A sobrinha da Helô
23 A trama II
Tiago olhou para os lados, vendo se não tinha ninguém no corredor. Tirou a chave do quarto de Helena do bolso e a girou, abrindo o quarto. Chegara há alguns minutos de fora, depois de beber algumas com Antonio no bar. Não queria alertar Aline, então foi direto ao quarto de Helena.
Entrou e trancou a porta atrás dele, com a chave. Se recostou na porta, a chave na mão, apoiando a cabeça ali e fechando os olhos, puxando o ar. Pela segunda noite seguida naquela longa semana que ela saiu da casa, ele entrou naquele quarto, sentindo um aperto no peito em não vê-la ali. Jogou então o corpo para frente e foi cambaleando até a cama, onde se afundou, sentindo um pouco do cheiro dela ainda ali.
Ele pegou os travesseiros os abraçando e cheirando, e dormiu ali, de novo.
Meia-hora depois ouviu um barulho abafado de algo caindo no chão. Se ergueu em um salto notando que tinha alguém no quarto. Sorriu ao ver Helena no seu vestido branco florido, com as a sua maleta e mochila caídas no chão ao lado dela, olhando para ele.
Parecia sonho, mas então ele notou nos olhos dela, Helena estava chorando.
Situação bem diferente da ultima vez que viu ela, há dias atrás.
Depois que ela deu a chave do quarto, ele foi até a cozinha, onde Leila preparava lanches para o tio, e então foi para o hall esperando ela descer com Pedro.
— Tiago! – falou Pedro descendo a escada, carregando a maleta de Helena e mais uma mochila, acompanhado da sobrinha da Helô, que vinha com um óculos escuro e um sorriso contido – Que legal, não queria sair sem me despedir de você.
Ele sorria para os dois, e ao ouvir o que o tio disse ele franziu a testa. Olhou de novo para as mochilas dela.
— O que foi tio, vocês estão indo embora?
— Não... — Pedro alcançou o sobrinho e colocou as bagagens no chão, passando a mão no cabelo, agitado, e olhando para Tiago e Helena, um de testa franzida e boca meia aberta com as mãos na cintura, a outra imitando a pose corporal do primeiro, mas com um meio sorriso enquanto levantava os óculos para a cabeça – Nós vamos dar uma volta de barco. Só queria mesmo te ver antes de irmos.
— E precisa de tanta coisa? – Tiago apontou para as coisas de Helena, a fazendo acompanhar a direção do dedo dele.
— Segundo o Pedro, nunca se sabe como vai estar onde pararmos, quanto ao clima, se ninguém vai se sujar... – Helena respondeu, indiferente.
— Isso não faz sentido...- Tiago começou a falar mas Pedro o interrompeu.
— Aqui, Tiago, estamos sem tempo. Leva as coisas da Helena para o meu carro ali na frente que eu vou buscar os lanches.
E Pedro colocou as coisas na mão de Tiago, saindo para a cozinha.
Helena erguia as sobrancelhas. Tiago tinha a boca levemente aberta.
— Não tô gostando disso.
— Calma, porquinho, ele só tá animado que Ciro não está mais aí e ele pode finalmente voltar a velejar sem se preocupar. — Helena falou compreensiva, se aproximando de Tiago, sorrindo. Ela passou a mão esquerda no colarinho da jaqueta dele, inclinando a cabeça para esquerda – Não fica preocupado que eu volto pro nosso compromisso.
Ele sorria para ela. Puxou o ar, comprimindo o lábio, olhou para os lados, engoliu em seco e roubou um beijo, rápido. Ela riu.
— Vamos. – ele falou se afastando e a pegando pela mão, carregando as bagagens dela na outra, a acompanhando até o carro do tio, já encostado na frente de casa.
Ele jogou as coisas dela no banco de trás.
— O tio não vai levar nada?
— Parece que ele já deixou as coisas dele no barco.
— E você tem certeza que quer entrar num barco sem mim? – ele falou se aproximando dela, encostada na porta do caroneiro, o observando.
— Deixa ver... – ela puxou o ar, levantando a cabeça para cima enquanto Tiago chegava mais perto, e encostava o braço esquerdo no carro, inclinando o corpo para ela – Realmente vou perder muito sem alguém para passar protetor solar nas minhas costas. Mas ao menos dessa vez meu coturno vai ficar seguro de acidentes...
Eles riram. Tiago se inclinando mais para ela.
— Opa! Já podemos ir.
Pedro veio até eles, descendo a escada correndo e carregando um cooler e bolsas, fazendo Tiago se afastar, disfarçando. Helena levantou os braços, animada.
— Oba! Vamos. – ela foi até Pedro, pegou o cooler e foi voltando para o carro – Até, Tiago.
— Até!
Ele se despediu da escada da entrada, levantando uma mão para ela, seu tio passando por ele, dando tapinhas nas suas costas.
— Não se preocupa, cara, vou cuidar bem dela. Trago ela inteira.
Tiago sorriu encabulado, fingindo que não entendia o que o tio queria dizer com isso. E então suspirou vendo o carro se afastar.
Helena foi a viagem toda até o porto, alegre, conversando com um Pedro animado. Quando chegaram no barco, ele pediu que ela colocasse as coisas na cabine, que ele zarparia em breve.
— Não quer minha ajuda? — ela perguntou animada.
— Não — Pedro sorriu para ela, nervoso, enquanto olhava para fora do barco — eu vou te dar essa folga hoje. Na verdade, você pode ficar na cabine até zarparmos, se quiser. Assim você se sente mais segura.
Helena estranhou, mas aparentemente nada tirava seu bom humor.
— Certo! — e ela pegou sua maleta e mochila, descendo pela escada da cabine.
Diferente das outras vezes, agora ela se sentiu com maior liberdade para explorar o ambiente. Estava desacompanhada. Então caminhou pela cabine, notando que ele de fato já havia trazido uma mochila e uma maleta para ali. A maleta inclusive chamou a atenção de Helena, parecia feminina demais para ser de Pedro.
Ela já tinha observado que nas laterais tinham duas mini camas, e no fundo tinha um local para servir refeição. Tudo muito bem embutido dentro do pequeno espaço. Ela então notou um quadro com mapas e algumas fotos presas. Entre elas uma dele com Heloisa, jovens. Ela se aproximou, suspirou, deu um meio sorriso triste, e passou o dedo sobre os dois.
Helena não sabia ao certo o que vinha acontecendo com ela nos últimos dias, mas sentia cada vez menos o peso do passado. Mesmo a vingança contra Tião. Ela se via do nada lembrando que ainda tinha isso, para logo esquecer. Nem a ligação dos chefes que a esqueceram ela se preocupou mais.
E agora, olhando a foto deles dois ali, tão felizes juntos, novos, ela experimentou a sensação de querer algo mais no futuro do que só a vingança. A visão foi atraída para uma foto velha do lado esquerdo. Era um mulher de cabelo curto, castanhos, como os olhos, sorridente. A mãe do Pedro, ela imaginou.
Um tranco e ela se desequilibrou para frente. Pedro devia ter zarpado já. Helena olhou ao redor de si novamente e então suspirou, foi para a escada, ver se ele queria ajuda em algo. Mal alcançou o topo da escada e ouviu uma voz que provocou um frio na boca do estomago.
— Helena? – perguntou Heloisa, ao lado de Pedro, subindo velas, surpresa com a presença da suposta sobrinha no barco.
Helena terminou de subir a escada, a boca levemente aberta, mesma expressão de Heloisa. Então ambas olharam para Pedro, que olhava apreensivo para as duas, lábios comprimidos.
— Lamento avisar assim de ultima hora, mas vamos ter uma ótima semana em Paraty para ver se vocês se acertam de uma vez! – Helena arregalou os olhos a menção de “uma semana”, abriu a boca para reclamar – Desculpa, Helena, mas sair dessa viagem, agora, só pulando do barco, para fugir.
Heloisa balançava a cabeça reprovadora para Pedro.
— Você enganou nós duas, é isso? – ela perguntou indignada para ele.
— Foi o único jeito de colocar vocês no mesmo local para acertarem os seus problemas.
— Eu não acredito! – Helena falou se virando para trás, colocando as mãos na cabeça. “Uma semana com a Helô?”.
— Você passou de todos os limites, Pedro! – reclamou, Heloisa, pensando em ir para a cabine, mas notando Helena no caminho e parando.
— Não, vocês duas passaram. São do mesmo sangue, tem histórias parecidas e acho que precisam muito uma da outra. Helena precisa de você agora, Heloisa, assim como você dela. Tem coisas que nem eu, ou Edu, ou Tiago podem suprir para vocês duas.
Helena se virara de volta para os dois com as palavras de Pedro.
Ele olhava de uma para a outra, mãos na cintura.
O telefone de Helena tocou enquanto ela controlava a respiração. Não conseguia explodir com Pedro, não depois de tudo que ele fez por ela sem nem mesmo saber quem ela era.
Paulo. Ela franziu a testa, olhou para Pedro que ergueu uma sobrancelha. Atendeu.
— Helena?
— Sim? – ela viu Pedro se aproximar decidido, deixando uma Heloisa que tentava se segurar no barco, já combatida.
— Bingo, Helena, você acertou na mosca... – falou a voz do estranho no outro lado da linha.
A voz do outro lado parecia muito animada. Ela ficou curiosa, mas Pedro arrancou o telefone da mão dela.
— Não. Nessa semana nós vamos ser só nós. – ele se virou para Heloisa deixando uma Helena desesperada sem saber o que acontecera – Você, Helô, passa o seu celular.
— Você pirou, Pedro. Eu preciso me manter em contato com a minha casa, tenho uma filha doente em casa.
Helena deu uma risada com escárnio e se virou de costas.
— Não se preocupa, já falei com Edu, ele vai avisar o que for preciso para mim, até mesmo quando Tião voltar.
Heloisa se ergueu segurando o celular nas mãos, indo até ele, com o queixo erguido, o entregou.
— Eu achando que essa viagem era para nós nos acertarmos, e você me apronta uma dessas, Pedro.
— É para o seu bem, Helô. Você precisa disso.
E ele deixou as duas ali, descendo para a cabine para esconder os telefones. Heloisa suspirou e olhou para Helena, mais a frente, de costas para ela, braços cruzados. Com o pensamento bem longe dali, perdida na idéia de passar uma semana longe de tudo, principalmente do Tiago.
Tiago voltou para a casa antes do jantar aquele dia, animado. Subiu as escadas correndo, e já foi bater no quarto de Helena. Dizer oi.
— Nem adianta, maninho, ela não está. – falou AnaLu que o viu subindo e foi atrás.
— Não voltou ainda?
— É... e nem vai.
— O que? – ele se virou para a irmã, as mãos na cintura, testa e nariz franzido, boca meio aberta.
— Tio Pedro levou ela para uma viagem longa, Tiago. – ela falou baixando o olhar, enquanto Tiago franzia ainda mais a testa a encarando.
Ele notou que a irmã não estava brincando e ficou sério.
— Mas o que... o que aconteceu? Ela tá correndo perigo? — ele se voltou para a irmã, já com ar desesperado –Você sabe onde eles foram?
— Calma, Tiago. Vai alarmar a casa toda. – ela falou segurando o irmão, que já respirava agitado, pelos ombros – Ele não me disse para onde foram, e ela não tá correndo perigo. É uma viagem deles mesmo.
— Como...o que você tá falando, AnaLu?
— Que eles tiraram férias daqui, Tiago. Normal, depois de tanta tensão.
— Você tá insinuando o que? Que a Helena sabia que ia sair com Pedro por sei lá quanto tempo e nem nos avisou?
— Bom, eu não sei... deve ser, ela foi com ele sem te avisar, não?
Tiago fechou a cara para a irmã e se afastou, saindo pelo corredor, descendo a escada com passos firmes, indo se trancar no escritório até Helena voltar. Ela tinha dito que voltaria aquela noite. Ela ia voltar. Helena não iria marcar algo com ele sabendo que sairia de viagem. Ela não mentiria para ele.
Enquanto isso, Helena, que achou que a viajem se estendeu mais do que o necessário, chegava a famosa Paraty. Ela e Heloisa ficaram a viagem toda sem falar nada. Helena nem mesmo comeu. Pedro começava a se contagiar pelo mau humor delas.
— Bom, enfim em terra! – ele falou levantando as mãos depois de todos desembarcarem recebendo um olhar amuado de ambas – Vocês duas são muito parecidas mesmo. – outra tentativa de quebrar o clima – Tá bom, vocês duas, não foi certo da minha parte enganar vocês para conseguir essa viagem. Mas também não é certo ver vocês distantes. Se eu fiz isso foi por vocês. E peço que por mim, vocês tentem passar um ótimo tempo aqui. Acho que eu mereço, não?
Ele olhava para as duas. Elas cruzaram os braços, puxaram o ar e olharam para o lado. Heloisa foi a primeira a olhar para ele de volta e concordar, seguindo em frente. Helena fechou os olhos e a imitou. Sem Pedro ela estaria morta, provavelmente. Helena pegou sua bagagem e foi até ele, que passou o braço por sobre seu ombro, e beijou sua cabeça, conseguindo um sorriso. Heloisa olhou para trás, os observou e suspirou.
Mais de meia-noite, Tiago estava sentado no sofá da sala, cabeça baixa. Na mão a chave do quarto de Helena. Sentiu uma presença atrás dele e olhou rápido.
— Oi. – falou Camila compadecida pelo irmão – Também esperando Helena?
— Também? – ele ergueu as sobrancelhas para a irmã que veio se sentar do lado direito dele.
— É, ela marcou de hoje aprontarmos algo para nos livrar de vez da Aline. Ela parecia muito furiosa com a capacho depois de ontem.
Camila o olhou significativamente, contendo o riso. Tiago primeiro pensou na idéia de Helena ter marcado com ele sendo que já tinha marcado com Camila, daí então pensou em como ela ficou realmente furiosa com Aline o assediando. Deu um meio sorriso.
— Você não sabe nada dela? – ele perguntou voltando a olhar para baixo.
— Não. Só sei que ela saiu com tio Pedro.
— AnaLu não te contou que ela foi viajar por um bom tempo com ele?
— Não! Achei que eles iam passar a noite fora. Só.
— Espero que você esteja certa!
— Vocês não conseguem dormir, também? – falou AnaLu se aproximando.
Tiago nem olhou para a irmã, bravo.
Ela o olhou, percebeu seu mau humor, as sobrancelhas erguidas de Camila, e foi se sentar no outro sofá, virada para eles.
— Tiago me disse que você sabe da Helena.
— É... – ela olhou o irmão que agora cruzava os braços – Tio Pedro me falou antes de ir que ele e Helena iam viajar, e não era para nós nos preocuparmos.
— E não disse quanto tempo? – perguntou Camila, enquanto Tiago erguia a cabeça para ela.
— Não. Mas se fosse só um dia ele nem precisaria informar.
— E por que de todos ele foi informar justo você? – Tiago interrogou.
— Porque eu sou a mais próxima dele.
— Ou... – Tiago falou se levantando e se inclinando para AnaLu – Porque você é a menos próxima de Helena, e ele não queria que ela soubesse. Porque se tivesse contado para mim ou Camila, nós teríamos alertado ela.
— Não acredito! Tiago, você acha mesmo que ele levaria a Helena sem a mesma saber que ficaria fora por muito tempo?
— Eu acredito sim. – ele colocou as mãos nos bolsos, segurando a chave firme – Ele devia saber que ela não ia aceitar ficar tanto tempo fora, e disse que era só um dia. A razão dele ter feito isso, não sei, mas Helena não sabia quando saiu daqui.
— Você tá muito cego por ela, né? – falou AnaLu apertando os olhos para o irmão.
— Não – Tiago apontou o dedo para ela – quem tá cega é você. Do nada, a Helena, que era a maravilhosa sobrinha da Helo, virou a perigosa que poderia acabar com a minha vida. De uns tempos para cá você só sabe atacar ela, e ficar me envenenando para eu me afastar dela. Mas é a gota d’água você insinuar – Tiago agitava as mãos no ar, olhos vermelhos, voz alta e lábios molhados – que ela me enganaria dizendo que voltaria ainda hoje, quando tinha planos de viajar com o tio por muito tempo. Ela, no mínimo, se despediria.
Ele colocou as mãos na cintura ainda inclinado para AnaLu, que o observava atônita, mão direita sobre o peito.
— Tiago... você está brigando comigo por causa dela?
Tiago respirava fundo. Passou a língua pelos lábios e olhou para Camila, que também o olhava espantada.
— Quer saber? – ele enrugou o nariz com ar de desprezo, levantando a mão direita no ar – Eu vou para o meu quarto.
— Calma, Tiago. – Camila se levantou parando o irmão – Eu sei que você está irritado. Te entendo – ela falava atenciosa, enquanto ele desviava o olhar – eu também não acredito que Helena marcaria algo comigo sabendo que viajaria com o tio...
— Isso! – ele apontou para Camila e depois olhou para AnaLu, que agora baixava a cabeça.
— Certo. Mas você não pode descontar na gente isso... que você está sentindo.
— Isso que...? Até tu, Camila? Pensei que gostasse da Helena.
— Gosto! – ela voltou a segurar ele que ameaçava sair – Mas não como você gosta. Mano – ela o segurou pelos ombros – ela vai voltar.
Ele olhou estranhando para a irmã, que então o abraçou pelos ombros. Ele devolveu o abraço.
— E não fica bravo com a AnaLu. Ela pegou birra da Helena porque sabe que você ama ela — Tiago afastou a cabeça — e com isso, Isabela, ou Marina, fica livre para o Élio. Caso ele ainda seja apaixonado por ela.
AnaLu se levantou indignada. Tiago afastou a irmã, franzindo a testa.
— Que teoria mais absurda, Camila. – se manifestou AnaLu.
— De onde você tirou que amo a Helena? – Tiago se manifestou na mesma hora.
— Ih! ... Dois contra uma também não dá. A verdade dói. Só digo isso. Boa noite.
Camila se afastou deixando os dois ali.
Ele se virou para AnaLu.
— Camila tá é bem pirada.
A irmã desfez a cara de indignada e revirou os olhos.
— Me poupa você também, Tiago. Até parece que você engana alguém. – ela foi se dirigindo a saída — Agradece que a vovó não tem certeza absoluta sobre você e Helena. Porquê assim que ela tiver, vocês não vão ter sossego mesmo.
E a outra irmã saiu da sala o deixando ali com as mãos na cintura. Ele suspirou e voltou a pegar a chave. “Do nada todo mundo acha que sabe o que sinto.”
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