A sobrinha da Helô

12 Magnólia contra a Sobrinha da Helô.


Tiago suspirou novamente e olhou para o relógio no celular, depois na cabeceira, e voltou a olhar o teto.

Estava dentro do seu pijama, um calção e camiseta cinza escuros, jogado na cama, as mãos e pés agitados, tamborilando com os dedos no peito, enquanto mordia o lábio inferior freneticamente. Daí parava, suspirava, pensava em dormir e esperar o despertador suave do celular. Mas não conseguia nem um minuto de olhos fechados. “Ela disse mesmo três horas e meia? É muito tarde.”

Ele então repassou novamente aquele dia na sua mente, a partir do momento que contou sobre o término com Leticia. Até porquê não queria lembrar da conversa com a ex-noiva. Foi cheia de momentos vergonhosos para ela. Leticia vinha demonstrando certo desiquilíbrio que ele preferia não ver, ou tentava culpar os seus problemas de saúde por eles, mas agora ficava difícil justificar.

Tiago abriu um largo sorriso relembrando quando viu a cara de assustada de Helena, que se revelava do seu esconderijo na escada. Pela primeira vez pensou nela como alguém indefeso. De vestido claro, rodado, olho arregalado e bochechas vermelhas, olhando para ele sem piscar.

Ela ficou um tempo olhando para ele, e então olhou para os demais ali. Magnólia a fuzilava com o olhar, acompanhando o caminho entre o olhar do neto até o olhar da sobrinha da Helô. Pedro, AnaLu e Luciane tinham um sorriso feliz pelo que Tiago acabara de revelar, e olhares surpresos com a Helena surgindo do nada. Vitória, porém, tinha um sorriso alegre e parecia mal conseguir se segurar para pular, olhando de Helena para Tiago. Helena então se alertou, e olhou para o chão colocando a mão na orelha direita.

— Ai, meu brinco! – ela tentou disfarçar.

— Deve estar com o outro par, amiga, ou você perdeu os dois. – respondeu Luciane, como sempre perspicaz.

— Ufa! – Helena fingiu alívio colocando a mão esquerda na orelha esquerda – Eu não coloquei mesmo. Estava ficando louca, já procurando ele... – Helena deu um sorriso meio envergonhado, algo raro para ela.

Tiago observou ela saindo da situação, ainda com sorriso no rosto, respirou fundo e olhou para a avó, que parecia irada, e a abraçou pelo ombro.

— Vó, vai ficar tudo bem.

Magnólia tentou dar um sorriso para o neto e disfarçar o desgosto. O abraçou de volta e passou a mão no seu rosto enquanto mantinha os olhos em uma Helena que ainda estava parada próxima a escada, olhando para os lados, com as mãos juntas sobre a frente do corpo, braços esticados para baixo, ar de inocente.

— Bom. A decisão era sua, meu querido. E se isso te faz feliz, me faz feliz também. – Magnólia falou saindo do abraço do neto e o pegando com as duas mãos pelo rosto, dando um beijo na bochecha esquerda – Agora, você já tomou café? – Tiago respondeu que não com a cabeça – Então vem conosco.

— Tá. Mas antes eu preciso subir... – ele olhou para Helena significativamente, que entendeu a dica e desviou o olhar para Pedro, que agora franzia a testa para a situação, AnaLu e Luciane sumiram dali o deixando apenas com a irmã – Mas volto em uns minutos.

— Tá... – Magnólia fingiu um sorriso carinhoso e passou a mão direita pelo peito do neto – Vai lá querido. Vou ficar te esperando.

Tiago então olhou para os tios, com um sorriso contido, inclinou a cabeça os cumprimentando, e subiu pelas escadas, animado. Nem olhou para Helena, que mantinha o olhar debochado em Magnólia, irada.

— E você menina, não vem tomar café conosco? – Magnólia falou, desafiando ela a negar para subir as escadas ao encontro de Tiago.

— Awn... – Helena inclinou a cabeça para a direita, fingindo emoção e então abriu os braços na direção de Mag – você quer que eu tome café com vocês. – Helena caminhou até a matriarca e a envolveu com os braços, contendo o riso, enquanto a outra fechava os olhos e respirava fundo, não devolvendo o abraço – Sabia que ia demorar, mas um dia você ia me ver como parte da família.

Vitória e Pedro riam diante da cena. Magnólia a afastou enojada.

— Abusada! Vai, pode ir pro seu quarto.

— Não, não, vovó – Helena continuou abusada – eu vou te fazer companhia.

E Helena a largou, e foi até Pedro e Vitória, caminhando em direção a mesa de café. Magnólia ficou parada ali, olhando para a escada, furiosa.

— SANDRA! – ela chamou a empregada, que veio correndo – Peça para o motorista preparar meu carro, eu vou sair assim que terminar o café.

— Bom, o carro já tá pronto, o seu neto.... – Sandra sentiu o olhar de ódio da patroa – Vou avisar num minuto Dona Mag.

Ela esperou mais um ou dois minutos e então viu o que esperava, Tiago vinha descendo a escada, olhando curioso.

“Será que ela não entendeu que quero falar com ela?”

Ele viu a vó e sorriu encabulado. Nisso Helena veio lépida e feliz da sala de estar.

— Vamos lá, vó, café vai esfriar. – Helena passou por Magnólia dando um tapa na bunda da matriarca que ficou indignada, a jovem era só alegria – Eu derrubei suco na roupa. – Helena fez beicinho fingindo lamentar — Vou lá trocar – Helena subiu uns degraus – já volto. Não come tudo.

Tiago assistia a cena com as sobrancelhas erguidas.

— Espera. – Magnólia foi até o local onde Helena estivera escondida – Como você vai se trocar sem as suas roupas? – E magnólia ergueu a mochila de Helena, Tiago ficou sério diante da evidencia de que chegou minutos antes de ela fugir.

— Aaah, isso? – Helena desceu e pegou sua mochila das mãos da velha – É roupa suja, ia levar na lavanderia. Obrigada.

E Helena subiu as escadas animada, esbarrando em Tiago com sua mochila. Ele já foi virando para seguir ela. Então lembrou da vó, se virou para ela com sorriso desconcertado.

— Eu esqueci um... o meu celular.

E Tiago seguiu atrás de Helena deixando a avó ali balançando a cabeça irritada.

Tiago foi correndo até Helena, que não parou mesmo depois de vê-lo a seguindo.

— Hei, para aí. – ele puxou um braço dela a parando – Precisamos conversar.

— Precisamos? – Helena perguntou com meio sorriso, encostando as costas na parede a sua esquerda, há dois passos da porta do quarto dela, braços para trás, segurando a mochila.

— Sim. – foi a vez de Tiago dar um sorriso, apoiando a mão direita na parede em que Helena estava encostada, na altura do ombro dela, a cercando – Eu preciso saber como vai ser agora.

— O que? Agora o que? – Helena o olhou fundo, prendendo a respiração.

— Agooora – ele colocou a mão esquerda no queixo dela, o acariciando com o polegar – você vai ficar aqui?

— Eu... — Helena suspirou olhando para o peito de Tiago – não sei. Tenho que ver com eles. Se realmente isso era o suficiente para eles... Tiago?

— Sim? – ele que tinha franzido a testa com a resposta dela, e colocado a mão esquerda no bolso, voltou a sorrir.

— Você terminou com a Leticia só para garantir que eu ficasse? – e Helena subiu novamente o olhar, o fixando nele.

Ele ficou uns segundos sustentando o olhar dela, sério. Então respirou fundo e, engolindo em seco, se afastou dela, colocando as mãos no bolso.

— Claro que não. – ele olhava para baixo balançando a cabeça negativamente.

— Então...?

— Eu... – ele coçou a nuca com a mão direita – Tem vários fatores. Como você mesmo disse ontem, meu tio já falou, a Helô, eu não podia continuar com isso. Não estava fazendo bem a ninguém. E... agora com a volta da Isabela também, faz nem sentido, né?

— É. Claro. Se você quer mesmo continuar com a Isabela, para quê ficar preso na Leticia. Óbvio. – Helena bateu com a palma da mão direita de leve na própria testa.

— É... tem a Isabela. – Tiago levantou a cabeça sem olhar para Helena, cruzando os braços.

— Sim... – Helena cruzou os braços dela, respirou fundo, olhou para Tiago que então a mirou e os dois olharam para o chão – Bom, de qualquer forma, boa hora para mim essa sua decisão de ter vergonha na cara e parar de enganar a bezerrinha.

Ela deu um soquinho no ombro direito de Tiago, que a mirava com um meio sorriso.

— Eu vou... – foi a vez de Helena coçar a cabeça, com dois dedos, no alto – Ligar para meus chefes, dizer que fiz o que eles queriam, apesar que não fiz nada mesmo – ela passou a língua pelos lábios enquanto puxava o ar – Até.

Helena foi entrando no quarto, arrastando a mochila.

— Espera. – Tiago a segurou, Helena com um pé dentro do quarto e outro na porta – Você estava mesmo indo, já?

— Sim. – ela confirmou calma.

— Sem se despedir de mim?

— Por que eu me despediria de você?

Tiago a olhou ofendido, mas daí ele pensou que realmente não tinha resposta para isso. Afinal ele não tinha exatamente uma relação afetiva com ela. Ou tinha?

— Eu só... – Tiago pensou no que responder, Helena ergueu uma sobrancelha – é. Deixa.

Ela entrou e foi fechando a porta. Tiago a bloqueou.

— A gente pode se ver hoje a noite? – ele sussurrou, com a mão e o pé esquerdo segurando a porta, se inclinando para dentro.

— Pra quê? – ela respondeu sussurrando de modo sarcástico.

Tiago olhou para os lados, procurando um motivo.

— Para a gente falar de tudo, né. – Helena franziu a testa – Sabe? Se os caras vão continuar te ajudando, no que podemos nos ajudar. Lembra, temos um pacto!

— Tá, tá, tá, Tiago. – Helena botou o tronco para fora do quarto olhando para os dois lados do corredor, se espremendo entre a parede e Tiago, que a olhava – Hoje a noite, três e meia.

— Onde?

— Onde você me achar!

E Helena se aproximou dele, se ergueu nas pontas dos pés e beijou a bochecha de Tiago, bem de leve. Ele sentiu o cheiro vindo do cabelo dela, e os lábios mornos tocando a pele dele bem perto da boca. Fechou rapidamente os olhos, expirando fundo. Quando abriu os olhos ela estava o olhando, com aquele olhar debochado.

— Obrigada, de novo.

E Helena jogou ele para o corredor, fechando a porta.

Tiago sorriu e olhou para a porta, mãos na cintura. Ficou assim quase um minuto e então olhou para o chão, balançando a cabeça negativamente. “Ainda bem que lembrei da Isabela. Mas também, qual o problema de querer que ela fique? Ela estava sendo uma grande ajuda... e já tava mesmo na hora de pôr fim nessa história com a Leticia.”

Enquanto isso, Magnólia entrava sem cerimônia no escritório de Tião que a recebeu com um olhar intrigado. Mag sempre preferiu encontrar ele na casa dela, ou algum lugar que não declarasse qualquer proximidade maior entre os dois.

— Bom dia, Magnólia. – Tião fez um meio sorriso e circundou a mesa, erguendo os braços para abraça-la.

— Me poupe de formalidades, Tião!

Magnólia o evitou erguendo apenas a mão esquerda, jogando na cadeira a sua frente a bolsa que estava na não direita. Unindo então as duas mãos a sua frente. Tião retrocedeu, a olhando mais intrigado ainda.

— Você já falou com a sua filha hoje pela manhã?

— A minha filha? Não, hoje não. Depois do que aconteceu ontem a noite ela me pareceu muito frágil para qualquer conversa hoje. Ficou muito angustiada com o sumiço do namorado, e a ousadia da mãe – Tião se virou e foi voltando para o seu lugar a frente da sua mesa, lembrando de quando chegou em casa, passada da meia-noite e foi recebido pela filha, na sala, olhos vermelhos, injuriada porque não só o namorado tinha novamente sido feito refém com a maldita prima, como até sua mãe foi para lá bajular ela, deixando Tião furioso com a possibilidade de seus capangas terem tentado novamente pegar ela e falhado, algo que depois descobriu não ter ocorrido – Mas se é para falar sobre o ocorrido ontem a noite, espero que você saiba que eu não vou julgar o seu neto...por enquanto. Mas quando ele casar...

— Não haverá mais casamento. – Magnólia o cortou seca.

— Mas o que é isso Magnólia, para quê esse extremismo! Vamos conversar. – Tião fez cara de surpreso e tentou negociar com ela levantando as mãos a altura do cotovelo.

— Não seja imbecil, Tião. – ele a olhou furioso com a ofensa, Magnólia então se sentou na cadeira ao lado daquela em que jogou a bolsa – Não sou eu quem está cancelando o casamento. É o burro do meu neto! – Tião ergueu o queixo e apertou os olhos, fixos em Magnólia, inspirando a notícia, pensando nas fotos que chegaram na sua mesa logo cedo, de Tiago com uma versão paraguaia de Isabela – E de novo por um rabo de saia!

— Sinceramente, Magnólia. – Tião comprimiu os lábios e expirou o ar dos pulmões, abaixando a cabeça e olhando para o envelope onde tinham as ditas fotos – Acho que já sabemos que essas paixonites do seu neto não duram muito. Sem contar, que – Tião desabotoou o paletó e se sentou, recostando-se na cadeira, admirando Mag – sabemos que não importa quantas Isabelas apareçam no caminho do Tiago, elas nunca ficam por tempo suficiente para acabar com a história dele e Leticia.

Tião sorriu, confiante. Magnólia não conseguiu conter um riso diante da ingenuidade dele. Ela então esfregou suas mãos, expirou fundo e se preparou para contar a Tião suas suspeitas.

— Sinceramente digo eu, Tião. Você acha mesmo que se meu problema fosse a falecia garçonete eu estaria aqui? ...

— Magnólia, a falecida ou renascida Isabela....

— Tião, me escute! – ela novamente o parou erguendo a mão esquerda – Eu não estou falando dessa uma aí, que você se livrou. Estou falando da sobrinha da sua esposa, a tal Helena Martins!

Tião então jogou o corpo para frente, encostando as palmas da mão na mesa, franzindo a testa.

— O que você está falando, Magnólia?

— Aaah, vejo que agora você sai do seu pedestal para me dar a atenção devida. Estou dizendo que você não sabe fazer seu serviço direito, claro! Quase um mês para pegar essa muleca, e quando o faz, não a elimina e ainda por cima a torna ainda mais próxima e protegida de Tiago. – Magnólia se levantou agitada com as ideias em sua mente depois do que viu na noite anterior e naquela manhã – Francamente, Tião, que lambança! O quão difícil é eliminar uma piveta dessas?

— Magnólia, minha querida. – ele se levantou ainda com a palma das mãos sobre a mesa, se inclinando na direção dela – E quem disse que o sumiço de ontem foi coisa minha?

— Ora, me poup...

— Não, agora você vai me dar atenção. Confesso que é meu estilo, mas nunca que eu faria isso sem ser eficiente! Eu não entro no jogo para perder, você sabe muito bem.

— Sim, claro – ela se virou para ele, com sorriso debochado – mas até onde sei, a Isabela não é exatamente o que se chama de um jogo ganho, não?

Tião ergueu-se, a olhando novamente desafiado. “Essa mulher...”

— Isabela é o primeiro e único erro...

— Até essa repeteco de Heloisa vir para as nossas vidas!

— Magnólia – ele deu a volta na mesa indo até ela – essa é a terceira ou quarta vez que você me interrompe, acho melhor você... – e ele baixou a voz a tornando ameaçadora – se acalmar. – ela o olhou de rabo de olho e assentiu com a cabeça – Agora – ele então se sentou na cadeira onde ela estava antes – me explica de onde você tirou essa ideia de que a Helena é agora a menina dos olhos do apaixonado Tiago? E de que ele vai cancelar o casamento com a minha filha.

— Tião, eu acho que você realmente não está conseguindo prestar atenção no que digo. Tiago JÁ cancelou o casamento. Pode ligar para a sua filha. – Tião colocou o dedo indicador da mão direita sobre a boca a pressionando e então fazendo que não com a cabeça – Ele foi hoje bem cedo fazer isso, e assim que chegou, viu a muleca e ficou todo animado. Pelo visto, depois do susto de ontem ela ia fugindo, mas a noticia dele a animou a ficar. Os dois devem estar achando que ele terminando com Leticia vão te afastar.

— Não pode ser.

— Mas é. – Magnólia então deu a volta na cadeira de Tião e se apoiou no encosto da mesma, baixando a cabeça para falar próximo ao ouvido dela – Essa menina ganha mais força a cada vez que você tenta elimina-la, já notou?

— Já te disse, minha cara, não fui eu quem raptou ela e seu neto. Você deveria parar de me acusar e começar a se preocupar com esse novo inimigo que nos espreita. – ele se ergueu e virou de frente para ela, que também se ergueu – Aliás, é a segunda vez que alguém sem o meu conhecimento se aproxima dos dois. Da outra vez foi o assalto, no qual apenas o meu capanga é que saiu desacordado... – Tião então elevou o olhar à esquerda, lembrando da conversa com Tiago depois do assalto, onde ele chamou a sobrinha da Helô de bandida e louca – Desde quando você nota esse interesse?

— Ora? Desde hoje, claro! Se tivesse notado antes, teria me livrado dela quando podia.

— E por quê ele estaria interessado nela agora?

— E você lá acha que sei? – Magnólia se irritou com a pergunta imbecil, se virou para o lado direito evitando olhar Tião – Ela é tudo menos o tipo de Tiago. É muito segura de si, não faz a coitada, a que precisa de alguém para protege-la, e pelo visto mais salva ele do que precisa ser salva. Não tem nada das outras namoradas de Tiago. Mas ainda assim... aquele olhar dela, hoje...e ontem também. Já vi antes. – Magnólia lembrou de Pedro defendendo Helô quando ela invadiu a festa de Fausto – Não é algo que você pode ignorar.

— Entendo... – Tião colocou a mão nos bolsos e olhou para baixo, inspirando fundo – Então, Magnólia, o que você me sugere? Porque sumir com essa garota é o que venho tentando desde o inicio, mas com a proteção de Pedro naquela sua mansão, é impossível. A garota, para variar – Tião se virou para a janela a sua esquerda, olhando para o horizonte e batendo com a mão esquerda no ar – é mais esperta que a mãe.

Magnólia franziu a testa para aquele comentário. Mas resolveu deixa-lo de lado.

— Ora, que se dedique mais. Que seja efetivo dessa vez! Eu sei – ela levantou as mãos diante do olhar irritado dele – você não foi o autor das outras duas. Mas vem tentando há semanas e não consegue!

— Bom, como eu disse, com ela presa sob seus cuidados, é quase impossível. A não ser... que isso se tornasse um ponto a nosso favor.

Magnólia o viu chegar perto, ergueu o queixo e sorriu diante da ideia que nasceu na mente deles.

— Façamos assim, Magnólia. Demos um tempo! – ela se agitou – Calma! Demos um tempo para ela relaxar, todos pensarem que não há perigo nenhum, e eu poder ajeitar as coisas para ter certeza que nada vai sair errado dessa vez, e na hora certa, você, como sempre, vai estender a sua mão. – Tião segurou o braço esquerdo de Mag com sua mão direita – só que dessa vez, vai ter que suja-la.

Ele se afastou e avaliou o efeito de suas palavras na Leitão. Ela tinha a respiração presa, mas o olhar penetrante e decidido.

— Neste caso, eu terei o maior cuidado para que se dê o fim de vez. — ela respondeu.

— Pode deixar. Não haverá mais sobrinha da Helô quando terminarmos, e nem mesmo dúvidas de que seu fim foi resultado de suas próprias atitudes irresponsáveis. Nada de dúvidas de qualquer tipo dessa vez. – Tião foi até sua mesa de novo enquanto discursava e pegou chaves e carteira – Me dê um ou dois meses, e vamos, não só ter o fim dela, como o inicio de um belo casamento entre as nossas famílias.

Magnólia respirou fundo e sorriu olhando para baixo diante de tamanha segurança do comparsa.

— Tião, dois meses pode ser um pouco demais. Tiago é um rapaz novo e... se puxou o tio, como acho que puxou, é capaz de já estar noivo ou até casado nesse meio tempo.

— Se fosse assim, Magnólia, ele já estaria casado agora. Faz mais de um mês que ele conhece a garota. – ele então a viu abrir a boca para argumentar – Mas ainda assim, um olhar não pode ser ignorado, e muito menos a oferta de uma mão amiga para ajudar a eliminar um inimigo comum – Tião completou se aproximando dela e pegando sua mão esquerda a beijando – E que bela mão.

Magnólia sorriu.

— Agora – Tião foi até a porta a deixando para a trás – se me permite, tenho uma filha desconsolada chorando por mais uma burrada do seu neto.

— Espera, Tião! – Magnólia se virou para ele – Mesmo que você ache que não há nada além do olhar, nós precisamos nos precaver.

— Ora, Magnólia, se ele está só no olhar é claro que o garoto deve estar lutando contra qualquer sentimento, sabiamente por saber que ela é enrascada, sem contar que ainda há o sentimento pela Isabela.

— Tião, um sentimento pode facilmente ser substituído por outro, ainda mais se for...

— Não dê nomes. – ele respirou fundo.

— Então? O que faço nesses dois meses para impedir que ele avance com esses sentimentos?

— Ora, Magnólia – ele se aproximou dela, agora sorrindo – você não tá mesmo me dizendo que o vigário não sabe rezar a missa, está?

E deu as costas para ela, saindo da sala e pedindo para a secretária mandar tirarem o carro dele. Quando sentou no banco de motorista, ligou para o capanga que estava de olho em Isabela.

— Pode abortar a missão de hoje. Vou dizer quando for a hora da falsa irmã da Isabela sair do caminho. No momento essa paixonite do Tiago é mais útil viva.

E se encaminhou para a casa iniciar o plano para garantir de vez o casamento de Leticia com Tiago.

Tiago olhou de novo para o relógio: três horas. “Acho que já dá para ir. Que diferença vai fazer meia-hora?” Ele se ergueu da cama e foi até a porta. Pensou onde ela poderia estar. Podia ser na sala, foi lá que se encontraram há duas noites. Lembrou dela no colo dele. Ou ela podia estar na cozinha. Lembrou dele a descendo pela bancada. Tiago virou de costas para a porta e olhou para si mesmo. Tirou a camiseta e jogou em cima da cama, saindo então para procurar a sobrinha da Helô.

Passou primeiro na sala, evitando fazer qualquer barulho e encontrar alguém. Ela não estava lá. Foi até a cozinha. Chegou na entrada e viu ela de costas, cabelo amarrado num coque frouxo no alto da cabeça, camisola de algodão rosa bebê que ficava uns quinze centímetros acima dos joelhos, pés descalços, aparentemente cozinhando algo no fogão. Ele ergueu as sobrancelhas e foi entrando com um sorriso, que morreu quando percebeu o seu tio Pedro do outro lado da bancada, com os cotovelos apoiados naquela, observando Helena, sorrindo também. Pedro franziu a testa, mas manteve o sorriso ao ver o sobrinho.

— Tiago! Hoje é a noite dos insones! – e Pedro caminhou até o sobrinho, enquanto Helena virava a cabeça para trás, surpresa, olhando depois para o relógio da cozinha – Vem, a Helena está tentando fazer brigadeiro.

— Como assim, tentando? – ela respondeu fingindo indignação, do fogão.

— Quantos colheres de margarina você colocou?

— Precisa de margarina? – ela olhou rápida e surpresa para Pedro, que apenas riu, com o braço esquerdo passando pelos ombros de Tiago.

— Hahaha precisava, vamos ver como fica agora. – ele então olhou para Tiago – Tá com calor, cara?

— É... – Tiago olhou para si e coçou a cabeça meio envergonhado – não estava conseguindo dormir, revirando na cama...

— É, com o que vocês passaram nesses últimos dias... Eu me senti muito mal quando soube que vocês tinham sumido. Era para eu ter ido com vocês – Pedro agora parou de frente para o sobrinho, lábios comprimidos, e mão direita na cintura – Mas daqui pra frente eu vou cuidar mais da Helena. Isso tudo é muito estranho. Na verdade, desde que voltei só vejo e ouço coisas estranhas.

— É... a começar pelo atentado ao vovô...

— Ai! – Helena deu um pulo para trás no fogão – Pulou em mim.

Pedro correu e apagou o fogo.

— É, acho que já está pronto. – ele e Helena olhavam com cara desconfiada para a panela.

— Quer experimentar? – ela sorriu para Pedro.

— É... melhor colocar num prato e esperar esfriar. – Pedro olhou contendo o sorriso, enquanto Tiago observava o entrosamento entre o tio e Helena.

— Certo! – ela foi atrás de prato mas Tiago se adiantou e pegou um para ela, o entregando para Helena com um sorriso simpático – Eu quero um mais fundo! – ela disse rejeitando o gesto de Tiago, o fazendo ficar sério.

— Então tá, vai, pega!

Tiago colocou o prato na bancada e foi para perto do tio, olhar para a panela que realmente estava com uma péssima cara.

— Aqui, podem colocar o brigadeiro.

Helena estendeu para os dois um prato fundo. Eles se entreolharam, braços cruzados, então olharam de novo para a panela e fizeram cara feia.

— Que foi? – Helena franziu a testa.

— Nada, nada.

Os dois falaram quase ao mesmo tempo, dando espaço do fogão, enquanto Tiago pegava uma luva para segurar a panela e Pedro pegava a colher. Tiago então pegou a panela e começou a virar no prato – Cuidado aí! – ele disse para Helena, quando um pouco do leite condensado queimado com chocolate respingou no polegar dela a fazendo gemer. Pedro, franzindo o nariz, tentou tirar o resto do que deveria ser um brigadeiro da panela e trazer para o prato.

Os dois pousaram a panela no fogão de volta e olharam para Helena, que tinha as sobrancelhas erguidas e um sorriso radiante diante do prato de alguma coisa que acabou de preparar. Pedro e Tiago colocaram a mão na cintura e sorriram maravilhados com a cena. Helena parecia outra.

— Ok, agora... o que eu faço?

Ela olhou intrigada para o prato.

— Aaaah eu acho – Pedro pegou das mãos dela levando rapidamente para a bancada – que é melhor primeiro esperar esfriar um pouco para ninguém queimar a língua ou ter dor de barriga.

Tiago e Helena cruzaram os braços e olharam para Pedro com uma sobrancelha erguida diante da frase infantil.

— O que? Dá dor de barriga sim.

Eles riram.

— Tá certo, então. Esperemos. – Helena foi até a bancada e se apoiou nela, olhando para a sua obra de arte.

— Esperemos. – Pedro concordou com a cabeça e, se encostando no balcão próximo ao fogão, olhou para Helena e depois para Tiago, observando que o sobrinho olhava para a Helena de costas, braços cruzados, dentes pressionando o lábio inferior – Tiago! — o garoto quase deu um pulo, olhando para o tio, se virando para ele, coçando a orelha esquerda – Que dia hein! Você foi muito integro com a Leticia hoje. – Helena ergueu a cabeça e começou a prestar atenção na conversa – E ainda enfrentou a sua vó. Eu não esperava menos de você.

— É. Na verdade eu nunca devia ter voltado com ela. — Helena franziu a testa do canto dela – A gente estava só se enganando. E com isso eu mais prejudicava ela do que ajudava.

“Porquinho safado, até ontem defendia com unhas e dentes que tinha que ficar com a careca!”

— É, cara, mas nós fazemos coisas erradas, e muitas vezes por mentirmos para nós mesmos. – Pedro foi até o sobrinho e colocou a mão direita no ombro esquerdo de Tiago enquanto o indicador da mão esquerda batia no peito dele – Eu fiquei muito orgulhoso de você hoje.

— É, mas não foi uma bela atitude minha com ela, né? Não sei, acho que no fim ela não merecia alguém como eu.

Tiago virou de frente para o fogão, dando as costas para Helena, cruzando os braços de novo e olhando para o tio, boca comprimida.

— Ao contrário! A sua atitude antes é que não era digna. – Pedro passou o braço por sobre o ombro de Tiago – Cara, você sabe como me importo com a Leticia. Filha da Helô... E te digo, depois de hoje, se eu tivesse uma filha, não escolheria outro para ser meu genro.

Tiago riu. Helena se virou para eles, braços cruzados, sobrancelha levemente erguida.

— O problema é que uma filha sua seria minha prima.

— E daí? Nunca ouviu falar que amor de primos dura para sempre?

— Que papo é esse? – Helena os interrompeu.

— Você tava escutando, é? – Tiago virou a cabeça para trás em tom recriminador.

— Vocês estavam falando... – ela estendeu uma das mãos para eles e voltou a cruzar os braços.

— Você nunca ouviu sobre amor de primo? – Pedro se virou para ela.

— Não, nunca... Mas, ainda assim, Tiago não seria beeem um primo de uma filha sua. – Helena voltou a estender uma mão para explicar sua teoria, Tiago se virou para ela, braços cruzados e queixo erguido, um meio sorriso – Até porquê, Pedro é só meio irmão do Hércules. Seriam no máximo... meio primos.

Tiago olhou para Pedro e os dois riram.

— Então, sendo só meio primos, o amor só duraria metade? – Tiago indagou o tio.

— Não é assim, Tiago – ele apertou o sobrinho pelos ombros – quando é amor, não há prazo de validade.

Tiago olhou o tio desconfiado e depois para Helena, que tinha uma sobrancelha erguida e quando viu o olhar do Tiago levantou as mãos e os ombros para o alto e balançou a cara negativamente, como quem não tem nada a ver com isso.

— Agora... – Pedro olhou de um para o outro – por mais que eu queira muito experimentar esse brigadeiro – ele ergueu as sobrancelhas para Tiago – eu tenho que ir dormir. Amanhã vou falar com Olavo, ver se tem mais alguma pista. E vocês dois deveriam fazer o mesmo, tá tarde e não parecem ter dormido nada de ontem para hoje.

Pedro falou isso olhando bem sério para os dois, principalmente Tiago. Foi até Helena e a beijou na testa. Ela deu um meio sorriso e acompanhou ele saindo com o olhar. Então se virou para frente, e não viu quando Pedro parou na entrada da cozinha e colocou o indicador direito embaixo do olho direito puxando a pele do rosto em sinal de vigia para Tiago, saindo de vez.

“O que ele tá pensando?”

Tiago olhou para Helena, braços ainda cruzados, destacando o busto, encostada na bancada com um pé fincado no chão, mas o outro com a planta pousada na bancada, joelho elevado.

Ela ergueu as sobrancelhas para ele. Ele respondeu a imitando. Os dois de braços cruzados.

— Tu só é lerdo para certas coisas né?

— Não entendi.

— O horário marcado era às três e meia, tu chegou quase meia hora antes!

— Aaaah é – ele jogou o corpo para trás e depois se ergueu descruzando os braços – eu... não lembrava que horas exatamente foi marcado. – Tiago então foi até ela e colocou a mão esquerda no balcão ao lado do corpo dela, a cercando e inclinando o corpo na direção dela, sorrindo.

— Ahã. Certo! Vamos lá, pega uma colher. — ele a olhou curioso – Pro brigadeiro!

— Ah!

Ele fez careta e foi pegar uma colher para ela, mas ela olhou estranho e mandou ele pegar uma para ele também. Tiago pegou, mas o cheiro de queimado não o estava animando a comer a iguaria. O prato estava na quina da bancada e Helena estava encostada nela com o braço direito apoiado, de costas para a entrada da cozinha, enquanto Tiago estava do lado de frente para ela e para a entrada. Eles experimentaram ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo fizeram cara de nojo.

— Taí um ótimo jeito de torturar alguém, fazendo você cozinhar para ele! – Tiago falou tendo como resposta uma colherada no braço, o fazendo rir.

— Isso mesmo, se ele não falar é só mandar você contar as histórias de sua vida amorosa. – Helena falou isso fazendo cara de sono e revirando os olho, os dois se encararam, ainda saboreando o leite condensado queimado com chocolate — Falando de coisas chatas, já contou para a amada que já tá livre para ela?

Tiago tentava engolir o resto do brigadeiro, enquanto pensava no que ela dizia. De fato ele novamente passou o dia sem se lembrar de Isabela. Ele devia mesmo ir atrás dela e contar tudo, quem sabe assim ela se sentisse melhor em se abrir com ele.

— É, não tive tempo para isso. – ele falou apontando a colher para ela, concordando com a cabeça – Mas amanhã mesmo eu vou tentar. Sei mais ou menos onde ela passa todos os dias.

— Diz que dessa vez você consegue fazer isso sozinho! – Helena conversava sem olhar ele nos olhos, ora mirando o prato, ora a colher.

— Não se preocupa, agora que tenho mais certeza que é ela, e que já estou mais alerta sobre os capangas do Tião, vou conseguir sem você.

Helena já não prestava mais atenção nele. No meio da frase de Tiago ela teve uma ideia, e sorriu. “Arriscado, mas pode funcionar.”

— Helena?

— Sim?

— Tá me ouvindo?

— Desculpa, dormi com o seu papo.

— Como eu dizia, não preciso de você dessa vez. A não ser que queira me fazer companhia amanhã? – ele sorriu para ela, colocando a colher no prato e pegando mais um bocado de brigadeiro, só notando o erro quando levou a boca.

— Ah, claro, adoro ser vela de casal de novela teen. – ela falou erguendo uma sobrancelha para ele, e então levantou as duas e sorriu animada – A não ser que seja de novo perto do posto da mulher lá. Posso arranjar um jeito de me distrair. – Helena pegou outra colher do brigadeiro e apertou os olhos e boca com o gosto, fazendo Tiago sorrir.

— É? – ele tentava engolir a nova colherada de brigadeiro enquanto a olhava animado, até lembrar da distração do posto da Salete e fechar a cara lembrando dela se agarrando com o frentista – Mas que pena, não vai ser lá. Por sinal, é bom você não aparecer nunca mais lá. – Tiago completou apontando a colher para ela, a fazendo fechar a cara.

— Por que?

— Porque... a Salete, tu viu a dona do lugar né? Ela é bem ciumenta dos...daqueles caras lá.

— Que chato. Mas deixa, quando eu voltar lá explico que não vou roubar nada, só quero emprestado.

Helena piscou para Tiago. Que apenas balançou a cabeça negativamente.

— Como quiser. – Tiago virou de costas para ela, encostando o braço direito na bancada e elevando a colher na altura dos olhos, fingindo interesse nela, fazendo Helena revirar os olhos de novo – Mas conta, o que o teu chefe falou sobre o fim do meu noivado?

— Aaah é. Eles disseram... – Helena foi até a frente dele e tentou imitar a voz de Paulo, séria – “Parabéns, Helena, já soubemos do sucesso da sua missão. Em breve entramos em contato com você.” E desligaram na minha cara, detalhe, eles é que ligaram para mim. – ela estava parada na frente dele, mãos na cintura, cabeça virada para o lado esquerdo em direção da entrada da cozinha, olhar indignado – Odeio isso, essa sensação de que tem alguém me olhando o tempo todo.

Tiago a olhava. Virou a cara para o outro lado.

— É... mas eles não disseram se você corre perigo ainda, se vão te ajudar?

— Não, os cretinos nem para isso. Ligo e eles não atendem. Mas eu vou dar um jeito nisso sozinha.

— Não vai se meter em mais encrenca! – ele falou apontando o indicador da mão direita para ela, que Helena segurou.

— Mas daí não tem graça.

— Helena... – ele pegou o queixo dela com a mão direita o virando para ele – Eu não fiz o que fiz para você ficar protegida e logo em seguida você se enfiar em confusão de novo.

Ela riu e levantou uma sobrancelha.

— Primeiro – Helena afastou a mão dele e pulou na bancada se sentando, colocando a mão sobre o colo – você fez o que fez por que era certo, segundo porque tem a sua namoradinha e terceiro, você sabe que precisa de mim.

Helena completou o raciocínio dela passando o dedo indicador da mão esquerda no nariz dele.

— Muito engraçado. – ele se virou de frente para ela – Eu passei mais de vinte anos sem você e nunca fui sequestrado. Nem um mês contigo do lado e até de você apanhei. Acho que consigo me virar sozinho.

Tiago a cercou com as duas mãos apoiadas na bancada de cada lado do corpo dela, se inclinando para a frente, peito encostando nos joelhos dela, rosto próximo do dela, boca entreaberta, tão próxima que Helena podia ver a língua dele pressionando os dentes, contendo a vontade. O desenho de um sorriso provocador na boca e nos olhos. Helena não fugia de uma boa brincadeira.

— Ah é?

— É. – ele então sorriu mesmo, inspirando forte.

— Então... – foi a vez dela pegar o rosto de Tiago com a mão direita, pressionando as bochechas dele, que ainda sorria – é muito bom eu já ter as malas prontas, que assim é só pegar e ir embora.

— Então vai. – ele brincava.

— Então eu vou! – ela respondeu desafiada, abrindo a boca fingindo surpresa, e então jogou o corpo para frente para sair, sendo segurada pelo ombro de Tiago que a bloqueou.

— Então vai. – ele agora fechou os braços ao redor do corpo dela, a prendendo.

— Mas leitãozinho... te acostumei muito mal! Cê acha que pode comigo é? – ele ergueu os ombros e curvou os lábios para baixo, virando a cara para o lado – Você acha, né?

Ela começou a empurrar os ombros dele com os braços, os peitos com os joelhos, mas ele apenas recuava um pouco e já voltava a posição anterior, se divertindo com as tentativas.

— Vai! – ele falou olhando para ela, desafiando e sorrindo.

— Não me provoca... – ela tentava parecer séria, mas sorria, os olhos brilhando.

Helena então empurrou bem forte ele o afastando e pulando rapidamente da bancada ficando de frente para ele se preparando para sair, mas ele voltou rápido a prendendo ali no móvel com o corpo dele.

— Que... – ela ofegava, enquanto continuava tentando se livrar dele, colocando os braços para a frente, entre ela e Tiago, tentando o empurrar, rindo – garoto, chato.

Num desses movimentos, Tiago cada vez mais pressionando o corpo dele no dela, ele esbarrou a mão no prato de brigadeiro que se espatifou no chão. Os dois olharam assustados. Ele então a olhou contendo o riso, as sobrancelhas erguidas para Helena que tinha a boca aberta.

— Olha o que você fez com o meu brigadeiro! – ela fingiu indignação – Pede desculpas. – ela aproveitou que no susto ele relaxou os braços e puxou a mão direita para dar um tapa no ombro esquerdo dele.

— Pedir desculpa? – ele riu, jogando a cabeça para trás – Você é que tem que me agradecer, ninguém mais vai saber do desastre que foi aquilo ali.

— Aaaah. – Helena se fez de ofendida – Não vai pedir desculpas?

Tiago só respondeu que não com a cabeça, boca fechada, mas os lábios curvados num largo sorriso.

— Então tá! – ela deu um grande empurrão nele e saiu pela direita, evitando onde estava o prato quebrado – Eu vou embora, já. Não sou obrigada a ficar – ela viu ele chegando perto e acelerou o passo, começando a correr da entrada da cozinha para o corredor, Tiago indo atrás, rindo também – onde não apreciam o meu talento culinário. – ela terminou a frase quando Tiago finalmente a pegou pelo braço, a puxando para si e a segurando na cintura.

— É preciso ter talento para ser apreciado, e isso você não tem!

Ela novamente abriu a boca fazendo a indignada, e então, com os braços largados ao redor do corpo, deixando Tiago a segurar, ela olhou para o lado.

— Se tu diz... quem entende de tá lento aqui, é você mesmo.

Ele olhou para o rosto rosado dela, o sorriso, e os cabelos já saindo do coque, que descera do alto da cabeça.

— Não me provoooca... – ele disse imitando ela.

Os dois com os rostos bem próximos, inclinando as cabeças como numa dança, boca entre aberta.

— Vai...- Helena deu um tapinha no peito dele, a voz baixa – fala.

— O que? – ele perguntou também baixo, olhos nos lábios dela – Desculpa?

— Não... – Helena colocou os braços ao redor do pescoço dele, engoliu em seco – Que você precisa de mim e por isso fez o que fez.

Helena o mirava nos olhos, prendendo a respiração. Tiago encostou o nariz no nariz dela e sorriu.

— Eu...

— Mas o que... isso só pode ser pesadelo.

Helena puxou o ar com força enquanto fechava os olhos diante da interrupção de Magnólia. Tiago a largou imediatamente.

— Vó? – ele então colocou uma mão na cintura e a outra ele passou pelo cabelo, olhando para baixo, e então para Helena ao seu lado e de novo para baixo – Não é isso o que você tá pensando.

Helena riu do jeito dele.

— É essa mesmo, a mentira mais contada no mundo! Me poupe, Tiago. Foi por isso que você cancelou um casamento tão esperado?

— Vó... não... olha... – ele olhava para a vó e para o teto tentando encontrar uma resposta – Primeiro, os meus motivos para terminar com o noivado, e não só cancelar o casamento, são só meus, e não tem nada a ver com Helena – a resposta fez Helena fungar e cruzar os braços enquanto mantinha o olhar sobre Magnólia – e segundo, eu e Helena somos só amigos, por duas vezes ela me salvou... eu sou grato a ela.

Tiago falava as ultimas palavras com os ombros erguidos e olhando para o chão mexendo a cabeça negativamente.

Magnólia ergueu o queixo e apertou os olhos tentando acreditar no que o neto, que mal a olhava nos olhos, dizia. Então olhou para Helena, que apenas devolveu o olhar ameaçador erguendo uma sobrancelha.

— Não olha para mim – Helena finalmente verbalizou, levantando as mãos pro ar – se tem uma coisa que não me apetece – ela caminhou pelo corredor chegando perto da matriarca sem olhar para Tiago, que acompanhava os movimentos dela – é muleque frouxo. – ela olhou para trás e deu um sorriso amarelo, se voltando para Mag – Do tipo que morre de medo da vovó.

E Helena passou por Magnólia no corredor com um meio sorriso. Então, quando já estava dois passos longe, ela voltou para trás e colocou a mão direita no ouvido direito, franzindo a testa.

— Estão ouvindo isso? — Magnólia olhou para ela, erguendo então a sua sobrancelha, desconfiada da garota – Os passos dos bisnetinhos pela casa – Helena então colocou as mãos nos ombros de Mag – Bisa, bisa, papai Tiago e mamãe Helena disseram que vamos ter mais um irmãozinho, o quinto!

E Helena saiu do corredor rindo, enquanto Magnólia olhava para cima e respirava fundo. Tiago olhava para baixo mexendo a cabeça negativamente.

— Sinceramente, Tiago. – ela falou com desprezo, mirando o neto.

— Vó – ele então ergueu o rosto, com uma mão na cintura e a outra apontando para o corredor – é justamente isso que ela faz, provocar. Ela fazia o mesmo com a Leticia, agora fez com a senhora. Por favor... – ele foi saindo, passando pela avó – não se deixa levar por ela.

— Digo o mesmo!

Tiago então saiu dali, subiu a escada rápido e foi para o quarto, passando pelo quarto fechado de Helena, apertando os lábios “Eu não disse nada errado, disse?” Parou pensando em bater na porta, mas seguiu para tomar um banho. Na manhã seguinte, que seria dali duas horas, ele falava com ela.

Enquanto Magnólia ia até a cozinha, pegava um copo de água e pensava na surpresa preparada pro dia seguinte, sorrindo.