onde sei nunca tive um irmão ou irmã, quanto mais uma sobrinha!

— Titia é do afronte, adoooro. – Ela falou olhando pra frente, para um Tião irritado. – Você não conheceu mamãe, mas eram muito parecidas, viu?

A garota puxou em uma das bolsas no colo de Leticia uma foto de uma mulher bem parecida com Helo e uma menina no colo.

— Vovô foi casado antes de casar com sua mãe, teve minha mamãe, se separou e casou com a sua mamãe. Como minha avó se casou com outro e se mudou pra longe de São Dimas, acabou que nunca mais houve contato entre as nossas famílias.

— Mas como assim? – disse Helo olhando a foto e indo sentar num sofá em frente as garotas – Eu passei todos esses anos achando que não tinha mais família, e tinha uma irmã?

Helena fazendo bico para engolir em seco, desviou o olhar de Helo e respondeu o mais seca que pôde.

— Pois é. Uma pena. Mas agora você tem eu! – ela falou então levantando os braços – e eu tenho você, tia.

A garota foi até Helo a abraçando pelo ombro, tentando ser carinhosa.

— Só temos uma a outra da família Martins, agora.

— E a sua mãe? – disse Helo levantando a cabeça e fungando.

Helena a olhou tentando conter a emoção.

— Morreu. Não tenho irmãos e meu pai é um desgraçado que me trocou por outra. – Helena disse isso com um ódio que desconcertou os demais.

— Sei! O que você está querendo dizer é que agora precisa do colo da titia, e veio se instalar com a parte rica da família. Que comovente!

Tião soltou o veneno, e Helena jogou o corpo para trás, cruzando as pernas.

— Só quero restabelecer os laços que o tempo e os percalços da vida romperam.

— Mas acho que já tá bem tarde pra isso, né? Minha mãe já tem a família dela e não precisa de ninguém mais – disse Leticia ciumenta e submissa ao pai.

— Bom, se não me querem aqui, vou embora! Vejo se arranjo algum barraco para ficar.

Helena disse isso se levantando bruscamente e se dirigindo até a porta sem pegar nenhuma das suas coisas. Já sabia o impacto que suas palavras teriam em Helô.

— Não! Espera. Eu não vou deixar você assim, ao relento, sem ninguém por você. – disse Heloisa se levantando e indo até Helena. – Você é da família sim, e vai ficar aqui conosco.

Tião e Leticia se olharam irritados e Edu sorriu para a mãe e prima.

— Vem, vamos ver um quarto pra você ficar.

Quando as duas saíram da sala carregando os pertences de Helena com elas, Tião e Leticia pareciam furiosos.

— Só o que me faltava, a mãe querendo enfiar essa louca aqui em casa.

— Antes ela querendo enfiar uma sobrinha perdida que ir embora, não acha? – disse Edu, fazendo os dois se entreolharem ao lembrar que antes da chegada de Helena, Helo estava indo embora.

Depois desse relato Tiago até entendeu como a tal sobrinha da Helo virou tão cedo o papo do jantar da noite anterior da sua família.

— Eu estou chocada! – dizia Magnólia para a mesa, em que estavam uma Vitória infeliz, um Ciro agoniado, uma Luciane exuberante, um Hércules irritado e suas netas animadas, quando Tiago chegou fora do assunto.

— O que foi? – ele sentou sendo servido pelas empregadas – O que chocaria a Senhora Magnólia?

— Ahh meu querido, não vale a pena falar...

— A sobrinha da Helo! – interrompeu Camila, animada – é a cópia upgrade e maravilhosa da Helô de vinte anos atrás. Sabe como nas fotos que o tio Pedro tem? Linda, Tiago, no melhor estilo modelo internacional da Helo. Acho que se bobear ela leva jeito. Parece ter classe. Enfim algo de animador na família da sua noivinha.

— Me dói dizer, mas tenho que concordar em parte com a Camila, a garota é linda e a cara da Helo moça. E interessantíssima. Parece ter uma historia de vida tão maravilhosa quanto a tia. Ar de guerreira...

— Agora já chega! – Magnólia se exaltou – Já é um absurdo a Ana Luiza ser fã clube da Helo original, agora se juntando com Camila pra fã clube da Helo do Paraguai é demais para o meu estomago.

Magnólia ensaiou sair da mesa quando Pedro chegou.

— Ótimo, outro para o fã clube. Vamos ver como vai ficar a sua cara quando vir a réplica roqueira e desaforada da sua Helo. – disse Magnólia saindo irritada da sala.

— Nossa, o que foi que aconteceu com ela hoje?

Pedro falou cumprimentando o pessoal da mesa e se sentando do lado de Tiago, negando o prato que a empregada ofereceu.

— Soube não? Só se fala nela em São Dimas! A sobrinha da Helo! – Camila tomou a frente de novo para explicar enquanto Tiago começava a comer sua salada – A garota chegou em uma moto preta, dessas de marca bem cara e potentes, vestido tube preto, coturno e jaqueta de couro, cheia de malas e bolsas, parou no meio da cidade e cumprimentou a vovó diante de toda a São Dimas no centro. Você tinha que ver Pedro!

— A gente tinha ido com a vovó a pedido dela para um desses eventos dela da igreja. E eu gravei! – Ana Luiza então se levantou e pegou sua inseparável vídeo câmera, indo sentar do lado de Pedro e mostrar para ele e Tiago o vídeo.

Nele se vê de inicio uma mulher de vestido preto tube que vai até o joelho, e uma jaqueta preta e coturno, descendo de uma moto Kawasaki preta com um monte de bolsa pendurada na sua frente e uma maleta amarrada na garupa.

— Dona Magnólia, que honra! Primeira pessoa que vejo quando chego na cidade.

— Olha – Magnólia começou a falar depois de rir fingindo humildade – é sempre bom ser reconhecida, até pelos turistas. Mas me diz minha filha, de onde me conhece?

É visível no vídeo o sorrido de Mag morrendo quando a motoqueira tira o capacete e estende a mão para cumprimenta-la.

— Eu sou a sobrinha do Helo, sabe? Neta do Jorge que morreu em uma tragédia, não sei se você lembra.

— Mas ora – Mag tenta disfarçar o nervoso – eu jurava que a família da Helo era só ela. Que bom. Bom ver que ela ainda tem os seus. Se me der licença agora, querida, eu tenho ...que irrr.

— É claro, Dona Mag. Vai pela sombra. É aquele ditado “fé no pai, que o inimigo cai” – disse a sobrinha da Helo abrindo um sorriso debochado e olhando desafiadora para Mag, que fechou a cara e seguiu com as carolas do evento.

E então Ana Luiza parou de gravar indo correndo conversar com a tal Helena a disputando com Camila.

Quando o vídeo parou, Pedro pegou a câmera e se levantou, colocando o vídeo de novo para ver, a feição atordoada.

— Olha, é parecida mesmo com as fotos da Helo nova – disse Tiago não mostrando muito interesse.

— Sim, e ainda mais poderosa – falou AnaLu animada.

— Sem contar que ela parece ser muito vivida. Deve ter rodado o mundo. E não é qualquer um que tem uma moto daquela, deve ter feito grana como modelo igual a tia. – emendou Camila.

— E como vocês sabem que ela é tão vivida? – perguntou Tiago com um meio sorriso enquanto tomava um gole de agua.

— Nós falamos rapidamente com ela. Coisa pouca. Ela estava indo pra casa da tia que nem conhece ela ainda. Imagina? Amanhã a festa pra comemorar mais sei lá o que da sua noivinha vai ferver. Finalmente uma festa animada na cidade! – disse Camila saindo da mesa.

AnaLu ria da irmã. Olhou para Tiago e se preocupou, o semblante dele voltou a ser sério.

— Que foi? Não gostou da novidade? Ou será que lembrou só agora da festa na casa dos Bezerra?

Ele respondeu com um suspiro.

— É mano...pelo menos amanhã você e Leticia não vão ser o centro das atenções.

Analu também saiu, e então Tiago notou que seu pai e madrasta nem estavam mais lá, e os tios saiam atrás de AnaLu. Pedro era o único na sala ainda com ele. A câmera de vídeo na mão, que AnaLu nem tentou tirar quando saiu, dando um beijo no tio atordoado.

— Enfim, a sós. – disse Tiago para o tio.

— Nossa. Isso é ...incrível, Tiago. É como ver a Helo..., ouvir a voz da Helo..., ver o brilho do olhar da Helo de quando a gente era jovem.

— É, tio?

— Sim. Mas... se eu entendi pelo que as suas irmãs disseram, ela é parente da Helo por parte de pai...

— E...?

— E ela reconheceu a Mag. Nossa, ela deve ter o mesmo ódio que Helo sentia pela família Leitão, que...bom, elas devem considerar culpada pela morte do Jorge.

Pedro concluiu isso sentando preocupado na cadeira da cabeceira da mesa.

— Ótimo, outra Martins odiando os Leitão. A perspectiva das reuniões de família só parecem melhorar pra mim.

O tio estava sorrindo.

— Que foi?

— É que se essa sobrinha tiver o mesmo gênio da Helo, Mag vai ter trabalho em dobro.

— Pois é. E Leticia também. – Pedro o olhou complacente – deixa eu ligar pra ela. Saber como está com tudo isso.

Tiago assim que ligou se arrependeu. Leticia descarregou todo um drama de a mãe ter quase ido embora, de uma prima louca ter tomado toda a atenção da casa e agora ela precisar ainda mais do Tiago.

— Vem pra cá, amor.

— Leticia... eu estou cansado e não vou conseguir resolver nada.

— Eu sei, mas preciso de você. Meu pai saiu de casa e minha mãe parece louca com a ideia de ter uma sobrinha, uma irmã que já tá até morta. O Edu é outro babando nessa intrusa. Eu tô sozinha, só tenho você.

Tiago fechou os olhos, e respirou fundo.

— Tá, estou indo praí, deixa eu só resolver umas coisas aqui.

Ele desligou, jogou o celular no chão e se jogou na cama, olhando pro teto, desanimado. Como ele foi se meter nessa enrascada? Não só tem os problemas dos Leitão, mas agora tem de encarar os dos Bezerra. E os seus? Como é que resolve!?

Sem perceber ele deu um leve cochilo. Então levantou assustado, Leticia devia estar há uma hora esperando por ele. Saiu correndo de casa.

Chegou na casa dos Bezerra, e começou a tocar a campainha enquanto tentava ligar para Leticia.

Qual não foi sua surpresa quando a famosa sobrinha da Helo abriu a porta pra ele usando só uma camisola preta, dizendo:

— Finalmente a comida chegou. Tava faminta!

E puxou Tiago pelo colarinho pra dentro da casa, fechando a porta atrás deles!