A sobrinha da Helô
14 Se acertando com a Sobrinha da Helô
Tiago saiu cedo e chegou tarde por uma semana, falando com quase ninguém na casa, para alegria de Magnólia.
Tentou sair com Marina, que insistia em não assumir que era Isabela. Até que ele se encheu. Isabela ou não ele não sentia qualquer afinidade agora. Essa Isabela era diferente da outra, talvez fosse mesmo uma irmã gêmea, porque era distante, paranoica, e às vezes fria.
No dia em que ele resolveu por fim aquela enrolação, Tiago chegou em casa deprimido, já era mais de uma hora da madrugada. Ficara conversando com Antonio em bar, pensando na situação dele.
— Vai pra casa amigo.
— É, hoje o dia foi péssimo.
— Hoje? Tiago, aquela fábrica vem te matando há dias.
— Está tenso lá mesmo, não há o que eu faça que mantenha os compradores, novos ou antigos, eles somem antes de encerrar qualquer compra. Mais isso com a Marina, barra, Isabela...
— Me desculpe meu amigo, mas você me parecia muito mais perturbado quando estava tentando resolver isso, do que agora que finalmente esclareceu.
Tiago nem olhou Antonio.
— Melhor eu ir para a casa.
— É, vai mais cedo hoje. Manda beijo para a Helena por mim. Se ela já estiver falando contigo.
Antonio se encostou na cadeira e pegou o seu copo de cerveja, bebendo e olhando para o amigo, que apenas o olhou de rabo de olho, jogando dinheiro em cima da mesa.
Tiago entrou pela cozinha vazia, suspirou. Pegou um copo de água e bebeu. Caminhou da cozinha até a sala de estar com a cabeça baixa. Chegou lá e viu uma sombra no sofá. Sorriu.
— Daí maninha, sem sono hoje?
Ele foi até AnaLu no sofá e beijou a testa dela, se sentando da outra ponta do sofá, no lado esquerdo.
— Pegando seu costume.
— Como sempre, sou uma péssima influencia.
— Para. – ela empurrou o irmão que estava a só 30 centímetros de distancia – Você é muito boa gente, quando não está apoiando as loucuras da vovó.
Ele apertou os lábios e olhou para ela, com cara de arrependido.
— Pegou mal mesmo para mim aquilo, né? Camila não fala mais comigo também.
— Também não, que eu ainda falo contigo. E outra, você não tem conversado com ninguém da casa nos últimos dias.
Ele a olhou pensando e então concordou. Não era AnaLu a quem ele se referia com o “também”.
— O que foi maninho? – AnaLu se ajeitou perto dele, colocando as mãos no ombro do irmão e apoiando a cabeça ali, o observando – Você anda tão sério, meio triste. Isso é só a tecelagem ou tem mais?
— É... – ele suspirou – A tecelagem vem me tirando o sono mesmo. Mas não sei se é só isso.
— Isabela?
Ele parou um pouco e então balançou a cabeça positivamente, pensativo.
— Força maninho, vocês vão se acertar.
Ele balançou a cabeça negativamente.
— O que foi?
Tiago puxou o ar enchendo o pulmão.
— Eu matei a Isabela, AnaLu, naquela lancha, naquele dia. Essa que tá aí não é ela. É outra – ele franzia a cara mostrando seu inconformismo – amarga, vingativa, que só olha o lado ruim das pessoas, meio focada nela mesma, sabe?
— Como assim? – AnaLu não entendeu de primeira, porque de inicio sempre achou Isabela um tanto desgostosa com a própria realidade de cursinho e serviços para pagar o próprio sustento, algo que gente corrupta conseguia enganando os outros, como o seu avô fazia – Digo – ela tentou se corrigir – o que ela fez agora?
— Nada. Isabela mantém o papo de que é Marina. De que é irmã gêmea da Isabela, e que são pessoas diferentes. Que podemos até tentar algo novo, mas que tenho que entender que não é com Isabela. E ainda vem dizendo que é algo complicado para ela, porque o cara que matou a irmã dela ainda tava solto, e poderia vir atrás dela se ela ficasse comigo. Porque no fim das contas tudo aconteceu por minha causa.
Tiago desabafou gesticulando com as mãos no ar.
AnaLu levantou as sobrancelhas rapidamente e suspirou, se afastando do irmão, colocando o cotovelo esquerdo no encosto do sofá, com a cabeça apoiada na mão esquerda, observando o irmão desabafar sobre a Isabela.
— Parece que ela vê como se você tivesse a culpa pela morte da Isabela.
— Para! – Tiago levantou as mãos – Já me basta a Isabela se tratando como se fosse mesmo a irmã gêmea que veio do nada, brotou assim do chão igual pé de feijão. Você também não, AnaLu.
— Desculpa. Não precisa descontar em mim.
— Droga, desculpa. É que, nossa, tá tudo uma...- ele olhou para cima – tão... parece que tem algo errado.
— Fica assim não maninho. – ela o abraçou pelo pescoço enquanto Tiago colocava as mãos no rosto – Logo a Isabela vai entender que não pode continuar fugindo da verdade, e vai voltar pra você.
Tiago a olhou de canto, depois olhou para a frente.
— Não sei não, AnaLu. Hoje eu dei um ultimato. Ela disse que era para eu encarar a realidade, que Isabela estava morta, que teria de aceitar sair com a Marina. E sabe? – a irmã, com a cabeça levantada mas os braços ainda ao redor do pescoço dele fez “hum?” – Eu disse que ela estava certa, que não podia acontecer nada entre nós, porque eu amava a Isabela, e não tinha o porquê continuar com alguém só porque lembra ela. E que era melhor nãos nos vermos mais.
— O que? Tiago como é que você foi fazer isso? E agora como é que você vai fazer para saber o que aconteceu com ela? – AnaLu se agitou no sofá, se afastando do irmão.
— AnaLu, ela não quer falar e eu não estou com paciência para ficar perseguindo Isabela enquanto ela me castiga por algo que não fiz.
— Pera, Tiago, você foi um estupido com ela, não lembra?
— Sim, fui, eu disse isso para a Marina. Olha o nível AnaLu!– ele já estava irritado, gesticulava com o dedo indicador da mão esquerda girando no ar – Eu ter que fazer declaração para a Isabela a colocando na terceira pessoa. Assumindo meus erros, que a acusei injustamente, dizendo o quanto sofri, o quanto errei voltando com Leticia apesar de ainda amar ela, e como eu me enganei por pensar que ela – Tiago fez sinal de aspas com os dedos – “Marina”, era a Isabela me castigando, mas que entendia que não se passa o que Isabela teria passado para voltar para mim sem sofrer um grande trauma, e ficar arredia.
— E ela?
— Fez aquela cara dela de quer e não quer de sempre. — ele jogou os braços ao lado do corpo – Às vezes eu...
— O que?
— Acho que foi tudo ilusão. Como o Antonio diz, eu sonhei mesmo que tinha encontrado um grande amor depois que o lance com a Leticia esfriou. Depois de todo aquele sonho de luta para salvar ela se concretizou e eu não tinha mais nada com o que sonhar, mais nada para ocupar intensamente os meus pensamentos, eu tive Isabela. E agora eu não quero mais isso.
— Você tá dizendo que cansou dessa ilusão, que quer outra? – AnaLu falou em um tom crítico.
— Não. Eu cansei de me iludir mesmo.
— Tiago, você anda muito pressionado, emotivo. Pensa bem.
— É só o que eu tenho feito nessa ultima semana, Ana Luiza, pensar bem.
Os dois olharam para trás ouvindo um barulho na porta da sala. Helena vinha segurando um netbook colocando fones no ouvido, arrastando um chinelo, usando uma camisola de seda preta. Ela então notou os irmãos ali e parou. Olhou para Tiago e deu meia-volta.
— Não! – ele disse estendendo o braço para ela – Pode ficar, nós já estávamos indo.
Helena tentava esconder algo na mão que segurava o aparelho. Tirou os fones se virando para eles de novo.
— Eu realmente não quero atrapalhar.
— Mas não está. Eu e a AnaLu já estávamos de saída mesmo.
— Sem problema, eu posso voltar pro quarto. Só queria um pouco de espaço, mas...
— Por favor. – Tiago apontou para o sofá enorme ao lado do dele e AnaLu – Vou me sentir mal se você sair só por minha causa.
Helena inspirou forte e virou os olhos. AnaLu olhava a cena desconfiada.
— Eu não ia sair só por sua causa. – ela disse voltando para a sala e se colocando no sofá apontado por Tiago, na ponta mais distante possível dele.
AnaLu olhou Helena se acomodar.
— Vem cá, Helena, o que é isso na sua mão?- ela falou apontando para o que parecia ser um pen drive que Helena mantinha cerrado na mão.
— O que? – Helena tentou disfarçar olhando para as mãos.
— Foi uma coisa que dei para ela, Ana Luiza. – Tiago falou ao perceber que Helena estava tentando esconder o objeto.
— Certeza? – a irmã olhou desconfiada para ele.
— Sim.
— E quando você deu, se mal tão se falando? Você não para em casa, Helena vive saindo com tio Pedro, ou trancada no quarto com a Camila.
— Eu dei faz um tempo. – ele tinha cruzado os braços, e agora coçava a orelha esquerda.
— Então tá. Por que você mentiria para mim, né Tiago?
Ele assentiu com a cabeça. Helena os olhou com a cabeça baixa, abrindo o net e colocando os fones, fingindo os ignorar.
AnaLu olhou ela e então o irmão, que continuava com a cara amarrada, mas tinha um brilho no olhar, parado sobre os próprios pés. Ela então suspirou.
— Mas conta, e na empresa, o que tá te afligindo? Mais desistências?
Ele balançou a cabeça positivamente, ainda olhando para baixo. Então olhou rapidamente para Helena que estava concentrada no net dela e com fones, e virou a cabeça para a irmã, se inclinando em direção da porta, e jogando o olhar para lá, indicando para ela ir embora.
— É, só hoje foi mais duas cargas.
AnaLu se fazia de desentendida, mas Tiago arregalou os olhos para ela.
— Ok, acho que já tá na hora de eu ir dormir. – ela olhou para Helena que nada notou, se levantou e deu um beijo no irmão – Juizo!
Tiago acompanhou a irmã saindo com o olhar, e um meio sorriso. Então olhou para Helena, ela havia levantado a cabeça e observava a saída de AnaLu com uma sobrancelha erguida. Então olhou para ele e voltou a se concentrar no netbook.
Ele olhou a redor e suspirou. Esfregou as mãos nas coxas das pernas colocando o corpo para a frente. Se levantou para sair, mas parou. Mexeu nos bolsos da jaqueta e pegou um embrulho do bolso esquerdo, que colocou no assento do sofá, a frente de Helena, que, ainda com a cabeça baixa, o acompanhava com o olhar desde que se levantou. Ela olhou desconfiada para o embrulho.
— Que foi?
— Abre. – ele falou apertando os lábios, contendo a expectativa com a reação dela.
— Tiago... – ela fechou o netbook e suspirou o olhando – você não precisa me dar nada, certo? Estamos de boa, só que eu tenho que trabalhar em livrar minha pele, e você em recuperar a fábrica. Cada um no seu quadrado. Não precisa se preocupar com... nada.
— É? Você não está mais brava comigo? – ele perguntou cruzando os braços e a encarando.
Helena ergueu uma sobrancelha. Ela nem sabia se em algum momento ficou mesmo brava com ele, ou se só se irritou por ter entendido errado o gesto dele. Então ela apenas o olhou. Tiago tinha aquela cara de garoto safado, a fazendo deixar escapar um sorriso, enquanto virava a cara pro lado esquerdo, jogando os ombros para cima.
Tiago abriu um sorriso largo, passou a língua nos lábios e apontou para o presente.
— Então vai, abre.
— Já disse que não precisa.
— Por favor.
Helena suspirou, colocou o netbook de lado e se esticou pegando o embrulho. Sentiu o objeto e olhou para Tiago, estranhando, enquanto ele era só expectativa. Ela abriu e viu um canivete automático fino de cabo rosa pink, e quase pulou no sofá. Ele observou a cara dela se iluminando com o presente e foi passando a mão esquerda no rosto, rindo e contendo a animação.
— Eu não acredito, Tiago! Eu estava louca para comprar um desses, mas com o Pedro sempre por perto... – Helena movia a arma com habilidade, a testando – Que legal.
Ela olhou para ele, parado ali, mãos nos bolsos a olhando feliz. Se levantou. Tiago prendeu a respiração abrindo mais os olhos esperando o agradecimento, um abraço ou um beijo, ou os dois. Helena deu um soco no ombro dele, e sorriu largo, o fazendo franzir a testa confuso e depois voltar a sorrir. Ela então foi sentar no sofá onde ele estivera com AnaLu, colocando as pernas inteiras sobre o assento, fascinada com o presente. Tiago sentou no mesmo lugar de antes e a observou.
— Só não entendi o cabo. Por quê pink?
— Ah... – Tiago pegou outro canivete automático fino, porém preto, do bolso direito – eu comprei um para mim também, vai que eu precise te ajudar a se defender ...– ela riu com deboche, recebendo um olhar reprovador – Bom, para diferenciar os nossos, eu comprei um de cada cor.
Helena mal ouviu ele falar e já arrancou o objeto da mão dele, o testando, passando os dedos no fio do corte.
— Ótima ideia. Toma, você fica com a pink. – e ela jogou o outro canivete para ele, o fazendo estranhar.
— Mas... o preto eu comprei para mim, o rosa para você.
— Problema seu. Podia muito bem ter comprado os dois pretos. Ou você achou que só porque sou mulher eu ia preferir algo rosa?
Tiago fez que não com a cabeça disfarçando, mas de fato achou que ela ia gostar de rosa.
— Mas como é que íamos diferenciar? – ele falou olhando para o canivete dele, desanimado.
— Não por isso.
Helena pegou o canivete dele, sentou de costas para Tiago e com o canivete dela começou a desenhar algo no canivete dele. Ele por sua vez começou a esticar a cabeça para ver o que ela fazia, se aproximando dela, até ficar com a cabeça logo atrás do ombro dela.
— Pronto! – Helena ergueu o canivete e olhou por sobre o ombro, encontrando o rosto dele bem próximo – Agora dá para saber que é seu.
Tiago pegou o canivete e observou que ela desenhou um “P” no inicio da lâmina, próximo do cabo. Ele riu.
— Tá certo! Neste caso...
Ele passou o braço direito sobre o ombro direito dela, a cobrindo e quase encostando a bochecha dele na dela, fazendo ela engolir em seco, pegando da mão dela o canivete de cabo preto. Tiago então passou o outro braço por baixo do braço esquerdo dela, sempre com um sorriso, e segurando com a mão esquerda o canivete de Helena, que agora mordia o lábio inferior, ele usou a mão direita para escrever com a ponta do seu canivete o “B” no mesmo ponto, no canivete de Helena.
Ela sorria ainda com os dentes segurando o lábio inferior. Tiago alinhou os dois canivetes mostrando as duas siglas.
— Ali, porquinho e bandida. – Tiago falou bem próximo do ouvido dela, queixo encostado no ombro nu de Helena.
Ela pigarreou, olhando para os canivetes, sentindo um arrepio quando Tiago, fechando os olhos, tirou o queixo do ombro dela e colocou o nariz puxando o perfume da pele dela. Antes mesmo de ela conseguir soltar o ar preso, ele se levantou rápido.
— É – ele engoliu em seco – já tá tarde mesmo, melhor eu ir dormir.
— É... – Helena virou a cabeça para ele e depois para frente bem rápida, pegando os canivetes – eu também tenho que ir dormir. Vou com o Pedro amanhã tentar aprender a velejar. E ele sai muito cedo.
Ela falou se levantando sem olhar para Tiago e indo pegar o netbook e pen drive largados no outro sofá. Tomou o rumo da saída, mas antes parou em frente a Tiago, sorriso debochado, estendendo o canivete rosa pink.
— Pega, depois te ensino a brincar com isso.
E ela saiu animada da sala, indo para a sua cama tentar dormir.
Tiago agora tinha as mãos na cintura e cabeça para baixo, rindo. Se jogou no sofá e suspirou, colocando as mãos sob a cabeça, olhando pro teto, relaxando, lembrando dos últimos minutos.
— Tiago? – a voz do tio Pedro entrava no meio do sonho de uma luta de canivetes com Helena em que ela caia sobre ele e já ia o beijando – Cara, acorda.
Ele respirou levantando a cabeça, tentando entender o porquê do seu tio estar no quarto dele. Foi então que notou que estava na sala. Dormiu ali.
AnaLu e Camila estavam logo atrás do tio, com roupas de praia, óculos escuros na mão e chapéu no alto da cabeça, observando o irmão. O tio estava agachado próximo do sobrinho, com a mão mexendo o ombro dele.
— Tio? – ele então despertou, olhou para os lados, passou as costas da mão esquerda no nariz, fungando e se sentou no sofá, cabeça para baixo sentindo a dor nas costas e nuca – Nossa, eu desmaiei aqui.
— É, se nota. – Pedro falou já de pé – Esses últimos dias tem te castigado.
— Verdade, você quase não dormia, maninho. – emendou AnaLu preocupada.
— Ah é. Cada dia mais amuado e chato. – disse Camila.
— Que horas são?
— Já são quase nove horas. – disse Pedro, cruzando os braços – Imagino que hoje você não vá na fábrica. É sábado, aproveita o dia para descansar.
— Não.., — ele passava as mãos sobre o rosto – Eu tenho que ver mais umas coisas. Onde vocês vão?
Tiago observou que além da roupa de praia eles estavam carregando bolsas.
— Bom, já era para estarmos lá. Helena perdeu a hora. Vamos passear de veleiro, vou tentar ensinar ela a navegar. – disse o tio Pedro, se sentando do lado de Tiago.
— Espero que dessa vez ela nos deixe sair da marina. Ficar parados ali só no barco não tem graça alguma.
— Camila, ela precisa ter segurança. – interveio Pedro – Eu te convidaria, Tiago, mas imagino que você não esteja preparado para barcos ainda. – Falou Pedro fazendo todos lembrarem do sumiço de Isabela – Apesar que acho sempre bom encarar os medos, não deixar nada te dominar...
— É...mas...não sei se estou pronto.
— Vamos, Tiago. – AnaLu se sentou do lado dele – Eu fico boiando com esses três. Você não pode ficar a vida toda fugindo disso, ainda mais que você sempre gostou tanto de navegar.
Ele sorriu para a irmã.
— Pronto! Podemos ir. – falou Helena chegando na sala animada, colocando óculos escuros, com uma saída de praia preta, cabelos presos no alto da cabeça.
— É... vocês me esperam? – perguntou Tiago olhando para a irmã, se decidindo a acompanhar eles.
— Claro. – Pedro falou animado, enquanto Camila sorria maldosa.
— E agora? – Helena falou olhando para Pedro, depois que Tiago saiu da sala.
— Esperamos.
E todos sentaram nos sofás, enquanto Tiago, em quinze minutos, tomava banho e colocava sunga, bermuda, chinelo e camiseta. Ele desceu as escadas com os óculos pendurados na camiseta e olhou para a sala. Pedro o notou e todos foram saindo.
— Espera, eu também vou.
Veio Aline descendo pela escada parando do lado de Tiago, que foi olhar desagradado para ela e levou um susto. A Aline atrás dele tinha o cabelo todo repicado, curto, com uns pontos muito mais curtos que os outros.
— O que é isso? – Tiago perguntou enquanto Camila e AnaLu colocavam a mão na boca contendo o riso.
Helena tinha a boca meio aberta, mostrando os dentes mordendo a ponta da língua, sapeca.
— Isso é a maldade das pessoas, Tiago. No meio da noite entraram no meu quarto e encheram o meu cabelo de goma de mascar.
— Olha, muito feio acusar os outros hein. – falou Helena fingindo seriedade – Quem garante que não foi você mesma que deixou as chicletes caírem no seu cabelo enquanto dormia?
— Mas é muita falta de vergonha na cara mesmo. – Aline foi se aproximando de Helena, olhar fuzilante – Desde quando alguém deixa chiclete cair no alto da cabeça enquanto dorme. E ainda mais 12 deles?
Camila não aguentou e riu alto.
— Isso sempre vai me fazer rir, gente.
— Olha Aline, como aconteceu não sei, – falou Helena subindo os óculos para o alto da cabeça – mas ao menos fica a lição: cuidado com o que sai da sua boca.
Aline se aproximou dela, mas Pedro a parou com o braço. Helena tinha as sobrancelhas erguidas com um sorriso zombeteiro. Tiago e Camila olhavam a sobrinha da Helô, contendo o riso, admirados.
— Calma aí, menina. Lamento o que aconteceu com você, mas nada te dá o direito de sair agredindo ninguém. Ainda mais a Helena, que de todos nessa casa é que menos tem problema com você. Agora, dá licença que já estamos muito atrasados.
— Não – Aline deu um passo para trás – eu vou com vocês.
— Negativo. O veleiro mal comporta cinco, seis seria pedir por uma catástrofe. Fica aqui e cuida da sua patroa. Não foi para isso que te contrataram, para ficar nessa casa? Fica aí!
E Pedro saiu puxando Helena pelo braço, enquanto ela dava tchauzinho para uma Aline de olhos arregalados e furiosa. Os outros foram logo atrás, com Aline ainda tentando puxar Tiago que se livrou dela.
Eles foram em dois carros. Pedro Helena e Camila com o primeiro, e Tiago e AnaLu no segundo. Chegando na marina, foram andando até o veleiro nessa mesma ordem, Tiago ficando atrás de todos, o rosto aos poucos ficando branco.
Pedro ajudou Helena a subir primeiro, e quando ele ia ajudando Camila, a sobrinha da Helô olhou Tiago que tinha o rosto fechado, óculos no alto da cabeça, olhar vidrado no casco do barco. Ela levantou os óculos dela enquanto Camila se colocava do lado dela, e observou o neto de Magnólia, que tinha uma expressão que ela nunca tinha visto antes.
— Tiago, você tá bem? – perguntou AnaLu notando o irmão – Não tá preparado ainda, né?
Ele respondeu movendo a cabeça negativamente.
— Poxa, Tiago. – Pedro falou se aproximando deles – Eu achei que depois de tantos meses... mas é uma passo de cada vez.
— É... melhor eu voltar. Vou levar seu carro, AnaLu. – Tiago respondeu entregando as bolsa de comida que levava para a irmã e pegando as chaves dela, se virando para todos.
Helena apertou os lábios, abriu caminho para sair do veleiro, dispensando a ajuda de Pedro, correndo até Tiago.
— Espera aí, garoto. Onde cê vai?
Tiago, através dos óculos olhou Helena na sua frente, mão no seu peito o bloqueando.
— Helena, eu não consigo...
— Como não? E no outro dia comigo no barco?
— Aquilo foi diferente. Era outro tipo de barco, era um rio...não havia lembranças.
— E daí? – ele levantou os óculos a encarando, mostrando a seriedade do que falava – Tiago, não quero diminuir o que você sente, mas olha... eu morro de medo de mar, de água, e ainda assim vou entrar nesse troço, sabe por que?
Ele manteve o olhar sobre ela, atento, sem responder.
— Porque, se eu deixar o medo me parar, eu nunca faço nada. – ela falou batendo com o dedo indicador no peito dele – Sem contar que... se você não for com a gente, quem é que vai me salvar se eu cair do barco?
Ela completou sorrindo para ele, que se contagiou com o sorriso.
— Você quer dizer quem é que vai te jogar do barco, né? – ele respondeu brincando.
— Sabia que um dia você assumiria. – ela jogou o corpo para trás apontando para ele – Agora vamos, já tá tarde e tá batendo a fome. Preciso ficar enjoada antes de querer comer.
E Helena o pegou pela mão o puxando em direção ao veleiro, o ajudando a subir, enquanto todos observavam a cena de longe.
Pedro subiu por ultimo, e lá no barco bateu nas costas de Tiago o dando apoio.
— Vem, Helena, vou te ensinar como zarpar. – ele então chamou a garota que estava se segurando em Camila.
— Ai... – Helena gritou, entre Tiago e Camila – já começou falando complicado. Eu já não entendo o teu português, o teu veleirês vai ser ainda mais complicado.
Pedro riu.
— Anda menina, esse barco não sai se não for por você guiando.
— Vamos lá, eu te ajudo. – disse Tiago a pegando no ombro e acompanhando no apertado veleiro.
Sob orientação de Pedro, Helena puxou a ancora, e com ajuda de Tiago, alçou vela, dando gritos quando o veleiro se mexeu, se segurando em Tiago com medo. Ele, já sentindo o mal estar passar, ria dela.
— Até que enfim. – gritou Camila com AnaLu, na proa.
Tiago e Pedro comemoraram também, o ultimo pegando Helena pelo ombro.
— Agora vem comigo, vou te ensinar a navegar.
— Como assim? Não mesmo. E se eu faço isso daqui bater, afundar... eu não...
— Calma Helena, navegar é o mais simples. – disse Tiago a tranquilizando.
— Se você vai dizer que é igual a andar de bicicleta eu vou te bater. – ela falou para Tiago que então gargalhou.
Ele e Pedro riram enquanto levavam uma medrosa Helena para navegar. Pedro ensinava tudo certinho, com um Tiago tentando traduzir quando via uma cara de dúvida de Helena. Os dois ficaram concentrados no trabalho até estarem bem distantes da costa. AnaLu e Camila já deitadas na proa, de biquíni.
— Pronto, acho que daqui posso continuar, quando formos retornar te chamo. Viu como é fácil, Helena?
Ela nem respondeu, olhava para a costa tão longe, tão difícil de alcançar para alguém que não sabia nadar.
— É, moleza mesmo. Acho que nem preciso de mais aulas. Posso ir para dentro agora?
Pedro riu.
— Que isso Helena, o bom agora é aproveitar o vento batendo no rosto. Vai lá com as outras aproveitar o sol.
— Não, obrigada, ficarei melhor ali dentro.
— Helena, você não veio para alto mar para ficar trancada. Anda garota, vai viver. – insistiu Pedro.
— Vem Helena. – gritou Camila lá da proa.
Ela cruzou os braços e olhou para si.
— Não, valeu. Eu...esqueci de passar o protetor solar, vou acabar me queimando.
— Droga! – esbravejou Tiago – Na pressa eu também esqueci.
— Você tá arranjando desculpa para ficar dentro do veleiro também é? – perguntou Pedro para um Tiago que negou com a cabeça, sério – Certo, acho que é muita sorte de vocês que eu sou um velejador experiente e precavido. O que não falta lá dentro é protetor solar.
Helena virou a cara para Tiago e bufou. Os dois desceram. Tiago foi procurando pelas gavetas e cômodos os protetores. Helena, desanimada, sentou numa cama minúscula em um canto, ombros caídos.
— Tá aqui. Tem bloqueador também, o que prefere? – Helena não respondeu, só revirou os olhos, fazendo Tiago colocar as mãos na cintura – Qual o problema, Helena, tá enjoada?
— Nada.. – ela falou coçando o alto da cabeça e tirando os óculos para o lado, pensando no que ele disse e meneando a cabeça para a direita – É, um pouco.
Ele se sentou do lado dela, segurando os produtos nas mãos unidas, jogando o corpo para frente apoiando os cotovelos nas pernas, observou a garota que parecia triste e angustiada.
— Que foi? Sério, pode falar para mim. – ele pensou que ela estava com medo da agua.
— Não...sério, é complicado e você não vai entender.
— Helena, você acabou de me ajudar a encarar um medo, deixa eu te ajudar a encarar o seu.
Ela o olhou de rabo de olho. Calculou o que ele disse e respirou fundo.
— Tá certo. Ninguém aqui sabe mais de mim do que você.
— E ainda assim sei quase nada. – ele completou.
— Não tá ajudando...
— Tá, desculpa, fala.
Helena se levantou e ficou de frente para Tiago, que levantou a cabeça para olha-la, e então a viu tirando a saída de banho.
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