A sobrinha da Helô
15 Confissões com a Sobrinha da Helô
Tiago arregalou os olhos, deixando os produtos caírem e se levantando.
— Helena, o que você... – ele olhava para ela jogando a saída de banho na caminha atrás dele, a boca dele levemente aberta, as mãos suspensas no ar não sabendo o que fazer com elas, indo de cima para baixo o olhar fixo muito abaixo da altura dos olhos dela – Nossa.
Tiago olhou para cima.
— O que foi?
— Nada, to tentando pensar no Antônio de fio dental.
Helena o olhou franzindo a testa, depois rindo do jeito dele, deu um tapinha no braço esquerdo de Tiago. Ela vestia um biquíni branco cortininha com bolinhas pretas minúsculas.
— Você pirou é?
— Não... é que... – ele baixou a cabeça para ela de novo tentando manter os olhos nos olhos dela, passando a mão no maxilar e segurando a boca – Você tirou a roupa por que?
— Para! – ela deu outro tapinha no braço dela – Até parece que fiquei pelada. Olha – ela apontou para o próprio corpo – é esse o problema.
— Problema? Você tá louca, Helena, você é perfeita.
Ela ergueu as sobrancelhas para ele e segurou uma risada, olhando então para o lado, orgulhosa.
— Tá, se controla. Eu estou falando das cicatrizes. Não tenho a menor coragem de subir lá assim com Pedro e as suas irmãs vendo elas. – Tiago voltou a olhar o corpo dela engolindo em seco, procurando as cicatrizes – Você já sabe de algumas – ele lembrou da primeira noite na cozinha — , e, bom... eu não preciso dar explicação para você de onde é, né? Mas e eles?...Não quero arriscar.
— Bom... – ele tentava focar nas marcas no corpo dela, que eram pequenas e diante da pele alva dela, quase não se percebia – eu realmente mal consigo ver, teriam que tentar prestar muito atenção. Nossa, o que é isso aqui...- Tiago abaixara a cabeça observando o corpo dela, ele apontou em um ponto pouco abaixo do seio esquerdo onde tinha uma cicatriz na forma de uma linha de meio milímetro de largura e dez centímetros de extensão, passando logo abaixo do meio do seio até o lado da costela.
— Sem papo agora, Tiago. No momento eu quero soluções. – e ela puxou ele para cima.
Tiago tinha as sobrancelhas erguidas e a ponta da língua para fora da boca, apertada pelos lábios.
— Sim... como disse... bom... – ele tinha a mão esquerda na cintura e a direita com os dedos sobre a boca – assim de frente eu acho, acho, que não tem problema, Helena. Mas, sei lá, de costas... – ele levantou os braços e ergueu as mãos pro ar, voltando a colocar a mão direita sobre a boca.
Helena o olhou desconfiada.
— Tá. – e ela se virou de costas – Acho que só tenho uma aqui perto do ombro mesmo, e, aaah, eu tenho uma marca de mordida de cachorro na panturrilha, mas todo mundo já viu e é fácil de explicar.
Tiago olhava para baixo, da linha da curva do pescoço até o calcanhar dela. Respirou fundo tentando pensar em outra pessoa, que em Antonio já não estava mais adiantando.
— É – ele pigarreou – acho que você está se preocupando à toa. Você tem mais cicatrizes que a gente, mas... olha.
Ela se virou para ele, enquanto Tiago tirava a camiseta.
— Aqui no ombro eu tenho uma marca, aqui mais ou menos na barriga...é mal dá para notar. Eu sempre fui muito certinho, mas a Camila tem bem mais marcas que eu. Espera – ele foi tirando a bermuda, fazendo Helena arregalar os olhos e então olhar para cima – aqui na altura da coxa, acho que tenho a marca de um galho que uma vez...
— Tá certo, tá certo, eu entendi. Somos todos marcados pela infância. – foi a vez de ele rir do jeito nervoso dela, olhando para cima – Mas vamos aos fatos, todos vocês tem explicações comuns para elas, e eu ainda tenho quase o dobro de marcas.
— Certo – ele então puxou o queixo dela, onde também havia uma cicatriz para baixo – Mas você veio do interior, não veio? – ele a olhou erguendo as sobrancelhas – É só dizer que foi atacada por bicho ou teve qualquer aventura de criança comum de lá, ninguém ali vai poder te desmentir. Não acho que vão notar.
Helena tinha as mãos na cintura, olhar desconfiado. Deu um passo para trás, mantendo a perna direita a frente, e apertou os olhos com um meio sorriso.
— Tá ficando esperto, leitãozinho.
— Tenho uma ótima professora. – ele respondeu sorrindo para ela – Nossa... – Tiago se abaixou e colocou o dedo indicador da mão direita sobre um ponto da coxa direita interna de Helena, bem acima do joelho, a fazendo morder o lábio – O que foi isso? Parece...
— Sim, foi tiro. – ela respondeu com a respiração acelerada.
Ele olhou para ela, agachado, ainda segurando a coxa dela.
— O que vocês estão fazendo? – perguntou Pedro no pé da escada, se esticando e vendo os dois.
Tiago se levantou rápido colocando as mãos para cima.
— Isso não é normal? – Helena respondeu fazendo cara de inocente – Tiago disse que aqui tem que tirar a roupa para não desequilibrar o barco. – respondeu Helena, rápida, tentando parecer séria.
Tiago arregalou os olhos e olhou para o tio que o olhava incrédulo, e balançou a cabeça negativamente. Foi quando Helena gargalhou e eles relaxaram.
— Estamos colocando os protetores e o mão furada deixou eles caírem. A gente já tá subindo.
Ela então despistou Pedro, que apenas balançou a cabeça afirmativamente, fixando por um tempo o olhar no sobrinho antes de subir.
— Gostou? – ela bateu com a mão direita no ombro dele – Mais uma aulinha da profe.
Ela ria, vendo ele então juntar os produtos no chão. Erguendo um bloqueador para ela. Tiago achou melhor não responder. Começaram a passar protetor.
— Pode passar nas minhas costas? Não alcanço. – ela perguntou para ele, que terminava de passar na panturrilha esquerda, se levantando – Depois te ajudo.
Ele olhou sério o produto que ela estendia, Helena parecia achar a cara dele divertida.
— Tá, ajudo. — e ele pegou o produto engolindo em seco, enquanto Helena se virava.
Ele encheu a mão de bloqueador e ficou olhando onde passaria.
— Certo, você... é só aqui em cima das costas? Mais embaixo...
— As costas toda.
— Certo.
Tiago foi passando o produto pelo ombro dela, pescoço, descendo pela linha do biquíni, um ponto mais difícil que o outro, até chegar a lombar.
— Pronto. – ele disse ainda passando a mão na cintura dela.
— Ótimo. – ela suspirou – Precisa que passe em ti?
Ele só concordou com a cabeça e entregou o bloqueador para ela, se virando de costas. Helena jogou protetor nas costas dele e foi espalhando bem devagar com as duas mãos, contendo o riso. Chegou na lombar e olhou para a nuca dele, tentando ver alguma reação. Terminando, ela pegou o produto na mão esquerda e o passou por baixo do braço esquerdo de Tiago, ainda de costas, chegando a boca perto do ouvido dele.
— Ó, cabô. – ela disse fazendo Tiago sentir um arrepio e então sorrir enquanto pegava o produto.
Ele se virou para ela, que colocava as mãos na cintura rindo.
— Você gosta é de provocar. Uma hora você toma revide, e daí...
— E daí?
Ele inclinou a cabeça perto dela, a fazendo olhar o lábio dele se aproximando, mordendo o lábio inferior.
— Fica perdidinha.
Helena gargalhou alto jogando a cabeça para trás.
— Ai garoto. É mesmo, né? – ela colocou a mão esquerda no ombro direito dele – Quando você quiser me seduzir você vai, né?
Ele só respondeu balançando a cabeça afirmativamente, olhando para os lados com as mãos na cintura e contendo um sorriso.
— Vamos? – ele a convidou para cima, molhando os lábios .
— Vamos. – ela se olhou – Mas você vai na frente me tampando até eu chegar na minha bolsa para pegar uma canga.
— Tá. – Tiago suspirou olhando mais uma vez para ela e indo para a escada. Helena o observou de baixo a cima e o foi seguindo.
Lá em cima Tiago foi andando na frente dela, sempre posicionando o corpo dele a frente dos outros, bloqueando ela, até acharem a bolsa dela na polpa. Ela pegou a canga e foi colocando, olhando para Tiago através dos óculos, sorrindo. Ele levemente inclinado para ela, também sorrindo.
— Esses dois nem disfarçam mesmo. A impressão que tenho é que estão prestes a se pegar a qualquer momento.
Falou Camila para AnaLu ao seu lado, de modo que só a irmã ouvisse, a fazendo se virar para trás, na direção que Camila olhava, ambas deitadas no pouco espaço da proa, de óculos escuros, pegando sol.
— Não acredito que Tiago está fazendo isso.
— Como não? Tiago sempre foi mulherengo, AnaLu. Ele só disfarça a safadeza com papo de amor. Todas as namoradas dele, Tiago amou desesperadamente. Mas acho que com Helena ele vai quebrar a cara. Dessa aí ele não escapa.
— Por que você acha isso?
— Porque Tiago faz tudo por ela, e rindo. Come na mão dela. As garotas sempre foram se arrastando por ele, caindo no papo romântico e olhar de cachorro sem dono do nosso maninho. E outra, ele parece que tem medinho do que sente por ela, sabe? Fosse só brincadeira, Tiago já tava pedindo ela em namoro. Mas não, fica ali só rodeando ela, babando...
AnaLu suspirou.
— Vai ver ele só está tentando usar ela para esquecer a ...
— Ai AnaLu, você parece aquelas fãs loucas por casal de série que fica se enganando que tem amor, e tenta empurrar para todo mundo a sua versão iludida dos fatos. Esquece a Isabela. Vai lá, foi a relação mais forte que ele teve até aqui, até pelo que aconteceu com ela. Mas sejamos sinceras, se ela não tivesse desaparecido, eles teriam terminado e voltado várias vezes até, ou decidirem se casar e viver cinco anos juntos enquanto não se enjoarem, ou se separar de vez, um traindo o outro.
— Eu discordo. – AnaLu
— O que só confirma a minha tese.
E AnaLu voltou a olhar o irmão, brincando com a sobrinha da Helô. Ela então se levantou e foi lá busca-la para perto delas, tomar banho de sol.
Como Tiago disse, elas mal perceberam, e o que notaram das cicatrizes de Helena, ela soube disfarçar. Enquanto isso, Tiago ficou com o tio, na navegação, se segurando para não ir até a populosa proa.
— Sorriso largo, olhar perdido, animado. Eis uma coisa que não imaginei ver na sua volta ao mar. Eu estou muito feliz. – falou Pedro olhando o sobrinho e colocando a mão no seu ombro esquerdo.
— É... nem eu achei que seria tão fácil.
— Certo. – Pedro olhou para Tiago, e seguiu o olhar dele, que com os braços cruzados mantinha o olhar em Helena, na proa – Tiago, como vai com a Isabela? Alguma novidade sobre essa irmã gêmea dela?
Tiago suspirou olhando o tio.
— Como eu disse para AnaLu, Isabela morreu naquele dia mesmo, tio. Essa Marina que tá aí é outra mesmo.
— Então você acredita que seja mesmo irmã gêmea?
— Não. É a Isabela, impossível ser outra. Mas ela mudou muito. E, como eu disse para ela, eu não vou continuar com alguém que só parece com quem eu amei. Terminei tudo.
— Então você terminou com a Isabela?
— Na verdade, com a Marina. Aquela não é mais a Isabela.
— E se ela voltar a ser a Isabela de antes? – Pedro indagou o sobrinho, cuidadoso – Você voltaria para ela?
Tiago suspirou e olhou para a proa. Depois o semblante ficou sério e ele abaixou a cabeça.
— Não sei.
Pedro não estava se sentindo confortável com a conversa, mas precisava saber exatamente o quanto Tiago poderia magoar Helena.
— Não sabe se volta, ou se ainda a ama? Porque quando não sabemos mais se amamos a pessoa, quase sempre é sinal que não amamos mais.
Tiago olhou para o tio, lábios esticados formando um bico, pensativo.
— Pensa bem cara. Pensa bem porque você não vai querer cometer com mais ninguém o mesmo erro que cometeu com a Isabela, que é começar uma história sem ter terminado outra.
Ele escutou o conselho do tio calado, e então o olhou intrigado.
Helena veio até eles, medrosa, se segurando em todos os pontos possíveis, longe da borda do veleiro.
— Elas querem parar para nadar. – ela comunicou chegando com respiração difícil.
— Tá. Vem, vou te ensinar a descer a ancora.
Pedro depois de a orientar foi até o meio do barco, Helena ficou na navegação com um Tiago desanimado do lado.
— Vamos nadar?
Pedro falou para as sobrinhas e tirou a camiseta e calção, pulando na água. Sendo seguido por Camila e AnaLu.
Helena se segurou em Tiago quando o veleiro se mexeu com o impulso de cada pulo. Ele a olhou carinhoso.
— Não vai tentar?
— O que? Nadar? – Helena abaixou os óculos olhando Tiago de rabo de olho – Tá se fazendo de idiota?
— Não ... – ele respondeu desanimado, braços sempre cruzados – Eu só achei que você pudesse querer tentar aprender a nadar.
— E quem ia me ensinar? – ela perguntou sorrindo para ele.
Tiago a olhou e deu um meio sorriso, apontando o dedo indicador da mão esquerda para ele mesmo.
Helena o olhou pensando na proposta, sorrindo.
— É... um dia, quem sabe, numa piscina de apenas trinta centímetros de profundidade.
Tiago riu.
— Tá certo. Só me avisa para eu poder comprar os salva vidas e boias. Não quero arriscar nossas vidas em tão perigosa empreitada.
Tiago então suspirou e foi até a grade de ferro a borda do veleiro, sentando ali e vendo os demais curtindo a agua do mar, rejeitando os convites de pular. Helena o olhou ali, braços e pernas cruzadas, apoiado no veleiro com rosto para o lado. Molhou os lábios e inclinou a cabeça para a esquerda.
— O que foi? Você parece tão desanimado.
— Nada.
— Tiago, se você tá pensando no acidente, que na verdade não foi acidente, para. Não se martiriza e para a sua vida por algo que o Tião fez. Me escuta, ele não merece que você se torture pelo crime dele. Que aliás nem deu o resultado pretendido por ele. Sua Isabela está aí, vivinha pra você.
Ele olhou para ela quando ouviu o nome da ex. Helena cruzou os braços e virou a cabeça para o lado suspirando.
— Tião pode fazer muito mal, Tiago, vai de você o quanto isso pode te afetar. É claro que...tem coisas que não dá para ignorar.
Ele voltou a se aproximar dela no meio do barco.
— O cara te fez muito mal, né?
— Todas as minhas marcas, Tiago, eu devo a ele.
Ele olhou para ela, agora com braços cruzados e cabeça baixa. Tiago não resistiu, pegou o rosto dela e deu um beijo demorado na bochecha.
— Desculpa. – ele começou a acariciar a bochecha dela onde beijou – Eu acabei te fazendo lembrar dessas coisas.
— Não me fez lembrar não. O que Tião me fez eu só vou esquecer quando tiver me vingado. – Helena, que mantivera a cabeça baixa mesmo depois do beijo, tirou os óculos e mostrou toda a sua raiva para Tiago.
Os dois suspiraram.
— Helena?
—Hum?
— Você acha que eu poderia ter jogado a Isabela no mar?
Ela o olhou franzindo a testa, afastando a cabeça.
— Que loucura, porquinho, você não seria capaz de matar um...leitãozinho!
Ela sorriu para ele tentando anima-lo.
Tiago se afastou.
— Mas naquele dia você achou que eu tinha tentado te matar?
— Ai! — ela jogou a cabeça para trás — Vai fazer eu pedir desculpa por isso? Tiago, eu... fui besta, tava brava com você e com... bom, você ver uma fraqueza minha. Mas eu não falava sério, não tem como achar que você seria capaz de matar alguém, mesmo uma bandida como eu. — ela sorriu para ele, o fazendo sorrir — E outra, eu não te conhecia, né?
— E hoje me conhece? — ele se virou para ela, a olhando terno.
— Sim. Bom — ela se virou para a frente — ao menos o suficiente para saber que você não seria capaz de matar.
Ele suspirou e voltou a cruzar os braços.
— A Isabela pensou que eu tentei matar ela.
— Aaai, que vaca! — Helena se exaltou — Garota imbecil. — Helena se posicionou a frente dele, pegando o rosto dele com as mãos — Tiago, essa mina é louca, ninguém que te conhecesse minimamente poderia pensar isso de você.
— Mas eu e ela estávamos há pouco tempo juntos, eu acusei ela... a magoei...- ele baixou o olhar, tentando achar justificativa.
— Estavam juntos há quanto tempo? — ela agora passeava o polegar direito pelo rosto dele fazendo carinho.
— Há umas semanas.
— Credo! Mas você não disse que amava a mina?
— Sim!
— Tá certo... — ela largou o rosto dele.
Tiago pegou as mãos dela para não se afastar dele.
— Parece pouco tempo para se amar?
— Tiago — ela soltou as suas mãos das dele e as colocou sobre o peito de Tiago que seguiu o movimento com o olhar — eu realmente não sei quanto tempo se leva para amar alguém, mas não acho que quando se ama se consegue pensar algo tão terrível daquele que ama. Ainda mais se for você.
Ele subiu o olhar para o rosto dela, que mantinha o olhar sobre as próprias mãos, sentindo o peito dele. Ele então colocou a mão direita no rosto dela, acariciando com um meio sorriso.
Então AnaLu subiu no barco, os olhando, enxugando o cabelo.
— Nós vamos voltar. Eu não estou me sentindo bem.
E ela saiu para a cabine do barco, depois de olhar feio para os dois, que não entenderam nada.
Tiago ficou a viagem de volta afastado de todos, pensando no que o tio e Helena disseram sobre Isabela e Tião. Realmente ele precisava definir o que sentia por ela ainda, e parar se se culpar ou aceitar a culpa pelas atitudes de Tião. E principalmente parar de aceitar as culpas que ela joga para ele. Se ele de fato fez algo contra Isabela, não foi por culpa de Tiago, mas unicamente pela mente doentia dele. “Todas as marcas que ela tem é culpa do Tião. O que esse desgraçado fez a Helena?”
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