A sobrinha da Helô
47 Revelações
Notas iniciais
Carmen estava no sofá da sala, sentada, ainda com o uniforme, pensando no que tinha acontecido nas ultimas horas.
AnaLu a avisou por telefone que o pessoal soube de uma invasão na casa dos Leitão bem na hora da festa. Tiago tinha ido para lá para tentar proteger Helena enquanto Heloisa comunicava a policia. O que era o mesmo que nada, pois se aquilo era fruto de armação de Tião, a policia já estava na mão dele, e ele daria um jeito de se safar.
Heloisa sequer voltara para a casa. Depois de avisar a policia, AnaLu disse que Helô recebera uma ligação de Bruno e teve que ir ao hospital. Leticia passara muito mal e fora finalmente internada.
Tudo finalmente estava um caos como Tião vinha planejando na surdina, cauteloso, só mostrando a intenção quando não podiam mais reagir.
Carmem pousou a mão direita no peito, erguendo a cabeça e respirando fundo, lembrando da expressão de desprezo e dor de Camila. E então baixou a cabeça, se agoniando com o pensamento de que até aquela hora não tivera nenhuma noticia de Tiago, além de que ele não estava entre os corpos encontrados na mansão. Ela estava novamente naquela situação terrível que a perseguia durante anos, sofrer pelos filhos que estavam longe dela.
— Eu não devia ter deixado nenhum deles sozinho. – ela falou para si, fechando os olhos e deixando uma lágrima cair, evitando pensar que não teve opção.
Carmem se sobressaltou quando a campainha tocou. Eram quase três horas da madrugada e estava só ela e Edu na casa. Tião saíra da festa antes de todos, mas não chegara ainda em casa.
Ela foi até a porta e a abriu, prendendo a respiração quando viu Camila com a cara inchada de choro e a mesma roupa da festa.
— Por que...? – ela perguntou para a mãe, chorando.
Tiago parou na escada e olhou para a porta da frente da mansão com a expressão vazia.
O tio o deixou alguns metros antes do portão, que estava arrebentado e com viaturas da policia civil e militar na frente, além de uma Van preta batida em um poste do outro lado da rua, com as portas abertas e tiros nas laterais, possivelmente dos invasores. Do lado dela dava para ver marcas de sangue no chão.
Tiago se sentia anestesiado por dentro. Simplesmente não conseguia sentir nada, nem surpresa com toda a situação.
Mas não estava em choque, sabia disso porque se manteve frio nos seus atos e palavras desde que levaram Helena, enquanto o tio se debatia. Ele chegou a pedir calma para o tio quando os encarapuçados foram embora, os trancando ali dentro.
— Eu preciso voltar para casa. – Tiago falou, sentado onde Helena estivera, tirando as mãos do rosto, alguns minutos depois dela ter sido levada, não conseguindo nenhuma resposta do tio, que estava em pé, perto da escada, com as mãos na cintura e a cabeça para cima – E não posso chegar lá assim, todo sujo de sangue.
Alguns segundos de silencio e o médico resolveu se manifestar.
— E nós?
— Ah... – Tiago se ergueu indo até eles, pegando a arma que estava jogada em cima da cama, fazendo ele e a enfermeira arregalarem os olhos, dando passos para trás – Eu...nem sei como agradecer e nem como me desculpar. – a voz de Tiago tentava sair firme e calma, mas começava a embargar – A arma estava o tempo todo travada. Eu realmente não tinha intenção de fazer mal algum.
— Nem quando me agrediu? – o médico não se conteve, tomando coragem diante da revelação de Tiago.
Pedro se virou para eles, os olhos vermelhos.
— Eu também não sei como me desculpar por isso. – foi a repostas franca que Tiago conseguiu formular.
— Talvez um juiz te diga. – o médico tentou ser corajoso, mas a enfermeira deu um tapa no seu braço.
— Olha, eu acho mais que justo eu pagar pelo que fiz. Mas vocês tem que entender que eu não podia deixar...eu precisei fazer algo. – Tiago respirou fundo, desviando o olhar dos dois.
— Eu acho que essa conversa não vai ajudar em nada agora. – Pedro se manifestou – O Tiago só pode levar vocês de volta e esperar que entendam e façam o que acharem melhor. – ele desviou do olhar agradecido que o sobrinho lhe dirigiu – E eu pediria que isso fosse logo.
— Eu... – Tiago fungou – Preciso da sua ajuda, tio.
Pedro se virou para ele apertando os olhos e cruzando os braços, e então olhou para cima.
— Não consigo nem olhar para a sua cara, Tiago. Como você deixou eles levarem a Helena? Ela pode estar morta agora.
Tiago olhou para o lado esquerdo, tentando ser firme, mordendo a bochecha interna.
— Bom... – o médico deu um passo a frente, se soltando da enfermeira – Acho que ficou mais do que claro que os bandidos eram amigos da garota. Pouco provável que esteja em perigo.
Pedro olhou para o médico, a boca entreaberta, nariz enrugado, os músculos da face tremendo de raiva e desprezo pela insinuação do outro.
O médico arregalou os olhos e na mesma hora ambos olharam para Tiago, pedindo apoio. Mas ele apenas apertou os lábios puxando o ar, para então baixar a cabeça e fechar os olhos, deixando as insistentes lágrimas caírem.
— É isso mesmo, Tiago? – Pedro se manifestou depois de alguns segundos com indignação, colocando as mãos na cintura – Vocês acham que a Helena tá com aqueles caras? Que ela é uma bandida?
— Olha, você me desculpe...ou não, mas ela tinha as mesmas roupas pretas, e estava baleada. Claramente estava com eles em algo que deu errado e o mocinho aí nos meteu no meio. – o médico apresentou a sua teoria, aumentando o tom da voz e apontando para Tiago.
Pedro balançava a cabeça negativamente, indignado.
— Tiago? – ele pediu uma resposta do sobrinho, que passou as mãos pelo rosto, o limpando, e se ergueu encarando o tio.
— Como eu disse, tio, eu preciso da sua ajuda.
Pedro franziu a testa e abriu mais a boca, quase furioso.
— Para encontrar a Helena? – Pedro cruzou os braços.
— Tio. – ele olhou para baixo – Eu preciso da sua ajuda, e pronto.
Pedro o olhou perdido, descruzando os braços, depois olhou para o médico e a enfermeira, cerrou os dentes com raiva. Levou uns segundos até fungar e balançar a cabeça afirmativamente, sem olhar para Tiago.
Duas horas depois eles estavam no carro, Tiago com uma camisa do tio, da mesma cor da que ele vestia antes, a calça, depois de certo trabalho com pano e agua, não permitia ver qualquer mancha de sangue que tivesse ali, e os sapatos estavam limpos. Não tinha como à primeira vista perceber onde ele estivera ou o que acontecera.
— Pronto. Daqui eu deixo eles no estacionamento do hospital e depois vou atrás da Flávia no posto. – Pedro parou o carro próximo a mansão, sem se virar para o sobrinho, a voz grave e distante.
— Isso. – Tiago respondeu e saiu do carro, se apoiando na janela, ignorando a raiva do tio – Diz para ela o que combinamos, e depois...
— Eu entendi. – Pedro falou, a cara fechada, seco, fazendo Tiago respirar fundo e sair em direção da mansão – Tiago? – ele suspirou fundo e chamou o sobrinho, que voltou – A Helena não tem nada a ver com o que quer que tenha acontecido ali. Ela não é bandida. E você sabe disso, não é? – Pedro declarou firme, o olhando nos olhos.
Tiago apenas baixou o olhar sem encarar o tio.
— Tio....só faz o que pedi. Tudo vai dar certo.
Tiago entrou na casa com expressão contida, mãos nos bolsos. Tentando parecer natural.
Levou alguns segundos para o notarem. AnaLu foi quem o viu primeiro, correndo até ele e o abraçando. Todos estavam ao redor do delegado, perto da escada, relatando o que sabiam sobre o dia, e querendo saber de mais informações. Eram eles: as duas empregadas, junto a avó, pai e madrasta de Tiago, além de AnaLu.
Eles então se viraram para os dois irmãos, os policiais, ao redor, três deles, pararam alguns segundos observando a cena e então voltaram ao trabalho na cena dos crimes.
Tiago engoliu em seco, passando o olho pelo monte de sangue onde achara Helena, e fechou os olhos abraçando mais forte a irmã.
— Você... nós achamos que alguma coisa tinha acontecido com você. – AnaLu falou se afastando e o segurando pelo rosto.
— Graças a Deus, meu neto! – Magnólia exclamou dando alguns passos na direção dos netos – Quando eu soube do ocorrido e que você sumiu da festa, eu cheguei a pensar o pior. Que você estivesse aqui quando invadiram a casa e sequestraram o seu avô!
Tiago arregalou o olho para a noticia e piscou alguns segundos assimilando a noticia sobre o avô. Ele se envolveu tanto com a situação de Helena que sequer cogitara algo acontecendo ao avô. O que lhe proporcionou sincero espanto com a noticia, afastando a duvida de ele ter estado ali antes.
— O que...? – ele olhou ao redor.
— Calma, Tiago. – AnaLu falou, mas ela mesma não estava calma – Ainda estão vendo a casa, procurando algo. Talvez ele tenha se escondido quando invadir...
— Invadiram não! Quando aquela bandida os deixou entrar. Nada me tira da cabeça que tudo isso é um plano daquela marginal. – a matriarca iniciou seu discurso teatral, erguendo os braços e então dirigindo um olhar cuidadoso ao neto.
Ele imediatamente se lembrou que deveria agir como se não soubesse de nada, nem mesmo de Helena ter sido vítima dos invasores.
— Não estou entendendo. – ele disse olhando para a irmã e ao redor, tentando demonstrar surpresa.
Luciane deu um passo a frente, largando o marido.
— A Helena, Tiago. Você sabe dela? O quarto tá meio bagunçado, e ...acharam um cara com um tiro na cabeça, sem roupa e enrolado nuns panos, na banheira dela. Tá complicado de defender. – a madrasta demonstrava sincera preocupação.
Novamente uma informação que o deixou sinceramente surpreso, a boca aberta e sem resposta. AnaLu respirou fundo, olhando para ele e tentando ver se lia no rosto dele se Tiago sabia de algo da namorada.
— O que....? – foi só o que Tiago conseguiu formular, olhando para a irmã e depois para a madrasta.
— Já chega. É muita informação para um só dia. Olha isso, o meu neto está em choque! – Magnólia se dirigiu a ele, o abraçando e afastando a neta para o lado.
— Em choque ou não, Dona Magnólia, ele vai ter que explicar algumas coisas. – o delegado veio então até eles, encarando Tiago – A começar com a ausência dele desde a festa até agora. Onde você estava?
Tiago tinha a boca levemente aberta. A tampou com as costas da mão direita e puxou o ar, enquanto a vó se colocava do lado dele, as mãos sobre o seu ombro.
— Eu fui assaltado. – ele soltou a informação junto com o ar, fechando os olhos e olhando para baixo – Levaram meu carro, carteira, tudo! Consegui telefonar para o tio Pedro com alguém na rua e consegui chegar só agora aqui. – ele contou a história sem olhar ninguém nos olhos, e então ergueu o queixo.
— Você foi assaltado? – o delegado o olhou desconfiado, perguntando com descrença, enquanto os olhares dos demais eram de surpresa – Que noite ruim para ser um Leitão.
— Concordo! – Tiago inspirou fundo e ergueu o queixo para o delegado – E eu ainda estou desnorteado. – ele olhou para as pessoas ao redor, os policiais se concentravam no trabalho na cena, seu pai parecia realmente preocupado com o assalto, mas os demais mostravam começar a desconfiar da situação – Mas, agora...pensando bem, talvez não tenha sido um assalto qualquer. Pode ter sido uma ação direcionada. Para me afastar da casa.
Magnólia franziu a testa cogitando a ideia de os homens de Tião terem pensado tão bem no plano que até montaram uma estratégia contra os residentes da casa, algo que ela achou muito inteligente, os demais consideraram a ideia de Tiago válida, exceto o delegado que ainda desconfiava
— O que aconteceu? – Tiago tentou manter a cena, dando um passo á frente e se virando para os lados, evitando as poças de sangue – Meu avô foi sequestrado? Onde está a Helena?
Ele aproveitou sua real angustia para fazer as perguntas sobre o avô e a namorada.
— Ótima pergunta. Que, se estivesse respondida, nem precisaria de nós aqui. – Tião falou entrando na mansão, logo atrás de Tiago, fazendo os cabelos da nuca desse eriçarem, e as narinas dilatarem de raiva.
Todos se viraram para a porta, desgostosos com a presença de Tião. Ele entrava com o queixo erguido e o sorriso vitorioso, sem olhar para onde pisava, enfurecendo alguns policiais civis, que não se atreveram a abrir a boca diante da companhia do banqueiro. Tião vinha acompanhado de um tipo alto, robusto e sério, vestindo um terno alinhavado, e seguido de mais três tipos, todos de calça preta e camiseta preta com símbolo da policia federal no lado esquerdo do peito, e o símbolo do Brasil na manga direita, além da identificação nas costas.
— Senhor Bezerra, — o delegado Celso se adiantou até o banqueiro, o interceptando antes de se aproximar de Tiago, que já virara o rosto para frente de novo, olhando para a escada, contendo a fúria – isso é uma investigação da policia civil, e acredito que não tenha nada a ver com a sua família, ou com qualquer crime de competência federal. – ele disse a ultima parte medindo os agentes federais de baixo a cima.
— Discordo! – Tião sequer olhava para o delegado, respondendo com seu ar pomposo — Como todos sabem o Tiago quase fez parte da minha família mais de uma vez, e há uma estreita relação entre os Bezerra e os Leitão. Quanto a competência, acho que o delegado federal, Doutor Vinicius Medeiros, pode resolver com você.
— De fato. – o delegado federal aproveitou a deixa – Realmente, até agora, não se vislumbra qualquer relação com crime federal, mas parece que falamos de um sequestro, pelo visto muito bem planejado, e que requer de muito recurso para desvendar. O colega sabe que para uma investigação em nada interfere essas particularidades procedimentais. Por isso, diante do pedido do Senhor Bezerra, muito atencioso com a situação da família, nós vimos oferecer nossa colaboração. Até mesmo para verificar se não há realmente qualquer crime federal. Nunca se sabe. Há vicissitudes que ocorrem no nosso meio, as quais devemos estar atentos.
O delegado federal sorriu para um delegado Celso enojado, que revirava os olhos, colocando as mãos nos bolsos e expirando com força, sabendo que não poderia impedir o outro de investigar, mas também não poderia ser impedido.
— Como quiserem. Mas acho que vocês estarão gastando recursos federais à toa, já que não vejo qualquer indicio de crime federal.
Um dos agentes atrás do delegado se empertigou e se encaminhou para o lado de uns dos cadáveres no chão, próximo da porta.
— Dos recursos destinados a mim, eu cuido. – foi a resposta do delegado federal – Agora, posso saber como tem tanta certeza que não há chance de ser crime federal?
— Muito simples. – os dois aumentavam a empáfia no tom da voz a cada nova frase, medindo poder – Se está claramente diante de um serviço interno – Magnólia arregalou os olhos e virou o rosto, AnaLu olhou a avó, acusadora, Tiago se virou para o policial federal que examinava o corpo no chão, desconfiado do que ele podia perceber – a tal sobrinha da Helô, que vem a ser a esposa do Tião aqui, foi quem armou tudo, depois que se infiltrou na casa. O que fora logo após o tio dela aqui a ter expulsado de casa. A garota está, inclusive, desaparecida.
Magnólia respirou aliviada, e Tião sorriu desgostoso para o delegado Celso.
— Você não está insinuando que eu coloquei a garota aqui para conseguir algo contra o Fausto Leitão, está, delegado?
— Calma, senhores. – Magnólia foi até eles – Eu concordo com o delegado Celso –Tião a olhou desconfiado – isso é claramente preparado por essa tal Helena. Mas Tião foi sempre quem nos alertou da má índole da garota. Mais fácil isso ser planejado pelo Pedro, que foi quem trouxe a menina aqui, e é justamente o maior interessado no sumiço do pai. Afinal, há uma herança em jogo. Deviam estar indo atrás do Pedro.
Tiago assistiu a cena, a respiração acelerando e cerrando os dentes a cada palavra da avó. Ela não só estava acusando Helena sem provas, como ainda colocava o tio no meio. Ela olhou para os lados e notou a cara do neto, mudando a feição dura para uma condoída.
— Me desculpe, Tiago – ela foi se dirigindo para o neto e colocando a mão no rosto dele – mas não tem outra explicação. A garota sumiu. O seu avô sumiu. Tem um tipo morto no quarto dela. Tudo aponta para só uma conclusão.
Tiago manteve por uns instantes o olhar indignado sobre a avó, que o abraçou. Ao redor, Luciane e as empregadas lamentavam ter de concordar com a lógica da matriarca. Mas AnaLu e Hércules observavam cada ato de Magnólia.
Tiago apenas balançava a cabeça negativamente, contendo as palavras e a indignação. No outro lado o agente federal que verificava os corpos, sorria, se levantando depois de examinar o ferimento no cadáver do líder dos bandidos, olhando ao redor e cochichando algo com o policial civil próximo, o que chamou atenção de Tiago por um instante.
O corpo que ele estava olhando era o mesmo caído sobre Helena quando Tiago chegou. Possivelmente ela quem atirou, e com a arma que ele mandara o tio esconder com Flávia. Tiago tinha um plano para aquela arma.
Ele afastou a avó e abaixou a cabeça, colocando as mãos no rosto. Estava no seu limite.
— Chega, gente. O Tiago claramente não está em condições. – falou AnaLu, indo até ele e passando a mão direita pelos ombros dele, o fazendo apertar os lábios e puxar o ar, contendo as lágrimas.
— Desculpa Analu, mas eu ainda... — o delegado Celso se voltou para eles de novo.
— O meu filho já deu todas as explicações necessárias por ora, delegado. – Hércules falou dando um passo à frente, fazendo Luciane erguer o queixo orgulhosa – Ele não estava aqui, quando tudo aconteceu, a não ser que o doutor possa provar o contrário. Além do que, está muito abalado para qualquer explicação. – Hércules se aproximou do filho, fazendo Magnólia dar um passo para trás, e passou o braço esquerdo pelos ombros de Tiago, o levando da sala, sem resistência, até as escadas – Amanhã, se ele estiver melhor, vocês conversam.
AnaLu foi atrás dos dois, que subiram as escadas observados pelos outros.
— Tudo muito estranho. – o delegado Celso murmurou para si, o olhar preso em Tiago.
Tiago passara pelo corredor com o dedo indicador e polegar da mão esquerda sobre os olhos, os apertando, evitando olhar a situação da casa, do quarto de Helena. Os dois conduziram Tiago até a cama dele, onde o sentaram na beirada do lado direito, Tiago agora abaixando a cabeça e colocando as duas mãos sobre o rosto.
— Tiago... – AnaLu sentou sobre os calcanhares em frente a ele, passando as mãos nos braços do irmão, enquanto o pai sentava ao lado de Tiago, na cama – você vai ver que tudo vai se resolver. Eu tenho certeza que vão encontrar o real culpado, trazer o vô e a ...
— Para, AnaLu. – Tiago a interrompeu, erguendo a cabeça e olhando para a janela – Eu não... você não precisa me dizer nada. Me deixa sozinho. – ele voltou o olhar frio para ela.
Tiago ainda lembrava de ter notado na festa que AnaLu sabia mais do que dizia. Que estava metida com o pessoal que vive armando contra todo mundo e se escondendo. Mal conseguia olhar para a cara dela.
— Mas eu acho...
— Eu não quero saber o que você acha. Vamos esperar pelas provas. Deixa assim. O importante agora é saber do vovô.
AnaLu deixou o queixo cair e olhou para o pai, desnorteada.
— Deixa a gente a sós, filha. – Hercules pediu.
Ela se levantou inconformada, e saiu batendo os pés, furiosa com a ideia de que Tiago estivesse realmente duvidando de Helena.
Hércules não falou nada. Apenas ficara sentado do lado do filho que voltara a olhar para a janela, ignorando a irmã batendo a porta com força.
— Você pode ir, eu não preciso de companhia. – Tiago falou, quebrando o silencio minutos depois, a voz profunda.
— Eu sei. – Hercules respondeu, baixando a cabeça – Mas se eu sair muito rápido daqui a Luciane vai implicar. Ela pediu para eu te dar apoio quando chegasse. Tá preocupada. – ele disse jogando o corpo para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e olhando para o chão, sem coragem de encarar o filho.
— Estava mesmo achando estranho. – Tiago respirou fundo, apertando as pontas dos dedos contra os olhos, que ardiam, mas ele não queria chorar.
— Não estou dizendo que eu não estou preocupado. Mas é...você está parecendo mais tranquilo do que quando perdeu a outra namorada. – Hercules falou, pegando um cigarro, tentando parecer positivo, recebendo do filho um olhar atravessado.
— Não fuma no meu quarto. – Tiago falou ríspido.
Hércules inspirou fundo e se endireitou, sem acender o cigarro.
— É. Nenhum pouco parecido com o jeito que ficou quando a Isadora morreu – Tiago não o corrigiu, apenas mantinha o olhar raivoso sobre o pai, que o irritava com a sua presença – mas muito parecido com quando a sua mãe morreu.
Tiago, desde que viu levarem Helena, tinha certeza que não conseguia sentir nada dentro dele, a não ser angustia. Um torpor pela dúvida da perda dela. Mas as palavras do pai foram como uma facada fria passando pelo peito, irradiando ódio, o fazendo abrir a boca indignado, deixando as lágrimas caírem enquanto enrugava a testa e nariz.
— Eu não acredito no que...Sai daqui! – ele falou firme para Hércules, tentando não gritar.
O pai se virou para ele, sem resposta, o cotovelo esquerdo ainda apoiado no joelho, a mão direita sobre a própria coxa
— Você é sempre melhor longe do que perto. – Tiago então disse amargo, o olhando frio.
— Eu sei. – foi a resposta sincera de Hércules, sustentando o olhar do filho.
— Você é um... idiota. – Tiago respondeu frio, fungando e desviando o olhar do pai – Olha a hora que você... me deixa.
— Eu vou te deixar. – Hercules se voltou para frente de novo – Você, como a AnaLu, se viram melhor sozinhos. Igual a mãe de vocês. – Tiago jogou o corpo para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e tampando os rosto com as mãos, tentando conter a raiva. – A Camila é que é mais parecida comigo.
— Para! – Tiago pediu entre os dentes – O que você quer? Me ver ainda mais mal? Sai, anda! – Tiago se ergueu, colocando as mãos na cintura, de frente para o pai.
— Olha. – Hercules pegou o cigarro, buscou o isqueiro no bolso do paletó caqui, e o acendeu, dando uma baforada para o outro lado, ignorando como cada ato seu irritava ainda mais o filho – Eu não sou um bom pai, nunca fui. E Nem vou começar a ser agora. Mas você é bom ... no que quer que você seja, Tiago. E eu sei que vai dar jeito de fazer o que é certo, dar a volta por cima.
Tiago não sabia o que sentia mais, se raiva ou nojo. Ele então olhou para o teto, procurando se conter, respirando fundo e voltando a olhar para o pai. A raiva de toda a situação agora direcionada para aquela figura sempre ausente.
— Você não tem medo que eu pire de novo? Que eu saia por aí jogando a moto embaixo de um caminhão?
Hércules riu, e então tragou o cigarro.
— Eu não tive medo daquela vez, por que teria nessa? – Hércules deu outra tragada, enquanto Tiago enjugava o nariz e o olhava com desgosto – Aquilo que você fez, Tiago, foi tentar me imitar. Fazer loucuras para forçar uma emoção que você não sentia. Porque, no final, você se sentia culpado de não estar sofrendo tanto quanto devia pela tal garota, e por achar que isso mostrava que podia sim ter matado ela. – Hércules balançou a cabeça, olhando para baixo – Não Tiago, você não é assim. Não é como eu, ou a sua avó. Deixando a raiva te dominar e fazendo besteira. Você é diferente. Mais como a sua mãe, mesmo. Vai pensar em um jeito de fazer dar certo, e vai conseguir. E se não tem como, vai ficar num canto mesmo, sofrendo sem atrapalhar, afastando todo mundo até se sentir melhor. – ele respirou fundo e se levantou, sem olhar para o filho – Por isso eu sei que você não vai fazer merda nenhuma. E nem me preocupo. Você não é como eu. Eu estou sempre longe, mas conheço muito bem os meus filhos.
Hércules deu outra tragada e se levantou, passando por Tiago, sem nem mesmo olhar para ele, em direção da porta. Tiago escutara o pai falando dele e da mãe, como nunca falara antes, trazendo mais emoções escondidas.
— Pai. – Hercules parou ao chamado do filho, enquanto lágrimas corriam soltas pelo rosto de Tiago, que andou até metade do quarto, observando o pai parado perto da porta, de costas – O senhor se sentiu mal...quando ela morreu?
Tiago tinha essa pergunta há muito tempo guardada. O momento e a abertura do pai ao falar da mãe o fizeram a soltar de uma vez por todas. Eram tantas as emoções que ele já não se continha. Mas o pai ficou parado, tragando o cigarro.
— Você não ficou com a gente quando ela morreu. Você vivia saindo, indo com as suas amantes, provavelmente. Eu achava que era – a raiva subindo, fazendo Tiago começar a gesticular com os braços, olhando para os lados, as lágrimas caindo enquanto ele se recordava – porque estava sofrendo, mas você não voltava chorando. Voltava rindo. Eu era pequeno, mas ficou bem claro para mim. – Tiago largou os braços do lado do corpo – Você se sentiu livre com a morte dela. Não amava ela...eu cheguei a achar que você...tinha matado ela.
— Não. – Hércules o interrompeu, puxando o ar e demonstrando pela primeira vez alguma emoção – Eu não amava a sua mãe. Mas não se tem três filhos com alguém sem sentir algo por ela. Não era só por causa da sua avó que eu não me separava dela. Eu sentia realmente algo. Mas depois que ela se foi, o que eu poderia fazer?
— Cuidar dos seus filhos? – Tiago respondeu a queimar roupa, colocando as mãos na cintura, narinas dilatas e queixo erguido – Será que por nós você também só sente “algo”?
Hércules respirou fundo e se virou para o filho, sério, quase triste.
— Como você mesmo disse antes, Tiago, eu sou melhor quando estou longe. Era assim com a sua mãe. Com certeza foi o melhor com vocês.
Tiago mirou o pai, com dor. Ergueu os braços e apontou para si mesmo.
— Você acha? – as lágrimas voltaram com força, a voz embargada.
— Eu... acho. – Hércules respondeu, inspirando fundo, o cigarro na mão, queimando sem ele notar – Escuta, filho, comigo distante ainda pude fazer algo de bom por vocês. Eu só iria bagunçar mais a cabeça de vocês. E já basta a avó de vocês fazendo isso.
Hércules olhou o filho, que curvou os lábios para baixo, segurando as emoções. Tiago abriu a boca, puxou o ar e olhou para os lados, depois para baixo, fechando os olhos com força.
— Você não fez nada de bom para nós. Nunca.
— Fiz. Fiz e muito. Eu poderia ter cedido a tudo o que a Dona Magnólia queria e formado todo um teatro de família feliz. Casado com uma mulher que não amo e que sofreria igual a sua mãe sofria. Mas não! – Hércules deu um passo para frente, aumentando o tom de voz, enquanto Tiago erguia a cabeça para ele com os olhos apertados — Eu fiz exatamente o contrário e evitei ao máximo ser uma influência para vocês. Quanto mais vocês ficassem longe dos teatros da minha mãe, melhor. Vocês aprenderam com a realidade das coisas. Duras, mas reais. Ao menos as que se consegue ver de dentro dessa casa. Já pensou viver igual a sua tia Vitória? – ele parou de falar e olhou para os lados, respirando fundo, jogando a ponta de cigarro no chão, Tiago balançando a cabeça negativamente, chorando – Tiago, eu sei que tudo isso é para fugir da sua dor agora. Eu nem sei porque me alterei. Mas vê se entende, filho, vocês terem mantido o máximo possível a imagem da mãe de vocês e não do que a avó de vocês queria, foi a melhor coisa. E eu, se fosse você, faria o mesmo quanto a Helena. Mantém a imagem que você tem dela, e não a que a sua avó está tentando pintar.
Tiago passava as mãos pelo rosto, tentando limpar as lágrimas, enrugando a testa quando ouviu as ultimas frases.
— O que você quer dizer com isso? – ele falou fungando e mirando o pai desconfiado.
— Filho, abre os olhos, quem está preocupada em procurar culpado e não o teu avô e a Helena?- ele falou colocando a mão direita sobre o ombro do filho o apertando, olhando Tiago nos olhos – Pois é. – ele concluiu largando o filho ao notar o olhar confuso do filho se iluminar com a conclusão da cena ocorrida lá embaixo – Boa noite, filho.
Hércules se despediu de Tiago o puxando para um abraço, e uns tapinhas nas costas. Sem esperar por mais desabafo do filho, ele se virou e saiu para encontrar uma Luciane, grudada na porta, que o recebeu com um abraço.
Camila depositou o copo de agua, vazio, sobre o balcão da pia da casa de Tião, e cruzou os braços, olhando para a mãe a sua frente.
— Você tá melhor? – Carmem perguntou maternal.
— Não. Acho que nem vou ficar tão cedo. Graças a você, é claro. – Camila encarava a mãe que baixou a cabeça – Você vai contar a razão de ter abandonado os filhos? E por que agora tá bancando a babá da família do Tião Bezerra?
— Camila, eu queria...
— Ok! Vou deixar bem clara a sua situação, aqui. Você fingiu a própria morte e agora finge ser outra pessoa. Se não me contar o que quero saber, eu te denuncio. Conto para todo mundo. E não me olha com cara de espanto. Porque é o que voce merece por me deixar com aquela família! – Camila soltou a ultima frase com a voz embargada.
— Eu sei que o que fiz...
— Já disse, nada de fugir da resposta. Pode falar! A razão do abandono não pode ser pior que ele em si. E nem se preocupa em parecer boa, que não espero nada de bom de você!
Carmem ergueu a cabeça para cima, buscando força. A filha a estava tratando como uma bandida.
— Não faz draminha não. Que aqui quem passou o pão que o diabo amassou fui eu, tá! – Camila sentia o choro voltar – Fui eu quem ficou pelos cantos, abandonada, rejeitada, sem a minha mãe por perto! Você acha que foi fácil viver naquela casa? O Tiago era mimado pelo vovo e a vovó, a AnaLu foi praticamente criada pela tia Vitória. O que você acha que sobrou pra mim? Nada, ok! Nada! Eu tinha que mendigar atenção de todos, no meio daqueles ...porcos! A única pessoa que ainda me dava alguma atenção era a que eu mais odiava por estar roubando o seu lugar! – Camila já deixava as lágrimas correrem, olhando uma Carmem que a mirava, também chorando – Você me deixou mais órfã que todos...
Camila parou quando Carmem colocou as mãos na boca, tentando controlar os soluços. A mulher começava a se descontrolar, fazendo Camila sentir a sua raiva esvaecer e outro sentimento tomar conta. Ela se aproximou devagar da mãe, que então ergueu os braços e a puxou para abraça-la, soluçando.
— Desculpa, filha. Me desculpa. – Carmem a segurava com força – Eu não queria deixar vocês, eu não queria. Mas... eu...estava correndo perigo. Todos estávamos. – Carmem permitiu que Camila se afastasse do abraço, a encarando, esperando uma explicação – A sua avó... – Carmem passou a mão direita sobre o rosto da filha, baixando o olhar, rememorando o que passou até ali – Eu descobri que ela estava usando a fábrica, seu avô, seu pai e o Tiago para os crimes dela. Eu a enfrentei, e ela ameaçou todos vocês. Mas eu não podia deixar ela fazer isso com o Tiago. Então eu procurei autoridades, e quando ia encontrar elas em outra cidade...o acidente...ela tentou me matar. – Carmem tentava ser clara no seu desabafo, passando agora as mãos pelos ombros e braços da filha – Eu não morri, por pouco. Me levaram no hospital. Lá, alguém que acompanha Tião e a sua avó por muito tempo, me encontrou. Ele conseguiu forjar a minha morte colocando outro corpo, carbonizado, no meu lugar e me ajudou a me esconder quando eu finalmente acordei. Levou meses para eu me recuperar. Quando acordei todos vocês já acreditavam na minha morte. – ela pegou o rosto de Camila, que agora franzia a testa revoltada – Eu tinha várias queimaduras, até no rosto, e eles me prometeram ajudar a recuperar tudo, se eu ajudasse eles a derrubar Tião e Magnólia. Foi a minha única saída para proteger vocês todos esses anos.
Camila se afastou, se segurando na pia, tentando recuperar o ar.
— Então eu estava certa. Foi a Magnólia. Sabia... Eu sabia! Eu tenho que contar pro Tiago!
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