A sobrinha da Helô
2 As dúvidas da sobrinha da Helô
Helena observou Tião ir pela quinta vez na festa até Tiago e Leticia. A festa para ele era claramente uma reafirmação desse enlace, e uma forma de pressionar o bocó Leitão. “Coitado, parece mesmo não saber o covil de cobras que o rodeia”. Mas o mundo ensinou muito cedo para Helena que fraqueza é uma escolha que traz as consequências merecidas. O fraco tem o que merece. E ela não vai ser fraca!
Então Helena teve uma ideia. Claramente aquele enlace era uma forma de fazer Tião se aproximar de Mag, e até conseguir tentar tomar o que é de Fausto, além do que, ele faz assim o desejo da mimada irritante e a mantém dentro do bolso para usar sempre que quiser contra Pedro e Helo. A chave para conseguir desestabilizar Tião e acabar com seu plano contra Helo e Pedro era justamente acabar com esse noivado.
Helena, se encostou em uma parede e suspirou bebendo o resto da champanhe da taça, escondida pela escuridão daquele canto. “Que besta, mal cheguei e já estou me envolvendo com a Heloisa. Não posso, o que vou fazer requer frieza. Não há espaço para proteger Helo, tenho que pensar só em mim”. Mas daí ela lembrou do que aconteceu até ali.
Quando vira a placa de São Dimas nem acreditou. Anos tentando encontrar a sua família, e finalmente estava na mesma cidade que eles. Paulo, sempre conectado com ela pelo celular, a guiou até a região onde uma vez fora o casebre de Heloisa. Ali parecia já haver outras famílias, mas no final de uma linha de casebres tinha um resto de madeira queimado há muito tempo, já quase todo tomado pela mata. Ela se aproximou. Foi até o centro da estrutura, arriscando desabar com ela. Respirou fundo e tomou coragem para seguir com a sua vingança.
Quando foi chegando no centro, qual não foi a sua surpresa ao reconhecer a famosa Dona Mag? Não resistiu, teve que se mostrar. Como Paulo mesmo disse, com alguns retoques ela poderia facilmente se passar por um fantasma da Helo do passado. E isso com certeza era um pesadelo para Mag. As netas dela, filhas do Hércules, já conhecidas por fotos, logo a bajularam. Helena até pensou em ignora-las, mas é sempre bom manter aliados em todos os cantos. Elas, inclusive, deram a rota até a casa dos Bezerra.
Quando ela chegou na porta de entrada da casa, parou um instante. Reuniu forças e tocou a campainha. O que viu lá dentro foi totalmente diferente do que imaginava. Achava sinceramente que aquela seria uma família feliz, e que Helô teria filhos adoráveis, vivendo na sua nuvem de perfeição, cega ao que realmente acontecia ao seu redor. Mas a mulher que abriu a porta parecia triste, um resto de lágrima ainda nos olhos, desesperados e angustiados. No interior da casa, claramente um caos.
Ao final das apresentações e primeira inteiração com todos já vira claramente que a família de quatro pessoas era dividia em duas partes, Tião e Leticia e Heloisa e Edu. Pra ela uma facilidade, não é fácil sentir desprezo por alguém com a história igual a da Leticia, mas conhecendo ela de perto, e já estando curada, ficou muito fácil.
Saindo da sala, Helo a havia levado para mostrar vários quartos para ela escolher. Um mais aconchegante que o outro. Ela preferiu aquele mais próximo do quarto de Leticia, que por sua vez era próximo ao de Tião e Helo.
Helena jogou suas coisas sobre a cama, displicente. Começou então a andar pelo cômodo, com a mão nas cinturas, medindo tudo, erguendo o queixo para cada detalhe. Abriu o guarda-roupa. Espaço demais para o quase nada que ela tinha.
— Incrível!
Helena se virou para a porta, vendo um Edu sorridente, com a mão sobre o ombro da mãe. Ambos a olhavam fascinados.
— Que? – ela cruzou os braços e os encarou.
— Você olhando as coisas, medindo o ambiente, parece a minha mãe.
— Não é? Puxamos isso do meu pai, acho.
Helo falou isso abrindo ainda mais o sorriso. Parecia confortada agora. A tristeza sumia aos poucos do seu rosto.
— Vem, senta aqui – Helo foi até a cama e bateu num lugar ao seu lado – me conta mais de você.
Edu se encostou na porta, observando a interação. Helena cruzou os braços e não sentou.
— Sabe o que é? Estrada longa. Eu estou realmente muito cansada, grandes emoções hoje – ela tentou dar o seu sorriso mais simpático enquanto mexia no cabelo e molhava os lábios – eu acho que preciso de um banho e descanso.
— É mesmo mãe, parece que ela veio de bem longe e de moto. O motorista tava falando na cozinha que a garota encostou uma moto maneira, meio suja de barro. Acho que a prima custou a nos achar.
— É, eu tive que passar em uns lugares antes.
Helena olhou desconfiada para Edu.
— Bom. Que pena. Mas vamos ter muito tempo para conversar ainda. Se quiser alguma ajuda é só chamar.
Helo se levantou e, diante de Helena, ergueu os braços para um abraço.
— O que foi?
— Um abraço de boas-vindas. A essa casa e a nossa família.
Helena deu um passo pra trás. Sabia que não deveria ter qualquer mágoa contra Helo, ela era tão vitima quanto a própria Helena. Mas ainda tinha lá no fundo aquela dor do abandono. Mas ao mesmo tempo se ela se negasse a abraçar a anfitriã ficaria muito estranho. Então forçou outro sorriso, e abraçou Helo. O sentimento que cresceu dentro dela foi perturbador. Uma sensação morna subiu do estomago esquentando ela por dentro, embargando a garganta e ardendo os olhos em uma tentativa de explodir em lágrimas. Ela suspirou, e só então notou que estava de olhos fechados com a cabeça nos ombros da outra. Na porta, um Edu atento.
Helo a afastou e passou a mão no rosto dela, tirando para o lado o cabelo e admirando o seu rosto.
— Deixa eu ver uma coisa. Tira os sapatos.
Helena a olhou intrigada. Mas tirou os seus sapatos enquanto Helo tirava os dela.
— Olha só, somos até do mesmo tamanho. – ela falou se medindo com Helena e sorrindo.
Heloisa, com os olhos marejados, abraçou de novo Helena e então saiu do quarto rapidamente. Edu até seguiu a mãe de inicio, depois voltou.
— Bem vinda. Sério. Minha mãe tem passado por muitas coisas, faz tempo que não vejo ela feliz aqui nessa casa. Geralmente ela tem que fugir para Paraty pra isso.
— Sei como é.
— É? Vocês são muito parecidas mesmo. – ele deu uns passos pra dentro do quarto e falou baixo – Olha só, você tem pouca bagagem, mas uma moto da hora, meio estranho.
— É que a moto é roubada. – Helena piscou pra ele e colocou o dedo sobre os lábios num sinal de silencio.
Os dois riram e ele então saiu do quarto. Ela fechou a porta, jogou as bagagens de cima da cama para dentro do guarda-roupa, e se jogou na cama. “Droga”
Quando ia pensar em tudo que aconteceu, escutou a porta do quarto ao lado, de Leticia, fechar com força. Helena foi até o corredor espiar. Ninguém. Se aproximou da porta da mimada e tentou ouvir algo. Mas só ouvia lamúrias. Revirou os olhos. Ia saindo quando o telefone tocou.
— Oi amoooor – atendeu Leticia em tom pedante – eu to tão mal...
Helena ouviu a garota se lamentar com o que parecia ser o namorado, que ela já sabia era um Leitão. Ela reclamando da mãe, dela Helena, e pedindo para ele vir vê-la. “Que garota sem autoestima, credo! E ainda fica reclamando da mãe que tem.”
A garota então desligou. Helena saiu para o seu quarto e viu quando a outra foi para o corredor, encontrando Tião que vinha de uma aparente nova briga com Helo, muito injuriado.
— Pai. Tiago tá vindo me ver.
— Que bom minha filha. Diz pra ele que se quiser pode até dormir aí. Amanhã só tem que sair pra se vestir e voltar pro jantar.
Os dois riram. Helena da porta do seu quarto fez cara de vomito.
A garota saiu pelo corredor pra sala e Tião veio em direção ao quarto de Helena. Antes que a mesma conseguisse trancar a porta ele já entrava, a pegando sentada na cama, sem ar.
— O que foi?
— Nada, eu só estava arrumando as minhas coisas, me cansei.
— Sei. Escuta, menina – e Tião deu um passo na direção dela, diminuindo o som da voz – a Helo pode até gostar de ser enganada, mas eu não. Conheço o seu tipo. Não sei de onde exatamente você vem, mas sei que não vem por amor a família. Então, antes que se torne algo ainda mais desconcertante para a minha esposa, toma – ele jogou um gordo maço de dinheiro com notas de cem reais na cama dela – pega esse dinheiro e some daqui.
— Olha, tio, agradecida pelo dinheiro – Helena disse se levantando com o maço de dinheiro o jogando pro ar – vai me ser muito útil, mas, do lado da titia eu não saio não.
— Escuta aqui – ele então pegou Helena pelo braço, irritado – eu não sou alguém com quem se brinca...
— E eu – falou Helena o encarando e puxando o braço – não sou alguém que você compre ou manipule. Nem sou a sua esposa para você pisar, ou a sua filha – ela deu bastante ênfase as três ultimas palavras – para você usar.
Ele deu um passo para trás, desafiado.
— Então é assim? Vamos ver quem vence essa batalha.
Tião saiu porta a fora, e Helena riu com o bolo de dinheiro na mão. No corredor Leticia agitava algumas empregadas para preparar um quarto para Tiago. Então uma ideia surgiu.
Enquanto Leticia preparava o quarto, Helena arranjou a camisola mais sexy que tinha. Praticamente a única. Tomou um banho, se perfumou e de robe, foi até a sala esperar o tal namorado. Heloisa, que deve ter brigado com Tião para garantir sua permanência ali, senão o mesmo já a teria expulsado, estava no quarto, assim como Edu. Tião pelo visto saíra, e Leticia aguardava no quarto a vinda do namorado. E como esperou essa menina. Nem Helena imaginava um tipo tão à toa.
Quando Helena já cochilava, a campainha começou a tocar a acordando. Uma empregada vinha rápida atender a porta mas Helena a dispensou. Tirou o robe, e abriu a porta para um moço bonito que conhecia só de fotos. Pela terceira vez ela via olhares surpresos com sua presença. Tiago tinha em uma mão o telefone com Leticia o chamando na linha, e na outra o dedo em riste para apertar a campainha.
Só depois que ela o puxou que o garoto teve alguma reação, a afastando.
— Desculpa, você deve estar me confundindo...
— Não, não mesmo! Eu pedi um leitãozinho preparado no capricho, e chegou – ela falou isso mordendo os lábios e o puxando pra perto.
Tiago engoliu em seco, rindo de nervoso, tentou ignorar o perfume vindo daquela mulher, a perna pulando da fenda da camisola preta de cetim pra se colocar entre as pernas dele, e a pressão do corpo dela no seu, começando a acordar coisas.
Helena ria por dentro do jeito do garoto, tremendo perto dela.
— Olha – ele tentou afasta-la, segurando suas mãos e olhando nos seus olhos – eu acho que você tá cometendo um grave erro.
— Estou? — Falou Helena enquanto aproximava o rosto, boca entreaberta – que pena – ela então segurou a boca dele com a mão esquerda e olhou impaciente para trás, buscando no corredor a figura de Leticia.
Nada! Helena se empertigou e largou o garoto. A outra era lerda demais e Helena não estava afim de ir tão longe com o plano de irritar Leticia.
Tiago a olhou novamente abismado. Helena foi até o sofá e pegou o robe de volta, o colocando.
— Vai lá, leitãozinho, vai atrás da bezerrinha no quarto dela. Sem paciência pra casal de adolescentes virgens. E vê se acalma as coisas aí. – Helena disse terminando de amarrar o robe e rindo da situação de Tiago.
— Muito engraçada. – ele tentou se recompor jogando o corpo pra frente e as mãos nos bolsos da calça pra disfarçar o volume. – Então você é a sobrinha da Helô?
— Não! – Ela respondeu arregalando os olhos em tom sarcástico – Eu sou a Helô mesmo! É que meu creme antirrugas tá fazendo maravilhas...
— O que tá acontecendo aqui?
Leticia, finalmente no corredor.
— Ahhh não, é lerdeza demais pra mim.
Helena então deu as costas pros dois e foi até a cozinha, deixando o bocó com a faísca atrasada.
Quando ela voltou pra sala ambos já tinham saído. Ela então foi até a porta da bezerrinha escutar a conversa. Um remake do papo de mais cedo. A outra voltava a se humilhar por uma miséria de atenção, e o outro tentava acalmar ela. O interessante foi quando ele contou da impressão causada na família Leitão com a sua aparição. Mag irritada, ela quase pulou. E o coração falhou uma batida quando ele mencionou que Pedro ficou chocado, e disse que parecia estar vendo a Helo jovem. Depois disso ela resolveu ir para seu quarto tentar dormir. O dia seguinte seria ainda mais agitado.
E foi. Assim que Helena acordou, saiu pé por pé para não encontrar Heloisa e ter de contar sua vida. Precisava conversar com Paulo pelo telefone, pedir mais detalhes da vida que iria contar para aquela. Voltou quase no final da tarde, encontrando na sala o inicio dos preparativos do jantar de mais tarde, com um Tião detalhista no centro de tudo, organizando.
— Ahh, você está aí. Ao menos algo parecido com a Helo em casa hoje. Vocês duas até nisso são parecidas, abandonam a família pra fugir das responsabilidades.
Helena o olhou com desdém.
— Olha quem fala – murmurou.
— O que você disse? – ele questionou.
— Que horas começa a farra? – Helena respondeu alto como se ele fosse surdo – Me desculpe se falei baixo, esqueci que com a idade se vai perdendo a audição. Vou pro meu quarto me arrumar pro jantar.
Ela saiu deixando um Tião furioso.
“E agora? O que vou usar? Devia ter pensado antes nisso! Como foi me meter numa família dessas sem roupas para ocasiões assim?”
Quando Helena remexia suas coisas atrás de algo apresentável, Heloisa entrou radiante com um cabide envolto em uma capa de vestido, e várias sacolas nos braços, e Edu logo atrás com mais sacolas.
— Você chegou! Eu achei que ia te fazer uma surpresa. Vem aqui.
Heloisa jogou displicentemente as bolsas na cama, e puxou Helena do chão.
— Deixa ver. – Heloisa a girou a medindo – Perfeito! Parece o mesmo corpo do meu. Claro que eu dei uma ...alargada, mas vai dar certinho. Me desculpe querida, mas como você ficou fora a manhã toda eu tive que ir procurar alguma coisa pra você participar do jantar. Edu me ajudou – Heloisa falava sem respirar, animada. Edu ria da felicidade da mãe – olha só, tem esse vestido lindo, mas claro que comprei outras roupas, todos assim no seu estilo e alguns acessórios. Vamos, experimenta!
Helena a olhava assustada.
— Eu...não to entendendo.
Helo diminuiu o sorriso um pouco.
— Olha, você me perdoa, eu vi que você trouxe pouca bagagem, achei melhor trazer algo para o caso de precisar.
Helena tentou controlar a raiva diante daquela situação. A mulher invadiu a sua privacidade. Mas parecia tão feliz com isso, não houve coragem de brigar.
— Certo... – Helena abaixou a cabeça – vamos ver então!
— Tem certeza? – Heloisa a olhou desconfiada – Eu posso levar tudo isso de volta se você se sentir desconfortável. Eu sei como é, nunca gostei dos outros querendo me dar coisas ou dizer como me portar. Eu realmente só quero ajudar.
Helena suspirou e deu um sorriso.
— É claro, tia. Eu adorei. Estava mesmo pensando no que usar. Vamos ver o que temos aqui.
E as duas olharam e se maravilharam com as provas de roupa. Escolhida a roupa, Heloisa foi se arrumar e deixou Helena ali, pensativa. Pensamentos que a perseguiram durante toda a festa.
Era pra ela estar focada em analisar todos ali, afinal estavam as pessoas que mais importavam. Mag, Hércules, Tião e Leticia. Mas a imagem da Heloisa com ela aquela tarde, como parecia feliz, longe do Tião...ela precisava ajudar ela a se livrar daquele traste. Talvez isso ajudasse ainda mais no plano, se é que ela já tinha um plano bem definido.
Ela abriu os olhos e viu do outro lado da sala um Tiago desconfiado a observando.
Metade da festa a encarou aquela noite. Todos com “nossa como você é parecida com a Helo”. A tal da Gigi até disse que poderia leva-la ao mundo da moda assim como fez com Helo, com uma clara aprovação de Tião pela oferta. Mag a ignorava. Camila e Analu quase a seguiram a noite toda, com mais umas duas ou três amigas. Leticia a fuzilava com o olhar sem qualquer cerimonia, o que a deixava muito feliz. Helo é que se mantinha afastada de todos, indo apenas abraçar a filha de vez em quando. Helo parecia mais visita que as visitas naquela casa.
Era isso, Helena estava decidida. Iria acabar com aquele noivado, e conseguir alguma paz pra Helo. Quem sabe assim ela não conseguia logo se separar do Tião?
Tiago olhava cada passo da sobrinha da Helô. Depois da noite anterior, sabia que era preciso manter a garota vigiada. Ela claramente tinha algo contra Leticia e queria prejudica-la. Assim, estufou o peito e abraçou a noiva pelo ombro quando a prima dela se aproximou deles.
— Oi! – disse Helena sorrindo para os dois.
— Oi – ele respondeu com um meio sorriso rápido.
Tião se afastara deles, apenas Camila e Analu escutavam o papo dos três.
— Então, vocês são aquele tipo de casal, né? – ela falou apontando a taça pros dois.
Leticia que estava de cara virada pra ela, a olhou intrigada.
— Que tipo de casal? – a Bezerra perguntou enquanto o Leitão olhava firme para Helena.
— Aquele tipo de casal que combina tudo. Roupa, acessórios, corte de cabelo.
Helena encerrou a frase mórbida com um sorriso. Camila gargalhou. Analu arregalou os olhos e Leticia começou a tremer.
— O que? – Helena fez cara de inocente.
Analu a puxou de lado.
— Leticia teve leucemia, passou por quimio, o cabelo tá assim por isso.
— Meu Deus, que mancada a minha. — e saiu de perto deles atrás de outra taça.
Leticia pediu para sentar, e Tiago a deixou em um sofá. Quando voltou para perto das irmãs, Helena já tinha sumido.
— Cadê aquela imbecil? – ele questionou as irmãs, tentando controlar a raiva.
— Calma, Tiago, ela não sabia da doença da Leticia, falou sem querer. – Analu tentou acalmar o irmão.
— Uma ova! Ela não me engana.
Ele saiu então a procura da garota pela festa. Foi quando a viu ir na direção da cozinha e a alcançou no corredor. A puxou por um braço.
— Ei! Você derrubou a minha bebida!
Ela brigou tentando limpar o champanhe do vestido preto, que delineava as suas curvas e tinha uma generosa fenda que mostrava uma das pernas, muito parecida com a camisola da noite anterior.
— Calma aí querido.
— Calma nada. Já entendi o que você quer aqui, garota, e não vou deixar!
— E desde quando você lê mentes, leitãozinho?
— Sem gracinhas, o recado é esse: não se mete mais com a Leticia, se afaste dela e pare de perturba-la.
— Que horror – ela disse colocando a mão vazia sobre o peito – olha só o que você está falando. Tudo o que eu mais quero é o bem estar da minha priminha recém curada. Sonho todas as noites com a alegria nessa casa depois que vocês casarem e darem um monte de porquinho e bezerrinho.
Ele aumentou a força do aperto no braço dela, a irritando.
— Ok. Recado dado. Recado recebido. Recado ignorado. Você vai ter que comer muita ração antes de me dar ordens, porquinho. Agora me solta antes que você se ar...
— Antes que eu o que? – ele a puxou pra perto desafiador?
Ela sorriu, vendo no final do corredor Leticia se aproximando.
— Me solta! — gritou Helena fingindo desespero.
E Helena largou a taça da mão segurada por Tiago e puxou ele pelo colarinho num beijo forçado o borrando com seu batom. Fingindo estar sendo atacada por ele. Ela se soltou então e o empurrou. Tiago com os olhos arregalados. E uma Leticia logo atrás não muito diferente.
— O mínimo que você deveria ter era respeito pela sua noiva.
E então Tiago notou Leticia atrás dele, desesperada.
Helena se ergueu, colocando a mão na boca segurando uma risada pela cena. Como Leticia gostava de fazer drama. E Tiago tinha verdadeiro terror dela!
Ele se aproximou dela, tentando se explicar mas ela gritou com ele.
— Sai daqui! Pai, pai... — ela mal começou a gritar e Tião já surgiu correndo pelo corredor.
Tiago ficou ainda mais desesperado. Então veio mais convidados e uma Helo agoniada com os gritos das filha.
— Meu Deus, o que foi, filha? — Helo se ajoelhou do lado de Tião para segurar Leticia.
— Ela mãe. Tira ela daqui! Tira ela daqui! — Leticia apontava para Helena, que agora arregalava os olhos para a situação.
— Mas o que foi? Minha filha, o que aconteceu? O que a sua prima fez?
Heloisa perguntava tentando parecer calma mas olhava nervosa para Helena, que começava a se desesperar. "Como é possível que essa garota veja o que era um noivo me agarrando e ainda me culpe? Por mais culpada que eu seja, isso tá errado!"
— A Helena, Helô, me agarrou, e a Leticia viu.
Dessa vez o queixo caido foi de Helena. A cria de Dona Magnólia mostrando as garras. Colocando toda a culpa nela. De novo, por mais que ela tenha culpa, ele também teve participação, não? "Olha o jeito como ele contou?"
— Não, isso não é possível! — Heloisa falou negando — vocês interpretaram ela mal.
— Não mãe, eu vi. Olha a marca de batom dela no Tiago.
— Mas ...ele pode ter beijado ela a força filha.
— NÃO MÃE, foi ela. Tira ela daqui. — Leticia gritou fixando depois o olhar frio em Helena.
"Filha do Tião" pensou Helena.
— Isso é sério? Todos contra mim? — falou Helena, se vitimizando.
— Ora me poupe! — Tião se levantou — Olha o circo que você montou. Nem a Heloisa pode te defender disso. Sai da minha casa, agora.
Ele a pegou pelo braço a carregando entre os convidados. Helena viu o olhar e sorriso vitorioso de Magnolia e seu estomago embrulhou ainda mais.
Tiago, AnaLu e Helo eram os únicos a olhar padecidos da cena.
Mas o primeiro logo voltou sua atenção para Leticia. Se ajoelhou perto dela.
— Vem cá amor. Te levo pro quarto.
A menina empurrou a sua mão.
— Pode deixar, a minha mãe me leva.
Heloisa então os olhou incrédula.
— Leticia, por que você não quer seu noivo com você?
— Não é isso mãe. É que quero você comigo.
Ela fez cara de frágil e convenceu a mãe a leva-la pro quarto. Tiago voltou pra festa com os outros convidados. AnaLu o olhando com dó.
— O que aconteceu lá atrás, Tiago?
— Nem eu sei, Analu!
Minutos depois Tião passou pela sala, arrastando a sobrinha da Helo, que agora vestia uma jaqueta de coro, e trazia um capacete e bolsas penduradas. A garota parecia se controlar diante da humilhação.
— Me solta! — ela parou Tião no meio da sala. — Eu sei o caminho. E vocês, o que estão olhando? — ela se aproximou dos convidados — muito felizes com suas champanhe, né? Tudo fruto de muito roubo e falcatrua tá! Do mesmo lugar que deve ter vindo o dinheiro de vocês!
— Mas o que é isso, essa menina está descontrolada! — se manifestou uma Magnólia ultrajada.
— Descontrolada não, Dona Magnólia! Estou plena nas minhas razões. Os que fogem a realidade aqui são vocês — com o nariz vermelho e um ar de superioridade enquanto lágrimas de raiva correm pela face, Helena continuou seu discurso sendo segurada por Tião — mas não se preocupem não... ou melhor, se preocupem sim! Porque eu vim pra expor a verdade e fazer JUSTIÇA!
Ela gritou a ultima palavra, se soltou de Tião e saiu pela porta como uma ventania, que bagunçou toda a sala.
Magnólia e Venturini pareciam duas velas diante da cena que viram. Tião, mesmo contrariado, se mostrava feliz de finalmente ter se livrado da sobrinha da Helô. Tiago porém sentia uma repentina admiração pela garota que vira desafiar todos na sala. Heloisa, parada a no fundo da sala, com uma Leticia de mesma expressão do pai, mostrava claramente a perturbação pela cena. Edu se aproximou da mãe para ajuda-la a levar a irmã até o quarto.
Na rua, Helena colocou as bolsas no pescoço e amarrou sua maleta na garupa da moto roubada. Tião já havia mandado colocarem a moto dela pra fora do portão, até onde os seguranças a acompanharam. Humilhada e consciente de que a observavam pelas cameras de segurança, Helena ia colocando o capacete quando ouviu alguém vindo por traz dela.
— Helô?...Desculpa, Helena?
Da raiva Helena foi a surpresa. Lívida ela viu Pedro se aproximando. O seu pai!
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