A sobrinha da Helô
36 O sonho sem a sobrinha da Helô.
Tiago rolara para o lado direito, olhando pro teto. Ele ficara a abraçando por alguns segundos, sentindo a respiração dos dois regularizar.
Olhou para o lado esquerdo, observando Helena, que tinha o rosto virado para ele, a mão sobre as costas das mãos, o observando com os olhos brilhando, mordendo o lábio inferior quando ele a notou. Ela liberou a mão direita indo até o rosto dele, acariciando a face esquerda de Tiago. Os dois suspiraram e ele trouxe o rosto próximo, passando o nariz dele sobre o dela, inspirando fundo, beijando os lábios dela, levemente, sorrindo.
Ele afastou o rosto, mantendo o corpo virado para ela, erguendo o mesmo sobre o cotovelo direito, apoiando a cabeça sobre a mão, a admirando. Ela sorria para ele. Ele puxou o lábio inferior com o lábio superior o molhando e puxando o ar.
— Que foi? – ela perguntou.
— Nada. Só estou – ele pegou a mão direita dela com a mão esquerda dele e trouxe para a boca, beijando – admirando a minha namorada. Não posso?
— Poder, pode. – ela falou observando ele pegar de novo a mão dela e colocar na boca, beijando os dedos – Digamos que você fez por merecer, inclusive. – ela completou a frase mordendo o lábio.
Ele apertou os dentes puxando o ar entre eles, feliz com o que ela disse, a pegando com a mão esquerda pela cintura e a arrastando para perto dele até as pernas dos dois se encostarem, a fazendo rir e dar gritinhos. Ele a beijou no rosto e então foi beijar a pele nua dela pouco abaixo do pescoço, levando a mão até o inicio da coxa esquerda dela. Voltando a se apoiar sobre o cotovelo, Tiago veio trazendo devagar a mão pelo corpo dela, observando a mão subindo pela nádega, esticando os dedos e suspirando, a fazendo sorrir até os olhos quase fecharem, enquanto ele alcançava a lombar e subia pelo caminho da coluna dela.
— Vamos pro banho? – ele falou trazendo a mão para frente, voltando a posição anterior, inclinando a cabeça para a direita, sorrindo maroto.
Helena riu, jogando a cabeça para trás, e depois voltando a olha-lo.
— Meu Deus, o que te deu, Tiago?
— Aaah – ele murchou o sorriso e voltou a se debruçar sobre ela, indo beijar o mesmo ponto abaixo do pescoço – nada. – os beijos foram descendo – Só que – ele alcançou a lombar – eu quero te namorar mesmo. Antes de sairmos para a triste realidade que nos cerca.
Ela franzia a testa o ouvindo, mas fechou os olhos quando o sentiu subir os lábios no inicio da nádega esquerda e mordiscar.
Tiago preferiu não contar, ela poderia achar bobo, mas ele tivera um sonho, que estava mais para um pesadelo, naquela noite, trazendo a sensação ruim de que ficaria sem ela.
No sonho ele acordava no quarto, sozinho, Helena não estava ali. Ele olhava nervoso para os lados e então via uma foto dele com Leticia, no dia do casamento deles.
Então foi como se ele tivesse se lembrado no sonho que na verdade se casara com Leticia, e que Isabela apareceu como Marina, e que toda aquela patética vida de não saber com quem ficar, porque uma era isso, a outra aquilo, voltara nesse mundo sem Helena. No sonho ele havia brigado com Leticia depois de ter traído ela com Marina/Isabela, e estava se sentindo mal. Não só por ter feito isso com a esposa, e Isabela, mas por perceber que não tinha como ser amor o que ele sentia, por nenhuma das duas.
Uma ele tinha imenso carinho, e a outra pura fantasia, que ele só conseguia alimentar com mais fantasias para justificar a obsessão por ela, para ter uma amor “proibido”.
Ele percebia no sonho que só conseguia ter momentos bons com Isabela quando viajava para lugares lindos, fugiam para hotéis, montavam cenários românticos, pois de resto a única emoção eram os dramas familiares e as brigas bobas para poder se conciliarem e terem mais emoção nos encontros deles. E com Marina só vinha tendo o segundo tipo de emoção, do proibido mesmo, do reprovável, do ódio que virava tesão. Mas feliz de verdade, nenhum momento.
Assim, no sonho, a realidade do que a carência dele por amar alguém fez ele se meter nessa confusão o acertara tão profundo, que ele voltara para o seu quarto na casa da avó, e deitara, tentando esquecer tudo, sonhando com um amor de verdade. E nele tinha Helena. Como se a realidade fosse a sua vida patética, e a vida com Helena fosse só um sonho. E então ele deitou de novo no travesseiro tentando voltar a sonhar com Helena, não conseguindo, porque ela não existia e nunca mais voltaria.
Foi quando acordou, se sentindo pesado, a respiração difícil, um aperto no peito. Olhou para o lado e viu Helena, respirando aliviado, por ter ela ali. Desesperado de não tê-la mais, como no sonho, Tiago só queria sentir ela perto dele.
Saindo do devaneio, Tiago parou de beija-la e rolou sobre ela, a abraçando pela cintura, jogando o cabelo dela pro lado esquerdo, ele beijou a curva do pescoço dela.
— Você não vai mesmo desistir, né? Eu tô cansada, moço. – ela falou semicerrando os olhos e inspirando fundo quando a mão esquerda dele, subiu para o seio esquerdo dela.
— Helena, é só um banho. – ele disse indo beijar o ombro.
— Ai... – ela se virou de frente, o fazendo se erguer enquanto ela se ajeitava embaixo dele, as mãos sobre o peito de Tiago – é só dormir, é só um beijo – ela foi descendo a mão – é só um banho... – passou a mão para as costas dele, a boca entreaberta, sorrindo maliciosa, fazendo ele erguer as sobrancelhas, a boca levemente aberta e sorrindo de volta.
— Ah é assim?
Ela respondeu que sim, erguendo as sobrancelhas, o imitando. Tiago riu e desceu os lábios para um beijo estalado, a largando em seguida e se levantando, deixando Helena perdida.
— Então tá. Eu – ele apontou para si mesmo com o dedo indicador da mão direita – vou para o banho.
Ela se ergueu sobre os cotovelos levantando uma sobrancelha para ele, que ergueu o queixo para ela, risonho, as mãos na cintura.
— Então tá. – ela conteve um sorriso e olhou para o lado – Vai!
Ele sorriu olhando pro lado também.
— Então, tá. Eu vou!
Apertando os lábios até formar um bico debochado para ela, Tiago virou de costas e foi até o banheiro. Ela ouviu ele ligar o chuveiro, e virou os olhos. Tiago esperava parado ela chama-lo, de frente para o box, as mãos na cintura. Helena olhou para os lados, mexeu na cama até achar o que queria, no chão.
— Tiaaaago... – ela o chamou, se deitando de novo.
— O que? – ele perguntou do banheiro.
— Vem aqui. – ela virava o calção dele na mão, contendo um riso.
Ele veio sorrindo.
— Que? – chegou perto da cama, erguendo o queixo para ela.
— Você vai tomar banho sem levar a roupa? – ela falou sem olhar para ele, não conseguindo segurar o sorriso.
— Eu – ele colocou o joelho esquerdo sobre a cama, se inclinando para pegar o calção da mão dela, o perdendo num movimento de Helena que ergueu as mãos para atrás – não vou usar esse calção. Imagina eu indo trabalhar de calção?
— Ia vender tecidos bem mais rápido se mostrasse as pernas. – ela provocou, vendo ele colocar os joelhos ao redor dela, apoiando as mãos na cama, a observando com a boca levemente aberta.
— Você acha?
— Ô! – ela disse deixando o calção na mão esquerda, ainda sobre a cabeça dela, e alisando a perna esquerda dele com a mão direita.
Tiago notou a provocação.
— Aaah. – ele abaixou o tronco, enfiando a cabeça logo abaixo do braço esquerdo dela, o braço esquerdo dele passando pelas nádegas, ele deu um impulso e a colocou sobre os ombros, tentando se equilibrar.
— O que é isso? – ela falou rindo, depois de gritar com o movimento dele, a cabeça jogada para trás, vendo as costas dele, deixando o calção cair.
— Cala a boca. – ele falou tentando parecer bravo, batendo com a mão direita nas nádegas dela, ouvindo ela soltar um “Ai”, baixo – Vou te levar pro banho. Lavar essa mente suja.
— Hahaha. Eu sou a mente suja?
Ele a levava para o banheiro, rindo.
— Ô!
— Mas é um...porquinho! – ela bateu nas nádegas dele, rindo e dando gritinhos quando ele parou abrupto – Eu criei um monstro! Insaciável!
Tiago abaixou e colocou ela no chão, se erguendo e a abraçando pela cintura a puxando para não fugir.
— Queria o quê, namorando um leitão? – Tiago a beijou, os dois sorrindo, Helena suspirou.
— Tiago? – Pedro bateu na porta.
Tiago olhou para a porta assustado, fazendo cara de garoto pego fazendo coisa errada, provocando em Helena uma vontade de rir.
— Tiago? Abre aqui.
Helena abriu a boca para responder algo e Tiago tampou a boca dela com a mão esquerda, colocando o dedo indicador da mão direita sobre a boca.
— Shhh.
Ela arregalou os olhos, segurando o riso.
— Tiago? – Pedro bateu mais forte – Tiago, o seu celular deve estar desligado, pessoal da empresa está ligando. – Tiago fechou os olhos e enrugou o rosto, o voltando para cima, lamentando em silencio – Tiago? – Pedro bateu mais forte.
Helena afastou a mão dele.
— Responde logo, ele pode achar que aconteceu algo.
— Tio? – Tiago gritou, já procurando o calção no chão e o pegando.
— Tiago!
Ele indicou para Helena entrar no banheiro e fechou a porta. Colocando o calção ele foi atender a porta abrindo só uma fresta para o tio, tampando, com o corpo, a visão do quarto bagunçado.
— Oi! Eu acabei de acordar. – Tiago falou coçando o nariz e fungando.
— Certo. Pessoal da empresa ligou, o Misael não pôde ir – Tiago fechou os olhos lembrando que não teria o encarregado lá por conta do que aconteceu com Aline – e eles estão meio perdidos. Olha a responsabilidade, cara.
— Sim. Eu esqueci. Já vou descer... Depois do banho.
— Certo. E a Helena? Tudo bem?
— Sim. Tudo. Ela tá no banho.
Pedro baixou a cabeça a balançando e saiu pelo corredor. Só depois de fechar a porta Tiago percebeu que disse que ia tomar banho quando Helena já estava tomando.
— Mancada...
Helena saiu do banheiro enrolada numa toalha.
— Pronto. Já tomei banho, pode usar. – ela estava claramente ainda seca.
Ele apertou os olhos para ela, que continha o riso, e correu a alcançando e a erguendo do chão.
— Você não é nem louca.
Ele a carregou para o banheiro, Helena dando tapinhas no ombro dele, rindo.
AnaLu respirou fundo, acordando e levando a costa da mão esquerda aos olhos, os esfregando. Abrindo os olhos com dificuldade, ela notou Élio sentado na cama, do seu lado direito, as costas no encosto do móvel, sem a camisa, sentado sobre travesseiros, sem óculos e com a testa franzida. Tão absorto nos próprios pensamentos, que não a notara acordar.
— Élio? – ela arrastou o corpo para cima, se sentando do lado dele e olhando ao redor, as cortinas fechadas deixavam perceber só que já amanhecera, mas não quanto tempo – Que horas são?
Ele a notou e sorriu contido, indo beijar a testa dela.
— Não sei. Acordei agora também.
AnaLu piscou os olhos e então os apertou na direção dele.
— Você está mentindo. O que foi? Desde ontem de manhã você está assim. É por causa do que eu trouxe da tia Vitória?
Ele apenas puxou o ar e olhou para o outro lado, se lembrando do que assistiu. Ele no fundo já sabia que Magnólia era a culpada da morte de sua tia, e possivelmente da morte de muitos mais. Mas da morte da mãe de AnaLu? Ele simplesmente não sabia como é que levaria aquilo adiante sabendo que colocaria o mundo dela no chão. Magnólia com certeza merecia as consequências dos seus atos, mas doía imaginar a dor que a namorada sentiria sabendo que a própria avó a privou de ter uma mãe.
— Responde, Élio! – ela se inclinou para frente e puxou o rosto dele pelo queixo – Tem alguma coisa a ver comigo? – ele baixou o olhar, não a encarando – Com a minha vó? – ele ergueu o olhar para ela, firme e então voltou a olhar para baixo – Com a minha mãe? – o namorado voltou o olhar só que agora perturbado, ela continuou sentindo no silencio dele a confirmação – É sobre a morte dela, não é? É uma prova de que a Magnólia matou a minha mãe. Fala! Pode falar – AnaLu sentia os olhos ardendo e a voz embargando – eu sei que foi a minha avó. Há anos. Se você tem uma prova disso, por favor – as lágrimas caindo – é só o que preciso para fazer ela pagar.
— AnaLu? – ele a olhava estupefato – Como...você sabia sobre a sua avó?
Ela fungou, enxugando as lágrimas.
— Sim. E tem mais gente que sabe. Só faltam as provas! E se você tem elas. – AnaLu fungou mais forte e se ergueu, indo atrás do telefone, discando um número – Ta na hora de colocar você nessa.
— Ah, Dona Magnólia! Era a senhora que eu estava procurando. – o médico de Vitória, um tipo trinta centímetros mais alto que Magnólia, careca no alto da cabeça e com cabelos grisalhos nas laterais, magro, vestindo camisa de manga longa cinza claro, e calça branca, montado num sapatenis azul marinho, saiu do quarto, encontrando ela vindo do escritório, respirando fundo quando o viu – Eu examinei a sua filha. A sua neta ficou com ela e eu passei tudo. Mas gostaria de frisar a necessidade de uma maior atenção. Ela tem passado emoções fortes e na situação dela é perigoso muita medicação. – Magnólia apenas o escutava tentando não ser deselegante – Por isso, deixei um mais leve, mas que é necessário cuidado. Se ela ingerir acima da dose, pode até acelerar o parto, ou matar o feto, e até ela. – ele frisou.
Magnólia então acordou diante do que ele disse.
— Sim, sim! Claro doutor. Eu cuido pessoalmente dos remédios da minha filha. – ela sorriu para ele, que sorriu de volta e se despediu.
“Enfim algo que me ajude!” Pensou a vilã, se encaminhando mais animada para seu quarto, para dormir o sono dos injustos.
— Eu disse que era só um banho.
Falou Tiago, no ouvido esquerdo de Helena, a fazendo rir e levantar o ombro sentindo um arrepio, ambos enrolados em toalhas, ele a abraçando por trás, o cabelo molhado dela jogado para o lado direito.
— Tá certo! Da próxima vez eu acredito na sua palavra. Daí, quando eu vir pro seu quarto dormir, eu vou só dormir. — ela falou erguendo o queixo, fingindo indignação depois de quase meia hora dele a ensaboando e fazendo massagem no cabelo dela com shampoo, vários beijos e só.
— Justo! – ele falou erguendo a cabeça e a olhando, fazendo Helena virar o rosto para ver a feição dele e apertar os olhos – Eu só te coloco na cama, dou um beijo de boa noite, e vamos dormir.
Ela franziu a testa para ele, não acreditando. Ele ergueu as sobrancelhas a mirando significativo.
— Aaaah, o seu beijo de boa noite não vai me dar sono, não!
Ele voltou a abraçar ela cheirando o pescoço, rindo junto com a namorada.
— Tiago, já deve ser onze horas.
Ele apoiou o queixo no ombro dela, apertando os lábios.
— Verdade. E eu não tenho como fugir do serviço.
Ele a soltou enquanto Helena se virava para ele.
— Neste caso.
Ela o trouxe pela nuca, o beijando sôfrega, sentindo ele gemer e descer a mão para a cintura dela, a puxando para ele, enquanto inclinava o rosto para a direita e abria mais a boca, aprofundando o beijo e fazendo ela gemer. Helena afastou o beijo, respirando difícil, a boca vermelha. Sorriu notando ele se inclinando mais para frente, a boca aberta seguindo os lábios dela, olhos semicerrados.
— Quer voltar pro banho? – ela perguntou sorrindo.
Ele sorriu e voltou a puxar ela para ele, dando um beijo urgente, subindo a mão esquerda da cintura dela para a nuca, sentindo Helena tentar resistir com as mãos no peito dele para afasta-lo, e então se entregar, gemendo e o envolvendo pelo pescoço, caminhando para frente, o pressionando na parede, mordendo o lábio superior de Tiago. Ele subiu as mãos para frente, para a borda da toalha dela na altura do peito, e quando ia puxar, Helena se afastou, sem ar.
— Agora eu vou. – ela disse rindo com a costa da mão direita sobre os lábios.
Ele sorriu e ainda tentou ir até ela, pega-la, mas Helena foi mais rápida e saiu do quarto rindo.
— Louca. Vai sair só de tolha pelo corredor. – Tiago falou rindo para a porta, então se virou e olhou o estado do quarto, sorrindo, enchendo os pulmões de ar e passando as mãos pelo tronco, feliz.
Helena foi pelo corredor, rindo, e quando virou para o do seu quarto, avistou Magnólia, que vinha sorrindo depois de falar com o médico. A velha parou um instante e então fechou os olhos, inspirando fundo. A sobrinha da Helô sorriu e foi na direção dela.
— Olha que legal, vovó! Do jeito que a fábrica tá indo, acho que até ano que vem sai o primeiro bisnetinho. – Helena falou isso gargalhando diante da boca levemente aberta e o ar de indignação de Magnólia.
Magnólia preferiu não responder e apenas apertou os lábios, olhando para frente e erguendo o queixo, indo até seu quarto.
Helena passou por ela rindo, mas olhou sério na direção dela quando a viu sumir pelo corredor, no lado oposto ao de onde ficava o quarto de Tiago. “Essa velha... Aline não fez nada sozinha, e ainda pagou o maior pato. Tá na hora de eu fazer a Dona Má pagar pelas suas traquinagens. E caro!” Ela sorriu ao pensar em como ela pagaria caro, e foi para o seu quarto, não encontrando mais ninguém no caminho.
Tiago entrou na cozinha esperando encontrar algo para comer antes de ir ao serviço, e encontrou o caos. Sandra, que assumiu o posto de Leila, que deveria estar com o resto da família no hospital, estava com um monte de produtos, frutas e carnes na pia, e olhava com Pedro para a geladeira, explicando algo.
— Bom dia! – ele cumprimentou os dois, indo até a pia, pegando um copo e colocando suco da caixa, já quente.
— Bom dia. – Pedro respondeu sisudo – Essa é daquelas noites que não acabam mais. – ele se virou para o sobrinho.
— O que foi? – Tiago franziu a testa olhando para o tio, tomando o suco.
— Bom, no momento, a geladeira está quebrada...
Tiago se afogou com o suco e começou a tossir, colocando o braço sobre a boca, recebendo um olhar curioso do tio.
— Ai, vai atrasar tudo! – reclamou Sandra, ao fundo, olhando ao redor.
— Mas o que aconteceu? – Tiago puxou o ar perguntando, ainda tossindo e desviando o olhar do tio.
— Ah, não sei. Os técnicos disseram que tem que trocar. Mas eles sempre dizem isso. – Sandra respondeu amuada – Bem no dia que a Leila não está.
— Pois é... – Tiago olhava a geladeira com a boca meio aberta, a mão direita passando sobre maxilar, sobrancelhas erguidas.
— Bom! Almoço nessa casa não vai ter mesmo, eu acho. Vou ir em busca de algo para o pessoal. Luciane e seu pai não vão almoçar aqui, por conta da campanha. Só resta Helena, sua irmã e a minha irmã, seu avô, e os empregados... É, vai dar trabalho. – Pedro respondeu tentando se animar.
— E a vó. – Tiago completou.
Pedro suspirou e olhou para o sobrinho.
— Bom! Acho que não tenho muito como ajudar aqui. – Tiago disse olhando para o tio e para a geladeira, indo pegar uma maçã – Vou para o serviço ver se salvo um pouco do dia. – ele foi saindo ainda olhando de relance para a geladeira, intrigado.
— Certo. – Pedro o viu saindo – Espera, Tiago. Preciso falar uma coisa com você. — ele o parou no corredor – Você e a Helena – Tiago colocou as mãos na cintura – estão se entendendo bem. Não é?
— Sim. A gente tá namorando. – Tiago quis dar a noticia sério, mas o final saiu com um sorriso largo, que o tio imitou.
— Que bom. E eu estou vendo que ela confia muito em você. – Tiago franziu a testa – E te escuta.
— É... – ele colocou a mão esquerda sobre o queixo, baixando a cabeça.
— Eu preciso que você me ajude a convencer ela a ir amanhã no shopping comigo e Heloisa.
— Mas qual o problema em conven...- Tiago olhou para o tio, franzindo a testa e então lembrou que há meses atrás Heloisa havia dito para Helena sair da casa dela por uma armação de Leticia – Entendi. Certo, tio. Eu vou tentar.
— Cara, é importante.
— Pode deixar. – Tiago bateu no ombro do tio e saíram pelo corredor.
Tiago mordia a maçã procurando telefone e chaves no bolso quando num reflexo se abaixou abruptamente e levantou o braço esquerdo para se proteger. Na sua frente estava Bruno, que olhou estranho o movimento dele, assim como Pedro, e então o olhou com desprezo.
— Que é isso, Tiago? – Pedro perguntou.
— Nada. Só reflexo mesmo. – ele respondeu se erguendo e tirando a maçã da boca, encarando Bruno.
— Pedro, já dei uma olhada no seu Fausto. Tudo bem. Acho que o susto foi maior em quem viu a cena.
— Muito obrigado, Bruno. – Pedro colocou as mãos na cintura e olhou o médico nos olhos, suspirando – Por tudo. A Heloisa me contou hoje o quanto você tem ajudado.
Bruno pigarreou e olhou para baixo, Tiago franziu a testa. Os Leitão de costas para as escadas, não virão Helena se aproximando.
— Que bela reunião! – Helena disse, fazendo Tiago se virar e sorrir para ela, a beijando quando se aproximou.
Helena vestia uma regata preta solta sobre o short branco rasgado, e seus coturnos, o cabelo soltou ainda um pouco molhado.
Tiago se virou para os outros dois, colocando o braço esquerdo sobre o ombro de Helena, que pegava a maçã dele e mordia. Bruno olhava eles, indignado. Pedro tinha os braços cruzados para a cena.
— Mas é muita cara de pau mesmo. – Bruno balançava a cabeça para os dois – Agora tá namorando a prima da Leticia?
— O que é, cara? Qual teu problema comigo? – Tiago, largou Helena, se enfezando com Bruno, que apontava para ela.
— O problema é que outro mês você estava noivo da Leticia, semana passada agarrando garota na balada, e agora de beijinho com a prima da ex-noiva!
— Como é que é? – Helena perguntou com a voz um tom acima e já cruzando os braços, fazendo Tiago fechar os olhos – Ele estava fazendo o que semana passada?
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