A sobrinha da Helô
10 O sequestrador da sobrinha da Helô
Tiago ficou aterrorizado. Primeiro o carro veio de encontro ao seu, a batida e então os air-bags se abriram, pára-brisas trincaram, e a seguir ele pode notar, do que sobrou do para-brisas, ainda tonto, que uns quatro homens de preto e capuz iam até a porta deles, parando, dois deles de cada lado, com armas apontadas. Ele levantou as mãos, e então o que viu o assustou ainda mais. Do seu lado Helena estava desacordada, cabeça sobre o air-bag. Braços jogados para baixo.
— Helena? Meu Deus...
Tiago tentou se livrar do air-bag dele para socorrê-la, mas então um dos encapuzados sem arma bateu no vidro do carro fazendo sinal para ele destrancar a porta dele, o que foi respondido com um Tiago prendendo a respiração. Se fossem pegar eles, não seria tão fácil.
Então o cara com arma se aproximou do vidro e o quebrou com uma coronhada, puxou o pino e destravou as portas. Tiago tentou reagir e abriu a porta rápido e forte contra os dois do lado de fora, os desequilibrando, bateu mais uma vez para afasta-los. Mas o cara armado desviou habilidoso e deu um tiro para cima apontando a arma para ele a seguir. Tiago, foi saindo do carro fazendo cara de contrariado, apertando os lábios, e levantando os braços, permitindo que o desarmado o pegasse, torcendo seu braço esquerdo para trás, e o levasse em direção da grande caminhonete preta que bateu neles e pareceu mal ter sido danificada. Ele olhou por cima do ombro os outros dois caras abrirem a porta de Helena e a pegarem desmaiada do carro.
Eles tinham cuidado em tira-la, provavelmente com receio de que ela tivesse alguma fratura. Pelo visto não estavam ali para matar eles, por enquanto. O cara armado guardou na cintura a sua arma e ajudou o outro a puxar Helena, segurando-a pela parte da cabeça, enquanto o outro cuidava da parte das pernas, a boina caindo e revelando o cabelo dela com a trança ainda intacta. Tiago mais era empurrado do que andava, observava cada movimentos dos caras com Helena. E então ela o surpreendeu mais uma vez, fazendo o coração dele pular.
Helena fingiu ter ficado desacordada, aproveitando para desprender as sandálias. Quando a retiraram do veículo, ela esperou o melhor momento para pegar ambos desprevenidos, e isso se deu quando o cara armado foi ajudar a pega-la. Assim que o corpo estava totalmente fora do carro, Helena abriu os olhos, jogou os braços para trás, rodeando o pescoço do cara que a segurava pela cabeça, e impulsionou as pernas acertando o nariz do seqüestrador que a segurava pelas pernas, o fazendo recuar e larga-la. Pés no chão e pendurada no primeiro guarda, que agora tentava tirar os braços dela, os puxando, Helena se firmou no chão com o que podia daquela sandalinha e o impulsionou para frente o jogando no chão, de costas. O outro guarda veio então até ela, que recuou, tirou as sandalinhas e as segurou. Assim que o cara se aproximou ela acertou um dos calçados bem na cara do sequestrador, que continuou se aproximando apesar de já se perceber, pela abertura na boca do capuz, que o nariz sangrava. Ele então já ia passando o braço por ela, quando Helena o chutou baixo.
Tiago se animou com a bravura dela, percebeu que os dois que cuidavam dele estavam incrédulos e distraídos com as ações da moça, e usou o ombro para acertar a cara do encapuzado que o segurava, e depois o chutou na altura dos joelhos usando os pés. Tiago pensou que já estava livre do sequestrador, que cambaleou para trás soltando o seu braço, quando sentiu o cano frio da arma do outro na sua cabeça. O olhando de canto de olho, subiu novamente as mãos rendido. Então viu Helena terminar com o encapuzado desarmado, dando uma pisada forte na altura do estomago, o jogando para trás. Só que, envolvida naquele, ela não notou que o outro se levantava, e, a surpreendendo pelas costas, a desacordou com uma coronhada na nuca. Desmaiando e sendo segurada pelo seqüestrador, Helena foi levada para o carro.
— Desgraçado!
Tiago urrou e fez menção em correr até ela, sem se importar com a arma na sua cabeça. Mas então foi novamente segurado pelo outro sequestrador. Dessa vez se livrou dele com uma cotovelada. Correu até Helena, mas antes de alcança-la foi desacordado igualmente com uma coronhada.
Leticia procurava a mãe pela casa toda, com revistas de vestido de noiva e enfeites de casamento na mão. A encontrou no sofá da sala, apoiando a cabeça na mão do braço direito que por sua vez estava com o cotovelo apoiado no encosto do sofá, enquanto tinha a outra mão sobre o peito, olhos fechados.
— Mãe? Você tá bem? – Leticia correu pro lado da mãe.
— Oi? Ah...sim – Helô olhou com carinho para a filha – só um daqueles mal estar.
— Como quais, aqueles de quando eu era pequena?
— Sim. Lembra?
— Ahã, do nada você vinha no meu quarto – Leticia relembrava com graça – me abraçava, porque dizia que sentia um mal pressentimento.
— É – Helô falou sorrindo para a filha, passando a mão que estava sobre o peito agora no rosto dela – bem esses. Eu sempre tive muito medo de te perder.
Helô suspirou. Não quis contar para Leticia que não sentiu esses mal estar apenas quando ela era pequena. No decorrer do crescimento de Leticia sentira várias vezes aquele pressentimento de que algo ruim estava acontecendo com a filha, mesmo ela estando do seu lado. O que Helô passou a entender como se tivesse sido de fato um sinal de que ela teria a doença de sua mãe, como se no fundo ela sempre soubesse que a filha corria perigo pela doença. Bom, era o que ela pensava até um mês atrás, quando teve de novo aquela sensação, bem no dia em que Tiago e Helena foram assaltados.
Helena acordou com alguém batendo no seu ombro e costas. Tudo pesado na mente dela. Os olhos estavam difíceis de abrir, a cabeça não queria levantar e seus braços e pernas pareciam presos. Então ela começou a sair da letargia e percebeu que de fato os braços e pernas estavam presos. Expirou fundo e deu um pulo ao abrir completamente o olho e ver a sua situação, ela gritou.
— O que é isso?
— Helena...?
Tiago falou aliviado, suspirando atrás dela, preso por uma corda a ela, que primeiro dava voltas ao redor do corpo dele prendendo o seu braço que fora colocado para trás, em vários pontos, enquanto as mãos foram amarradas juntas, nas suas costas, o deixando muito desconfortável. Para completar, passaram a corda ao redor dos dois, os prendendo juntos, enquanto as pernas foram presas juntas, esticadas para a frente, com fitas isolantes. Ele acreditava que Helena estivesse presa do mesmo jeito, pois podia sentir os braços dela encostando nos dele, e as mãos dela próximas das suas.
— ... que bom! Você está bem?
— Tiago? – ela respondeu com a voz mais baixa, tentando virar a cabeça por sobre o ombro esquerdo, a cabeça doendo em um ponto na nuca – O que aconteceu, você viu onde nos trouxeram?
Ele então virou a cabeça por sobre o ombro direito dele, os dois com a cabeça quase se tocando.
— Esses desgraçados nos sequestraram.
— A dor de cabeça é tanta que vou deixar passar essa resposta ridiculamente óbvia! Eu quero saber é como foi isso! Só me lembro de ter conseguido derrubar dois deles e... me deram uma coronhada?
— Foi, o cara se aproveitou que você estava distraída e te atingiu. Depois me atingiram quando tentei reagir. Acordei só agora.
— Mas que merda, Tiago! Pra quê você foi reagir? Ficasse na tua e daria para ao menos perceber onde nos trouxeram. Agora estamos ainda mais perdidos.
— Mas... — Tiago se debateu irritado, olhando para a frente — eu fiz isso pra te defender.
Helena tentou virar mais o rosto para enxergar Tiago melhor, conseguindo apenas ver a nuca dele, e parte da bochecha, enquanto ele tentava jogar o corpo para a frente, irritado. Quando ele voltou para trás e virou o rosto na direção dela, Helena olhou para a frente rapidamente, suspirando.
— Bom, isso não adianta mais para nós. Conseguiu perceber algum detalhe deles ao menos? Eu não consegui perceber muito, mas não me pareceram os vigias do Tião, devem ser freelancers. — Tiago mudo – Tiago! — ela bateu com o ombro esquerdo dela no ombro direito dele depois de uns segundos — Me responde.
— Eu não sei, não vi nada, não sou treinado para reconhecer bandido. Se fosse não tinha te dado ouvidos desde o começo.
Helena se debateu procurando um jeito de responder fisicamente o insulto.
— Aaaaa — ela gritou frustrada — quando eu sair daqui vou te responder como merece!
— Pouco provável, – ele virou o rosto sobre o ombro direito rapidamente para olha-la — assim que eu sair daqui vou ficar bem longe de você. Só me meto em roubada por sua culpa!
Tiago então olhou para cima, observando um ponto de luz por onde entrava o sol do final da tarde. Eles devem ter ficado desacordados por muito tempo.
— Socorroooooo — Helena começou a gritar – me ajuuuuuuuuudaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.
— O que você tá fazendo? – Tiago a cutucou pelo ombro com o ombro dele, se virando novamente para ela – Esse casebre deve estar no meio de nada, ninguém além dos bandidos vão escutar.
— Eu sei! Tô pedindo ajuda para eles mesmo! Pra me tirarem de perto de renomado porco hipócrita.
E Helena voltou a se debater com muita força, puxando a corda e apertando Tiago, o machucando.
— Ai... para! – ele passou a se debater machucando ela também.
— Seu.... cretino, desgraçado. Me põe na mira dos outros e ainda coloca a culpa em mim!
Helena falou, cansada, jogando a cabeça para trás, depois de parar de se debater, sentindo as cordas se apertando nela, enquanto Tiago ainda se debatia.
— É o que? – Tiago parou de se debater.
— Você, senhor porquinho, quer saber...? – Helena ergueu a cabeça, respirou fundo tentando conter a emoção, estava exausta — Está certo. A culpada sou eu mesma! Devia era ter deixado você na mão e ficado segura em casa, onde não tinha a mínima chance do Tião me pegar.
— Do que você tá falando, Helena? – Tiago novamente virou a cabeça tentando ver a expressão dela – Como assim o Tião te pegar?
— Foda-se. – foi só o que ela conseguiu falar.
— Helena – Tiago parecia alarmado agora – o que mais você escutou nas gravações? Você está correndo perigo? – então Tiago se lembrou de Helena não sair de casa sem ser acompanhada pelo tio e as irmãs, de ter resistido em ir ver a Isabela – Meu Deus... – Tiago olhou para os lados desesperado – O que tá acontecendo? Ele vai... o que ele vai fazer contigo?
Tiago estava agoniado, mexia as pernas tentando se liberar, enquanto olhava para ela por cima do ombro, mas Helena tinha a cabeça baixa, não respondia. Ela estava tentando engolir qualquer desespero e angustia, além da raiva.
— Eu não acredito... então, aqueles caras lá no posto não estavam só vigiando, eles iam ...iam fazer algo contra você?
— Tiago, agora... já era. – ela puxou o ar, sempre olhando para a frente, enquanto Tiago ainda a mirava, testa franzida, olhar de desespero – Mas pode ficar tranquilo que daqui você sai bem. Tião não se meteria a besta com o noivo da filhinha meses antes do casamento. Imagina, estragar as fotos do evento?
—Para... isso não pode ser. – Tiago então virou para a frente “vão matar ela” o desespero crescendo ele começou a olhar para os lados procurando uma forma de fuga, de salvar Helena.
Na breve análise que ele fez do que tinha a frente dele, e dos lados, era um casebre de madeira velha, sem aberturas e com algumas falhas, por onde passavam a luz do dia. O chão parecia ser feito da mesma madeira, escura e quase podre, mas as poucas falhas que tinham não o deixava ver o que tinha por baixo. Casebre estava vazio, não tinha nada ali. Nenhum instrumento para eles tentarem usar para cortar a corda, uma coluna para tentarem se apoiar, e nem mesmo uma porta ou janela para fugirem. No teto se via telhas de amianto onduladas, também velhas e sujas. Tiago pensou que se não estivessem bem presas poderiam tentar escapar por cima.
— A gente tem que sair daqui.
— Mais uma observação chocante!
— Helena! Para de birra e me ajuda a te ajudar. – Tiago deu o sermão.
Ela olhou para baixo. “Ele está certo, você nunca abaixa a cabeça diante de nada, e já passou por situações piores, isso você tira de letra. Reage e não deixa Tião te vencer.”
— Tá certo!
Ela levantou a cabeça e olhou para os lados e frente, via o mesmo que Tiago, só que na sua frente, tinha uma porta de madeira com trinco novo, e de material diferente do resto das paredes. Ela não tinha notado antes, mas se percebia o movimento de sombras pelo espaço de luz da porta.
— Me diz o que você vê aí. – ela perguntou baixinho cutucando o ombro dele com o dela, alerta para os movimentos da porta.
— Nada! Sem porta, janela, falha no chão, mas acho que essas telhas podem não estar bem colocadas. Com um pouco de força...
Helena olhou para cima rapidamente, e depois voltou a olhar para a porta.
— Certo, é mesmo uma boa saída. Só precisamos nos livras das cordas empurrar as telhas, pular e sair correndo sem fazer barulho. Fácil.
— Sério, sarcasmo a essa hora?
— Quem disse que tô sendo sarcástica?
Ele olhou para ela por sobre o ombro e lá estava ela olhando para ele com uma sobrancelha erguida e um meio sorriso. Ele respondeu ao sorriso e se virou para a frente.
— Ok, vai ser fácil. Agora, como vamos nos livrar das cordas? Você não teria aí um canivete escondido, teria?
— Infelizmente o meu canivete está dentro de um coturno no fundo de um rio. — O tom dela saiu irritado. Tiago soltou um “Hummm...”.— Espera. Tiago, consegue ver meu cabelo? Como ele está?
Ele bufou.
— Acho que não é hora para se preocupar com penteado, né?
— Vê de uma vez.
— Tá... – ele olhou para trás fazendo careta – horrível. Você precisa fazer uma hidratação.
— Cretino... deixa de ser idiota e fala do penteado. A trança ainda está inteira? Tem ainda um enfeite de prata em cima dela?
Ele virou o corpo para conseguir ver melhor e enxergou o que parecia ser uma borboleta de prata ou metal mais escuro. Então confirmou para Helena.
— Ótimo. Agora, dá um jeito de pegar ele. Sei lá, com a boca. E não faz perguntas. – Tiago fechou a boca calando um pergunta – E com cuidado para não me machucar, esse enfeite tem um punhal pequeno como ponta.
Tiago apenas levantou as sobrancelhas rapidamente surpreso e então virou a cabeça por sobre o ombro.
— Tá, vou precisar que você coloque a sua cabeça mais pro meu lado. – Helena levou o pescoço para o lado esquerdo – Abaixa um pouco mais. – Tiago tentava medir a distancia que ele podia chegar com a boca – Um pouco mais pra baixo.
— Vai ser complicado.
— Então joga a cabeça mais para trás. Deixa ver...
Ele começou a tentar pegar o enfeite, mas só mordia e puxava o cabelo dela, a fazendo resmungar.
— Anda logo, garoto.
— É que não tá fácil. – ele mordeu os lábios olhando ao redor de si, então tentou virar mais o corpo para que pudesse virar mais a cabeça – Vou tentar de novo.
Dessa vez ele conseguiu pegar o enfeite com os dentes.
— Abaixa. – ele falou mordendo a borboleta.
Helena, engoliu em seco e forçou o máximo possível ir para baixo. Tiago então foi erguendo a boca até sair um punhal de um centímetro de largura e quinze de comprimento, afiado, de dentro da trança já bagunçada dela.
— Conseguiu?
— Sim. – ele falou ofegante, jogando o enfeite no colo.
— Ótimo, agora, segurando ele com a boca, vai cortando as fitas na perna, e depois passa para mim pela boca, que eu corto aqui.
Tiago olhou para o enfeite no seu colo. Estava muito junto ao tronco, seria difícil alcança-lo.
— Droga.
— Droga o que?
— Nada, é que eu deixei ele cair no meu colo...
— O que? – ela quase gritou! – É isso, já chega!
Helena virou a cabeça para trás e mordeu o ombro direito dele. Tiago gritou da dor.
— Cê tá louca?
Quando Helena foi responder, a porta se abriu e dois homens encapuzados entraram, olhando a briga dos dois. Helena olhou para frente e Tiago virou a cabeça por sobre o ombro esquerdo vendo um cara alto segurando a porta, e um atrás, com braços para trás.O da frente vestia camisetas e calça preta, como os outros sequestradores, e o de trás vestia um terno escuro. Tiago tentou abrir o máximo que podia as pernas para que o enfeite se escondesse entre elas. Helena tentava ver pelo olhar se reconhecia Tião no homem de terno. Nada. Sabia que os olhos eram castanhos, e só. É que no caso do homem de terno o capuz não tinha nem mesmo abertura da boca, não dando para ver mais que o branco dos olhos.
— Agora eles brigam. Mais cedo derrubaram três para se defenderem. – falou o da frente, de roupas pretas.
Tiago e Helena ficaram calados. O outro homem apenas assentiu com a cabeça. Helena observou através da porta que estavam bem no meio de um bosque, rodeados de arvores. E, para variar, já estava ficando escuro.
O homem de terno entrou. O outro foi e fechou a porta atrás deles. O local então ficou praticamente na penumbra. Quase nenhuma luz entrava mais pelas frestas. Eles ficaram observando o casal. Ninguém falava nada.
— Acho bom ninguém tocar em um fio de cabelo dela. Porque só me matando pra me parar. – Tiago falou, olhando ameaçador para os caras, tentando usar da sua integridade física para proteger a dela, já que Tião se importava tanto com ele.
O seqüestrador riu. O outro nem se moveu.
— Não se preocupa, não, Tiago – o cara encapuzado deu uns passos para frente, se agachou e falou olhando diretamente para o olho do neto de Magnólia – é mais fácil nós te matarmos do que a nossa Helena aqui.
Dessa vez Helena prendeu o ar, os olhos esbugalhados. Tiago fez uma careta, quase juntando as sobrancelhas e olhando assustado para os caras. Pescoço já doendo de tanto ficar naquela posição olhando para trás.
— Apaga ele. – disse o cara de terno, numa voz grossa e abafada pelo capuz, que Helena tentou mas não conseguiu reconhecer.
— Não! – Helena gritou.
— Calma – o cara de capuz agachado sorriu para ela – nós não vamos matar o heroizinho, vamos só botar ele para dormir. O assunto aqui é particular. Não era nem para ele estar aqui, na verdade. Mas ele não quis colaborar.
Tiago estava agora olhando para a frente, engolindo em seco, nervoso. O cara então se levantou, e saiu pela porta. Helena olhava para o homem de terno e para a porta. Quando aquela se abriu com o outro voltando ela se debateu. Em vão. Não conseguia fazer qualquer movimento, e o cara passou por ela, depois de colocar uma cadeira e uma lanterna do lado do cara de terno, e montou uma seringa, com um líquido de uma ampola que tirou do bolso da calça. Ele sorria. Se agachou do lado direito de Helena e aplicou em Tiago, que tinha os lábios apertados, se segurando firme para que não notassem que entre as pernas dele tinha um enfeite de prata.
Helena, porém, olhava para o cara encapuzado, que aplicava a injeção no braço de Tiago, com ódio e frieza.
— Tá nervosa, é? Vai querer um pouco de tranquilizante também?
O cara se inclinou para ela balançando no ar a seringa que tinha acabado de espetar em Tiago. Helena fez um movimento forte para frente com a cabeça e o acertou bem no nariz, fazendo-o sangrar. Tiago, que começava a apagar, sorriu enquanto a cabeça caía de sono sobre o ombro esquerdo de Helena.
— Cada vez – falou o sequestrador passando a mão sobre o nariz magoado – gosto mais dessa garota, haha. — Helena ficou furiosa que nem ao menos conseguiu irritar o imbecil – Agora ela é toda sua.
O cara saiu pela porta, a trancando por fora. Helena estava ofegante. Tranças para trás, cabelo desalinhado, vestido amarrotado, as pernas presas, já dormentes, cabeça baixa, mas com o olhar furioso preso ao homem misterioso.
Ele se virou de costas para ela, pegou a lanterna sobre a cadeira, sentou nela, ligou a lanterna e jogou a sua luz bem na cara de Helena, que abaixou o olhar.
Assim ele pôde tirar o capuz, sem que ela conseguisse ver o rosto dele.
— Você me desculpe, Helena – a voz saiu forçadamente grossa, mas Helena podia jurar que a voz era familiar – mas você se tornou incomunicável, e foi preciso convocar uma reunião urgente depois do que você aprontou sem a nossa permissão. Achei que você fosse da nossa equipe.
Helena ergueu a cabeça, mesmo com a luz na sua cara. Era o chefe do Paulo, e seu, falando.
— MÃÃÃE. Mãe!
Leticia gritava do quarto dela, saindo pela casa, atrás de Helô.
— O que foi, Leticia?
Helô veio correndo da cozinha, onde iniciava os preparativos do jantar com Edu, que correu junto a ela para ver o porquê da irmã gritando.
— O Tiago, mãe, aconteceu algo com ele. Acharam o carro dele perto da casa dele, batido – Leticia falava se sentando no sofá e olhando desesperada para a mãe, que a escutava com o rosto se transformando em uma imagem de terror – parece que... os vidros foram quebrados, tinha marca de pneu... Eu não sei, mãe, acho que ele foi sequestrado. Tá todo mundo na casa dele louco, eu preciso ir para lá.
Helô havia se sentado lentamente no sofá, a mão esquerda a apoiando nele, e a direita sobre o coração.
— Eles disseram alguma coisa da Helena? – Helô falou olhando para frente, pressentindo a resposta afirmativa.
— Que tem ela?
— Ela tá segura em casa? Estava com Tiago? Foi levada junto? – ela interrogou Leticia se virando para a filha, agoniada.
— E o que ela ia tá fazendo com o meu noivo? Sei lá dela! – Leticia se levantou, cruzando os braços, indignada com a ideia – Mas se tiver, espero mais é que dessa vez suma!
Leticia falou baixinho, mas Helô captou, e fechou os olhos respirando fundo.
— O que você disse?
— Nada, mãe. – Leticia largou os braços do lado do corpo, irritada.
— Como pode você ter tanto do Tião e quase nada de mim, Leticia? Nem num momento como esse você deixa de nutrir o ódio dentro de si!
Heloisa se levantou rápida, foi até a porta pegando as chaves do carro dela, e a bolsa em cima do balcão.
— Vamos, é melhor ir verificar o que tá acontecendo de perto.
— O que? Não mesmo. Eu até vou, mas você não! – disse Leticia indo até a mãe a encarando.
— Como é que é?
— Isso mesmo. Papai foi bem claro – Leticia tomava um tom assustador – que era para a senhora não ir mais lá sem ele. Não enquanto tiver o Pedro. Você fica!
Helô manteve o olhar assustado diante da atitude da filha.
— Leticia, o Tiago podendo estar correndo perigo e você está se importando com o que o seu pai pensa sobre eu me aproximar do Pedro? – Leticia cruzou os braços, baixando a cabeça diante da constatação clara da frieza dela – Pois bem, se eu me importo mais com ele do que você, o certo é que eu vá sozinha. Edu – Helô chamou o filho – chama a enfermeira e pede para ela ficar de olho direto na Leticia. Eu vou avisar lá fora que não é para deixar ela sair. Mantenho vocês informados.
Heloisa saiu sob protestos de Leticia.
— É assim? – Leticia falou se virando de costas para a porta – Beleza então. Quero ver quando papai chegar lá.
Ela pegou o celular do bolso de trás da calça.
Tião no seu apartamento, abria a porta para uma prostituta. Ele vê o celular chamando.
— Me desculpa, Leticia, mas hoje eu mereço sossego.
E ele coloca o celular no silencioso, puxando a mulher a frente dele.
— Arrrg – grita Leticia, se jogando no sofá, Edu observando a irmã – ele não atende! Agora ela vai para lá com aquele imbecil do Pedro e a maldita da Helena! Tomara que ela tenha sido sequestrada mesmo, e que deem um sumiço com ela.
— Acho incrível isso, Leticia! — ela nem olhou para o irmão, apenas ergueu uma sobrancelha, expressão fria — Sério, você nem parece doente quando fica assim furiosa. E não pensa direito também. Até porque, para a Helena ter sido sequestrada, é preciso que ela estivesse com o seu noivo. E... – Edu sentou do lado de Leticia – o que o Tiago estaria fazendo andando por aí sozinho com a prima?
Leticia bufou, e Edu sorriu, indo chamar a enfermeira para a irmã doente de ódio.
— Não me olhe assim – disse a voz do homem a frente de Helena – foi você quem aprontou.
Helena fechou os olhos e respirou fundo. Sentia a cabeça de Tiago escorregando pelo ombro, ajeitou-se para mantê-lo acomodado.
— Helena – o outro suspirou – a sua missão era tão simples. Chegar aqui, conhecer a família da Helô, se apresentar como sobrinha dela e se vingar do Tião, acabar com a mascara dele, mostrando o que ele fez a Heloisa no passado. Mas não! De inicio voce foi até muito bem, até se infiltrou na casa dos Leitão, fez amizade com Tiago e quase acabou com o noivado dele, na festa. Mas...- ele parou procurando algo no bolso paletó – você resolveu trabalhar sozinha. E dali adiante só fez merda.
Ele jogou para frente, caindo do lado de Helena com um pouco de luz, ali estavam todas as escutas dela. Ela fechou os olhos lamentando.
— Errado, muito errado. Tião é um tipo muito esperto. Por sorte nós notamos antes que ele a localização das escutas e retiramos ontem. Você não recebeu mais nenhuma gravação, certo?
— Eu não sei do que você está falando. – Helena tentou sair daquela como inocente.
— Por favor, Helena, você sabe que sabemos que foi você. Não sabemos direito como você conseguiu colocar no escritório do Tião, mostrou seu valor com isso, mas sabemos que foi você. E sabemos que escutou muitas coisas, suficientes até para ter se amedrontado e parado com o plano. Não atendeu mais nossas ligações, abandonou de vez a casa dos Bezerra. Foi muito ingrata.
— Ingrata? Vocês me usaram sem o menor remorso e ainda querem me exigir algo? – Helena se enfureceu – Me disseram que eu iria acabar com uma farsa familiar e dar uma lição em duas famílias hipócritas e malditas. Fizeram eu acreditar que tinha que lidar apenas com hipócritas da alta sociedade, ligados a crime do colarinho branco, desvios, mas nunca mencionaram que eu estava indo para a boca do lobo, que matou mais de uma pessoa! Fizeram eu acreditar que estava diante de algo menos pior do que tudo que enfrentei nas ruas, nas casas de detenção ou cadeia, e vem dizer que eu preciso ser grata? Cê tá louca, querida?
Helena estava vermelha, bufava! Continuou seu desabafo, indignada.
— Eu achando que deveria me manter afastada do Venturini, porque vocês – ela se inclinou para frente fazendo a cabeça de Tiago cair – me fizeram acreditar que era o mandante do atentado ao tal do Fausto, mas tudo que consegui até agora só me mostra que ele foi arquitetado pelo próprio Tião, com ajuda de uns outros...
— Não... calma aí. Viu porquê você precisa de nós? Está se precipitando nas conclusões.
— Não me importa o que vocês podem fazer por mim, mais. Eu tô fora! Não quero saber, esse povo se merece mesmo! Heloisa está muito feliz com a filha falsa dela, e eu sou muito mais feliz com minha vida bandida que é bem menos suja que a deles!
— Helena – ele começou a falar pausadamente – você não entendeu direito a sua missão...
— Entendi, entendi muito bem! Era para eu chegar aqui, esperar a poeira baixar e jogar merda no ventilador quando o Tião menos esperasse para ele vir me tirar do mapa! Porque no fundo vocês não estavam se importando se ele ia ou não me matar, o importante era que isso fosse revelado. Ou não é?
O cara se calou.
— Eu estou certa, não estou? Eu morrer era um risco que vocês assumiram por mim.
— Não, necessariamente, confiamos em você.
— Sim, claro, tanto que me vigiavam. Tem em todos os cantos um dos seus, sabendo tudo o que faço...
— Justamente. Te protegendo. Já te livramos e muitas coisas.
— E do Tião? Como vocês vão me livrar? Daqui a pouco ele descobre tudo!
— Ele já sabe que você é filha da Helô. – Helena foi para trás com a informação engolindo seco – Nós fizemos de tudo..., espera eu terminar – ele interrompeu Helena que já ia abrindo a boca para xingar ele – mas Tião não acredita em nada que o instinto dele não confirme. Ele conseguiu de alguma forma, o que nos faz acreditar que ele tem comparsas na casa dos Leitão, o seu DNA, fez um teste com o da Heloisa, e advinha?
— Então ele já sabe?
— Há uma semana ele já tem essa certeza. Mas como já te caça há umas 3 semanas sem conseguir nada, apenas mandou reforçarem a busca por você. Ele não vai arriscar agora, que você dê com a língua nos dentes.
— Tá vendo? O melhor é eu sair daqui!
—Não! Agora mais do que nunca você é importante para nós. Tião tirou do caminho todos os nossos trunfos. E tem alguém ajudando ele nisso. Precisamos de você aqui.
— Esquece, eu não vou me expor, e nem tenho a mínima vontade de sair fazendo a filha renegada para uma Heloisa cega pela Leticia e um pai que tenho nojo só de imaginar que tenho o mesmo sangue.
— Você está novamente se precipitando. Não sabemos se Tião é mesmo seu pai. E se for o Pedro?
— Não me importa. – ela abaixou a cabeça.
O outro cara suspirou.
— Eu não posso te prender. Mas você sabe que se for vai ficar sem a nossa proteção – Helena gravou o “nossa” na cabeça “então ele não tá sozinho” – com Tião já sabendo de ti, corre muito perigo. Ele não vai descansar até te achar.
— Eu sei me virar sozinha. Só preciso estar longe.
— Como quiser. – ele se levantou – Você não quer nem saber o porquê era tão importante você revelar esse segredo do Tião?
— Não vai me convencer a revelar nada. Derrubar ele agora é um problema só de vocês.
— Só pensa um pouco, você é esperta, observadora. Já deve saber qual é o maior interesse do Tião.
Helena ficou olhando para baixo mas pensando no que ele disse. Olhou de rabo de olho para o ombro esquerdo. “O casamento do leitãozinho era de longe a maior preocupação de Tião, mas não faz sentido.”
— Isso mesmo. – o cara percebeu que ela acompanhou seu raciocínio, e se aproximou, sempre com lanterna na cara dela, se agachou e pegou as escutas – O Tiago casar com a Leticia é o que mais importa para Tião agora. Façamos o seguinte – ele se levantou sempre bloqueando a visão dela com a luz – novo acordo de cooperação. Você põe fim ao noivado de Tiago e Leticia, e te daremos todo o apoio que você quiser.
Falando isso ele andou de costas até a cadeira, e a levantou para jogar forte no chão de novo, fazendo barulho. O sequestrador da rua abriu a porta. Lá fora um breu.
— Qualquer apoio?
Helena o interrompeu quando ele saía pela porta já, o capanga agora segurava a lanterna na direção dos olhos de Helena, ela só via a silhueta mediana do seu “chefe”.
— Qualquer.
— Até saber sobre todas as pessoas que eu quiser? Como a Isabela, por exemplo...
— Isso vai depender de quanto você quer que ela saiba de você.
E o cara saiu, deixando Helô intrigada. “O que ele queria dizer com isso?”
— ÔI? – ela gritou – Não vão nos tirar daqui?
Nada. Eles deixaram os dois ali. “Meu Deus, vamos morrer aqui."
Fale com o autor