A sobrinha da Helô
3 As origens da Sobrinha da Helô
Tiago chegou em casa por ultimo. Depois do que a sobrinha da Helô aprontou, a festa não levou nem uma hora para acabar. Leticia ficou no quarto com a mãe dela, até Tião começar a se despedir dos primeiros convidados, Venturini e Magnolia. Heloisa chegou a voltar para a festa, mas parecia com a cabeça em outro lugar, e não era no quarto com a filha. Devia estar pensando na sobrinha. E com a cabeça longe ela foi se despedindo dos demais convidados junto com Tião, até sobrar só Tiago.
— Então garoto? Vai querer dormir aí? – perguntou Tião para ser amigável.
— Não, obrigado. Eu só quero mesmo ver como a Leticia está e já vou embora.
Tiago olhou para Tião e Helo, que desviou o olhar.
— Ela tá no quarto, posso ver se quer falar contigo.
— Não precisa, Helô, eu vou lá assim mesmo.
Ele foi até o quarto da namorada e deixou os sogros na sala, em um clima pesado. Mas não ouviu qualquer briga até entrar no quarto.
Chegando no quarto, ele caminhou até a cabeceira da cama de Leticia, tentando perceber se ela estava dormindo ou fingindo dormir. A primeira opção parecia ser a correta. Ele então se levantou e foi saindo devagar.
— O que você viu nela? – Leticia perguntou assustando Tiago.
— Nossa, eu jurava que você tava dormindo. Desde quando finge tão bem?
— Não foge do assunto.
Ela então se ajeitou na cama, se sentando e abraçando os joelhos em posição de birra.
Tiago respirou fundo.
— Eu não vi nada nela. Nessa noite – ele foi até a beirada da cama e tentou passar a mão no rosto dela – eu só tinha olhos pra você.
— Não faz isso, Tiago, eu percebi você a seguindo com o olhar a noite toda.
— Eu estava me assegurando que ela não iria tentar nada contra você. E no final ela conseguiu te perturbar, e ainda me usou.
Ele disse a ultima frase se virando pra frente, comprimindo os lábios com raiva.
— Você jura? – Leticia então voltou a sua posição normal de humilhação, se pendurando no pescoço de Tiago.
— Juro. – ele passou a mão no braço que rodeava o seu pescoço – Eu só tava pedindo pra ela não se aproximar mais de você, de parar de te incomodar. E daí ela deve ter te visto e me agarrou. Mas em nenhum momento eu... não tenho qualquer interesse nela.
— Awwnn.. Tiago. Desculpa. Eu ando tão insegura. Minha mãe só falava dessa menina desde que ela chegou que achei que até você eu ia perder pra ela.
Leticia o apertou mais.
— Não se preocupa, eu nunca me interessaria por alguém assim, que busca o mal, é invejosa – ele agora acariciava o queixo da noiva – que coloca as próprias vontades acima dos ao seu redor.
Leticia sorria feliz com o carinho, mal ouvia as palavras do noivo.
— Que bom. Pena ela ter estragado a nossa festa. Mas ao menos agora ela se foi de vez.
Tiago sentiu a raiva e satisfação na voz dela.
— Você não gostava mesmo dela.
— Não mesmo. – ela voltou a abraçar os joelhos.
— Espera um pouco, Leticia, se você tava com duvidas se eu estava interessado na sua prima, porque disse pra sua mãe que foi ela que me agarrou?
A garota arregalou os olhos rapidamente e então tentou disfarçar enquanto inventava uma desculpa.
— Não sei...
— Leticia, você não fez toda aquela cena só para mandarem a sua prima embora, né? – Tiago se levantou.
— Nãããão – ela também se levantou e o abraçou – É que eu só fiquei em duvida depois que ela foi embora mesmo. Mas na hora eu sabia que você não tinha feito nada.
Tiago suspirou tentando acreditar na noiva.
— Certo. Bom, já passou da hora de eu ir. A senhorita agora – ele fez sua voz carinhosa – vai se deitar e descansar para estar bem forte amanhã.
Ela sorriu e deu um beijo nele antes de voltar pra cama. Tiago saiu do quarto e quando ia chegando na sala, Helo o parou.
— Hora da nossa conversa.
— Nossa conversa?
— É, sobre o acontecido hoje a noite. Eu sei que a Leticia confia cegamente em você, Tiago, mas eu sei que você não é tão fiel e apaixonado como diz que é. Me conta, o que aconteceu entre você e minha sobrinha.
— Olha, Helô, eu te respeito muito. Só imagino o que você está passando ultimamente, e como deve ser ter de mandar embora uma parente que você nem sabia que existia, mas já parecia tão apegada, mas eu não posso dizer o que você quer ouvir. A sua sobrinha me agarrou sim, e digo mais – ele deu um passo a frente – na noite anterior ela me atendeu só de camisola e ficou só esperando pela Leticia aparecer para poder provocar a mesma.
— O que você tá dizendo?
— Isso mesmo. A Helena não é a santa que você pensa. Ela queria o mal da Leticia.
— Tiago, você percebeu que acabou de dizer que alguém que nem te conhecia ou sabia do seu relacionamento com a Leticia, montou uma armadilha? Me diz, como é que ela sabia que você era quem ia atender a porta?
Tiago parou estático um instante percebendo como a situação toda era sem sentido.
— Exatamente. Não tinha como. Olha, Tiago, quem vai fazer o discurso do “eu gosto muito de você” agora sou eu, mas pra te deixar avisado que não confio mais em você. Não depois do que aconteceu aqui hoje. E é bom você não tentar usar a Leticia para me comover quanto as suas atitudes, eu convivo com um chantagista emocional, estou vacinada contra o tipo.
Ela então se virou e foi caminhando para a porta do seu quarto, mas parou, voltou, e levantando o dedo disse:
— Ah, e torce para que eu encontre a Helena sã e salva, porque se algo acontecer com ela, você vai ser o responsável!
Com essa bomba que pipocou na cabeça do Tiago o caminho todo até em casa, Helô se retirou.
Tiago entrou pela cozinha, encheu o copo de agua e não tomou. O pousou na pia de volta e balançou a cabeça negativamente “ não é possível que agora eu vá me sentir culpado pelo erro daquela garota.”
Ele foi até a sala, a TV ainda ligada. Ele pegou o controle, desligou e se jogou no sofá, no escuro. Distraído, só quando o vulto vindo do outro lado do sofá já estava cara a cara com ele é que notou a sua presença.
— Pensando em mim, porquinho? – falou Helena, com um olhar tal qual a cobra que encurrala o rato.
Tiago deu um pulo e saiu do sofá. Enquanto Helena se jogava no mesmo, gargalhando e tentando não fazer muito som.
— Você tinha que ver a sua cara de espanto. Ela é a melhor. Nunca vou me cansar de te assustar.
Ela falou baixo quando parou de rir, ficando de joelhos no sofá, apoiando os braços no braço deste para ficar com o rosto bem próximo dele e assim o mesmo escutar, enquanto Tiago já estava mais sério, com as mãos na cintura olhando pra ela.
— O que você tá fazendo aqui?
— Você quer a longa história, a curta, ou a verdadeira?
— Para – ele bufou – conta logo.
— Resposta errada.
Helena perdeu o interesse nele e voltou a sentar no sofá, procurando o controle, e ligando a TV. Ele se empertigou, tirou o controle da mão dela, e a puxou pelo braço.
— Não importa como você entrou aqui, vai sair.
Ela puxou o braço e se soltou dele.
— Tá loco playba? Tá achando o que? Que sou a sua noivinha que se faz de morta ou a garçonete besta que tu controla na pressão? Comigo não ouviu, garoto – ela falou isso levantando o dedo e aproximando ele e o rosto do de Tiago – não sou as menininhas que você faz de boneca.
Tiago tinha os olhos vermelhos de ódio. A pegou pelos braços.
— Como você sabe da Isabela? Quem é você? O que quer de mim? Onde ela está?
Helena ficou surpresa com o efeito das suas palavras no garoto, e pela primeira vez ficou com medo.
— Mas o que é isso? Larga ela, Tiago! – gritou Pedro, se aproximando dos dois e empurrando Tiago pra longe dela.
Salvando assim a pele de Helena pela segunda vez naquele dia. Na primeira ela mesma nem queria. Agora suspirou aliviada.
Quando Pedro apareceu a chamando pelo nome da mãe, Helena congelou. Não estava preparada para aquele encontro. Não estava nos planos encontrar Pedro até confirmar suas origens e iniciar a vingança pelo que aconteceu há mais de 20 anos atrás. De fato era para Pedro estar o mais distante possível do seu plano. Por mais que afetasse Helo, não poderia afetar Pedro.
Mas ali estava ele, com um grande sorriso. Seria possível que ela não fosse filha dele? O mundo não seria cruel duas vezes com ela e no final ainda ser filha do Tião!
— Oi? – ele se aproximava a passos lentos, cuidadoso – eu me chamo Pedro, sou...
— Eu sei quem você é...
Helena respondeu ainda abalada, balançou a cabeça para os lados tentando afastar os pensamentos. Ela então olhou para a moto e o capacete em suas mãos.
— Eu não cheguei em um bom momento, né?
— Não para mim.
— Pena. Eu estava justamente esperando a oportunidade de entrar e conversar com você. Ouvi falar muito de você. Meu sobrinho, Tiago...
— Ahh é, ele é seu sobrinho. – sua raiva voltou – olha só, agradeço o carinho dos fãs, mas eu preciso achar um lugar pra ficar, porquê acabei de ser expulsa da casa do que era pra ser a minha família por culpa de um membro da sua família. Então, se me der licença...
Ela colocou o capacete e pulou na moto. Pedro acelerou os passos e a alcançou, colocando a mão no seu ombro.
— Espera. Não vai. Eu não posso deixar você ir assim. Primeiro que se isso é culpa de alguém da minha família e eu me sinto responsável a reparar. Segundo que eu me sentiria muito mal de deixar um parente da Helo desamparado. E terceiro, conheço bem a Helo, ela não deve ter aceito a sua partida, e com certeza amanhã vai te procurar. Melhor você estar onde ela possa te encontrar.
Ele falou isso olhando nos olhos de Helena. Que tentou não se afetar com o gesto e as palavras, claramente preocupadas com seu bem e da Helo. Mesmo longe dela, os pensamentos dele ainda são por ela.
Como ele reagiria se soubesse que há a mínima chance de ele ser o pai da filha da Helo? E que por receio dessa mísera chance, Tião trocou a filha da Helo, mandando pra longe do seio da sua família uma neta de Fausto, sem Helo saber, fazendo a mesma criar uma filha que não é sua?
Ele ficaria mais furioso pelo mal feito a filha, ou a própria Helo? Ou a ele que perdeu a chance de ver a filha crescer?
— Para ..- Helena falou baixinho pra si mesma. Pedindo que todas as emoções e perguntas se calassem dentro dela. Não era inteligente se deixar levar por esses conflitos agora.
— O que?
— Nada. – Ela disse respirando fundo e ligando a moto – Eu sinto muito, mas cuido do meu próprio caminho.
Ela girou a chave na ignição para dar a partida na moto e nada aconteceu. Estranhou. Tentou de novo, e nada. Pedro que não se afastou dela, e agora estava do lado do guidom e de frente para ela olhou os marcadores da moto.
— Parece que está sem gasolina.
Desgraçado! Tião mandou tirar a gasolina da sua moto para ela ter de ir embora a pé, humilhada ao máximo. Dessa vez a raiva esquentou o sangue de Helena de modo que, como sempre acontece, ela não mediu nada!
— É. Acho que fiquei sem escolhas. – ela disse saindo da moto – Pra onde vai me levar?
Ele sorriu, e, seguindo em direção ao seu carro parado atrás outros na rua, foi explicando que a pensão da famosa Zuza estava lotada, mas tinha um quarto livre na casa de sua família, que inclusive uma vez fora refúgio da sua falecida cunhada, Carmém.
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