A sobrinha da Helô
24 A trama III
Quase três da madrugada e Helena ainda não conseguira dormir. Não só porque a fome resolveu se manifestar, mas porque àquela hora ela queria muito estar na casa dela. Ela arregalou os olhos ao perceber que estava pensando na casa de Tiago como a casa dela! Se virou colocando o travesseiro sobre a cabeça.
No dia seguinte Pedro deixou ela dormir até mais tarde. Helena saiu da cama quase meio-dia. Tomou banho e saiu do quarto. Notando então ele e Helô vindo sorridentes.
— Ah, eu achei que teria que te acordar! – falou Pedro – Vem, vamos almoçar algo maravilhoso!
Ele foi até ela e a puxou. Heloisa parecia muito mais animada, e a observava arisca.
Depois de um tempo de viagem de carro, alugado, chegaram em um local onde serviam peixe assado na folha.
— Experimenta! – Pedro indicou o peixe para Helena, todos sentados ao redor do almoço – Você vai adorar.
— Vai, Helena. – incentivou Heloisa – Pedro se orgulha muito desse prato que nem é ele quem prepara.
Helô falou olhando carinhosa para Pedro, que respondeu com um sorriso.
— Eu não sou muito fã de frutos do mar. – Helena respondeu com uma sobrancelha erguida.
O estomago dela então roncou.
— Mas, gato com fome... – e Helena pegou um pedaço do peixe colocando na boca e saboreando – É bom sim.
Pedro e Heloisa riram dela e começaram a comer também. Helena comia muito e falava quase nada. Observando eles conversando, se olhando, se elogiando. Um mais devoto que o outro em dar atenção. “Será que eles não notam como se amam?”
— Chefe? – Misael abriu a porta da sala de Tiago e colocou a cabeça por ela – Posso entrar?
— Claro! – respondeu Tiago impaciente.
— Certo. – Misael abaixou a cabeça notando que ele não tinha melhorado o seu humor – Você me desculpa, sei que o dia não tá fácil para você...
— E quando meu dia nessa empresa está fácil, Misael? – Tiago respondeu fechando uma ficha de fornecedor e jogando em cima da mesa, se inclinando para o empregado.
— Nunca. – Misael respondeu o olhando de rabo de olho – Mas hoje... Enfim! Sueli pediu para eu te entregar isso.
— E desde quando Sueli manda em você? Tu não é carteiro.
— Verdade. Mas ela achou melhor eu vir por...pra te explicar melhor.
Tiago não disse nada, só mexeu as mãos para ele continuar.
— Bom. Como você sabe os tecidos não se vendem sozinhos. E algumas vezes é bom fazer visitas, ir a eventos...
— Sim. Parte do serviço do Ciro! Que tenho eu a ver com isso?
— Justamente! Ele não está mais aí. Então....?
— Era só o que me faltava! Me dá! – Tiago estendeu a mão para as correspondências, que Misael entregou e ele jogou por sobre os outros documentos – Eu resolvo isso depois.
— Tá certo. Mas é daqui uma semana.
— Cada vez melhor. Já tem catálogo preparado?
— O estande da empresa deve já estar garantido na feira, mas para o coquetel, não sei. Vou pedir para a Sueli deixar tudo arrumado como o Ciro costumava fazer.
— Ótimo. Pode ir.
Tiago bufou novamente e voltou a ver os números da empresa. Ávido por algo que o distraísse, trabalhou até quase meia-noite e foi para a casa, rolar na cama.
Helena por sua vez foi vendo seu mau humor sumir no decorrer do dia. Por mais que ainda estivesse com o pé atrás com Heloisa, era impossível aguentar o riso perto dela e Pedro tão felizes.
Ela não lembrava de ver ele sorrindo por tanto tempo, e agora parecia que não sabia fazer outra coisa. Nesses meses perto dele, mesmo que ele não fosse pai dela, cresceu um forte sentimento pelo arquiteto. Queria muito que ele fosse feliz.
A dor vinha quando o assunto era Helô. Ela também queria ela feliz, mas só de pensar que isso queria dizer ela do lado de Leticia sorridente, e longe dela, doía.
Em um dado momento, notando que eles estavam brincando com a máquina fotográfica, Helô tirando fotos dele, Helena apertou o passo para deixa-los a vontade. Então virou em uma ruela. Gelou. Lá no final das casas, em outra rua, notou um rosto conhecido. Caminhou tentando se esconder entre as casas até o final dessas. Numa rua vazia lá na frente, Isabela parecia discutir com um homem alto, cabelo curto e alourado, de calças e camiseta escura. Ele a pegou pelos braços, ela esbravejando com ele, e então ele fez algo que colocou a mão de Helena sobre a boca aberta para abafar um gritinho. O cara beijou Isabela. E ela correspondeu.
Helena começou a sorrir. “Mas que morta bem viva, essa. Essa aí não incomoda mais meu porquinho!”
Então o cara a largou, e continuou conversando com ela, parecia que a estava convencendo de algo. Ela assentiu com a cabeça e ele foi embora a deixando de cabeça baixa. Helena pensou se ia atrás da outra, mas achou melhor guardar a informação com ela. E voltou para perto dos outros dois que já a procuravam aflitos.
— Ai, Deus, Helena. – falou Helô ao esbarrar com ela saindo da ruela, a abraçando, fazendo a filha sentir o seu coração acelerado – Que susto você nos deu. Achei que tinham te sequestrado de novo.
Heloisa a afastou pelo ombro olhando para ela, enquanto Pedro se aproximava.
— Onde cê tava? – ele perguntou aflito, já emendando sem deixar ela responder – Helena, não sabemos com o que estamos nos metendo, é melhor você ficar sempre perto de nós, vem.
E ele passou o braço sobre os ombros dela, caminhando em frente. Helô ficou para trás, observando eles, olhar meio triste. Pedro se virou.
— Vem!
Ela foi. Chegou do lado deles. Pedro parou, a olhou e jogou a cabeça para o lado, indicando para ela se aproximar. Helena que estava com a cabeça apoiada no peito dele a olhou com as sobrancelha erguidas, e então deu um pequeno sorriso. Helô se animou, e com os olhos brilhando, passou o braço pela cintura de Helena e os três foram caminhando. Eles contando para Helena os nomes das ruas, história da cidade, os moradores, artistas, como ela era linda em dia de festa. Ela só absorvia feliz o relato da vida deles na época em que não estava com eles para vivenciar.
Enquanto isso, Tião, mandava Miro parar próximo a entrada de uma prainha isolada em Santos. Eles seguiram o carro que saiu de um hotel no centro de Santos, no qual dentro estava Ciro, aparentemente com uma arma apontada para ele, por um tipo que Tião só pôde ver de costas.
— Mas o que será...?
Tião notava o carro parando entre dunas que mostravam ao fundo a praia. Então Ciro saiu do banco do caroneiro, mãos para cima. O motorista saiu segurando a arma.
O vilão estava alarmado. Isso porque quando Magnólia o comunicou há um dia atrás, ele imediatamente preparou viagem até Curitiba, ver o que Ciro estava aprontando.
Mais esperto que Magnólia, ele logo descobriu o hotel onde encontrar Ciro, e chegou lá poucas horas depois dele. A cara do comparsa quando o viu ao abrir a porta foi reveladora.
— O que é isso, Ciro? Pra que esse medo todo ao me ver? – e Tião foi entrando no quarto.
— Eu não espero visitas intimas suas, Tião. Das garotas que você me manda, sim, de você...
— Muito engraçado. – disse Tião chegando no meio do quarto e se virando para Ciro, que fechou a porta e pegou um cigarro – A policia federal não paga nada melhor não?
Ciro tossiu fumaça.
— O que?
— Ah, por favor. A Magnólia pode até ser besta de apenas desconfiar de alguma intenção de rato sua, fugindo do barco. Mas eu te conheço bem, Ciro. Tudo o que você é hoje é graças a mim. Sei como sua mente funciona. E Curitiba tem um certo nome no âmbito nacional do combate a corrupção pública, como as que montamos.
Ciro passou a mão sobre a boca olhando ao seu redor. Infelizmente ali não tinha uma câmera para gravar as confissões dele.
— Que corrupções? Mal te conheço de vista.
— O que é isso? Pra que essa encenação? Estamos sendo gravados? – Tião levantou as mãos, calmo – Para com isso, rapaz. Não se preocupa, ainda não é a hora de revelar para Magnólia tudo. Não vou te entregar. E espero essa mesma reciprocidade.
— Não estou entendendo.
— Ciro – Tião abaixou a cabeça e coçou o alto da testa enquanto se aproximava do tio de Tiago – veja bem. Você sabe qual a minha intenção nisso tudo. Tirar tudo que é da Magnólia. Se no meio disso a liberdade for junto. – Tião deu de ombros.
Ciro conteve um riso.
— Você está insinuando que devo ir até a policia federal, e contar que Magnólia e eu usamos empresas laranjas no nome do neto e filho dela, para participar de licitações superfaturadas indicadas pelo senador Venturini e colegas?
— Como sempre arguto. Vai valer cada centavo que vou gastar com seus advogados para te livrar da cadeia. – Tião sorria malicioso.
— E como é que vou justificar quando aparecer o nome do seu banco como garantidor das empresas para diversas licitações? Ou o fato do seu banco ser o principal banco no qual ocorriam as transações?
— Não vai dizer. Assim como não vai dizer que eu te ensinei a lavar muito dinheiro e esconder da sua querida sogra. Tanto das empresas do netinho, como da empresa do marido. Ela ainda acha que é a única que rouba dinheiro do marido e coloca naquela conta dela?
— Ah, sabe como a Dona Magnólia é cega! – os dois riram.
— Você pode – Tião continuou – esquecer inclusive que Tiago e Hércules não sabiam de nada. O primeiro quero mais é que o nome fique bem sujo para não fazerem falta quando morrer. E o ultimo, não vai me servir de nada, mesmo eleito.
— Aproveito e esqueço como é que conseguimos esconder tudo isso por todo esse tempo? Matando pessoas, com os capangas que você contratava?
Tião deu um largo sorriso.
— Por mais que me dê prazer só de imaginar a cara da arrogante Magnólia ao descobrir que foi sempre com minha ajuda que ela conseguiu tudo, mesmo nunca me procurando para ajudar, eu prefiro que você realmente se esqueça disso. Ou não vai viver o suficiente para contar suas lembranças em frente do nosso querido amigo, Dr. Sérgio!
— Entendido, Tião! – Ciro balançava a cabeça, rindo, se encaminhando até a cama, tragando seu cigarro – Mas você está enganado.
O outro só virou o corpo na direção do comparsa e ergueu uma sobrancelha.
— Eu não vim aqui dedurar ninguém. Estou apenas despistando minha sogrinha para poder fugir umas semanas de férias daquela família de loucos. Daqui, hoje mesmo, eu vou para Santos. Mantendo sempre a conta desse quarto aberta para ela não saber.
— Sério?
— Muito.
— E por que não me contou?
— Porque não é crime querer se livrar da esposa grávida! – Ciro deu uma baforada, observado por Tião – De uma filha ilegítima tida com uma prostituta, mais a mãe, para sempre, talvez, mas de uma esposa grávida, por só umas semanas...
— Escuta aqui, desgraçado ...- Tião se jogou sobre ele o puxando pelo colarinho.
— Me solta! – Ciro segurou os braços de Tião, rindo com o olhar.
— Está aí mais uma coisa que é bom você esquecer de modo definitivo. Ou eu garanto que antes mesmo do primeiro depoimento você perca a memória de vez. Junto com a cabeça.
— Calma aí! Já disse que não vou a delegacia nenhuma. Não sou otário. Tenho cara de Leitão? – Ciro deu um jeito de dar outra tragada, soltando a fumaça na cara de Tião que não o largava – E você não vai ter coragem de me matar. Não com tudo tão perto de se concretizar. Quase vinte anos vendo Magnólia montar um império, e vai jogar assim a chance de pegar tudo quando ela finalmente conseguir passar tudo para Tiago? Bem a tempo da sua filha ser a única herdeira do maridinho? Eu acho que não! – Ciro sorriu — Por sinal, como vão os preparativos do casório? Noivo já foi avisado?
Ciro riu. Tião ergueu a cabeça para observa-lo melhor, medindo se confiava no que ele dizia e sorriu de volta, com escárnio.
— O muleque não sabe mas tá quase alugando o smoking.
— Espero que seja preto. Sempre achei melhor enterros em que o defunto no caixão está de preto. Nós sabemos que ele não vai ir muito longe do cartório civil depois do casamento, não é Tião?
— Se depender de mim...
— Você e a Magnólia são dois merdas mesmo. Um disputando quem fede mais!
Tião o soltou com força, o jogando na cama.
— Os merdas que te tornaram rico.
— Não estou reclamando, só estou enumerando as qualidades. – Ciro se ergueu – Muito bem, agora que definimos bem que podemos aguardar um pouco mais antes de começarmos a nos caçar. Acho que você já pode ir. Amanhã cedo tenho que viajar para Santos.
E Ciro indicou a saída para Tião, que antes de fechar a porta ainda o mirou de rabo de olho.
Tião não acreditou no papo dele de que não tinha vindo entregar nada à Policia Federal. Ligou para seus comparsas lá dentro pedindo que ficassem atentos a qualquer movimento. E aguardou até ele sair do hotel, ali mesmo no carro, em frente ao hotel.
Ciro saiu logo cedo e foi de fato até um hotel em Santos, de carro, onde nem mesmo conseguiu entrar, pois um carro preto parou logo atrás dele e o tipo estranho o alcançou apontando a arma por trás e o conduzindo para o seu veículo.
Esse mesmo tipo agora fazia Ciro abrir o porta malas e pegar o que parecia um pesado saco de areia com uma corda amarrada ao seu redor. Ciro tentou resistir e nessa hora o cara atirou no pé dele, quase o acertando. Tião não conseguiu ver completamente o seu rosto. Na frente Miro estava agitado com o tiro.
— O que tá acontecendo, patrão?
— Eu também queria saber, peão.
Então, enquanto caminhavam até a praia, onde tinha uma canoa na qual Ciro jogou o saco de areia e empurrou para o mar, o tipo olhou para trás verificando se tinha alguém ali, permitindo que, mesmo a distancia, Tião notasse seu rosto. Firmino.
— Magnólia, sua desgraçada. Como é que conseguiu tirar meu capanga da cadeia antes mesmo de mim, e ainda o colocar para fazer o seu serviço? – falou Tião quase sorrindo, imaginando o desespero dela para eliminar Ciro, indo inclusive atrás de alguém que liberasse Firmino e o mandasse concluir o serviço que ela achava que Tião não faria. – A imbecil deve ter se empenhado com Venturini.
— Vamos patrão?
— Não, quero ver até onde vai.
Levou meia-hora ou mais até que Tião perdesse a canoa de vista, e escutasse um som abafado de tiro.
— Agora vamos.
Helena acordou mais cedo no dia seguinte. Mais animada. Colocou o vestido branco de quando ouviu Tiago dizer que havia terminado com Leticia. Suspirou. Foi até o coturno e pegou o canivete. O abriu e passou a mão pelo “B” gravado nele. Pegou ele e colocou na bolsa. Queria levar algo do porquinho com ela.
Quando saiu no corredor, lá estava Pedro, saindo do quarto de Helô, com a roupa de ontem e os sapatos na mão. Ele não viu Helena, e foi saindo para o quarto dele. Helô porém se virou para trás e a viu. Primeiro arregalou os olhos, mas vendo que Helena não parecia reprovar, sorriu e foi para dentro do quarto, feliz.
“Que bonito. Acabaram com a minha festa para fazerem a deles.” Ela falou para si, fingindo indignação.
Eles desceram mais tarde, e ela já tinha tomado o café e visto umas rotas para eles naquele dia. Os três então passaram os outros dois dias passeando, entre Paraty e cidades no arredor, inclusive velejando. Helena e Heloisa se aproximando devagar, com empurrões de Pedro que às vezes deixava elas sozinhas, assim como Helena eventualmente se afastava para eles namorarem.
Tiago, porém, passou mais um dia mal humorado que nem mesmo em casa se aproximavam dele. E no segundo, depois de ficar até quase meia-noite no serviço, ligou para Antonio, para saírem.
— Agora? – respondeu o amigo – Eu tô ocupado, agora.
Tiago notou certo nervosismo na voz do amigo. De certo outra briga com a namorada.
— Pena. Vou sozinho.
— Certeza, cara? Do jeito que você anda ranzinza...
— Ah... – ele desligou o telefone.
Tiago saiu para uma balada em São Dimas.
Chegou na balada e seu humor se manteve irremediável. Entrou e o barulho o irritou. As pessoas o irritaram. Umas duas garotas vieram até ele, sendo rejeitadas com um curvar de lábios e balanço negativo da cabeça.
No meio da pista ele percebeu Robinson e Camila se agarrando. Pensou como ela teria conseguido escapar de casa sem a notarem. “E não é que ela andou aprendendo uns truques com a Helena?”
Ele suspirou. Ele só tinha Helena nos sonhos agora. Ele tentou várias vezes ligar para o tio, que até tinha o celular ligado, mas não atendia. E se Tiago estivesse no meio de um tiroteio e precisasse da ajuda dele? Ía deixar o sobrinho morrer?
A tristeza com a qual ele lutava usando raiva, o dominou.
Tiago foi até o bar e pediu uma bebida. Recebeu a bebida e tomou um gole. Bruno, do outro lado do bar o notou. Apertou os olhos, lábios e a mão no copo de bebida, sentindo raiva. Se virou para a pista de dança.
O neto de Magnólia pediu outra dose. Bebeu. Pediu outra. A dose chegou e ele sentiu uma mão correndo pelo ombro dele e descendo pelo braço direito. Irritado, ele levantou a mão direita afastando a pessoa.
— Nem vem, tenho namorada! – ele falou, pegando o copo.
— E ela tá viva? – perguntou Isabela, ficando do lado dele, erguendo as sobrancelhas para ele.
Tiago se virou para ela surpreso. Fez cara de desagrado e olhou para a bebida na mão dele.
— Não dá para beber nesse bar mesmo. – ele jogou a bebida sobre o balcão – Isabela, que bom ver você entre os vivos!
Ele falava sem entusiasmo olhando para os lados, mãos nos bolsos.
— Marina, Tiago. Bebeu demais já.
Ele a olhou de cara fechada, fazendo bico.
— E ainda não foi o suficiente para você ser só uma assombração. Fala, Isabela, o que você quer. – ele cruzou os braços.
— Para, Tiago. – ela falou o puxando.
— Para você. Tô sem paciência. – ele se livrou dela.
Bruno se virou de novo para o bar e notou que Tiago estava com uma garota. Bateu o copo forte no balcão.
— Que é isso? Não foi você que disse que terminou de boa comigo?
— E terminamos. Eu não tenho qualquer problema com você. Mas também não sou obrigado a ter bom humor quando você me encontra. Licença.
Ele a colocou de lado e foi caminhando. Isabela o puxou.
— Pra que esse mal humor, Tiago?
— Fala, Isabela! O que você quer?
— Nossa, Tiago! – ela deu um passo para trás – Não posso me preocupar com você?
— Não. Ex é pra isso, pra torcer que se foda. Conta logo. O que te fez vir aqui me procurar?
— Tá certo. – ela olhou para os lados – Na tua casa, tem uma hóspede. Eu tenho uns amigos que tão me ajudando e querem saber dela. O porquê dela ter sumido da casa de vocês. E onde ela está. Só preciso dessas informações e te deixo em paz.
Tiago tinha os dentes cerrados, maxilar saliente, os olhos arregalados. Ele se aproximou e pegou Isabela pelo braço.
— Que amigos, Isabela?
Ela arregalou os olhos para ele, abriu a boca para responder algo, e então Tiago foi puxado para trás por Bruno, que emendou logo um soco na cara dele.
— O playboy tá felizinho? Só nas festas enquanto os outros sofrem por sua causa! – Bruno falava com a voz arrastada e puxava um Tiago assustado do chão – Vem aqui, vou te ensinar a ter respeito pelas mulheres.
Bruno o levantou pelo colarinho, o empurrou e deu outro soco. Isabela percebeu o movimento e foi saindo, antes da atenção de todo o bar estar neles. O médico ia pegando um Tiago desorientado, de novo, quando Antonio o segurou.
— Para com isso, cara! – ele falava para Bruno, dando um mata leão – Deixa o Tiago em paz. – Antonio o soltou para longe, e se agachou perto do amigo que olhava o sangue que tirava do rosto.
— Esse desgraçado precisa de uma lição. Diz para ele Antonio. Diz para ele o quão infeliz ele é!
Bruno com a voz arrastada gritou para os dois. Olhou ao redor e saiu, limpando a boca da baba.
— O que deu nesse cara? – perguntou Tiago indignado com a agressão, enquanto Antonio o carregava.
— O mesmo que em você nesses últimos dias, Tiago.
Os amigos foram para casa de Antonio cuidar dos ferimentos de Tiago.
Helena estava curtindo seu quarto dia em Paraty. Conhecendo melhor as ruas, conseguia se adiantar a Pedro e Helo, que agora observavam peças de arte expostas nas calçadas.
Então, virando em uma rua, ela foi prensada na parede de uma casa.
— Helena! Acho que nunca fomos apresentadas. Isabela, prazer.
Helena olhou de queixo erguido para a projeto de hippie que a segurava pelos braços.
— Você não quer dizer, Marina?
A outra fechou os olhos irritada.
— Sem cerimonias. Eu estava mesmo te procurando. Tem gente nervosa achando que Tião te deu o fim. Vocês sumiram na mesma época.
Helena ergueu uma sobrancelha.
— Tá indo em terreiro falar com pai de santo agora é, espirito? Como é que tá sabendo assim da vida dos outros?
— Muito boa essa. E você? Tá brincando de casinha com mamãe da Leticia, é?
— Melhor brincar de casinha que de morto vivo.
Isabela apertou os olhos. A soltou.
— Não vou perder mais meu tempo com você. O que precisava já descobri.
— E o que descobriu? A luz no fim do túneo? Vai lá, querida, faz a passagem. – Helena falou a pegando pelos braços.
— Me larga, idiota.
Isabela a afastou. Helena fez menção de ir atrás dela, mas Helô se aproximava correndo. A ex-defunta saiu apressada.
— Aquela era a Isabela?
— Era? Mas não tá morta? – Helena se fez de desentendida.
A mãe apenas a olhou desconfiada.
— É o que dizem...Vem. Vou te mostrar umas coisas que comprei. – e Helô puxou Helena pelo braço, para terminarem a tarde vendo obras de arte e roupas para Helena.
No dia seguinte Pedro as chamou para um piquenique em uma praia isolada. Chegando lá as deixou novamente sozinhas, conversando. E dessa vez foi sem muros de ambos os lados. Helô se abriu sobre o amor e relação com Pedro, enquanto Helena só soube suspirar dizendo que ela tinha sorte mesmo, achar alguém que a ame tanto.
— Segundo o Pedro, somos duas sortudas, então. – ela falou pegando um morango e rindo para Helena, que franziu a testa.
Mas Helô achou melhor não continuar o papo. Segundo Pedro, Tiago e Helena estavam começando a se entender depois que ele terminou com Isabela. O que foi um alívio para Heloisa, pois finalmente confirmou suas suspeitas de que Helena não estava dando em cima do namorado da filha naquela festa. E que só aconteceu algo entre os dois depois dele terminar com Leticia. Mas ficou ainda a dúvida da razão de tanto ódio à prima. Mas ela não ia quebrar aquele momento falando da filha.
Helena terminou o dia brincando com eles no meio da praça. Aparentemente eles achavam muita graça em se esconder ali.
A noite, porém, ela olhou pela janela do quarto. Tinha uma lua cheia muito linda lá. E novamente dormiu lembrando do leitãozinho.
Enquanto Tiago, com roxo no olho e canto da boca, finalmente usou a chave do quarto de Helena. Abriu a porta do quarto dela e sentiu o leve perfume dela que ainda tinha ali.
Ele finalmente cedera, depois dos socos tomados, ao desanimo e tristeza. Agora só andava de cabeça baixa, respondendo por monossílabas.
Ele olhou a lua cheia pela janela. Tirou os sapatos e se jogou na cama de Helena, sentindo o perfume dela nos lençóis e travesseiro. Dormiu.
Naqueles dias, até Aline parecia evitar ele.
Saindo do quarto de Helena na manhã seguinte, ela estava justamente discutindo com Camila próxima do quarto de Helena. As duas se calaram quando o viram sair do quarto.
— Helena voltou? – Camila perguntou animada.
Ele só ergueu o queixo diante do flagra e balançou a cabeça negativamente.
— Tomara que não volte mesmo. – falou Aline.
Tiago cerrou os dentes, maxilar saliente e narinas dilatadas.
— Aline, eu respeito muito o seu pai. Por isso não vou te tirar dessa casa agora. Te dou dois dias, no máximo. Depois, eu mesmo pego tudo que tem no seu quarto e jogo na rua contigo. De nada.
Ele saiu, frio, com as mãos nos bolsos, depois do ultimato. Camila tinha a boca aberta em um sorriso.
Quinze minutos depois apareceu Magnólia no quarto dele.
— Que história é essa de você expulsar Aline daqui?
Ele estava saindo do banho, toalha enrolada na cintura.
— Quer saber? – ele colocou as mãos na cintura – Não vai ela, vou eu.
Tiago saiu procurando as malas, diante de um olhar incrédulo da avó.
— O que é isso, Tiago? Vai embora de casa só porque não estou fazendo suas vontades!?
— Não é a minha vontade não – ele falava irritado enquanto abria a mala e jogava as roupas ali – é a de todo mundo. Essa casa já é um inferno, com mais essa aí nem o diabo aguenta!
— Escuta aqui, Tiago, se você pensa que vai me chantagear com papo de sair de casa, está bem enganado. Você é bem grandinho, pode muito bem se virar lá fora.
— É? Que bom, vó. – ele a olhou com as mãos na cintura – Bom mesmo. Eu vou mesmo me virar muito bem longe dessa casa e daquela empresa.
Magnólia prendeu o ar. Lembrou da empresa.
— Tiago, meu filho. – ela foi até ele fazendo voz carinhosa – Por favor, não me coloque nesta situação.
— Eu não te coloquei em situação nenhuma – ele afastou a avó – você foi quem enfiou essa infeliz aqui. Prefere ela aos netos. Beleza.
Ele colocou uma camisa e uma calça, tirando a toalha e pegando a mala mal feita, foi saindo do quarto, descalço.
— Tá bom! – falou Magnólia irritada – Nos dê dois a três dias para encontrar um lugar para ela ficar. Não posso deixa-la desamparada.
— Dois dias, só. Já é até demais nós dessa casa termos de suportar ela por tanto tempo.
Tiago falou, voltando e jogando a mala sobre a cama.
— Agora, me dá licença que preciso me trocar.
Magnólia saiu do quarto, controlando o sapo que teve de engolir. Aline estava aflita no lado de fora.
— Então Dona Mag?
— Você se superou, Aline. Tiago nunca falou assim comigo antes! É bom em dois dias você arranjar um lugar para ficar. Que aqui Tiago não te aceita mais.
— Eu? Não! Saí do meu emprego para vir para cá. Meus pais não me aceitam em casa. Não tenho como.
— Isso não é problema meu.
— Talvez seja, Magnólia.Talvez seja. – Aline ameaçou e se retirou para o quarto ao lado.
Helena acordou mais tarde naquele dia. Saiu do quarto e notou que Pedro estava beijando Helô em frente ao quarto dela. Pelo visto passou a noite ali de novo. Dessa vez ele a notou. Helena sorriu.
Os dois a olharam e sorriram de volta.
— Vamos tomar café?
— Vamos. – falou Pedro animado.
Eles desceram e já estavam quase servindo o almoço.
— Melhor procurarmos um restaurante para almoçar. – Helô deu a ideia.
Eles saíram pela cidade, almoçaram e voltaram quase meia-tarde.
— Senhora? – chamou o recepcionista – Desculpa, mas uma pessoa tem ligado o dia inteiro querendo saber da senhora. Disse que é seu filho.
Helô olhou para Pedro. Ele pegou o celular na mão.
— Acabou a bateria. Desculpa, Helô.
Ela se desesperou e foi até o telefone da recepção.
Começa a tocar Angel By The Wings – Sia.
Helena, ao lado de Pedro observava Heloisa conseguindo falar com Edu, colocando a mão na boca, preocupada. Ela desligou e olhou desolada para Pedro, e então para Helena. Essa apenas olhou para os dois e foi para o quarto arrumar as malas. A brincadeirinha de casinha acabou.
Helena engoliu toda a sua dor, e tentou ser amigável com Helô, enquanto a via sofrendo para voltar para a filha. Pelo que ela entendeu, Tião voltou e Leticia já estava tendo crises. Chegaram em Ilha Bela quase nove horas da noite. Helena deixou os dois se despedirem, ficando no barco. Não teve coragem de abraçar Heloisa, apenas disse tchau. Quando Helô se afastou, ainda olhando as vezes para trás, Helena desceu, foi até Pedro e o abraçou pela cintura. Ele parecia tão desolado. Também se iludiu com aqueles dias com Helô.
Um nó na garganta muito familiar a fez morder os lábios, enquanto via Heloisa sumindo pelo píer, olhando uma ultima vez para eles. Parando. Suspirando. Indo embora.
— Vamos, Helena. Hora de voltar para a realidade.
Ele pegou as malas dela. Pelo visto não levaria as coisas dele agora. A levou para o carro a abraçando pelo ombro. A viagem inteira, ambos calados. Helena viu os portões da mansão e sentiu um aperto na boca do estomago.
Pedro entrou na casa e subiu as escadas com ela. Lá em cima, parou, colocando a maleta dela e mochila no chão.
— Desculpa, Helena, eu queria ajeitar as coisas, e acabei piorando.
— Não. Você não fez nada errado.
— Eu sei. – ele a pegou pelo rosto e beijou na bochecha – Mas deixei que alguém fizesse.
Pedro desceu as escadas e saiu de carro. Helena se virou para o corredor. Pegou as malas e foi até seu quarto. Empurrou ela, que cedeu.
Ela viu Tiago na sua cama e uma dor junto com uma sensação de alívio fez as lágrimas finalmente vencerem o seu esforço, caindo quentes pelo rosto. Ela deu um passo para frente e fechou a porta atrás de si, com o pé, jogando suas coisas no chão e começando a soluçar.
Foi quando Tiago acordou.
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