A sobrinha da Helô

51 Mentindo pela Sobrinha da Helô


Tiago não conseguia ouvir do seu quarto o barulho das obras lá embaixo, mas sabia pela luz do sol começando a invadir o quarto, que elas já deviam ter iniciado há algum tempo.

Sua avó decidiu, depois das pequenas reparações que fez nos danos no nível superior, reformar toda a parte inferior, até mesmo a cozinha que não teve qualquer dano. “Ela tem dinheiro” ele pensou, jogando as cobertas para o lado e se sentando então na beirada da cama, apoiando os cotovelos nos joelhos e o rosto entre as mãos, soltando um sorriso amargo sem perceber.

Quando acabasse a fonte dela, porque ia acabar, afinal logo a empresa logo não estaria mais na mão dela, de onde ela tiraria o dinheiro? Ele suspirou fundo e esfregou as mãos no rosto tentando afastar qualquer pensamento de pesar. A avó não ficaria à deriva, com certeza tinha outra fonte.

No dia em que ele praticamente expulsou as irmãs da casa, e conversou com o policial federal, a policia civil subiu até o quarto da avó perguntando pelos cofres, se foram arrombados, e ela mentiu descaradamente sobre o seu cofre dentro de uma cômoda sob a penteadeira espelhada no quarto dela. Dona Magnólia devia ter muita coisa lá. Por dias ela guardou o quarto para evitar policiais transitarem por ali e encontrarem o cofre, até que a investigação se findou depois de todos terem sido ouvidos.

Tiago lembrava muito bem de seu depoimento na policia; de ter dito apenas que não estava na casa e que fora assaltado, sem lembrar muitos detalhes de quem fora. Ele praticamente repetiu o que acontecera meses atrás, quando ele e Helena foram sequestrados...Tiago apertou o olhar para um ponto no chão, as narinas dilatadas. Os chefes da Helena. No momento em que ele ouviu aquela voz no iate, do cara apontando a arma para ele, Tiago reconheceu o tipo forte que os amarrou na cabana e o espetou com uma agulha cheia de calmante. E depois não foi grande esforço reconhecer novamente a voz do cara vindo do policial federal no quarto de Helena. “Será que ela sabia que estava trabalhando com a policia federal?”

Agora deve saber, está com eles. Ele suspirou e balançou a cabeça se levantando, tentando afastar aquela ideia. Sabia que no momento não podia focar em onde Helena estava, mas sim em como garantir que todos ali estejam seguros, e que a sua avó e Tião estejam longe de todos, para então ela poder voltar.

O celular apitou de novo. Nos últimos sete dias era rotina no meio da noite aquele aparelho apitar as mensagens do seu “chefe”.

Ele entrou em contato com Tiago no mesmo dia em que a policia civil terminou de colher provas na casa e foi embora. Pareceu que foi um mês deles vindo até a casa procurar evidencias, mas na verdade só durou quatro dias. Dias que ele fez questão de não estar em casa, indo cedo para a empresa, analisar documentos e tentar descobrir como consertar tudo que estava de errado. Mas sem saber por onde começar, ele só voltava com dor de cabeça para outra noite sem sono. Então, no meio daquela noite o celular dele apitou uma mensagem mandando ele esperar a encomenda às dez horas do dia seguinte.

E ele esperou, achando que era algo de Helena. O correio chegou na empresa, que era mais seguro, e Tiago se trancou a sete chaves no seu escritório, rasgando o pacote para encontrar um celular velho, possivelmente pré-pago. Esperou ansioso até mais de dez horas, quando ele finalmente tocou. A voz fraca e familiar que escutou o fez fechar os olhos e respirar aliviado, mas desapontado.

— Oi! Eu estava mesmo esperando você entrar em contato. – Tiago soltou a resposta para a voz do outro lado da linha.

Daquele dia para frente ele passou a trocar mensagens por aquele celular seguindo as instruções de encontros e manobras.

Por sinal, mesmo ontem ele tinha realizado uma das mais ousadas...

— Nossa, Tiago, mas para quê tanto papel? Tá vendendo a empresa?

A avó perguntou contrariada mas espirituosa. Ela andava particularmente feliz com o desaparecimento de Helena e as netas longe de casa, o filho em plena campanha eleitoral, e Tiago fazendo tudo o que ela queria, tanto na empresa, como na vida pessoal, saindo a noite para dançar e voltando a conversar com Leticia. Essa ultima parte era a que mais a deliciava.

— Não. – Tiago soltou um sorriso que era para ser animado, mas saiu o oposto – É apenas a compra de materiais novos, mais baratos para outra linha de tecidos. Vamos tentar inovar, como a senhora disse.

— Sim. Mas tudo isso de papel?

— No caso de pano. – ele fez a piada, amargo, mas conseguiu fazer a avó soltar um singelo riso.

Tiago olhava atento ela assinar sem ler as folhas, confiante de que ele trazia apenas o que ela queria. Ele subiu o olhar um pouco para o lado esquerdo do rosto dela, onde, mesmo com toda a maquiagem, ainda era possível ver a marca das mãos da tia Vitória. A avó teria feito uma visita um dia antes a tia na casa do Augusto, e, apesar de não assumir, recebeu um tapa, e possivelmente muitas verdades. A razão da visita é talvez o que garanta hoje que a tia tenha alguma segurança de nenhum revide. Pelo que Luciane lhe segredara, tia Vitória, ainda no hospital depois do filho nascer, requereu registro de uma ocorrência contra a sua mãe, dizendo que ela tentou envenena-la com remédios controlados.

A policia é claro está mantendo tudo na maior discrição, mas ainda assim, enquanto a investigação não terminar, a saúde da tia vai ser muito importante para a avó.

Isso tranquilizara Tiago. Uma a menos para se preocupar. Luciane disse que cada uma das irmãs estava morando com os namorados, o mais afastadas possível dali.

De Helô ele só sabia o que Leticia lhe contou, que estava muito triste, tanto pela situação da saúde da filha, como pelo sumiço de Helena e o afastamento de Pedro.

Tio Pedro nunca mais apareceu na mansão. Passara na fábrica apenas para deixar coisas que Flávia devolveu do carro dele. Dentre elas a pesada mochila da Helena, que ele guardara no cofre da empresa. Não tinha coragem de abrir ela. Não agora que a lembrança dela fazia ele sentir um peso no peito. Ele tinha que continuar em frente para garantir que todos pagassem pelo que fizeram.

Tiago suspirou e olhou para a avó pegando outra pilha de papéis para assinar, um sorriso ainda no canto dos lábios. Ela estava tão cega de prepotência que sequer percebia como todos se afastavam de um modo estranho, como o mar quando se retrai antes de uma grande onda varrer a praia. E Tião não devia estar muito diferente.

— Mas será que precisa mesmo de tudo isso de assinatura? Tiago quando seu avô presidia aquilo lá, não assinava tanta coisa.

Magnólia pegou os óculos pendurados sobre o peito e começou a ler uma página no meio das outras. Tiago se sobressaltou erguendo a mão e baixando a folha para a mesa, fazendo a avó o olhar franzindo a testa. Ele sorriu.

— Eu ...desculpa, deixa confirmar se são esses os contratos certos. – ele pegou os papeis e folheou sob o olhar curioso da avó, então balançou a cabeça e os entregou de novo para ela – Sim. São esses. – ela pegou passando o olhar – É que com a declaração da morte presumida do vovô muita coisa tem que ser inclusa nos contratos. – ele levou o dedo para a página, mostrando o final dela onde Magnólia deveria firmar – Não precisa se preocupar, o Doutor Mendonça está cuidando de tudo, ele revisa cada contrato.

Ela balançou a cabeça concordando e voltou a assinar. A mulher confiava no advogado, certa de que já pagara o preço certo para ele. Mal sabia que Tiago cobrira o preço. Ela sequer duvidou do documento com timbre da justiça com suposta decisão declarando a morte presumida do avô e permitindo que ela gerisse todos os bens. Sem Ciro ou qualquer outra pessoa dentro da empresa ou comparsa para conversar sobre os assuntos da empresa, ela seguia apenas o que o neto dizia, confiante que tinha todos sob seu controle.

Tiago sorriu. Suely, depois de saber que o filho estava vivo e sob os cuidados de Salete, passou a ajudar Tiago a conseguir o que era preciso na empresa sem que chegasse nada aos ouvidos de Dona Magnólia.

Então a avó novamente pareceu se atentar a uma frase no contrato e franzir a testa.

— Eu vou conversar com a Leticia hoje. Passar na casa dela. Parece que Tião não vai estar lá.

— Ah é? – Magnólia tentou mascarar a empolgação, mas imediatamente parou de ler o papel e voltou a assinar contente, mantendo a atenção no que o neto dizia – E como vão as coisas entre vocês?

— Muito melhores, — Tiago disse se sentando enfim na cadeira em frente à mesa do escritório, cruzando as pernas e erguendo o queixo, com ar confiante – sem Tião por perto, pressionando, nós finalmente estamos revivendo ...bom, — ele fingiu um sorriso desconcertado, que Magnólia comprou sem medo, voltando a assinar os últimos papeis sorrindo – estamos relembrando quando começamos a namorar. Amanhã eu vou acompanhar ela em mais um exame no hospital.

— Ótimo, filho. – ela terminou de assinar e ergueu os documentos para ele – Apesar de todas as tristezas dos últimos dias, finalmente tudo está se ajeitando.

Magnólia tinha um sorriso réptil na face. Tiago apenas se ergueu pegando os contratos de compras falsas misturados com documentos de tranferencias de contas e ações e retribuiu o sorriso, com um piscadela.

— Devo tudo à senhora, vovó.

Tiago deu a volta na mesa e beijou a testa dela, inspirando fundo e se retirando, fechando a cara quando deu as costas a uma satisfeita Magnólia girando na cadeira.

Agora Tiago tinha que esperar a hora do novo encontro com seu chefe para levar os papeis e se encaminhar para o próximo passo. O cerco estava se fechando, ele sabia que não era o único a seguir os rastros da avó, mas ele estava passos a frente, e poderia reverter os danos do jeito dele. Ele olhou para o celular na cabeceira e respirou fundo. “Não agora”.

Foi até o banheiro, jogou agua no rosto. Não para acordar, há dias mal dormia, mas para sentir algo. Passou a mão no rosto onde já não tinha mais a marca do soco daquela noite com Helena em São Paulo.

Tiago sorriu lembrando do dia em que aprendera que conseguia mentir, desde que tivesse a motivação certa.

Helena seguia atenta ao caminho entre o hotel e a “balada” a qual Tiago disse que a levaria, observada por ele, sentado a sua esquerda no banco de trás do taxi executivo oferecido pelo hotel. Ela franziu a testa e o olhou curiosa quando o carro parou há apenas algumas quadras de onde tinham saído.

— Já chegamos?

— Já!

Tiago respondeu se inclinando sobre ela, que não se moveu, observando o rosto dele próximo do dela e sorrindo, enquanto ele abria a porta para ela sair de frente para uma calçada cheia de gente, em frente a uma boate com uma fila enorme de pessoas bem vestidas e impacientes.

Os dois saíram, depois que o motorista informou que ficaria num ponto de taxi um pouco mais a frente, caso precisassem.

— É tudo muito fácil quando se tem um pouco mais de grana, não é? – ela disse observando o taxi se afastar.

— Eu gostaria de dizer que não. Mas seria muita hipocrisia. – ele respondeu comprimindo os lábios e soltando o ar, se colocando de frente a ela, os dois ainda na calçada.

Tiago então sorriu largo, permitindo a alegria do momento voltar, a abraçando pela cintura e a trazendo para ele, dando um beijo estalado e passando a mão esquerda pelo rosto dela, de onde afastou algumas mechas de cabelo para trás da orelha esquerda.

— Mas sabe... – ele começou a falar com a voz grave – a grana nem sempre é tudo.

— É? – ela sorriu, olhando para a boca dele.

— Ahã. – ele respondeu, a boca levemente aberta, buscando os olhos dela – Às vezes o nome também facilita.

Helena riu.

— Ah é?

— É. – ele respondeu balançando a cabeça afirmativamente, ainda a mirando com a boca levemente aberta.

Helena riu de novo e colocou as mãos sobre o peito dele, inspirando fundo.

— Então vamos? – ela perguntou, erguendo o queixo sorrindo – Que com essa fila não vamos entrar antes das quatro.

Ela completou o raciocínio olhando para a fila e depois para Tiago, que riu.

— Fila? – ele baixou o queixo franzindo a testa e a olhando moleque – Você ainda não entendeu como as coisas funcionam comigo, bandida?

Tiago roubou um beijo estalado ao ver ela franzir a testa para ele. Ele então a puxou pela mão até o segurança na porta da boate, que controlava quem entrava, o qual antes mesmo de Tiago chegar perto, já sorria e abria espaço para os dois.

— Tiago Leitão! Faz tempo eim chefe? – disse o brutamontes sorridente para Tiago, que retribuiu com uma batida no ombro do outro, passando para dentro da boate com uma Helena de olhar surpreso – Esse aí sempre bem acompanhado. – o outro falou para a fila a sua frente.

Helena começou a rir enquanto passava pelo corredor escuro até a entrada da pista, Tiago rindo junto, colocando o braço direito sobre o ombro dela, a mão a pegando pelo pescoço e a trazendo para um beijo na bochecha esquerda.

— Eu não disse que nome ajuda?

Ela deu outra risada, jogando os braços ao redor do tronco dele.

— Exibido! Porquinho exibido! – ela disse dando um beijo na bochecha dele, o fazendo sorrir ainda mais convencido – E agora, o que o seu no...

Ela nem terminou de perguntar, um tipo alto, magro, mas bem vestido num terno preto com lapela vermelho escura cintilante, cabelos negros penteados rigorosamente para trás, tão brilhantes quanto o sorriso no rosto magro dele, os interpelou.

— Tiago Leitão, e a – ele olhou para Helena e fez um leve movimento com a cabeça em cumprimento – aniversariante.

Helena passou de divertida com a figura a sua frente para surpresa, os olhos arregalados e a boca levemente aberta. Mas essa não era a primeira vez que ela tinha que encobrir a mentira de alguém.

— Você lembrou! – ela disse, ainda com a boca aberta se virando para ao namorado – Seu safadinho, me enganou o dia todo!

Tiago sorria largo observando cada movimento dela, da surpresa para a mentira descarada. Estava orgulhoso, tanto do raciocínio rápido dela, quanto da sua capacidade de tê-la surpreendido.

— Eu ainda estou ofendido que você tenha pensando que eu esqueceria, meu amor. – ele continuou o teatro, um pouco afetado demais para o gosto de Helena, mas o empregado parecia pouco se importar.

Helena fez cara de comovida, e deu um selinho no namorado, que segurava o riso.

— Aaaa, carinho, desculpa. – Helena agora passava a mão direita no lado esquerdo do rosto de Tiago, com grandes olhos brilhantes, que um desavisado diria que é comoção, mas Tiago sabia que ela estava se divertindo.

— Que lindo. – o outro disse sem muita emoção – O Senhor Leitão aqui preparou uma grande surpresa, senhorita. Nós temos uma mesa da área VIP, bem reservada, apenas para vocês, e algumas surpresas por conta da casa, para a aniversariante. Me acompanhem.

Helena ergueu as sobrancelhas e de queixo levemente caído pestanejou mostrando afetada surpresa, entendendo a razão do namorado ter dito que era o aniversário dela: “surpresas por conta da casa”.

Eles seguiram o empregado da boate por uma passarela que se elevava no meio da pista, a dividindo em um lado virado para um DJ tocando algo como eletrônica, e do outro lado uma banda tocando um rock leve, fazendo algumas cabeças pularem. Na passarela era possível ouvir ambos os tipos, misturados, mas não tão altos que pudessem não ouvir a si mesmos. Quem estivesse mais próximo do DJ apenas ouvia o som dele, assim como quem estava bem próximo da banda.

Helena observou que a passarela ia diretamente a uma ala de umas 10 mini câmaras, feitas de tábuas de madeira envernizada, onde em cada uma havia uma mesa, de variados tamanhos, rodeada de banquinhos, ou de um sofá no formato da mesa, seja ela redonda ou quadrada. Uma ou outra câmara estava fechada, sem ser possível ver quem estava lá dentro. A passarela em um ponto se dividia em outras 10, cada uma para uma das camaras, e tinham escadas que desciam desse ponto da passarela, indo para as pistas, que se ligavam cada uma a um bar, com corredores que levavam a banheiros. Eles pegaram a passarela que levava para a ultima câmara do lado direito, a que ficava mais próxima de ouvir o que a banda de rock tocava, e que tinha um grande buque de rosas vermelhas no centro, com um balde de gelo, champanhe, e um mini bolo confeitado com uma vela pequena no meio. Tudo muito escuro, com alguns pontos com luzes baixas permitindo iluminação suficiente para as pessoas acharem os caminhos para entrar e sair dos lugares. A passarela mesma era de um tom prata, que se destacava graças as pequenas luzes nas paredes e das camaras abertas.

— Espero que esteja a contento, Senhor Leitão. – o empregado disse quando os outros dois se sentaram no sofá estofado, na cor verde.

— Muito. – Tiago disse sorrindo para o cara.

O outro se retirou. Helena estava olhando tudo com o queixo levemente caído. A mesa tinha um pequeno ponto de luz que parecia vir de uma vela dentro de uma bola de vidro de cor rosa, enquanto Tiago estourava a champanhe, e pegava as taças, as enchendo, ela se permitiu olhar mais a frente para a pista a sua frente, com todos pulando com a banda, tocando algo em inglês.

— Obrigada, Senhor Leitão. – ela disse em tom de escarnio quando ele entregou a taça para ela, fazendo Tiago rir – Então quer dizer que você aprendeu a mentir?

Helena se recostou no sofá, engolindo um gole de champanhe, erguendo rapidamente as sobrancelhas para o namorado, que colocou a bebida no balde e pegou a taça dele.

— Quando a necessidade bate, temos que aprender, não é?

— Ah é? E que necessidade foi essa? – ela disse em meio a um sorriso.

Tiago puxou o ar com dificuldade, limpando a garganta, se inclinou para ela, os lábios bem próximos, o olhar baixo, mirando a curva do pescoço de Helena, que prendeu a respiração.

— Te fazer feliz. – ele falou com um sorriso contido, e a voz aveludada, fazendo Helena morder o lábio quando ele levantou os olhos para ela.

A resposta dela foi descer os lábios e beija-lo, trazendo a mão direita para o rosto dele, soltando o ar. Tiago, sem abrir os olhos, ergueu a taça para a mesa e a pousou lá, trazendo então as duas mãos para o rosto de Helena o trazendo para ele e abrindo os lábios para sugar os dela, terno mas intenso. Eles afastaram os lábios, sorrindo.

Helena ergueu o olhar encontrando o dele, que brilhava tanto quanto o dela. Tiago mordeu o lábio inferior e passou a beijar a bochecha direita dela, descendo os lábios, fazendo ela suspirar e soltar risinhos. Novamente as coisas pareciam girar para ela, enquanto sentia os lábios dele alcançar a base do pescoço, onde ele sugou, fazendo ela fechar os olhos e gemer, inclinando a cabeça para o lado esquerdo permitindo que ele explorasse mais a pele dela. Tiago já tinha a mão esquerda no ombro dela, de onde puxou a alça do vestido, e a direita descia até a cintura dela, a apertando. Ela abriu os olhos para observar ele beijar o ponto onde a alça do vestido estava. Sorriu. Mas então se sobressaltou, notando que lá embaixo havia pessoas dançando que podiam ver eles. Na verdade, do bar, um ou outro rosto se virava para eles rindo, como ela notara só naquela hora.

— Tiago. – ela pigarreou – Acho que aqui a gente fica meio exposto. – ela falou afastando um pouco o corpo e cruzando as pernas, notando que a mesa não tinha qualquer cobrimento e ela só tinha o vestido.

Tiago piscou duas vezes e olhou para baixo, entendendo ela e expirando. Helena tomou o que ainda tinha na taça dela, sendo imitada pelo namorado.

— Bom. Tem como fechar...

Ele foi interrompido pela risada dela.

— Você me trouxe aqui para curtir exatamente o que?

Tiago sorriu desconcertado, evitando o olhar zombeteiro dela, pigarreando e pegando a bebida para encher novamente as taças enquanto procurava uma resposta.

— O que você quiser curtir. – ele finalmente respondeu, enchendo a taça dela, evitando o seu olhar.

— Se é assim. – ela começou com a voz baixa e sedutora – Pode fechar.

Ele ergueu o olhar para ela rapidamente, sobrancelhas levantadas, surpreso e feliz. Helena jogou a cabeça para trás rindo de como ele nem escondia as ideias que ele estava tendo.

— Vem. – Helena se ergueu, tomou tudo o que tinha na taça, sendo imitada por ele, pegou a champanhe e bebeu mais um grande gole do gargalo – Você disse que hoje eu ia dançar, e eu vou!

Tiago se ergueu e pousou a taça seca sobre a mesa, seguindo ela, que pegou na mão esquerda dele com a mão direita dela, e as trouxe sobre o ombro, o conduzindo pela passarela até a pista de musica eletrônica.

Ela foi abrindo caminho entre os corpos se movendo freneticamente, indo até perto do centro da pista e se virou para ele, começando a dançar ao som da musica. Tiago sorriu e começou a dançar também, não tirando os olhos de cima dela, a rodeando, e sempre que podia pegando as mãos dela, ou passando a mão pela cintura de Helena, tentando puxa-la para um beijo. Mas Helena estava determinada a provocar ele. Ela chegava com o corpo bem próximo do dele, mas virava o rosto, e deixava ele beijar a bochecha dela ou o pescoço para logo se afastar. Ele sorria, erguia a cabeça olhando o teto e então voltava a olha-la, mordendo o lábio. Helena jogava as mãos sobre os ombros dele e o trazia um pouco perto, e então o deixava ali, dando as costas e começando a dar pulinhos. Tiago balançava a cabeça e com a boca meio aberta, se aproximava dela, a puxando pela cintura para ele, sentindo ela então mover o corpo junto do dele, de costas, o perfume do cabelo dela entrando pelas narinas, enquanto mantinha a cintura dela junto a dele, os corpos já se movimentando junto, Helena passando a língua pelo lábio superior, sentindo ele e virando o rosto para olha-lo sobre o ombro e mostrar o sorriso malicioso. Tiago puxou o cabelo dela para o lado e afundou o rosto no pescoço de Helena, inalando o perfume da pele dela, pousando os lábios e beijando devagar, fazendo ela fechar os olhos, sentindo os lábios quentes ali começarem a se arrastar na pele, um pouco mais acima, e se fechar novamente em outro beijo sobre a pele, já arrepiada.

Tiago então a virou para ele e dessa vez ela não fugiu, deixando ele a beijar, os corpos grudados, ele a fazendo jogar o corpo para trás enquanto tomava os lábios dela com os dele e segurava a cabeça dela com a mão direita, a esquerda ainda na cintura de Helena, que abria a boca permitindo ele invadir a boca dela com a língua, fazendo ela gemer, a música era claramente inaudível e só sentiram onde estavam quando alguém esbarrou tão forte neles que os desiquilibrou, e foi como se eles tivessem voltado para aquela dimensão, notando os cheiros e sons ao redor. Tiago olhou irritado para as costas de um brutamontes, e então se endireitou, abraçando Helena pela cintura, voltando a olhar ela, carinhoso, fazendo ela responder com outro sorriso carinhoso, enquanto ele fazia o corpo deles se mover num balanço devagar, mesmo com a musica agitando todos ao redor deles em pulinhos e rodopios bêbados.

— Tiago! – uma garota tentou gritar mais alto que a musica, enquanto passava o braço entre os dois, puxando ele pelo ombro para olhar para ela, quase arrancando um olho de Helena com as unhas compridas e bem pintadas – Eu não acreditei quando te vi.

Stéfany Oliveira puxou Tiago para um abraço, enquanto olhava por sobre o ombro direito dele uma Helena de testa franzida, pestanejando diante da aparição da outra.

— Descul... – Tiago tentou falar desconcertado, notando então que a musica não permitia a outra ouvir ele – Oi. – ele a afastou com os braços e tentou sorrir amigável mesmo não enxergando bem o rosto da outra com as luzes piscando – Desculpe, mas eu não...

— Sou eu! – ela não deixou ele terminar e se prontificou a refrescar a memória dele — Stéfany Oliveira. Modelo! Amiga da sua noiva... – ela olhou para Helena de um modo julgador – Bom, desculpa.

A musica diminuíra quando foi trocando e Helena pôde ouvir e sentir o veneno nas palavras da outra. Mas não se abalou, apenas cruzou os braços, contorceu o rosto em um sorriso sem dentes e piscou os dois olhos, para uma Stéfany com um pretencioso olhar inocente para ela.

Tiago olhou para Helena e para a outra e entendeu que já era hora de terminar a conversa.

— Eu realmente não lembro de você. Desculpa. – ele deu um sorriso sem dentes e se virou para Helena, a pegando pelo ombro e a levando para fora da pista, mas a outra não desistiu fácil, num pulo estendeu o braço direito alcançando o dele e o puxando.

— Que isso! Tiago, assim até me ofende. – ela aproximou o corpo, descendo a mão dela para a dele, o puxando – A gente era tão grudados.

Tiago ergueu as sobrancelhas incrédulo. Helena virou o rosto para o outro lado contendo um sorriso diante da falta de amor próprio da outra.

— Você está me confundindo. – ele olhou para Helena que ergueu as sobrancelhas para ele com um sorriso contido, o largando para continuar dançando perto dele, o provocando, fazendo ele sorrir – Olha... – ele tornou a se virar para a outra, que estava ainda mais próxima, o rosto quase colado no seu, a mão agora no ombro dele – Eu – ele pegou as mãos dela e as afastou – realmente... – um lampejo na memória dele – Stéfany!

A outra arregalou os olhos orgulhosa. Helena deu um rodopio e deu as costas para os dois, já não achando tanta graça na situação. Começou a dar seus melhores movimentos. Podia não estar chamando a atenção de Tiago, mas estava do resto.

— Você se lembrou, viu?

— Sim! E você com certeza não era amiga da minha ex-noiva. – ele disse com um sorriso forçado, passando os dedos da mão esquerda nos cabelos, se lembrando das cenas que Leticia já fizera em outras boates por conta das garotas como a tal Stéfany, provocando, se agarrando a ele e até o beijando. Ele não queria a mesma situação com Helena – Muito menos minha.

— O que? – ela fingiu não ouvir ele para faze-lo falar mais alto e se aproximar dela.

Tiago olhou para trás para conferir Helena antes de tentar se fazer ouvir pela outra, que se inclinava na direção dele, e então deu um pulo. Um tipo vinte centímetros mais alto que ele e uns trinta centímetros mais largo estava agora dançando ao redor de Helena, tentando chamar a atenção dela, que se virava evitando ele.

Porque Tiago não parece ter consciência do próprio tamanho, ele se virou abrupto, se livrando de Stéfany, que tentou segura-lo, e se enfiou entre Helena e o outro cara, ficando de frente para ela e de costas para o outro. Tiago apenas passou o braço direito pela cintura dela e foi saindo da pista, depois de, com a mão esquerda, dar um empurrão no outro.

Helena se deixou levar, surpresa, olhando então para trás, vendo o tipo abusado erguendo o queixo desafiador e passando a mão esquerda no peito onde Tiago tocara. Era um tipo realmente grande, que nem Helena sabia se tinha coragem de enfrentar, careca, pele bronzeada e claras tatuagens descendo pelo braço, abaixo da maga curta da camisa branca colada, que mostrava vários calombos de músculos por baixo dela. Mas foi a figura ao lado dele que a fez sorrir, a tal Stefany estava parada, os olhos apertados e furiosos com Tiago arrastando Helena, ciumento, pra fora da pista.

Tiago só parou quando estavam próximos do banheiro e longe do barulho da musica na pista.

— Isso aqui anda muito mal frequentado. – ele esbravejou soltando a cintura dela, ficando de frente para a namorada e passando a mão esquerda pelo cabelo, nervoso, evitando mostrar seu descontrole.

— Você achou? Pensei que tava gostando de reencontrar as amigas da sua ex-noiva, — ela respondeu cruzando os braços, um meio sorriso que ela queria que mostrasse confiança e divertimento, mas pelo fogo nos olhos só mostrava que ela tem tão pouco controle quanto ele.

Tiago a encarou, virando então o rosto com um olhar de canto para ela, a desafiando.

— Você não caiu na armadilha daquela ...sei lá, perturbada.

Helena inspirou fundo, fechando os olhos e descruzando os braços. Virou o rosto e olhou a sua direita, onde ficava a porta do banheiro feminino.

— É óbvio que não. – ela respondeu e depois respirou fundo – Conheço o tipo, esqueceu? – ela então o encarou erguendo a sobrancelha direita levemente.

Tiago a olhou confuso. Helena então ergueu as duas sobrancelhas para ele a colocou as mãos na cintura. Tiago franziu a testa e o nariz, erguendo as mãos com as palmas para cima. Helena piscou demorado e inclinou a cabeça para frente, fixando os olhos nele. Tiago balançou a cabeça levemente mostrando que não sabia do que ela estava falando.

Depois de quase um minuto de conversa sem palavras, um lendo o que o outro queria dizer. Helena resfolegou e olhou para o teto. De lá ela deve ter lido a resposta para rememorar o namorado.

Se aproximou dele e encostou o corpo dela no dele, aproximando os lábios dela dos dele e disse em voz sensual:

— Finalmente a comida chegou, estava faminta.

Tiago olhava para os lábios dela, um meio sorriso, e então franziu a testa tentando entender a frase, e quando se lembrou sorriu largo, sentindo o lufar da lembrança da primeira vez que viu Helena refresca-lo. Foi como se tudo o que passaram para chegar até ali passasse como um filme na cabeça dele. Já estava tão envolvido com Helena, que nem lembrava que um dia a achara tão ou mais perigosa que qualquer Stéfany Oliveira.

Helena percebeu que ele lembrara e esperou ele descer os lábios, ainda montados em um sorriso apaixonado, os olhos dele indo dos dela para seus lábios, enquanto ela respirava com dificuldade sabendo que ele ia beija-la.

E Tiago a beijou, tão terno e calmo, aproveitando cada sensação que os lábios dela provocavam nele, os sugando como se fosse a primeira vez que os experimentava, fazendo ela suspirar quando ele voltou a erguer o rosto, a olhando abrir os olhos para ele, enquanto ele trazia a mão esquerda para mexer no cabelo dela.

— Você está errada. – ele disse com a voz aveludada.

Helena apertou os olhos o mirando, e inclinou a cabeça para a sua direita.

— Que romântico você.

Tiago deixou um sorriso escapar, e puxou o ar entre os lábios, enquanto a abraçava na altura dos braços, prendendo ela a ele, gemendo.

— Sobre aquela garota ser como você. O que ela faz é...sei lá, pura inveja e maldade. – ele dizia enquanto balançava o corpo a fazendo se mover com ele, os olhos passeando pelo rosto dela, que ia ficando sério – O que você fez... – ele franziu a testa, de fato não havia sido esclarecido até aquele momento a razão dela ter atacado Leticia na época, além do fato de que ela não gosta da prima – Bom, você devia ter as suas razões. – Helena mordia o lábio inferior, sem conseguir encara-lo, ela passou os braços ao redor dele e deitou a cabeça no seu peito – O que eu quero dizer... – ele sentiu que falou algo errado – é que a tal Stefany faz isso porque gosta de ver os outros mal. Você não é assim. Eu sei.

Ele sentiu os braços dela se apertarem ao redor dele, e apertou os deles ao redor dela. Helena realmente não estava preparada para ser lembrada do que tinha deixado para trás para viver aquele final de semana com Tiago. Era como se fosse lembrada que aquilo era um sonho, e que ela teria que voltar a realidade onde Tião está forte e vindo na sua direção e ela está desarmada, sem saber como se defender.

Tiago pensava no que falar, ela parecia sensível. Mas não teve muito tempo de pensar, um banho de champanhe lavou o lado esquerdo de Helena, da altura do ombro para baixo.

Uma garota que pretendia parecer chocada com o que acabara de fazer, segurava um copo de chamapanhe virado para baixo e tinha a outra mão sobre a boca, olhando o resultado em Helena. Olhando para si mesma por um instante, a primeira reação de Helena foi balançar o braço molhado vigorosamente na direção da outra, a molhando com o que sobrava de bebida no seu corpo, a segunda foi ir na direção da outra para tirar satisfação. Tiago a parou. Por mais que não acreditasse na inocência da estranha, uma briga poderia colocar eles para fora dali.

— Calma Helena.

— Vadia. – ela esbravejou enquanto era segurada pelos braços por Tiago – Me molhou de propósito.

A outra já se retirara, fazendo Helena saltar tentando ir atrás dela quando a ouviu gargalhar já há dez metros de distancia deles.

— Ei... – Tiago a virou para ele, pegando o seu queixo e a forçando a mira-lo – Deixa ela. Eu tinha esquecido como tinha gente desagradável nessas festas. Um monte de imaturo com dinheiro dos pais para gastar.

Helena puxou o ar e fechou os olhos, passando a mão seca no cabelo, o jogando pro lado, empertigada.

— Que bom que você reconhece. Eu acho que esse lugar já chega para mim.

Tiago arregalou os olhos e se aproximou dela, fazendo bico, encostando a mão direita na cintura dela e logo largando quando a sentiu molhada.

— Não diz isso. – ele passou a mão direita no cabelo dela – A gente pode voltar para a nossa mesa e terminar a noite com um banho de champanhe mais apropriado.

Ele disse molhando os lábios e a mirando com os olhos famintos. Isso não era o suficiente para melhorar as coisas para ela, mas foi para faze-la repensar o nervosismo.

— Certo. Sem mais pista de dança e bar. – ela disse e então apontou o dedo indicador da mão direita pela parte do corpo molhado – Mas antes eu vou tentar enxugar ESSE banho de champanhe.

— Vai lá. – ele disse suave, descendo os lábios para beija-la, mas ficando no vácuo quando ela saiu abrupta – É, tá braba.

Tiago se virou para a pista e coçou o nariz abaixando a cabeça, não notando quando o tipo grande que ele empurrou na pista de dança se aproximou da porta do banheiro feminino.

Helena se apoiou no tampo de mármore da pia do banheiro, olhando para baixo, respirando fundo. Não queria ver a noite estragada, estava tudo indo tão bem. Aquele final de semana era para ele, iria focar em ser feliz por aquelas horas e quando voltassem eles...ela daria um jeito em tudo. Se ao menos aqueles playboys e patricinhas a deixassem curtir o momento em paz. A tal Stefany e depois a outra garota conseguiram tirar ela do sério.

Ela levantou a cabeça para ver seu reflexo no espelho, e então percebeu alguém atrás dela: Stefany, em pé, próxima da porta do banheiro a olhando, os braços cruzados e queixo erguido. Helena comprimiu os lábios até eles quase formarem uma linha e franziu a testa para o reflexo da outra. Aquela deu um meio sorriso, largou os braços e se aproximou de Helena, que se virou então de frente para ela.

— Pelo visto o book rosa já chegou nessa boate. – Stefany falou em tom alto – Esse país é uma vergonha mesmo, passa algo na televisão e todos já vão achando que é moda. Me diz, tá cobrando caro?

Helena deixou o queixo cair levemente com a acusação da outra, que chamou a atenção de outras três ou quatro garotas ali dentro, todas se virando e erguendo uma sobrancelha na direção de Helena, a julgando. Mas Helena não cresceu numa bolha, ela sabia como se defender.

— Isso depende da concorrência. Se você estiver cobrando mais barato, eu cubro a oferta.

Stefany apertou os olhos e torceu o rosto em outro meio sorriso.

— Não tem vergonha não, garota, vir em um ambiente que é para pessoas com estirpe, e de um nível que você claramente não é? Tiago definitivamente perdeu muito do bom gosto dele. Ao menos a Leticia tinha classe, não era vulgar. Sem graça, mas pertencia a isso aqui.

Helena ficou sem palavras. Não achou que ficaria assim. A menção de Leticia, talvez, ou o lançamento da duvida quanto a vestimenta dela, se não era vulgar para o lugar, aquela sensação de que realmente não pertencia ali. A outra completou o sorriso no rosto percebendo que acertou um ponto, e cruzou os braços se aproximando de Helena, intimidadora.

— Sai daqui, rato de esgoto, não é o seu lugar. Onde o Tiago te pegou? Na Augusta? Eu chamo um taxi pra você, logo logo você chega lá. – a outra continuou, fazendo Helena baixar a cabeça – Pode deixar que eu cuido dele pelo resto da noite.

Stefany não viu o primeiro tapa virando o rosto dela para o lado direito, mas Helena fez questão de dar a ela o tempo de ver o outro a caminho para jogar o rosto dela de novo para longe, e outro, e mais outro, enquanto a garota gritava e erguia os braços para se defender, indo para trás.

— Alguém me ajuda. – Stefany pediu.

As outras estavam ali só pela diversão. Umas duas puxaram o celular para gravar, inclusive.

Cansada de dar tapas que não alcançavam mais o rosto dela, Helena jogou as duas mãos sobre os cabelos soltos da outra, os puxando próximo da raiz e trazendo a cabeça dela para frente, a carregando até uma das cabines do banheiro. Duas garotas entravam no banheiro mas logo saíram quando outras duas saiam assustadas dali. Helena forçou Stefany a se ajoelhar em frente ao vaso.

— Quem foi que você chamou de rato de esgoto mesmo? – Helena perguntou para uma Stefany com os olhos arregalados olhando para a porcelana branca a sua frente, temendo para o resultado disso.

Helena a segurou forte pelo cabelo na frente do vaso, inspirou fundo e parou. A outra não valia a pena. Largando os cabelos da outra e batendo as mãos ela se virou, foi até a pia e lavou as mãos, enxugando as mãos enquanto olhava para trás, Stefany ainda ali ajoelhada, assustada e humilhada, notando as outras garotas rindo da situação dela.

— Agora se me dá licença. Eu vou cuidar do meu NAMORADO. – ela disse com muito orgulho para deixar claro que Tiago tinha dona – E com cuidar eu quero dizer tirar ele desse pardieiro.

Altiva, Helena empurrou a porta do banheiro deixando as outras a olhando com desdém. Ela olhou para onde deixara Tiago, mas não o viu. Olhou ao redor e de repente a vista dela foi totalmente bloqueada por um largo peitoral.

— Oi gatinha. Finalmente soltinha. – era o cara da pista, e sem cerimonia já chegava a mão direita dele no rosto dela, sendo abruptamente afastado – Que isso, achei que já tínhamos virado friends.

— Licença. – Helena pestanejou e tentou dar a volta, mas o cara a bloqueava – Eu preciso encontrar meu namorado, você poderia sair do meu caminho?

— Namorado? Que namorado? O cara da pista saiu agora mesmo com uma moça muito lindinha para o bar. Não tão linda quanto você, é claro...

O brutamontes voltou a tentar passar a mão no rosto dela, tendo Helena novamente erguido a mão para afastar, mas dessa vez ele a bloqueou segurando o seu pulso com a mão esquerda, e então segurando o seu queixo com a mão direita, fazendo Helena sentir o estomago revirar de nojo quando ele aproximou mais o corpo. Pessoas assim eram novidade para Helena. Um tipo armado, talvez, mas um animal daqueles num lugar daqueles, ela não sabia o que fazer. Mas ela não precisou fazer nada, Tiago veio do bar com dois copos de coquetel que ele jogou no chão e logo correu para o outro, batendo com as duas mãos abertas nas costas dele.

— O animal, larga a minha namorada!

O outro se virou devagar para Tiago, que estava vermelho, tinha a boca levemente aberta, a exemplo de Helena, mas era de fúria e não de surpresa, as narinas dilatadas, as mão em punho.

— A! Era você mesmo que eu estava querendo encontrar. – sequer deu tempo de Tiago erguer as mãos para soca-lo ou virar o corpo para desviar do soco que o outro desferiu, num piscar de olhos Tiago estava no chão com o soco que acertou seu olho em cheio – Agora que dei meu troco. Onde a gente tava lin...

Sequer deu tempo do cara terminar a frase, ou se virar para Helena, antes de perder o ar com a joelhada que ela deu no meio das pernas dele. Jogando o corpo para frente e colocando as mãos entre as pernas, o rosto vermelho, ele olhou para Helena, que segurou o seu queixo com a mão direita, deu um sorriso e com o cotovelo esquerdo vindo de cima para baixo, fez o nariz dele sangrar enquanto ele caia de joelhos gritando de dor. Sem piedade, ela deu um passo para o lado direito, mirou a costela dele e chutou ali, deixando agora ele sem ar e se estirando no chão, chorando de dor.

— Isso foi por não me respeitar, e por bater no meu namorado. Dá próxima vez procura alguém do seu tamanho!

Helena se voltou para trás, mas Tiago não estava mais no chão, ele já estava erguido, mão no rosto, nariz franzido.

— Desgraçado. – ele esbravejou enquanto chegava perto da namorada – E fique feliz que me pegou de surpresa. – Tiago gritou tentando salvar o pouco de dignidade que ele achou que ainda lhe restava.

Helena o olhava orgulhosa, quase sorrindo, a adrenalina correndo no sangue junto com o álcool. Eles se viraram para trás e encontraram mais dois tipos enormes, de terno preto e claramente irritados. Tiago se colocou na frente de Helena, erguendo o braço direito para protege-la.

— Desculpe, senhor, mas vamos ter que ...

— Eu não fiz nada, esse cara me bateu primeiro. – Tiago logo entendeu que eram os seguranças e foi tentar se explicar, dando um passo para frente, mão direita agora no próprio peito e a esquerda apontando para o outro no chão.

— Entendemos. Mas não é esse o caso. Precisamos retirar a sua acompanhante. Temos noticias de agressões.

Eles olharam para o cara no chão na mesma hora que Tiago. Helena franzia a testa indignada, mas então viu logo atrás dos seguranças as duas meninas que saíram correndo do banheiro e apertou os lábios, culpada.

— Ele provocou...- Tiago disse defendendo Helena.

— Deixa, Tiago. Acho melhor eu...

— Não, não mesmo Helena, eles não podem nos expulsar assim.

— Na verdade, senhor, apenas ela tem que sair...

— O que? – Tiago se virou para eles com as mãos na cintura.

— Apenas ela contrariou as normas da casa.

Tiago estava indignado, a boca levemente aberta. Ele olhou para trás e encontrou o olhar de Helena, que baixou os dela, por um instante envergonhada de ter colocado ele naquela situação. Fora o descontrole dela com aquelas pessoas que eram do mundo do Tiago que o colocou naquela situação.

Ver Helena baixar o olhar daquele jeito foi pior que qualquer soco na boca do estomago. Ele fechou a boca, comprimindo os lábios e chacoalhando a cabeça afirmativamente, olhando para os seguranças.

— É justo. – Tiago disse e se virou para socar o primeiro que viu, um tipo parrudo mas da altura de Tiago, que apenas ria da situação e agora colocava a mão no nariz sangrando – Pronto, agora também contrariei as normas da casa. – ele chacoalhava a mão doída no ar, se virou e pegou uma Helena com a boca aberta, pela mão direita – E pode riscar meu nome da lista, porque não volto mais para esse... – “pardieiro” Helena sussurrou enquanto eles passavam entre os seguranças – pardieiro.

Alguém bateu na porta do quarto de Tiago o acordando das lembranças. Passando novamente agua no rosto ele foi até a porta e a abriu para uma Magnólia curiosa.

— Ainda em casa, meu filho? – ela foi entrando no quarto – Dormiu demais é? – Tiago permaneceu na porta a observando entrando no quarto, cara de cansado – Bom, você deve mesmo estar cansado. Mas hoje tenho uma surpresa para você.

Tiago deu uns passos a frente, na direção dela, colocando as mãos na cintura, franzindo a testa.

Magnólia apenas indicou com a cabeça para ele olhar para trás.

— Oi, Tiago. – disse Leticia, em tom frágil, lenço na cabeça, acompanhada da sua enfermeira de olhar assustado para ele.

— Leticia... – ele disse calmamente, então olhando para a vó.

— Desculpe, meu filho, eu achei falta de educação deixar ela lá embaixo no meio daquela bagunça. E...bem, vocês já se conhecem muito bem para ter cerimonias. Entre menina.

Magnólia se dirigiu a porta, incentivando Leticia a entrar. A Bezerra abaixou a cabeça, tímida, e andou com passos titubeantes, apoiada pela Margarida, que olhava para os pés da menina, evitando o olhar da vilã.

Tiago não sabia o que fazer. Então deu dois passos até Leticia e pegou as mãos dela, liberando Margarida. Ele a levou até a beira da cama dele, a sentando lá.

— Vem. – Magnólia disse para a enfermeira – Deixa eles que os dois se entendem.

Margarida olhou para os dois sentados. Tiago olhou para ela assentindo com a cabeça enquanto passava o braço esquerdo pelo combro de Leticia, que mantinha a cabeça baixa. A enfermeira então suspirou e se virou saindo, evitando ao máximo olhar para Magnólia, aceitando o convite para esperar na cozinha.

Assim que a porta fechou, Leticia subiu o olhar e suspirou, a exemplo de Tiago, que se levantou e foi até a porta, dando duas voltas na chave. Ela acompanhou os movimentos dele, atenta, e deitou os olhos sobre ele quanto Tiago se ajoelhou na frente dela.

— Aceito. – ela disse com um olhar decidido.

Tiago sorriu e pegou as mãos dela beijando.

Notas finais
Um monte de S2 para vocês que ainda leem. Só continuo postando por saber que vocês continuam aqui.