A sobrinha da Helô

22 O rato da Sobrinha da Helô


Notas iniciais
Fim de ano, correria, próximo capítulo só para final de segunda ou quarta.

Tiago olhou Helena confuso, e já ia abrindo a boca para saber o que aconteceu quando ouviu a voz de sua avó vindo do corredor.

— Mas que gritaria é essa?

Magnólia estivera no escritório desde o inicio da noite, e só agora saía de lá, sem sono, depois de beber um pouco de uísque. Quando passou pelo corredor notou gemidos da sala e foi se aproximando perguntando se tinha alguém ali. Foi quando Helena a escutou e jogou Tiago no chão, inventando a história do rato.

A matriarca a olhava espantada. Tiago se jogou no chão, catando a jaqueta e camiseta, e foi se esgueirando pelo sofá, se escondendo o quanto podia enquanto a avó se aproximava.

— Socorro. – Helena pulou do sofá indo para o corredor, puxando Magnólia pela mão – Aquii... – Helena tentava parecer amedrontada, apontando para o chão, levando Magnólia para frente do sofá, enquanto Tiago se escondia agora atrás dele – Um rato passou pela sala.

— Deixa de ser maluca, menina, nessa casa não tem ratos. — Helena ergueu uma sobrancelha para ela – Estou perdendo meu tempo te dando ouvidos.

Magnólia foi se virar para sair, fazendo Helena arregalar os olhos e Tiago fechar o dele imaginando a avó o descobrindo.

— Aaaaahh...- Helena deu outro grito se colocando em frente a vilã – Passou no meu pé.

Helena pulou de novo para o sofá, amedrontando Magnólia que também subiu, receosa.

— Mas que absurdo, onde já se viu, um rato nesta casa.

— Tá lá ó. – Helena apontou para a frente, em um ponto no canto do outro sofá, enquanto notava que atrás de si, Tiago se evadia pelo corredor, abaixado, carregando as roupas.

— Onde? – Magnólia se agitava.

— Lá! – e Helena pegou um dos calçados que Magnólia havia retirado depois de subir no sofá, e o jogou longe.

— Mas o que? Pirou de vez, jogar meu calçado num rato?

— É para nossa segurança. – ela ergueu os ombros, agora já relaxada com Tiago longe, e foi levando a mão ao outro calçado, que Magnólia desviou.

— Mas é muita audácia mesmo.

Helena começava a se divertir com a situação.

— Dona Má, olha a nossa situação, reféns de um roedor asqueroso, e você negligenciando uma arma de defesa?

— Para cima de mim? Nem sei se tem mesmo rato!

— Tem sim. E um enoooorme. – Helena falou com a mão esquerda sobre o peito e virando os olhos para cima.

— Eu estou é fazendo papel de besta. – Magnólia foi descendo desajeitada, e então, cuidadosa, caminhou até o outro calçado.

— Olha ali no canto perto de você. – Helena gritou assustando Magnólia e então riu.

— Você não tem o mínimo de respeit...- Magnólia e Helena pararam e olharam para o corredor, de onde ouviram um barulho de coisas caindo, que parecia vir da cozinha – De onde vem isso?

Magnólia falou já se encaminhando para a cozinha, enquanto Helena engolia em seco, indo atrás, tentando pensar em algo para impedir que ela encontrasse Tiago.

Ocorre que Tiago, ao chegar ao pé da escada pensou ter visto alguém lá e se encaminhou, colocando a camiseta e jaqueta, para a cozinha. Vendo da entrada que parecia estar vazia, ele foi pegar um copo de água. Quando se virou com o copo ainda cheio, levou um susto com Aline atrás dele.

— Finalmente sós. – ela disse avançando para cima dele.

Tiago se esquivou dela com o copo na mão derramando água no chão.

— Credo, Aline, você sabe mesmo como assustar alguém. – ele pôs o copo na bancada, ela logo atrás.

— Eu estava esperando você chegar, Tiago. – ela veio abraçando ele por trás – Você parece tão triste ultimamente, achei que uma boa companhia para você hoje a noite melhoraria seu humor.

Ele se virou para ela, segurando as suas mãos.

— Primeiro, eu ando muito bem, obrigada. Acho inclusive que nunca estive mais feliz. Em segundo, tá onde essa boa companhia, que só vejo você?

— Você às vezes é cruel. – ela fez cara de triste – Gosto disso. – então voltou a puxar o rosto dele com as mãos.

Tiago afastou as mãos dela e tentou ir para trás, mas escorregou na agua no chão e caiu, puxando algumas panelas da bancada com ele. Aline ao invés de ajuda-lo a se levantar, foi para cima dele, sentando no colo de Tiago e segurando os braços dele no chão. Ele fez cara de espanto e nojo.

— Você passou de todos os limites, Aline. Amanhã cedo você sai daqui, ou...

— Ou...? Você vai ir embora deixando toda a sua família? – ela foi aproximando o rosto dela do dele, o fazendo torcer o nariz.

— O que é isso? – Magnólia chegou na entrada da cozinha, espantada com a cena.

Tiago ficou aliviado ao ver a vó o livrando de Aline. Então Helena surgiu atrás dela, primeiro com cara de preocupada de a velha estar flagrando o neto ainda mal vestido, e então furiosa ao ver ele no chão com Aline montada sobre ele.

Helena tinha os olhos arregalados. Aline de assustada para Magnólia, foi para queixo erguido e sorriso vitorioso para Helena.

— Não é nada disso...

— É bom não completar essa frase! – Helena falou, apontando o dedo indicador para Tiago, o olhando irada.

— Vocês nos desculpem, é que não nos controlamos. Quando percebi, Tiago já estava me puxando para o chão com ele.

— Mas que mina louca! – Tiago ficou furioso e foi tentando tirar ela de cima dele – Ela que me atacou e se aproveitou que escorreguei. Eu juro! – ele olhou para Helena, aflito – Eu nem encostei nela. Na verdade só mesmo para afastar ela.

— Que vergonha, Tiago. Você não tem o mínimo de autocontrole. – falou Magnólia erguendo uma sobrancelha.

— Pois é, Dona Magnólia. Olha o nível das pessoas que você confia. – falou Helena se aproximando dos dois, lábios comprimidos e braços cruzados, narinas dilatadas, vendo Aline ainda resistindo a sair de cima de Tiago – E ainda diz que não tem ratos nessa casa. Sai de cima do Tiago, garota. Ou eu tiro você daí.

Ordenou Helena descruzando os braços, as mãos fechadas em punho, jogadas para baixo.

Tiago tinha as sobrancelhas levantadas e mãos erguidas longe de Aline, diante da fúria de Helena.

Aline apenas engoliu em seco, lembrando quando Helena quase quebrou seu dedo quando chegou ali.

— Dona Magnólia... – Aline pediu arrego.

Helena nem esperou a intervenção, com as duas mãos pegou Aline pelos cabelos, curtos, e foi puxando ela, enquanto a mesma gritava. Magnólia de sobrancelhas erguidas, foi vendo Aline ser arrastada para fora da cozinha.

— Você já está fazendo hora extra nessa casa, Aline. — Helena falava a arrastando para a porta de entrada.

Tiago veio vindo atrás dela, correndo, depois de quase cair duas vezes tentando se levantar, desviando de uma Magnólia que tentava impedi-lo.

— Calma aí, Helena.

— Você veio defender ela? – ela se virou para trás o olhando furiosa.

Aline sorriu.

— Não, eu vim evitar que você faça algo que te prejudique. Aline não vale nenhuma complicação.

— O que você pensa que sou, hein?

— Uma ordinária? – falou Aline, fazendo Helena a soltar, e querer avançar sobre ela, com Tiago pulando para segura-la pela cintura.

— Tá vendo? Aline só quer mesmo que você perca a cabeça.

— Me solta, Tiago. Vou ensinar ela a contar quantos dedos tem a minha mão na cara dela.

— Que vulgar, não sei o que você vê de especial nessa marginal, Tiago. – disse Aline ajeitando o pouco cabelo da cabeça.

— Cala a boca, Aline. Você não tem moral para falar de ninguém. Ainda mais se o assunto for vulgaridade. Agora sai daqui.

Helena rangia os dentes, enquanto Tiago a segurava.

— Eu vou mesmo. – Aline se aproximou dos dois – Te espero lá em cima. – ela falou passando a mão no rosto de Tiago, aproveitando que ele segurava os braços de Helena.

Ele sentiu Helena tremendo de raiva, aproximou a boca do ouvido dela, afundando o nariz nos seus cabelos.

— Respira, Helena.

Ela fechou os olhos expirando fundo, e engolindo em seco.

— Ok. – ela disse abrindo os olhos – Não vou me prestar ao joguinho dessa aí. Ela só quer um motivo para me expulsarem daqui.

— Isso!

— Tudo bem. Pode me soltar. Vou para o meu quarto. – ele a soltou e ela olhou para ele, ainda irritada – Sozinha.

Ele não gostou do tom de voz dela. Helena se dirigiu para a escada batendo os pés firmes no chão. Aline estava parada no inicio da escada vendo a cena.

— Não se preocupa, Tiago, você não vai para o seu quarto sozinho. – falou Aline provocando.

Ele baixou a cabeça balançando ela negativamente, pressentindo o resultado.

Helena manteve o queixo erguido, mostrando não se abalar com o que Aline disse. Começou a subir a escada, e quando já tinha passado por Aline, voltou dois degraus e puxou ela pelo ombro, que virou o rosto a tempo de levar um tabefe do lado esquerdo do rosto. A empregada de Magnólia ainda voltou o rosto indignada para Helena, levando agora um tapa no lado direito.

— Agora – Helena erguia as sobrancelhas e se inclinava para Aline com o dedo em riste – pode ir esquentar o travesseiro do Tiago, com essas bochechas inchadas!

E Helena subiu a escada batendo o pé forte no chão.

— Essa menina é uma psicopata! – falou Magnólia, vindo da cozinha.

Aline desceu a escada, enquanto Tiago iniciava uma subida atrás de Helena.

— Olha, Tiago, o que ela fez comigo.

— Conhecendo ela, ainda ficou barato, Aline. Já devia entender que não pode se meter com a Helena. – ele desviou da jovem e subiu rápido.

Aline desceu até Magnólia que tentava parecer compadecida da menina.

— Olha o que acontece quando você deixa as coisas saírem do seu controle, Aline?

— Saírem do meu controle? – ela olhou Magnólia confusa e indignada.

— Sim. A única pessoa que pode dar um jeito nessa delinquente, é você. Eu estou de mãos atadas. Pedro praticamente paga o que comemos, já. Mas você pode enfrentar ela, dar um jeito para que ela cale a boca. – Magnólia ficou de frente para Aline, levando a mão ao rosto da garota para tocar as marcas da mão de Helena – Antes que ela é quem faça isso com você.

Aline a olhava desconfiada. Ergueu o queixo e fingiu um sorriso.

— Se eu não conhecesse a sua piedade divina, Dona Mag, diria que está me indicando acabar com a vida da Helena.

— Eu? – Mag se afastou colocando a mão no peito – Não minha querida. Só estou te alertando da necessidade de afastar ela de todos nós. Os meios são seus.

Aline manteve o olhar desconfiado para Magnólia. Então abaixou a cabeça, colocando as mãos no rosto, e foi para a cozinha procurar gelo para ele.

Margnólia ergueu o queixo e respirou fundo.

— Que erro foi apostar nessa menina. Nem a loucura dela por Tiago me serve para algo!

— Ei, espera. – Tiago falou alcançando Helena no corredor, a puxando pelo braço.

— Vai te catar, Tiago!

Helena se soltou e já ia alcançando a porta do seu quarto quando ele a puxou de novo, e dessa vez a jogou na parede, a segurando pela cintura com as mãos, aproximando o corpo. Ela virou a cara para o outro lado, ainda bufando.

Tiago a olhou, erguendo a cabeça e franzindo a testa.

Começa a tocar Raging Fire.

— Helena, o que foi? – ela ficou calada, comprimindo ainda mais os lábios – Eu espero sinceramente que você não esteja pensando que de alguma forma eu me interesso pela Aline. – ela respirou fundo ainda sem olhar para ele, virando os olhos para cima – Escuta aqui, bandida...- ele aproximou o rosto do pescoço dela, cheirando o seu cabelo e então o afastando, para poder a beijar ali, a sentindo arrepiar – Eu nunca seria louco de trocar você por uma Aline.

— Ah, por uma Aline, não! Mas por outra, quem sabe? – ela virou a cara encarando ele.

Tiago a olhou nos olhos, sério. Notando o ciúmes dela, desceu o olhar para a boca dela e sorriu.

— Por ninguém, Helena. Não te trocaria por nada nem ninguém.

Ela engoliu em seco, os olhos presos nos olhos dele, tentando ler algo a mais. Ele então levantou o olhar para ela, intenso. Helena sentiu como se o coração falhasse e então voltasse a bater muito rápido, a boca cada vez mais seca, se segurando na parede com as costas, sentindo as pernas começarem a falhar, aquela sensação que vinha da boca do estomago.

Tiago sorriu, fazendo os olhos ficarem quase fechados e pegou o queixo dela com a mão esquerda, aproximando os lábios dele nos dela. Helena fechou os olhos e abriu a boca. Ele parou a observando, os olhos brilhando, abriu ainda mais o sorriso a vendo assim entregue e a beijou, delicado.

Helena sentiu os lábios dele se apossando dos seus, soltando então o ar preso, sentindo as pernas perderem a força de vez, jogou a cabeça para trás e passou os braços ao redor do pescoço de Tiago, abrindo mais a boca, enquanto Tiago a envolvia pela cintura a puxando. Ela colocou a perna direita para frente, entre as pernas dele, jogando o corpo mais para trás o fazendo se inclinar ainda mais sobre ela, sentindo uma sensação morna passando pelo corpo, entorpecendo os sentidos, os fazendo puxar o ar, já sem folego.

Ele foi passando a mão esquerda pelas costas dela, da cintura até a nuca, firmando a cabeça dela para aprofundar mais o beijo. Helena gemeu.

Tiago então se afastou com a respiração difícil, mantendo o nariz colado ao dela, a olhando, sorrindo, com a boca vermelha. Ela também sorriu, os dois se olharam com os olhos brilhando, Helena passando agora os dedos pela nuca dele.

Tiago suspirou, pigarreou, sentindo aquela calma euforia por estar ali com ela, a sentindo junto a ele.

Subiu a mão direita e pegou uma mecha do cabelo dela, descendo o dedo indicador e polegar ao longo dela, sentindo pelos dedos a maciez, enquanto mordia o lábio inferior. Helena suspirou.

— Minha ciumentinha linda.

Helena então franziu a testa.

— Sua o que?

— Ciumentinha. – ele falou abrindo mais o sorriso e voltando a envolve-la pela cintura com os dois braços, a apertando, lábios beijando os ombros dela, subindo pelo pescoço.

Helena então o afastou, o deixando com os beijos no ar, mas as mãos ainda na cintura dela, os prendendo.

— Desculpa, mas...do que você tá falando, leitãozinho?

Tiago levantou as sobrancelhas. Ela devolveu arqueando as sobrancelhas também. Ele sorriu e voltou a puxar ela para ele.

— Eu estou falando – Tiago virava a cabeça para os lados olhando para cima, brincalhão, enquanto dava passinhos para frente a prendendo na parede, sorrindo – de uma certa bandida que deu a devida lição para a louca que tentou roubar o seu porquinho.

Helena o olhava apertando os olhos a cada palavra, e abrindo a boca, indignada.

— Bateu a cabeça com força quando ela te derrubou, né Porquinho? – ele a olhou, fechando a boca mas ainda rindo, afastando o rosto para admirar a raiva dela.

— Você tirou a Aline de cima de mim, a puxou pelo cabelo até a entrada da casa, e ainda deu dois tapas nela quando a louca disse que ia esquentar a minha cama, e não foi por ciúmes?

Helena olhou para o lado com a boca aberta pensando em uma resposta. Fechou os olhos.

— Deixa de ser ridículo, garoto! Como sempre se dando valor demais! — ela começou a empurrar mais ele, que resistia, rindo, então Helena parou, mãos no peito dele, queixo erguido – E se quer saber, tirei ela de cima de você pra te fazer um favor. Porque você parecia irritado com ela ali.

Tiago jogou a cabeça para trás, rindo. Helena expirou fundo se irritando ainda mais.

— Se foi assim, porque você perguntou se eu te trocaria por outra? – ele perguntou voltando a olhar para ela, com um sorriso que fazia os olhos parecerem quase fechados.

— Eu não... cê pirou de vez, Tiago. Sai. – ela começou a dar tapinhas no braço dele — Seu idiota.

— Ei – ele a olhava, começando a sentir dor no braço – calma.

Helena terminou de empurrar ele.

— Agora vai lá, pode ir, se joga de novo no chão e chama a barata descascada. Vai gritar por minha ajuda e não vou ajudar. Palhaço! – ela falou em voz alta, perdendo a noção de onde estava, e foi entrando no quarto, permitindo que Tiago apenas escutasse um “Eu, com ciúmes!? Que cretino.”

Tiago olhou para a porta e passou a mão direita na nuca, a esquerda na cintura.

— O que fiz? – com a testa franzida, ele olhou para os lados, e deu uma batida leve na porta – Helena?

Ela não respondeu. “Melhor falar com ela quando estiver com a cabeça fria.” Ele então pegou o caminho do quarto, começando a sorrir como bobo.

— Que ciumentinha mais esquentadinha.

Ele entrelaçou as mãos na nuca e olhou para cima, indo até o quarto sorrindo. Entrou no quarto, se jogou na cama de costas, e começou a pressionar a língua pelo lábio inferior interno, ora sorrindo, olhando para o teto, lembrando da noite que teve. Helena o chamando para ela. A pele macia dela, os gemidos, suspiros, os beijos.

— Estava com ciúmes sim. – ele colocou as mãos sobre o peito, pensando “E agora, Tiago? Vai continuar tentando resistir se até Helena não está mais?”

Helena estava no quarto, jogada sobre a cama olhando para o teto, mãos em punho. “Que cretino prepotente. Eu lá vou ter ciúmes de leitãozinho! Isso é coisa da barbie doente.” Ela cruzou os braços, bufando. “Maldita Aline! Aposto que foi quem alertou a Magnólia e estragou a minha noite. Amanhã mesmo enxoto ela de vez daqui! E o porquinho que se prepare. Tá se achando demais. Agora quem dá gelo sou eu! Que ódio.”

Ela fechou os olhos lembrando deles no sofá e dele falando que não a trocaria por ninguém, com a voz aveludada, baixa, cheia de emoção. Suspirou e mordeu o lábio. Quanto tempo conseguiria ficar com raiva dele?

Helena acordou cedo na manhã seguinte e já procurou Camila no quarto dela para descerem. Chegando na cozinha, longe do quarto de Aline, Helena comunicou que tinham de se livrar aquela noite mesmo da nojenta, formando um plano para a tirarem dali.

— Nossa, ela fez algo para você estar com tanta sede de vingança? – Camila perguntou erguendo as sobrancelhas, curiosa.

— Não ... – Helena deu de ombros – Só acho que ela tá fazendo hora extra aqui. Tá na hora de voce voltar para o seu quarto.

Helena disse disfarçando e sorrindo para a amiga, então se virando para a frente, olhando para a bancada sem nada para comer.

— Quando Leila chega?

— Eu não sei, sempre acordo muito tarde.

Helena suspirou colocando o cotovelo esquerdo sobre a bancada, o queixo apoiando na mão, inclinando-se sobre a bancada da cozinha, de frente para a entrada.

— Outro suspiro, Helena? – falou Camila, de chambre preto sobre a camisola, assim como ela, ao lado de Helena, ambas na cozinha, encostadas de frente na bancada.

— É a fome! – ela tentou disfarçar enquanto se erguia.

Na entrada apareceu Tiago, no seu pijama cinza, formado por camiseta e calção, com cara de quem dormiu pouco. Ele parou vendo Helena, dando um largo sorriso.

— Bom dia, irmão. Então é a essa hora que você acorda para trabalhar e nos mantes pobres?

— Bom dia para você também, Camila. E não – ele foi entrando pela cozinha, olhando para a irmã, uma mão na cintura a outra passando pelos cabelos na nuca, enquanto Helena se concentrava a olhar para a bancada, tentando se manter fria com ele, por mais agitada que estivesse só de ver ele ali – essa não é a hora que acordo. Eu acordo mais cedo. É que a noite não foi fácil. Bom dia, Helena.

Tiago tinha parado encostado de frente para a bancada no lado direito delas, apoiando as mãos fechadas sobre o móvel, sorrindo para Helena.

— Acho que é cedo demais. Leila não vem fazer o café mesmo. Vou subir. – ela falou não respondendo Tiago, que a olhou com a boca meio aberta e a testa franzida.

— Que isso? – falou Leila, entrando, fazendo Helena parar e se virar para trás.

— Finalmente, Leila! – disse Camila indo até a empregada, permitindo que Tiago a substituísse do lado de Helena – Estamos morrendo de fome.

— Como sempre. Se não é fome é sono! O surpreendente é vocês estarem acordadas tão cedo! E você, Tiago? Sempre sai antes de te vermos. Quer que eu faça algo, querido?

— Não, eu me viro. – ele respondeu simpático, olhando com um sorriso para Helena que se virou rápido ao notar que ele estava logo atrás dela.

— Ele não quer mas nós estamos morrendo de fome. – emendou Camila.

Helena respirou fundo e voltou a se virar de frente para a bancada, colocando o cotovelo esquerdo sobre ela e apoiando a cabeça na mão. Tiago a olhou. Respirou fundo também. Comprimiu os lábios e bateu com os punhos na bancada. “Tá brava, ainda.”

Ele então teve uma ideia. Foi pegando prato, pão, maionese e frios. Enquanto isso, Vitória chegava na cozinha, com barrigão, bocejando.

— Ai, tá cada vez mais complicado dormir com esse barrigão. – ela falou sorrindo o mais simpática possível para todos, recebendo um de Helena que ainda estava muda, enquanto Camila foi até a tia dar um beijo.

Tiago, do lado de Helena, montava um sanduiche. Ela respirou fundo de novo, sentindo o estomago se manifestar diante do cheiro da comida. Ele empurrou o prato na direção dela, com o sanduiche formado.

— Ó. – ele falou para ela, enquanto colocava o polegar da mão direita, na boca, chupando um resto de maionese, olhando contente para ela.

Vitória olhou a cena enquanto Camila e Leila tentavam disfarçar uma concentração em outra coisa.

— Que é isso? – Helena perguntou o olhando desconfiada.

— Um sanduiche. Não tava com fome? Só queijo e peito de peru com maionese, como tu gosta. – ele mantinha o polegar na boca, mas agora sorria para ela.

Helena olhou para baixo, passando a língua pelos lábios, puxando o ar, tentando se segurar para não sorrir. “Maldito porquinho! Não me deixa ter raiva dele nem por vinte e quatro horas seguidas.” Se ergueu com a cara mais indiferente possível, e, pegando o prato com a mão direita, o aproximou do nariz, cheirando, não olhando para Tiago.

— É, parece bom. Pega, Camila.

E Helena estendeu o prato para a amiga que estava do lado direito da bancada, próxima de uma Vitória com boca levemente aberta. A irmã de Tiago pegou o prato erguendo as sobrancelhas, se segurando para não rir da cara de indignado do irmão para a cena.

— Eu fiz pra... você não tava com fome? – ele se virou para Helena, batendo a mão direita em punho na bancada.

— E ainda estou. – ela voltou a se inclinar sobre a bancada, agora ambos os cotovelos sobre a bancada, apoiando a cabeça nas mãos, contendo um sorriso, que Tiago não via.

— E agora? – ele perguntou.

— Faz outro. – Helena falou mordendo o lábio inferior para não rir, fugindo de olhar para Camila e Vitória que agora abaixavam a cabeça e escondiam um riso de Tiago.

Leila estava atrás dele, pote do pó de café em uma mão, medidor na outra, boca levemente aberta assistindo a cena.

— Mas é abusada mesmo.

Ele resmungou, batendo os punhos na bancada, olhando o saco de pão e os outros ingredientes ao redor, então olhou para ela ao lado, o corpo inclinado sobre a bancada. Ele apertou os lábios, abaixou a cabeça e a balançou negativamente. Então puxou o ar e foi pegando pão e peito de peru, montando o sanduiche sobre a mão mesmo.

— Dou esse para a Leila? – ele falou estendendo o sanduíche para Helena.

Ela se ergueu e olhou para o sanduiche.

— Vai querer, Leila? – ela perguntou.

— Não! – a emprega respondeu se lembrando da cafeteira e se virando para seus afazeres.

— Vitória? – Helena questionou a outra, que respondeu que não com a cabeça rapidamente – Então eu fico.

Helena pegou o sanduiche da mão de Tiago sem agradecer e virou de costas, rindo e dando uma mordida, fechando os olhos. Tiago colocou as mãos na cintura. Ela então foi se afastando, indo para o outro lado da bancada, comer seu sanduiche de frente para ele. Nessa hora Luciane entrou, vindo logo atrás Magnólia.

— Bom dia, meu povo! Que lindeza ver todo mundo já se preparando para a labuta. – falou Luciane efusiva, sendo afastada para o lado pela mão de Magnólia que queria abrir caminho – Credo!

Luciane olhou a sogra feio, se colocando ao lado de Helena, que comia seu sanduiche enquanto erguia uma sobrancelha para a Mag indo até Leila.

— Mas o que é isso, Leila! Você ainda não arrumou essa bagunça?

Magnolia apontou para panelas no chão.

— Mas será... – Leila se virou olhando a bagunça – De novo? Esse povo pegou mania de sair bagunçando a minha cozinha a noite.

Vitória e Luciane olharam de Tiago para Helena, maldosas. Mas a cara de Helena era de irritação, mastigando com força o lanche.

— Pare de reclamar e ajeite logo isso! Antes que Tiago tropece e caia de novo! – ela falou olhando o neto com uma sobrancelha erguida.

Ele que estava preparando um sanduiche para ele a encarou.

— Era só o que me faltava. Agora eu pago o pato pelas loucuras da Aline!

— Não vamos expor o assunto, Tiago. Apenas que não se repita. – falou Magnólia levantando as mãos para o neto que agora jogava o sanduiche na bancada e cruzava os braços.

— Espera aí, conta isso! O que a Aline aprontou? – Camila se meteu, olhando para a vó e o irmão.

Magnólia só respirou fundo. Tiago olhou para Helena, que tinha a cara fechada.

— Eu vim ontem tomar agua – Helena pigarreou – e Aline me seguiu. Quando vi derrubei agua do chão, escorreguei e a louca pulou em cima de mim, me atacando.

Ele terminou de se explicar, olhando para Helena que virava a cabeça para Luciane. A madrasta de Tiago estava com a boca aberta.

— Mas eu sabia! Uma hora ou outra a bisca ia atacar.

— Mas gente, que absurdo ela atacando o meu irmão. E a senhora deixa isso? – falou Camila para a vó.

— O que vou fazer?

— Expulsar ela. A louca agrediu o meu irmão.

— E você acha isso motivo para expulsão?

— Claro!

— Então tiremos essa marginal – ela apontou para Helena – também. Delinquente já foi atacando a pobre da Aline. A outra deve estar com as marcas das mãos dessa aí até agora no rosto.

Todos olharam para Helena que parou de mastigar e arregalou os olhos. Camila fez um “aaaah”.

— O que? A garota estava atacando o Tiago? Só fiz meu papel cívico de ajudar um porco...pobre indefeso! – ela se justificou para todos.

— Claro... – disse Luciane olhando para Vitória – E o que você fazia na cozinha aquela hora?

— Eu? Eu não estava na cozinha. – Helena pigarreou.

— Verdade. Estava na sala, fazendo seus escândalos como sempre. O que me lembra. Leila? – falou Magnólia olhando reprovadora para Helena.

— Sim, senhora.

— Mande revistarem a sala. Essa daí disse ter visto um rato ontem lá. Vamos ver se esse rato aparece.

Tiago apertava os lábios, se contendo, olhando para Helena.

— Ah, a essa hora o rato já tá bem longe depois dos seus gritos, né Dona Má! – Helena provocou.

— Era só o que me faltava! Eu vou sair daqui que já perdi a fome. – falou Magnólia indignada.

— Vó! Conseguiu falar com o Ciro? – Tiago interrogou a avó que já estava saindo.

— O que?

— O Ciro! Você conseguiu contato com ele no hotel, ontem? Lembra? Eu passei o voo e hotel que a agencia informou que ele usou. Tu não disse que era para falar com ele? Conseguiu?

— Ah! – Magnólia se virou um pouco nervosa – Não deu. Ele já tinha saído do hotel, de certo para pegar outro voo.

— É? Então ele não foi para Curitiba ficar lá?

— Não. Deve ser parte do caminho dele.

Ela disse firme, e saiu. Tiago a olhou apertando os olhos, e então olhou para Vitória que tinha a expressão sombria. Ele mesmo estranhara o interesse da avó, e ficou surpreso quando viu que Ciro não usara o cartão da empresa para pagar as despesas, tentando apagar o caminho que seguira.

— História mal contada. – falou Luciane indo até Tiago.

Ele olhou a madrasta e concordou com a cabeça. Então olhou para Helena, que tinha o olhar perdido, pensando nas informações captadas.

— Mas olha isso! Essa Aline foi com tudo mesmo. – se espantou Luciane, olhando a beira da gola da camiseta dele, de onde marcas de unhadas surgiam e iam pela camiseta a dentro, fazendo ela puxar um pouco a vestimenta para ver – Te arranhou todo. – Tiago pigarreou e puxou a camiseta, se virando de frente para a madrasta, se afastando – E esse pescoço? Olha as marcas?

Luciane colocou a mão no pescoço dele, ambos os lados marcados. Helena arregalou os olhos e lembrou do seu. Rapidamente colocou a metade de sanduiche que ainda restava na mão sobre o local que Tiago se concentrara na noite anterior.

— É... – ele estava meio envergonhado – Eu vou me arrumar para o serviço.

— Vai lá, rato. – falou Luciane, fazendo Vitória rir e ele e Helena fungarem olhando para os lados.

Ele deu a volta pelo outro lado da bancada, saindo da cozinha e passando em frente de Helena, com um sorriso no olhar, vendo ela esconder a marca no pescoço. Ela segurou o sorriso também. Ela suspirou lembrando deles no sofá. Olhou para a frente e todas as outras olhavam para ela.

— Acho que...

— Vai lá amiga, montar as ratoeiras. – Luciane provocou novamente, sorrindo, cruzando os braços e erguendo o queixo.

A sobrinha da Helô abriu a boca para responder mas não soube o que falar. Resolveu nem responder e se virou para sair.

— Espera! – falou Vitória – Vai levar o sanduiche junto? No pescoço?

As outras riram. Helena puxou o ar e saiu da cozinha com o sanduiche.

Helena foi até o quarto. Depois de outro bom banho e tentou maquiar um pouco o pescoço. Colocou sua regata cavada branca com sutiã preto por baixo, meia arrastão e short jeans. Pegou o celular pensando em falar com os chefes. Queria saber sobre os relatórios e informar sobre Ciro. Tiago bateu na porta.

Ela pensou se atendia. A raiva já tinha passado. Mas ele precisava de uma lição.

— Helena? – ele chamou de novo.

Ela suspirou e foi abrir a porta.

— Que foi?

— Eu preciso falar algo urgente com você. – ele falou baixinho.

Ela o puxou para dentro e trancou a porta de novo, o jogando contra aquela, mão no colarinho da camisa social azul dele. Tiago também estava com cheiro de quem tinha acabado de tomar banho, com a colônia pós barba entrando pelas narinas de Helena.

— Fala!

Ele engoliu em seco.

— É...- ele olhou para os lados pensando em algo – aquilo que você falou ontem sobre seus chefes. Você acha mesmo que agora eles vão te ajudar?

Ela foi sorrindo a cada palavra dele. Quando ele terminou, ela puxou ele e o beijou. Tiago sorriu, e devolveu o beijo, sôfrego. Ele colocou as mãos na cintura dela. Helena o afastou do beijo.

— Escuta, aqui, porquinho. Sem palhaçadas, mais. – ela apontava o dedo indicador da mão direita para ele — Nada de papo de ciúmes.

Ele levantou as mãos para o ar.

— Nenhuma.

Ela puxou ele de novo, com a mão esquerda no pescoço dele e a mão direita nas costas, o puxando. Tiago colocou as mãos na cintura dela, subindo elas por dentro da regata de Helena.

— E é bom – ela o afastou de novo, sem ar – não ouvir falar de você caindo com fulana nenhuma por aí...

Ele não deixou ela falar, sorrindo a puxou de novo, beijando Helena enquanto a erguia pela cintura, a fazendo passar as pernas ao redor do quadril dele.

Tiago girou, ainda a beijando, Helena com as mãos no pescoço dele, aprofundando o beijo, fazendo ele esquecer o que fazer. Abriu os olhos rapidamente para enxergar a cama e foi até lá. A jogou ali e foi para cima dela, a boca aberta a língua entre os lábios, se apoiando nos cotovelos ao lado do corpo dela, ele encaixou o corpo dele nela, a fazendo o sentir entre as pernas, que voltaram a envolver ele pelo quadril, e encostou os lábios, já enfiando a língua, ávido. Helena o recebeu sentindo aquele choque de adrenalina correndo pelo corpo, entorpecendo o corpo, sentindo sem sentir. Ela abriu mais a boca. Ele gemeu. Ela puxava o ar, enquanto decidia o que fazer com as mãos, perdida pelas sensações. Então as mãos se decidiram por ficar com os dedos puxando o cabelo dele. Tiago desceu os lábios pelo maxilar dela, a beijando, até chegar no pescoço, que ele sugava a arrepiando. Tiago passava a mão direita por baixo da regata agora, até o fecho do sutiã, que ficava na frente. Ele abriu, e parou a mão sobre o seio direito o apertando. Ambos gemeram, Helena arqueou o corpo. Ele afastou os lábios do pescoço dela e colocou a rosto sobre o dela, narizes se encostando. Helena leu o desejo nos olhos dele.

— Agora você não que parar? – ela perguntou com a voz falhando, arfando.

Ele só sorriu e voltou a beijar ela, ávido, enquanto a mão direita agora descia para o short dela, desabotoando ele, começando a descer por dentro dele.

— Espera. – ela voltou à consciência, abriu os olhos e afastou o rosto dele.

— Desculpa, estou indo muito rápido? – ele disse tentando recuperar o folego.

— Não. – ela sorriu, passando a mão direita pelo rosto dele, enquanto a esquerda puxava o cabelo dele – Até que demorou para você agir. – ele sorriu, a beijando, ela correspondeu e o afastou de novo – Ai... eu prometi ir com o Pedro hoje em Paraty. Daqui a pouco ele bate aí.

Tiago fechou os olhos abaixando a cabeça.

— Sério?

— É.. – ela falou mordendo os lábios – A gente pode terminar o assunto hoje a noite. Já que ele é urgente.

Ela sorriu para ele, que devolveu o sorriso safado. Ele a beijou de novo e foi se afastando, a fazendo o acompanhar, se erguendo.

— Melhor eu ir.

— É. – ela o olhava apoiada nas mãos jogadas para trás, colocou a mão direita no cós da calça dele o puxando de novo – Vai logo.

Tiago segurou o rosto dela com as mãos, a beijando. Helena mordeu o lábio dele. Ele enfim se afastou, erguendo as mãos e respirando fundo. Riram.

— Agora eu vou. – ele se inclinou de novo e deu um beijo rápido – Até mais tarde.

Tiago foi até a porta. Se virou.

— Espera. Onde nos encontramos?

— No único lugar nessa casa em que ninguém – ela se levantou caminhando pelo quarto enquanto Tiago a observava – interrompe. — ela se levantou de um canto onde tinha uma mochila preta — Meu quarto.

Helena trouxe até ele a chave reserva do quarto dela, que uma vez Tiago usara para entrar ali, mostrando para ele, que a pegou. Tiago colocou a chave no bolso, olhou para ela ainda com o sutiã e short aberto. Mordeu o lábio e saiu do quarto, deixando ela ali, passando os dedos pela cabeça, puxando os cabelos, sorrindo.