A sobrinha da Helô
11 Fica, Sobrinha da Helô.
— Nós precisamos chamar a polícia, não dá mais, vó, ninguém sabe onde Tiago está! – falou uma AnaLu nervosa, para um Magnólia a segurando pelos ombros.
— Não, AnaLu, já disse, agora seria desastroso! Vamos esperar, se for mesmo um sequestro eles vão entrar em contato e então podemos negociar.
Magnólia na verdade contava com a possibilidade de Tião finalmente ter conseguido capturar a tal sobrinha da Helô, com quem ele parecia cismado, e no meio do caminho Tiago foi levado, mas logo devolveriam. Só ele! O problema é que tentou ligar para o safado desde a metade da tarde e o infeliz simplesmente não a atendia.
Todos tentaram ser otimistas, mas quando deu sete horas da noite e nenhuma informação chegou, AnaLu começou a se desesperar, saindo da sala de estar, onde Mag, Hércules, abraçado em Luciane, e Vitória estavam apreensivos. Ciro tinha saído para fora, fumar cigarro, sem esconder que não estava nem um pouco preocupado com isso. Pedro estava próximo a entrada da sala, perto do corredor, observando o desespero da sobrinha e já sem paciência com a situação e Mag. Foi ele quem se dirigiu até as duas ultimas e afastou Mag da neta, iniciando sermão de apoio a AnaLu, quando notaram um movimento na porta da casa. Foram até o hall, e lá estava Helô, deixando uma Sandra indignada para trás.
— Aaa, ótimo, eu vim assim que a Leticia me avisou. Alguma noticia do Tiago? Onde ele está? Está todo mundo bem?
Heloisa falou e olhou doce para AnaLu, encarou Mag e evitou olhar para Pedro, enquanto olhava para trás deles procurando Helena.
— Mas o que é isso? Você vem invadindo a nossa casa. Não aprendeu nada nesses anos todos, Heloisa? – falou Mag indignada com a presença de Helô.
— Me poupe, Magnólia. Tiago é noivo da minha filha, tenho o direito de vir aqui.
— Quem tem esse direito é a sua...
— Deu, Mag, chega! – interveio Pedro, já sem paciência, evitando ver no rosto de Heloisa o olhar grato – Não, Helô, nenhuma novidade. Só sabemos que ele saiu cedo de casa e depois apareceu o carro dele batido. Enfim. O que você já deve saber.
— Sim. Leticia me contou. Mas já chamaram a polícia?
— Não, porquê a vovó não quer escândalo para a eleição do papai! – gritou uma AnaLu indignada.
— Mas isso é um absurdo! – disse Helô tirando o celular da bolsa – Eu vou ligar agora mesmo!
Magnólia foi rápida, pegou o celular da mão de Helô e o espatifou no chão, deixando todos de boca aberta.
— Minha casa, minha família, meu neto e eu decido o que fazer e quando fazer!
— Você terminou de perder o juízo é Magnólia? – disse Pedro se colocando entre Helô e Magnólia, a encarando.
— Ao contrário, estou lucidíssima, devo ser a única nesta casa nesse momento por sinal. – ela falou no seu jeito pomposo.
— Pouco provável. – ele a encarou colocando as mãos na cintura — E não esquece que não é a sua família a única envolvida na história. A família da Helô está nisso também...
— O que? – ela se colocou a frente.
— Ótimo, espalha aí sua teoria louca para mais outra. Por favor, Pedro, você não tem certeza nenhuma que eles estavam juntos.
Helô olhava de um para o outro com o olhar espantado.
— Eu tenho sim, eu vi ele indo procurar ela hoje de manhã no quarto dela. Eles saíram daqui juntos! Você é quem está negando a verdade aqui, Magnólia. Mesmo que isso coloque em risco o seu neto – a essa hora todos os demais da sala já tinham vindo ver a cena – o que só me faz desconfiar ainda mais de você!
— Inacreditável, até num momento desses você me ataca sem razão nenhuma!
Hércules tomou a frente para encarar Pedro, mas Luciane o segurou, colocando o dedo na boca para ele ficar calado. Vitória observava a cena mirando a mãe com desgosto.
— Gente, para. Olha a Helô, coitada. – avisou a Luciane.
Pedro se virou para ela. Heloisa estava pálida.
— Desculpa, você não sabia.
— Vocês tem certeza que ela estava com Tiago?
— Eu vi eles hoje cedo.
— Mas você viu eles saindo juntos?
— Não, mas ela também não chegou.
— Eu sabia – ela falou colocando a mão esquerda no peito e segurando o braço esquerdo de Pedro com a mão direita – eu senti que algo não estava certo.
— Calma, Helô. – Pedro ficou mais preocupado.
— A pelo amor de Deus! Isso é um absurdo, eu já disse, não se tem a mínima certeza que Tiago estivesse com essa muleca!
Pedro e Helô fuzilaram Magnólia.
— Pode até ser, vovó – interveio AnaLu – mas acompanhado ele estava. Acharam uma boina e sapatos do lado de fora do carro. E agora?
— Isso não...
— Espera – Helô interrompeu Mag indo até AnaLu – como eram essa boina ou calçado?
— Olha, não é nada parecido com o que a Helena usa, mas... – AnaLu olhou para os lados, e apontou para uma cômoda atrás da Helô, onde estavam os pertences – eram aqueles ali.
Heloisa viu o calçado e a boina que deu para Helena. As narinas dilataram.
— São as coisas que comprei para ela. – Pedro a abraçou, beijando a cabeça dela, enquanto Heloisa colocava a cabeça no peito dele.
— Ótimo, agora vão fazer escândalo por conta da menina. – ela então se virou de costas para Helô e olhou o restante dos familiares ali — Vamos focar no que é importante que é o Tiago! Esperamos mais umas duas horas, se ele não aparecer, daí então eu mesma vou na delegacia comunicar o ocorrido.
Magnólia começava a se apreender com a possibilidade de o sumiço não ser obra de Tião. Quando se virou de volta para Helô e levou um tapa que reverberou pela sala, com direito a comentário de Luciane “Pega danada”. A tia da Helena então saiu da casa acompanhada de Pedro. Que apenas olhou para Magnólia dizendo “Você mereceu”.
Tiago já tinha acordado fazia uns dez minutos, ao menos ele achou que era esse tempo. Mas não conseguiu falar nada. Assim que começou a sair do torpor, e abriu os olhos, notou um barulho atrás dele. Helena parecia estar chorando. Ele se alarmou, mas ela não tinha notado ele acordando, e ele não ouvia mais ninguém. Não sabia o que fazer. Helena sempre pareceu tão forte.
Helena ficara aquela mais de um hora desde a saída do seu “chefe” pensando em tudo. “De todas as burrices que fiz, essa foi a pior! O que eu estava pensando mesmo? Que ia conseguir chegar aqui e me vingar de quem me abandonou? Não conseguia nem sentir raiva da Helô, como vou fazer tudo aquilo sabendo que a magoaria? E só a ideia de confirmar que Tião é meu pai já ne enoja. Prefiro a dúvida de ser filha de Pedro. E o noivado do Tiago e Leticia? É óbvio que é o sonho de Tião, mais até que de Leticia. O porquê parecia ainda muito estranho. O Tião não me parece pensar tão pequeno a ponto de só querer pertencer a família da Magnólia e Fausto. E óbvio, se a filha verdadeira da Helô aparece, a Leticia deixa automaticamente de ser uma porta de entrada para a família ao se casar com Tiago. Seria uma bastarda qualquer. Como não notei desde o inicio que se queria acabar com o sonho de Tião com esse noivado era só me revelar? Mas agora já era tarde, não vou continuar com esse jogo. Não vou me expor por algo que não vai levar a nada. Tiago vai casar de qualquer forma com Leticia, só se eu me revelasse conseguiria acabar com a festa do Tião, mas para isso teria que ficar viva até um exame de DNA, e Tião sumiria comigo assim que contasse para Helô, que não acreditaria em mim mesmo. Se Tiago terminasse o noivado sem eu precisar revelar, talvez conseguisse algum tempo antes de descobrir tudo. Mas o infeliz fica preso no papo de pobre doente da garota. O que era a sua vida em vista da barbie doente?”
Tiago agora olhava para cima, Helena parecia chorar de cabeça baixa. Automaticamente ele procurou as mãos dela, amarradas nas costas, perto das suas, apertando a mão esquerda dela, com a mão direita dele. Helena sentiu o afago e se assustou, fungando e tentando secar o rosto com os ombros.
— O baby já acordou, é?
—Você está bem?
Helena virou o pescoço por sobre o ombro esquerdo, olhar baixo, fungou e o olhou. Ele viu os olhos ainda úmidos. Quis reconfortar ela, mas sequer conseguia mexer braços, apenas passou a língua pelos lábios e mordeu o inferior.
— Fizeram algo contigo?
— Sim! Me deixaram presa com um cara chato que só faz pergunta idiota. – ela voltou a ser durona, virando a cabeça para cima e respirando fundo – Agora, dá teu jeito e usa aquele enfeite para se soltar e depois me soltar.
Tiago suspirou e olhou para as pernas. O enfeite já estava bem enterrado ali, não sabia como ia tirar.
— Vai ser difícil. O enfeite ficou preso entre as minhas pernas.
— Perfeito, Tiago, agora nós vamos morrer aqui, presos no meio do nada. Por que pra você não é o suficiente perder meu coturno, meu canivete, tem que sumir com meu punhal entre as pernas. Sabia que aquilo foi presente? – ela já estava em seu estado normal – Espera, você tá de calças, não está?
— Sim. – ele responde bufando.
— Então as fitas devem estar presas ao tecido da calça e se elas saírem..., as fitas saem e o enfeite vai cair.
— E como é que vou tirar a calça?
— Calma aí, deixa ver o que consigo.
E Helena começou a puxar o cinto de Tiago, tentando trazer o encaixe ao alcance da mão dela, enquanto ele só olhava para os lados. Ela conseguiu alcançar o encaixe e soltou o cinto. Com isso a calça dele ficou mais frouxa. Ela mandou ele tirar os sapatos, e então passou a pular com o corpo para frente, arrastando Tiago, que com as pernas arrastando, foi notando as calças irem saindo, até que ele mesmo conseguiu tira-las só usando as pernas.
— Tá, a calça saiu. – ele comunicou animado.
— Deixa ver. – Helena usou as mãos nas costas para apertar as nádegas de Tiago o fazendo pular – É, a calça foi e quase levou a cueca junto. – ela esticou o pescoço por sobre o ombro para ver a frente de Tiago, encontrando com o olhar que tentava ser reprovador, mas era malicioso – Que? Só tô vendo onde o enfeite ficou para ver como fazemos para pegar.
Ele balançou a cabeça negativamente, rindo, quando ela sorriu abusada para ele.
— Ok – Helena olhou ao redor, pensando – nós vamos virar naquela direção, e quando a gente deitar de lado, você fica de frente para as suas calças e tenta pegar o punhal com a boca.
Tiago balançou a cabeça concordando. Eles então rodaram, e se deitaram.
— Conseguiu, pegar? — Tiago não respondeu de imediato, estava tentando se concentrar na busca, enquanto sentia a pele dele tocando na da Helena, já que enquanto ele tirou a calça, o vestido dela subiu — É pra hoje, viu!
— Pronto. – ele falou segurando o enfeite entre os dentes – E agora?
— Agora, você vai jogar o corpo para a frente e se erguer me erguendo. Com as pernas soltas é mais fácil. — Tiago não gostou da ideia, as pernas estavam meio dormentes ainda, mas com muito esforço colocou os dois de pé – Isso, bonitinho, agora passa o punhal pra cá.
Helena virou o rosto para trás com a boca aberta. Tiago franziu a testa, e então se virou para ela, vendo a cena ele entendeu que teria de entregar com a boca o punhal na boca dela. Agora em pé, o afastamento entre eles diminuiu, assim, como ele segurava pela borboleta o punhal, ele esticou a boca até Helena, que concentrada pegou da boca dele o punhal, buscando em seguida escorrega-lo para as mãos, deixando Tiago ali olhando ela.
— Isso... – ela falou animada quando as mãos já cortavam cordas com o punhal – sentados ia acabar machucando um dos dois e o chão impediria... oba!
Helena começou a explicar e então soltou finalmente as mãos, conseguindo mover elas para a frente, foi cortando as cordas que prendiam ela a Tiago, que, solto, se desequilibrou para a frente, quase a levando junto. Ela então se livrou das cordas todas, as fitas adesivas, e levantou as mãos para cima comemorando.
— Livre.
— Podemos? – Tiago perguntou olhando em direção das próprias amarras.
— Sei não porquinho, você tá tão bonitinho assim. Uma maçã na boca e vai ficar perfeito! – ela falou dando passos difíceis para frente, as pernas dormentes, e mancando da esquerda.
— Anda logo, Helena.
Ela, fazendo careta, o livrou das cordas das mãos, e depois braços. Ele se livrou das cordas aliviado, e olhou Helena. Estava inteira, dentro do que podia estar. De fato não teve qualquer arranham a mais do que o feito na batida e briga. Ela agora ajeitava o vestido para baixo. Tiago então olhou para o teto. Esticando as pernas, tentando se livrar da dormência, ele pegou a cadeira deixada pelo cara de terno, e a colocou em um canto, alcançando o teto para empurra-lo. Helena acompanhou os movimentos dele, passando a mão pelos roxos no braço, feitos pelas cordas, “Ao menos agora não tenho que inventar história para explicar a nossa situação escabrosa”. Ela foi então até a porta só encostada, a abrindo.
— Você vem? – e Helena saiu deixando a porta aberta, mancando.
Tiago olhou na direção da porta, e para a parte do telhado que ele tentava erguer.
— Idiota! Espera aí, Helena.
Ele correu até ela. Viu que estavam mesmo no meio de um bosque. Céu enuviado, não se enxergava quase nada. Mas ela já estava a 10 passos a frente, mesmo mancando, descalça. Tiago foi atrás dela, a alcançou tropeçando em galhos e raízes.
— Parece um campo limpo. Deve ser parque. – ela falou quando ele chegou perto, nem o olhando, o punhal firme na não direita – Vamos seguindo por onde dá para sentir a terra batida, que assim é caminho. Não dá para ver nada...
E assim eles seguiram até chegar de fato em uma parte de recreação, com balanços e quadras. Mas tudo enferrujado, acabado, parecia abandonado.
— E fica cada vez melhor, periferia. Cuidado em porquinho, você fede a playba!
Helena se virou para falar isso e então olhou para baixo.
— Tiago, cadê as suas calças?
Ele estava logo atrás dela, quase se segurando nela. Olhou então para baixo, para ela e depois para o caminho de onde vieram. Tiago deu um soco no ar urrando, deixara a calça no cativeiro.
Helena ria com vontade. Até ele começou a rir, tímido. “Que garota! Acabou de passar pela maior barra e já está aí, rindo!” Tiago a olhava rir.
— Ai... – Helena se ergueu colocando a mão sobre o peito – muito bom. Nisso você é muito bom, me fazer rir.
— O prazer é meu. – ele a admirava com sorriso.
Helena mal escutou ele, notou uma sombra mais adiante. Devia ser morador local.
— Shiu! Vem.
E ela puxou Tiago pelo colarinho, até um muleque desconfiado, que primeiro os olhou estranho, mas que quando Helena falou com ele, pareceu entender, saindo por entre um caminho atrás de umas casas do outro lado do parque, e voltando com mais uma mulher, sua mãe possivelmente, e um homem de meia-idade. Esse ultimo então se ofereceu para leva-los até hospital.
— Não! Melhor irmos para a nossa casa.
— Tá certo. A escolha é de vocês – o cara falou olhando para a situação dos dois, franzindo a testa para o Tiago sem calças.
Helena sempre tomando dianteira, com Tiago atrás, entrou no carro, e guiou o motorista até algumas ruas antes da casa de Tiago.
— Obrigada, moço, daqui a gente consegue chegar em casa. – Tiago a olhou entranhando.
Os dois saíram do carro. E o homem se foi.
— Por que isso? O cara podia nos deixar em frente de casa.
— Sim, e saber onde moramos.
— Helena, a essa hora a policia já deve estar nos procurando, com certeza já passou a nossa cara nos jornais. Eles vão saber onde moramos.
— Ah é? Pra tu ver, e ainda assim ninguém nos reconheceu. Te alerta, Tiago – Helena olhava para os lados – tua família não alertou policia nenhuma, se é que sabem que a gente foi sequestrado. Agora vamos.
Ela novamente tomou a dianteira, só que a perna esquerda não aguentava mais. Tiago foi até o lado dela e deu o ombro de apoio, ela rejeitou, mas a dor estava ficando maior. Suspirando ela passou o braço esquerdo pelo ombro de Tiago e se apoiou nele.
Ele tinha a cabeça baixa a admirando. Helena olhou pros lados, sentindo o olhar dele.
— Que foi, garoto?
— Você, hoje...
— Rum? – ela tirou o braço sobre o ombro dele e deu um passo para trás, colocando as mãos na cintura, o encarando.
— Você me ajudou mesmo sabendo que corria perigo, depois lutou com os caras que iam nos sequestrando – Tiago contava ora olhando para ela, ora não conseguindo sustentar o olhar desconfiado dela e olhando para cima, montando com as mãos no ar as situações, olhar brilhando – encarou não sei como o cara lá no cativeiro e ainda conseguiu nos desamarrar e nos trouxe para a casa – Helena ainda mantinha a expressão desconfiada dos elogios dele, e com um tanto de raiva ao relembrar que se meteu naquela enrascada para ajudar menininho a ir namorar a amante, quando todo o rolo ali era ele estar noivo de outra – Helena... – Tiago suspirou e deu um passo a frente, colocando as mãos nos ombros dela – eu estava errado sobre você.
Tiago então a abraçou, pegando Helena de surpresa, braços se abrindo sem saber o que fazer, enquanto ele a apertava cada vez mais, sentindo o cheiro do cabelo dela. Quando ela foi devolver o abraço ele se afastou, mantendo as mãos sobre os ombros dela, com os olhos brilhando para ela. Helena engoliu em seco, manteve o olhar.
— Eu não sei nem como agradecer.
— Mas ora, o que temos aqui? Até duas horas atrás eu era a bandida que você nunca mais iria ver, e que só te metia em roubada! Agora é só love, é?
Ele respondeu com um sorriso e olhando para baixo. Helena pegou o queixo dele e levantou o seu rosto para encara-la.
— Pena que é meio tarde, né? – e ela soltou o rosto dele se afastando, voltando a mancar em direção da mansão.
— Espera, Helena – ele a alcançou depois de parar uns segundos para pensar no que ela disse – o que você quer dizer com isso?
— Quero dizer – ela continuou andando sem olhar para ele, arrastando a perna esquerda – que seus desejos serão realizados, Tiago, vou sumir da vida de vocês todos.
— Ainda não entendi. Você vai embora?
— Isso, senhor dedução! Muito bem, estamos evoluindo.
— Espera – ele pegou o braço dela e puxou a virando para ele – me explica isso direito. Por que você vai embora?
Helena o olhou e depois para os lados. Cruzou os braços sobre o peito, passando a língua entre os lábios.
— O que foi que o cara lá te disse? Te mandou voltar, não vai mais ter nada contra Tião?
— Não, eu abandonei eles. – Tiago ergueu as sobrancelhas, Helena ainda mantinha a pose, evitando encarar ele – Todos tem um limite, Tiago, o meu é o que eles me pediram hoje.
Ele deu um passo a frente, colocando a mão direita no ombro esquerdo dela.
— Mas então eles não querem que você vá embora, você ainda pode ficar.
— Posso, mas como é que vou me proteger do seu futuro sogro sem eles? Você viu hoje, se até eles me capturam...
Ela virou o rosto para cima respirando fundo.
— E o que você teria que fazer para poder ficar? – Tiago falou passando a mão no queixo dela, o puxando para baixo, fazendo Helena encara-lo, e a tirando logo em seguida.
— Nada a meu alcance.
— E tem algo ao meu alcance? – Tiago perguntou, desviando o olhar para a própria mão, agora sobre o ombro dela, o polegar dançando sobre o inicio do pescoço de Helena.
— Sim, mas você não vai fazer. – Helena afastou o braço dele.
— Como não? Depois de tudo que você fez hoje, Helena, o que eu precisar fazer por você, eu faço.
“Se é para você ficar aqui...”
Ela riu olhando para baixo e balançando a cabeça.
— Sabe o por que eles me mandaram para cá, Tiago?
— Sim, se vingar de Tião.
— E sabe como é que eles acham que eu posso me vingar do Tião? – ele balançou a cabeça negativamente, Helena levantou a dela para ele – Evitando que você se case com Leticia.
Tiago franziu a testa, a olhando intrigado.
— Eu sabia! Por isso você – ele se alterou – ficava me usando para provocar...
— PERA LÁ, abaixa o tom. – Helena o interrompeu – Isso que eu estou dizendo eu só soube hoje. Eles disseram que se eu não fizesse outra coisa, que não ... bom, que não consigo fazer, eu deveria então atacar diretamente Tião, e isso só com o término do seu noivado com Leticia. O porquê da importância disso – ela se adiantou vendo que Tiago abria a boca para perguntar – eu não sei. Mas confesso que a primeira coisa que notei quando cheguei foi que Tião se dedica muito para garantir seu casamento com a filha dele. Até some com as namoradas que tu arranja não? Por sinal, por que você insiste tanto em um casamento se tá mesmo é pensando em outra?
Tiago que olhava por sobre o ombro esquerdo, mãos na cintura, lábios comprimidos, escutando cada palavra dela, se virou para ela.
— Que outra? Não tô interessada em nenhuma outra não. – ele olhava para Helena na defensiva, imaginando se ela pensava que ele estava interessado nela.
— Oi? – ela revirou os olhos para os lados – E a morta-viva Isabela?
— Ah é... – Tiago lembrou da Isabela – Merda! – ele colocou a mão no queixo – Eu esqueci completamente dela. Deixei ela plantada lá na frente do posto.
— Taí outra garota que tem muita sorte em ter você. – e Helena voltou a pegar o caminho da casa – Quer saber, Tiago, acho que vai ser até bom tu casar mesmo com a Leticia, ela bem merece sofrer na tua mão.
— Helena? – ele gritou depois de um tempo parado, observando ela caminhar, pensando em tudo que ela acabara de dizer, ela não respondeu – Você vai mesmo embora?
— Já tô indo, porquinho!
Tiago sentiu aquele aperto na boca do estomago e expirou o ar dos pulmões, irritado. Tentou colocar as mãos no bolso, mas estava sem calças.
— Droga. – e engolindo em seco, ele foi até Helena e voltou a apoia-la, sem qualquer resistência dela dessa vez, os dois caminharam até o portão da casa dos Leitão.
A frente da casa dos Leitão, Pedro conduzia Heloisa, nervosa, até seu carro. Ele tinha o braço esquerdo envolvendo ela, que apoiava a cabeça no peito dele.
— Helô, calma, ela está com o Tiago, vai ver eles fizeram igual da outra vez, e daqui a pouco estão aí na frente de casa....
Pedro parou de repente, vendo Tiago chegando com Helena, mancando, apoiada nele. Helô o olhou e então acompanhou o olhar dele, sorrindo de felicidade.
— Helena! – ela chamou.
A outra escutou a voz de Helô e levantou a cabeça surpresa. Um lampejo de felicidade passou pelo seu olhar vendo-os ali, mas então lembrou da briga com aquela, e de que poderia não ser filha daquele, e que já estava indo embora... Voltou a olhar para o chão.
— Vamos, Tiago.
Mas Pedro se colocou na frente deles.
— O que aconteceu? – ele passou a mão no ombro dos dois como se isso conferisse se estavam inteiros – Onde vocês estavam?
— Fomos sequestrados. – Tiago respondeu para o tio.
— Sequestrados? E pegaram alguma coisa de vocês? – Pedro questionava e Heloisa observava, olhando a situação de Helena.
— Não... digo, até tentaram, mas não...
— Acho melhor a gente entrar, né? – Helena interrompeu Tiago antes que ele falasse algo que os complicasse.
— Mas vocês estão bem? – Heloisa se colocou na frente da sobrinha, preocupada – Tudo bem, Helena?
Ela novamente não respondeu Helô, e como Tiago parou, ela desviou da mãe e foi mancando para o portão. Tiago deu de ombros para Pedro, não sabendo o que explicar. Pedro olhou para Helô com pena.
— Vai lá, ajuda ela. Eu só queria saber se estava tudo bem mesmo. – Helô tentava sorrir, enquanto liberava Pedro e ia para o carro, dirigir até em casa, contendo a emoção.
Pedro se virou e foi até Helena, a pegando no colo para não forçar mais a perna.
— Tiago, vem aqui, ajuda a abrir o portão.
E Tiago foi indo na frente do tio e Helena, abrindo caminho. Quando ele abriu a porta da frente da casa, AnaLu que estava no hall, afastada de todos na sala de estar, correu até ele abraçando.
— Tiago! — logo todos vieram da sala. Enquanto Pedro esperava Tiago abrir caminho para entrar – Eu fiquei com tanto medo, achei que tinha acontecido algo... você tá machucado?
— É... mas não é nada. – ele falou beijando a irmã na testa.
Camila desceu a escada correndo. Depois de escutar AnaLu gritando ela veio do quarto, os olhos pareciam inchados de chorar, escondida. Abriram caminho e ela abraçou o irmão, sendo então afastada por Magnólia, que abraçou o neto, os olhos marejados.
— Meu querido – ela pegou o rosto do neto pelas mãos – você me deixou tão preocupada.
— Ué, vó? Não foi você que disse que não tinha com o que se preocupar?
— Cala a boca, AnaLu, não seja inconveniente. – Magnólia passou o braço sobre o ombro de Tiago e foi o levando para a frente, impedindo que Vitória, Luciane, Hércules e outros abraçassem Tiago, o monopolizando. – O que eu sei, é que você agora está aqui, conosco, sem necessidade de qualquer escândalo.
Ela então olhou ao redor, vitoriosa. Luciane ergueu uma sobrancelha. Vitória virou a cara com nojo, Hércules passou a mão pela barba, nervoso. Os demais a olhavam intensos, exceto Tiago que se virou para trás, quando Pedro entrou carregando Helena.
Magnólia, que tinha um sorriso largo, murchou. Por um instante ela achou que tinha tudo saído perfeitamente. Tião tinha sequestrado a garota, levado Tiago junto por algum problema, e agora o devolvia, depois de dar o devido fim na sobrinha da Helô. Mas lá estava ela, nos braços do Pedro, com suas netas correndo para ela.
— Helena, você está bem também! – AnaLu falou, enquanto Pedro descia Helena para receber o abraço das sobrinhas.
— Você tá horrível, Helena, mas podia estar pior. – completou Camila, passando a mão no cabelo dela, que agora tinha de volta o enfeite de borboleta preso na trança.
Helena sorriu, gostava delas. Encontrou o olhar de Tiago, que suspirou e olhou para a frente.
— Essa garota de volta? – Magnólia resmungou baixinho.
— O que foi, vó? – Tiago a questionou intrigado pelo que pensou ter ouvido.
— Nada querido, só estou feliz que estão todos bem!
Helena terminava de abraçar Vitória, que também pareceu feliz com o seu retorno. Ciro estava num canto, atrás de Hercules e Luciane, olhando a cena, parecendo inconformado. Ele também achou que teriam se livrado da sobrinha da Helô. Então Helena olhou para Magnólia, que parecia mais inconformada que Ciro, e abriu os braços na direção dela.
— Não tá feliz que voltei, também, vovó?
— A pelo amor de Deus, me poupe. – ela deu as costas – Já me basta das netas que tenho, todas cabeças de vento, ainda ter uma marginalzinha?
Pedro abriu a boca para responder, Tiago olhou surpreso pela maldade da vó.
— Deixa, Pedro, isso aí é a emoção de me ver bem. Vamos? – Helena fez sinal com a mão para seguirem, mas Pedro não deixou ela por um pé a frente, já a pegou no colo de novo e foi caminhando para a escada, Helena aproveitou a oportunidade ao passar próxima a Magnólia, e falou para só ela ouvir – Achou que ei não ia voltar, né tolinha?
Pedro e Tiago se entreolharam. Ela não falou assim tão baixo.
Magnólia a olhava com ódio “Tião me surpreendendo na incompetência. Quase tão ineficaz que o Ciro.”
Todos acompanharam Pedro levando Helena pela escada. Tiago tinha um olhar triste. “Ela tá indo embora. A Helena vai embora. E agora?” Ele não queria que ela fosse, queria que ela ficasse ali. E queria muito, sentia isso enquanto via ela desaparecer com Pedro. Engoliu em seco e pressionou os olhos com o polegar e indicador da mão direta.
— Tá tudo bem irmãozinho? – perguntou AnaLu, o abraçando, carinhosa.
Ele não falou, apenas deu um meio sorriso e apoiou a cabeça na cabeça da irmã.
— Aaah Tiago. – Magnólia se voltou outra vez ao neto – O que você precisa é de um bom banho, descansar...
— E depois de um médico e ir na delegacia! – emendou AnaLu.
— Vamos deixar isso para depois, certo AnaLu? – Magnólia encerrou o assunto.
Tiago estava muito distante dali e não queria entrar no assunto do sequestro. E nem podia. Como ia explicar tudo? Precisava saber o que fazer, mas até para isso ia precisar de Helena. E ela vai embora...
— Eu vou para o meu quarto gente. – ele falou com a voz baixa.
— Espera aí, nem um médico você vai ver?
— Não tem necessidade, Ana Luiza. Eu tô mesmo bem cansado.
Ele beijou a testa de AnaLu, de Camila, e foi caminhando para a escada.
— Vem cá? – Luciane se manifestou quando Tiago sumiu escada acima – Só eu que tô vendo um Tiago sem calça? — Magnólia a fuzilou com o olhar – Me desculpa, mas tem coisas que não tem como não ver. Ele chegou todo cheio dos roxos, sem calça, não quis médico... A menina, que a senhora disse que não estava com seu neto, estava com ele e chegou cheia dos roxos também. Sei não hein, Cucu, mas acho que teu filho puxou uns gostos seus pras brincadeiras.
Hércules fez sinal de silencio para a esposa, que se divertia com a cara de ódio da sogra.
Todos então foram para seus quartos, só ficou Magnólia de frente para a escada. Ela se virou para a direita, e viu ali parado no corredor para a sala de estar, Ciro, que a mirava. Ele então tirou um cigarro, caminhou até ela, tirou um isqueiro, e, de frente para ela, o acendeu, jogando uma baforada na cara dela.
— Você vai concordar comigo – Ciro começou a falar movimentando o cigarro no ar – que isso nem de longe parece algo que esteja ao nosso controle. Você está perdendo a mão, minha sogra.
E sem olhar para ela, ele se retirou, escada acima, fumando seu cigarro.
Tiago se trancou no quarto e caiu na cama. Com as mãos no peito começou a pensar no que faria. Tomou banho. Colocou o pijama e saiu do quarto. Com a decisão tomada ele saiu pela casa para ver se encontrava Helena andando pela cozinha ou na sala. Nada. Bateu na porta dela, trancada, e não atendeu. Voltou ao quarto, torcendo para conseguir conversar com ela antes da mesma ir embora.
Na mesa de café matinal, servido mais cedo do que de costume, aparentemente ninguém conseguiu dormir bem depois da tensão do dia anterior, todos comiam calados. Magnólia se mantinha muda. Camila não tinha descido novamente para as refeições, AnaLu nem olhava para a avó, enquanto Pedro não perdia a chance de olhar a todos, medindo o clima, observando uma Luciane que de vez em quando encontrava o olhar dele, achando graça da situação. Hércules, Vitória e Ciro se mantinham em harmonia com a matriarca, com cara de desgostosos.
— Léia – Magnólia chamou a empregada – vá ver como Tiago está. Numa dessas ele já tá acordado, e pode se juntar a nós, ou está precisando de algo.
— Quem? Desculpa Dona Magnólia, mas o Tiago saiu ali umas seis da matina, isso, mais de uma hora atrás. Até pegou o seu carro, já que o dele né... Esqueci de avisar?
— O Tiago, saiu a essa hora? – ela se levantou.
— Deve ter ido na delegacia. – Pedro falou olhando desafiador para Magnólia – É o que eu faria. Quanto antes se comunicar, antes se prende os reais bandidos. Se tivéssemos feito isso da outra vez, talvez nada tivesse acontecido com ele agora.
Magnólia dirigiu um rápido e desgostoso olhar para Pedro, encontrando o olhar firme de Ciro na sua direção, se voltou para a frente.
— E a garota? Ainda tá no quarto ou saiu de novo com ele?
— Aaah a garota tá lá ainda sim. Mas não há santo que bata na porta dela que a faça atender. – Pedro concordou com o que Léia dizia com a cabeça, nem a ele Helena atendeu naquela manhã.
Enquanto isso, Helena, que contava com um café da manhã tardio naquela casa, descia pela escada com a sua mochila nas costas. Tinha só os seus pertences ali, deixou inclusive alguns pertences no quarto para não chamar a atenção de ninguém que encontrasse no caminho até o carro de AnaLu. Ela já tinha tudo planejado. Com um casaco que pegou da irmã de Tiago na lavanderia no meio da noite, ela colocaria uma boina e sairia se passando pela garota. Depois se livraria do carro e sumiria dali. Sem se despedir de ninguém. Ela não queria admitir, mas se afeiçoou a muita gente daquela casa e de Edu e Helô. Assim seria melhor.
Ela, inclusive, vestia um vestido fit and flare, cor branco gelo, com flores azuis bem clarinhas desenhadas, que a Helô lhe deu. Nos pés, o coturno.
Ela terminou de descer a escada quando a porta da frente se abriu, ela foi para o lado da escada rápida, tentando se esconder de quem vinha da sala de estar, e procurando evitar ser vista por quem chegava na casa. Era Tiago.
Leia o viu.
— Olha aí, Dona Mág, seu neto voltou.
— Leia, a Helena já desceu?
Helena sentiu uma sensação que lembrou um soco na boca do estomago ao ouvir Tiago perguntando dela.
— Não, gente, menina deve estar traumatizada, coitada. Não atende ninguém.
— Eu vou lá então?
— Vai lá onde? Tiagô...! – Magnólia vinha da sala de estar contendo seu temperamento diante do que escutou do neto – Ela é a prima da sua noiva, não pega nem bem você sair por aí buscando ela no quarto dela de manhã cedo, ainda mais depois do que aconteceu ontem! Imagina, ainda fala isso para a criadagem, daqui a pouco chega nos ouvidos da Leticia.
— Isso não é mais problema, vó – Tiago falou para ela, voltando da escada e colocando as mãos sobre os ombros de Mág – eu tô vindo da casa da Leticia – o povo da mesa de café já tudo se empoleirando próximo deles, exceto Hercules e Ciro que ficaram tomando café, observando a cena. Até Pedro e Luciane, no fundo, vieram ver Magnólia e Tiago – terminei o noivado. E dessa vez é sem volta.
Ele fez uma cara de lamentação para a avó que o olhava com descrédito, e então desorientada, piscou várias vezes enquanto olhava para baixo balançando a cabeça negativamente.
— O que você está dizendo, Tiago? Isso é um absurdo!
— Não vó – AnaLu dava pulinhos do lado de uma Vitória animada, rindo da cara da própria mãe, enquanto ouviam Tiago contar o fim de Letiago – absurdo é eu manter um relacionamento por dó. Ela merece mais. Como me disseram, me casar com ela seria mais um castigo para a Leticia que um bem.
— Mas, Tiago...
Magnólia se afastou do Neto, ficando de costas para os telespectadores e de frente para a escada, bem na hora que uma incrédula Helena pareia nascer do outro lado daquela.
A avó de Tiago fuzilou a sobrinha da Helô com o olhar. Os demais que viam a cena ergueram a sobrancelha vendo a menina ali, escondida. Tiago, percebendo o olhar dos outros, se virou e a viu. Sorriu largo. “Ela ainda não foi. E agora não vai mais mesmo.”
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