A sobrinha da Helô
43 Helena ESTÁ EM Perigo!!!!
— Ruuuum. – Tiago emitiu um som que mais parecia o ronronar de um gato, abraçando Helena pelos ombros e a trazendo para ele, enquanto sorria sem mostrar os dentes, tão largo que os olhos quase se fechavam por completo – Eu tenho que ir no noivado do Antonio. – ele lamentou, a soltando, permitindo que Helena erguesse a cabeça para ele, pousando o queixo no seu peito, o observando com os olhos brilhando – E já devo estar bem atrasado. Certeza que não quer ir comigo? – ele perguntou com a voz doce e sedutora, passando a mão direita pelo rosto dela e enterrando os dedos nos cabelos, ainda úmidos, da nuca de Helena.
Ela ergueu as sobrancelhas, sorrindo assim como ele, e apenas balançou a cabeça afirmativamente, sem tirar o queixo do peito dele.
Tiago abriu a boca num sorriso cheio de dentes e levantou as sobrancelhas, se sentando na cama, a erguendo e segurando o rosto dela pelas mãos.
— Você vai comigo?
Helena soltou outro risinho.
— Não, seu bobo. Eu tenho certeza que não quero ir no noivado. — ele murchou o sorriso, olhou para o lado com cara de triste e suspirou – Sem chantagem emocional, porquinho! – ela apontou o dedo indicador para ele.
Tiago voltou o rosto para ela fazendo cara de inocente, as sobrancelhas erguidas, mas o olhar de moleque feliz o denunciava.
— Não é chantagem. Eu fico realmente triste de não ter você comigo. – Tiago disse voltando a sorrir, olhando dos lábios dela para os olhos, sincero, os polegares fazendo movimentos circulares nas bochechas dela – Em qualquer ocasião. – ele baixou o queixo a olhando significativo e então beijou a bochecha esquerda dela – Numa festa. – beijou a bochecha direita – Num almoço. – beijou a testa, Helena rindo, contida – Num jantar. – ele beijou e mordiscou o lóbulo da orelha esquerda dela – No trabalho. – Tiago desceu e beijou o pescoço, enquanto Helena abria a boca num sorriso bobo “Hum...”— Indo e voltando do trabalho. – ele começou a deitar ela para o seu lado esquerdo, fazendo um colar de beijos do ombro esquerdo até o ombro direito, provocando mais risos na namorada – No banho...
— Ah, no banho eu acredito. – ela falou rindo, segurando o rosto dele pelas mãos, tirando os lábios dele do caminho para o peito.
— Até no sonho. – ele suspirou e, se apoiando nos cotovelos ao redor dela, passou a mão esquerda pelos cabelos da namorada – Se você não tá nos sonhos, eles parecem pesadelos. – Tiago passou o olhar dos fios de cabelo dela para os olhos, beijando o punho da mão direita dela, ainda em seu rosto – Eu falo sério. – ele disse, notando ela com as sobrancelhas erguidas, e mordendo o lábios inferior, o olhar risonho para ele.
— Eu sei. – ela respondeu, acariciando o rosto dele.
— Sabe é? – Tiago perguntou pendendo a cabeça para a direta, num sorriso aberto.
— Sim. – ela levou as mãos para o cabelo dele, massageando e suspirando.
— E como sabe? – Tiago ergueu o tronco apoiando as mãos na cama, esperando a resposta.
— Sabendo. – ele apertou os olhos e abriu a boca para a resposta dela, contendo um sorriso, fazendo Helena suspirar e ficar com expressão mais séria, a voz quase falhando – Essa casa também não tem a menor graça sem você. Fico o dia inteiro te esperando.
Tiago podia jurar que viu o rosto dela ficar mais corado. Mas não parou muito tempo para ter certeza, pois a puxou pelas costas, para um beijo, deitando sobre ela, puxando o ar, Helena o envolvendo com os braços pelo pescoço, o trazendo o máximo possível para si, a ponto de os ombros envolverem o rosto dele, enquanto ele sugava os lábios dela de modo intenso, mas calmo. Ele afastou o beijo, a observando abrir aos poucos os olhos e devolver o sorriso apaixonado dele.
— Vem comigo, vai. – ele pediu com a voz baixinha, olhando para os lábios dela.
— Eu queria ter mais força de vontade para negar os seus pedidos. – ela sorriu tomando o rosto dele com as mãos, o vendo sorrir – Só que eu realmente não vou me sentir bem lá.
— Eu faço você se sentir bem. Fico do teu lado o tempo todo...
— Eu sei, Tiago. Mas me conheço. Depois de como fui expulsa da ultima festa eu não vou conseguir me sentir confortável.
— Helena Martins, tão corajosa quando o assunto são tipos mal encarados e bandidos armados, com medo de um punhado de gente com taça de champanhe.
— Os tipos mal encarados e bandidos eu sei lidar, é só bater neles e despistar. Mas aquela gente me julgando e olhando para mim...Não é fácil. E nem justo com o seu amigo. A noite é dele e da noiva. – ele respirou fundo, vencido, fazendo bico e olhando para baixo, Helena o imitando e puxando o rosto dele para ela – E por que não fazemos diferente? Por que você não fica aqui comigo? – ela desceu as mãos do rosto para o ombro dele, e depois para as costas o trazendo mais para ela – Eu prometo fazer uma festa bem mais legal.
Ele sorriu para ela, os olhos voltando a brilhar. Helena o empurrou para o lado direito dela e deitou-se sobre ele, afundando as mãos nos cabelos do namorado.
— A casa vai estar vazia...exceto pelo seu avô e o enfermeiro. Mas acho que não vão atrapalhar, né? – ela beijou o maxilar dele e subiu os lábios até a boca de Tiago, mordendo o lábio inferior e puxando.
Ele passou as mãos pela cintura dela, suspirando e sorrindo, subindo elas para as costas de Helena, tomando os lábios dela com os dele.
— Eu tenho certeza que a sua festa vai ser muito mais divertida. E eu quero muito aceitar. Mas...
— Mas.....?
Ela se sentou sobre ele e o trouxe pelos ombros, o sentando, puxando a cabeça dele para trás pelos cabelos, o fazendo abrir a boca enquanto descia os lábios para um beijo invasivo, que o fez puxar o ar e a abraçar forte pela cintura, gemendo e se inclinando para frente, olhando perdido, quando ela se afastou.
— Mas...? – ela voltou a perguntar, segurando o queixo dele para ela, aproximando os lábios, respiração ofegante.
— O que? – ele perguntou olhando para os lábios dela, que sorriu e ergueu as sobrancelhas, fazendo ele se lembrar da festa – Mas que se dane!
Tiago se ergueu da cama, com ela na cintura e a jogou sobre os travesseiros, subindo na cama com os joelhos e puxando-a pelas pernas para ele. Se deitando então sobre ela, a língua já exposta sobre o lábio inferior, descendo pela boca já aberta de Helena que soltou o ar, gemendo e arqueando o corpo, correspondendo o beijo e sentindo a mão direita dele descer pelo corpo dela até a coxa esquerda e a levantar, aproximando ainda mais os corpos, a mesma mão, agora, acariciando e apertando a coxa e nádega dela, enquanto Tiago colocava a mão esquerda no rosto de Helena, o segurando e abrindo mais a boca, tomando os lábios dela, os sorvendo com urgência, Helena com as unhas cravadas no ombro dele, o puxando para si.
Ele desceu os lábios para o pescoço dela e sugou um ponto bem abaixo do queixo de Helena, a fazendo sorrir.
— Nós estamos bem, certo? – ele perguntou sério, levantando a cabeça, sem ar.
Helena pegou o rosto dele pelas mãos e suspirou, balançando a cabeça afirmativamente, sorrindo, com os olhos brilhando. Tiago suspirou, beijando os lábios dela de modo delicado, os puxando para ele.
— Você vai me esperar?
Ela curvou os lábios para baixo lamentando diante da clara confirmação de que ele ia pra festa, e então balançou novamente a cabeça fazendo que sim.
— Sempre que você sai eu fico te esperando. Por que hoje seria diferente?
— Você fica sempre me esperando?
— Sempre! – ela não o encarou, olhando para os lábios dele, mordendo o lábio inferior, a respiração difícil e a voz falhando.
Tiago suspirou e baixou o rosto para olhar nos olhos dela, segurando o queixo da namorada com a mãos esquerda.
— Que bom. – ele deu um meio sorriso – Porque o meu maior medo é chegar e você não estar mais aqui. – ele engoliu em seco.
— Pois o meu é você não voltar. – ela aproximou o rosto dela do dele, fechando os olhos e o acariciando com a face – De o Tião fazer algo...ou você só não voltar.
Sem ar, Helena deixou as palavras subirem do peito, livres, transmitindo o sentimento dela junto com elas, a voz bem baixa. Tiago, também de olhos fechados, passava o rosto pelo dela, descendo os lábios até os da namorada e os prendendo. Soltando a respiração presa, ele sugou o lábio inferior dela, e abriu a boca, buscando o superior, Helena o correspondendo, abrido a boca e pedindo mais.
— Então... – Tiago falou ainda com os olhos fechados, os lábios sobre os dela – A gente vai fazer assim. Eu sempre volto, você sempre me espera. – ele então abriu os olhos.
Ela abriu os olhos a exemplo dele, mantendo o olhar intenso de Tiago e suspirou balançando a cabeça, concordando e sorrindo enquanto puxava o rosto dele com as mãos, para mais um beijo calmo.
Tiago gemeu afastando o beijo e saindo devagar para a beirada da cama, se sentando e tomando coragem para sair. Se virou e beijou o joelho da perna esquerda dela. Helena o observando, sorrindo.
Helena se virou para ele, apoiando a cabeça na mão esquerda, erguendo-se sobre o cotovelo.
— Você não precisa voltar se não for, sabia? – ela provocou enquanto ele se levantava e pegava as calças, vestindo-se desanimado.
Ele olhou para ela e sorriu, procurando a camisa e paletó, que ela tirara de uma só vez e jogara no chão. Voltou para a cama, Helena se deitando de costas e abrindo os braços. Ele se inclinou, um joelho sobre a cama, e a beijou.
— Nem vou te responder. – ele falou afastando o beijo, o olhar malicioso.
Ele pigarreou e sentou na cama, mexendo no paletó, até encontrar uma corrente de ouro em um dos bolsos.
— Aqui. – ele tinha o objeto na mão fechada, olhando cheio de emoção para Helena – O seu presente de uma semana de namoro, oficial.
Helena franziu a testa e soltou um riso, quando ele se aproximou com a correntinha aberta e a fez se inclinar para frente, enquanto fechava a mesma no pescoço dela, passando a mão esquerda pelo presente e pele da namorada, novamente deitada.
— O que é isso? – ela perguntou o observando a observar.
— É uma correntinha de Nossa Senhora.
— Ah é?
— É. – ele respondeu um pouco desconcertado – Pra ver se te protege enquanto eu não estou por perto.
Helena não sabia o que dizer e então se calou, suspirando. Tiago sorriu para ela e se inclinou beijando a medalhinha, no peito dela, a fazendo prender a respiração. Ele então olhou para ela e a puxou pela nuca com a mão direita, a beijando.
— Te amo.
Ele disse baixinho, afastando os olhos e a mirando intenso. Helena fechou os olhos e o puxou para um beijo, puxando o ar, passando os braços pelos ombros dele e o segurando o mais forte que podia. Afastou o beijo e o olhou nos olhos, tentando dizer que queria dizer, mas não tinha coragem. O peso de tudo o que passou a puxando sempre para baixo. Tiago sorriu, deu um beijo estalado e se retirou, olhando para ela da porta e sorrindo, antes de sair, só de calças, camisa, paletó, gravata e sapatos na mão.
Helena se virou para o outro lado, abraçando o travesseiro e pegando com a mão esquerda a medalhinha, mordendo o lábio inferior e sorrindo.
Meia-hora depois, quando percebeu que todos haviam saído, Helena vestiu-se rapidamente e pegou algo na mochila, sorrindo. O presente que ela comprara para Magnólia durante a viajem e agora poderia colocar no lugar devido para a surpresa que planejara.
Pé-ante-pé, ela foi até o quarto da matriarca. Entrou usando seu estojo de ferramentas, e se trancou lá, dando pulinhos e gritinhos. Assim que terminou, ela saiu, usando novamente as ferramentas para trancar a porta.
— O que você está fazendo? – uma voz feminina atrás de Helena a questionou, fazendo a sobrinha da Helô se erguer rapidamente, deixando as ferramentas caírem.
— Por Deus, Analu! – ela falou colocando a mão no peito, coração disparado – Você e seu irmão tem o dom de andar igual a gatos!
— Puxamos da mamãe. Fala, Helena, o que tava fazendo?
— Ah! – ela notou a outra de braços cruzados e olhar apertado sobre ela – Nada! Eu ouvi um barulho e fui ver o que era.
— Sei! Cuidado com a minha avó, eim Helena.
— Ou ela que se cuide comigo. – Helena se permitiu sorrir.
— Não, Helena. Você se cuida com ela. Tem bem mais coisa sobre ela que você não sabe. Mas se soubesse, não chegaria nem perto da nossa família.
Helena franziu a testa e abriu a boca. “Como AnaLu afirma tão bem que sei coisas da avó dela?” Mas antes de perguntar, levou outro susto com a sobrinha de Pedro. A garota deu um passo a frente e pegou a medalhinha que caia sobre o vestido de Helena, observando algo nela.
— Onde você conseguiu isso?
— Não roubei! – Helena deu um passo para trás, tirando a medalhinha das mãos de AnaLu, ofendida.
— Você sabe que o Tiago te ama, não sabe, Helena?
Helena arregalou pela terceira vez seguida, os olhos para AnaLu. Então respirou fundo pensando na pergunta.
— Porque ele te ama. E é bom você não fazer ele sofrer.
— Eu nunca faria ela sofrer. – Helena ergueu o queixo para a garota.
— Então se preserva. Não se coloca em perigo. Eu estou sacrificando muita coisa para ninguém mais da minha família sofrer. Espero que você faça o mesmo pela sua. Que agora é a nossa.
AnaLu encerrou seu discurso apontando para a medalhinha e dando as costas, deixando Helena ainda mais intrigada.
— Espera aí. Me explica isso!
— Sem tempo Helena. Tenho que me arrumar para o noivado e pedir um taxi!
— O que? E o Pedro? – Helena do nada lembrou que ele viria junto.
— Foi chamado no porto. Parece que viram uns tipos rondando o veleiro dele. – AnaLu respondeu se virando para Helena já na porta do seu quarto, a mantendo aberta – Está vendo o que eu tô te dizendo? Tá todo mundo em perigo na nossa família!
AnaLu fechou a porta na cara de Helena. Não a abrindo mesmo com as batidas fortes. Logo o enfermeiro de Fausto apareceu no corredor pedindo silencio e Helena saiu. “Assim que Tiago chegar eu conto para ele e pressionamos essa daí.” Ela pensou. Desde a viajem com Tiago que não existia mais planos dela. Agora era deles. O que quer que ela fosse fazer dali para frente, seria sempre com ele.
Tiago observou o cenário da festa, desolado. O amigo o recebera efusivo.
— Antes tarde do que nunca! – Antonio quase gritou, levantando os braços. Magnólia pigarreou do lado de Tiago – Quase achei que você não vinha. E o resto da família?
— Bom... – Tiago coçou a cabeça – Meu avô não pode sair, a AnaLu vem com o tio Pedro, Luciane e papai já devem estar vindo direto da campanha, a Tia Vitória, você sabe...e pelo visto também já sabe da minha irmã Camila. – ele completou olhando para o centro do salão, sorrindo para a irmã que estava de braços dados com o namorado.
— Mas é um absurdo! – Magnólia esbravejou – Um dia depois de fugir de casa, ela tem a audácia de aparecer em evento de família!
— Vó. – Tiago a segurou, antes que fosse em direção da irmã – A festa é do Antonio, e só ele pode dizer o que agrada ou não. – ele a repreendeu, a fazendo dar um sorriso amarelo para Antonio e se retirar com a cabeça erguida em direção a uma bandeja com uísque.
— A sua família é cada vez um retalho mais interessante. Mas e a sua futura família? A quantos anda?
Tiago jogou um olhar rápido sobre o amigo e não segurou um meio sorriso, fugindo da pergunta.
— Onde está o bar? – ele perguntou.
— Vem aqui, padrinho. – Antonio o guiou até o bar – Olha que linda. – ele suspirou quando pegaram cada um a sua bebida, apontando a sua para a noiva, no centro da festa, rodeada de amigos e parentes, ignorando Magnólia e a mãe dele no outro canto da sala, confabulando e olhando com reprovação – De longe a noiva mais linda da cidade. Não, do Estado. Pra quê ser humilde? Do mundo!
Antonio sorria e batia nas costas do padrinho, o fazendo derrubar a bebida.
— Você está muito feliz. Isso me deixa feliz. – Tiago falou olhando emocionado o amigo e batendo no ombro dele.
O amigo apenas sorriu sem mostrar os dentes, feliz, fazendo que sim e olhando para Tiago. Os dois então notaram o momento sentimental e pigarrearam, tomando um gole da bebida.
— E você? – Antonio logo emendou outro papo – Quando vai ter a noiva mais linda do mundo?
— Assim que a Ruth tomar juízo e te largar! – Tiago brincou, rindo.
— Não brinca com coisa séria, Tiago. Ela quase desistiu hoje cedo. Eu queria que ela notasse o quanto o que sinto por ela é verdadeiro. Ela parece que não acredita que pode ser amada.
— É... – Tiago concordou com a frustração do amigo.
— Pelo visto parece que estamos no mesmo barco.
Tiago franziu a testa fingindo não entender. Antonio o desmontou apenas erguendo uma sobrancelha.
— Helena é jogo duro.
— E você não quer perder esse jogo.
— Não...Eu acabei dizendo que amava ela, hoje.
— Pela sua cara foi algo muito tenso e muito bom.
— É.. – Tiago cruzou os braços lembrando da briga e sorriu lembrando da conciliação – Ela é toda travada por conta do que aconteceu com ela. Não sabe lidar com sentimentos.
— Que belo casal vocês formam, eim! Ela não sabe lidar com sentimentos, você não sabe entender.
Tiago se virou de braços cruzados para o amigo.
— Não entendi.
— Quanto tempo você ficou se enrolando dizendo que amava as outras namoradas até notar que não amava? – Tiago revirou os olhos e soltou os braços voltando a pegar a bebida – E quanto levou para assumir que sentia algo pela Helena? Você gosta de se enganar, Tiago. Não admira a garota ter receio.
— Isso, vai lá! Me ferra de novo. Foi você que pôs na cabeça dela que eu amo fácil demais, que bem lembro.
— Eu só comentei algo que era visto por todos. – Antonio ergueu a mão livre – Mas conta, qual foi a reação dela? Porque não parece ter sido de todo ruim. – ele apontou com o dedo indicador da mão direita, que segurava o drink, para uma mancha vermelho forte, quase roxa, perto do colarinho, no lado esquerdo do pescoço de Tiago.
— É. – Tiago sorriu para o amigo – Ela resistiu, a gente brigou, mas eu convenci ela.
— Você convenceu que amava ela?
— Bom. Por hoje sim. Vamos ver como vai ser amanhã. – ele ergueu as sobrancelhas para o amigo e terminou seu drink num gole só.
— É. Nisso você está certo. – ele suspirou e olhou para Ruth, que sorria na direção deles – Temos que mostrar todos os dias que amamos elas. Eu, por exemplo, vou sequestrar minha noiva assim que terminar a festa. Uma lua de mel antes do casamento. Desculpe se voce me inspirou com sua fugida no ultimo final de semana. Sou um copiador descarado.
Tiago riu e apoiou a ideia do amigo.
— E ela? – Antonio então perguntou, após uns segundos dos dois rindo e falando da viagem dos noivos – O que ela disse sobre os sentimentos dela por você?
Tiago respirou fundo e se virou para o bar pedindo outra dose. Estava feliz achando que o papo tinha acabado, mas pelo visto Antonio não desistia.
— Helena não é de expressar o que sente com palavras. Pelo menos não as comuns. Mas eu sei que ela me ama, e para mim é o suficiente.
— É mesmo?
— Sim.
— E que palavras são essas?
— Palavras, ações... ela mostra que sente por mim o mesmo que sinto por ela. Na viajem... – eles foram interrompidos por Ruth Raquel.
— Me desculpa, Tiago, mas acho que tá na hora de anunciar algo. Todos já chegaram.
— Claro, meu amor!
Antonio se aprumou, colocando a bebida no balcão, se dirigiu a centro da sala, levando a noiva com um braço sobre os ombros, beijando a sua testa e chamando o amigo para acompanhar eles. Ele chamou a atenção de todos e Tiago viu Heloisa se aproximar e a cumprimentou feliz, abraçando, logo vieram os pais de Antonio, e parentes de Ruth Raquel. O amigo fez o pronunciamento com os olhos brilhando, aproveitando para elogiar a noiva a cada frase. Ruth Raquel parecia tentar conter a emoção, mas quando ele finalmente colocou o anel em seu dedo, se ajoelhando, ela o puxou para um beijo que gerou gritos efusivos de amigos e parentes, e olhares reprovadores da mae de Antonio e seus convidados.
Ruth Raquel não desgrudou mais dele o resto da noite. Muito mais carinhosa do que Tiago já vira, ele acompanhou os dois pela festa por alguns minutos, observando a felicidade do amigo. Suspirou. “Seria idiota pensar em uma festa de noivado com a Helena?” Antes de ele responder isso notou que era observado e virou o rosto para o lado.
Heloisa tinha um largo sorriso e um brilho maternal nos olhos.
— Quanto eu ganho por adivinhar em quem você está pensando?
Tiago soltou o sorriso e depois tentou contê-lo, apertando os lábios.
— Pelo seu jeito, acho que acertei. – ela riu, esfregando a mão sobre o braço dele, carinhosa – Um brilho assim nos olhos só de pensar nela. Minha sobrinha tem muita sorte.
Ele apenas colocou as mãos no bolso e ergueu rapidamente as sobrancelhas, tentando não ficar desconcertado com a ex-futura-sogra lhe parabenizando por estar apaixonado pela sua sobrinha.
— Então... – ele resolveu cortar o assunto – Antonio convidou você para madrinha?
O sorriso de Heloisa murchou e ela pigarreou, olhando para baixo, observando o vestido cor de vinho, cintilante, que chegava pouco abaixo do joelho, alça fina combinando com a sandalinha na cor nude.
— Não. Eu estou – ela ergueu o queixo, olhando para longe – representando a real madrinha.
— Eu... – Tiago fechou os olhos rapidamente e respirou fundo notando que, tentando fugir de uma situação desconcertante, ele gerou outra pior – Nossa. É a Leticia, não é?
— Sim.
— É. Não poderia ser outra. Ele tem a Leticia como uma irmã. – os dois se calaram por uns segundos, observando nessa hora Analu chegar na festa, indo até Anotnio, sorrindo nervosa para o irmão – E por que ela não veio? – ele resolveu não segurar mais a pergunta.
— Aaah... – Heloisa não quis falar. Sabia que tudo era um plano para comover Tiago e faze-lo voltar com Leticia, mesmo que para os seus últimos dias de vida.
— Por minha causa, não é? Acho que ela ainda deve estar magoada.
— Tiago, não se precipita.
Ele ia abrir a boca para responder, quando sentiu o celular vibrar no bolso da camisa branca, sob o paletó azul marinho. Tirou o aparelho e viu que tinha mensagem de um numero desconhecido. Mas antes de abrir a mensagem um silencio correu a sala, e Heloisa se virou para a porta com as mãos sobre a boca. Tiago deu um passo a frente para tentar ver o que todos olhavam assustados. Na entrada estava Tião, tentando disfarçar um sorriso satisfeito, ao seu lado esquerdo uma mulher de branco, segurando a sua frente uma cadeira de rodas, onde uma Leticia, em um vestido azul florido, modesto, e que deixavam a mostra a sua magreza e ossos saltados, além do lenço na cabeça e um olhar profundo, estava sentada. Os olhos dela marejados diante da reação das outras pessoas. Parecia humilhada, além de muito doente.
Tiago ficou parado, com boca aberta. O olhar dele encontrou o de Leticia, que apenas abaixou a cabeça, com vergonha, deixando uma lágrima escorrer.
Heloisa, saindo do choque, se aproximou da filha, chegando segundos depois de um Bruno, que veio do meio dos convidados, os empurrando e encarou Tião.
— Isso já é passar de todos os limites!
O vilão apenas sorriu com desprezo e deu um passo a frente, deixando o médico para trás, desabotoando um botão do seu paletó escuro, com camisa cinza escuro por baixo. Tornando a sua figura mais macabra do que já era.
Bruno pensou em avançar sobre ele, mas Leticia estendera a mão direita na direção dele, alcançando a sua mão.
— Não...briga com ele. Eu que insisti. — ela assumiu a culpa, com a mãe já abaixada próxima dela, indignada.
— Por que você mente, Leticia? – Bruno respondeu a olhando firme, mas terno.
Ela não respondeu, apenas baixou o olhar não podendo sustentar o de Bruno. Ele se arrependeu de ter sido duro com ela e se abaixou, ainda segurando a mão dela.
— Eu achei que não fosse mais te ver. Você me largou. – ela falou baixinho, olhando para o próprio colo, observada pela mãe e por Bruno, que segurava a mão dela.
— Eu não te larguei. Eu só não podia mais te ver se maltratar assim. Você se largou, Leticia, e está largando todos nós. Te deixar foi uma forma de lutar por você.
Leticia tentou disfarçar a emoção e satisfação pelo que ouviu, mantendo o máximo possível o olhar sobre o colo, e então o erguendo para Bruno, quando ele beijou a sua mão.
Tião se regozijava com o efeito da entrada surtira. De fato esperar tanto tempo para mostrar Leticia tão mal fora uma ótima ideia. Tiago tinha uma expressão impagável. Se virou para ver a filha, e notou a cena de Bruno, se irritando.
— Que lindo. O médico dedicado. Você não para de trabalhar um instante, não é?
Bruno tentou ignorar Tião, mas Leticia já puxava a mão.
— Não. Estou o tempo todo – ele se ergueu encarando Tião – buscando livrar os meus pacientes do mal.
— Trabalho difícil. – Tião respondeu sem abaixar o queixo.
— É, mas o resultado é sempre muito bom. – Bruno falou, olhando ao redor e depois para Leticia, e saindo para o meio dos convidados, narinas dilatadas e lábios apertados.
Tiago nem notou o médico, estava tão mexido com a visão de Leticia, se possível, pior do que seus piores dias de tratamento. “Isso não pode ser fingimento.” Ele pensou no que Helena dizia sobre Leticia usar sua doença para manipular a todos. Mas ali estava ela, em um estado que não se alcança com teatro, apenas.
— Como você faz isso com a minha filha? – Heloisa se ergueu, encarando Tião.
— Nossa filha.
— Minha filha! – ela respondeu rápido, baixando então o olhar e colocando as costas da mão direita sobre o nariz – Olha ao redor, Tião, estão todos encarando ela. Você quer deixar ela ainda pior? Não basta todo o ataque psicológico diário? Quer submeter ela a ...mais isso?
— Heloisa, você é sempre tão dramática! O que estou fazendo é justamente uma recomendação do seu querido doutor Bruno, que disse para ela sair mais vezes.
— Toda vez que eu penso que não tem como sentir mais nojo de você, de alguma forma você cava mais fundo o poço de desprezo que tenho e se afunda dele.
Tião apenas deu um meio sorriso. Passou por Helô e foi até Leticia.
— Então, querida? Quer ir adiante? Vamos nos misturar?
Leticia prendeu a respiração e apenas mexeu a cabeça afirmativamente e obediente. Tião indicou para a enfermeira passear entre os convidados. Para seu desgosto ela tomou rumo bem distante de Tiago.
Mas o neto de Magnólia não se segurou por muito tempo, e assim que Antonio e Ruth Raquel terminaram de cumprimentar Leticia, ele se aproximou.
Todos olharam para ele, enquanto Leticia se mantinha tímida, cabeça baixa. Ele respirou fundo e se agachou próximo a cadeira dela.
— Eu posso conversar com você? A sós? – ele olhou ao redor.
Leticia fechou os olhos e balançou a cabeça afirmativamente. Olhou para trás e notou então que a enfermeira nem estava mais lá. Tiago então se prontificou e a guiou com a cadeira para o esritorio de Gigi, sob o olhar aprovador de Magnólia, Gigi e Tião.
— Para alguma coisa esse noivado está me servindo. Tião deve estar dando pulos. – falou Gigi, tomando o seu champanhe, ao lado de uma animada Magnólia.
A matriarca então notou Camila pegar duas taças de champanhe e ir em direção de Tiago e Leticia, possivelmente para estragar a conversa. Magnólia se adiantou e a interceptou.
— Onde você pensa que vai, pirralha?
— Onde eu bem entender, Dona Má! Não tenho que te dar satisfações.
— Você não tem vergonha na cara não! Depois de tudo o que aprontou, aparecer aqui? Agradeça seu irmão ter a bondade de não pedir para te expulsarem da festa.
— Primeiro, velha! Não é sorte o Tiago não ser um tipo cruel e infeliz como você! É porque só parte do sangue dele é o mesmo que o seu. Graças a Deus nós puxamos mais a mamãe que ao papai. Segundo, quem pode expulsar você daqui, sou eu. Porque não sei se voce notou, mas é noivado da minha futura titia. Logo, eu sou da família, e você uma arroz de festa, sem a menor vergonha na cara de vir na aba do netinho. Agora me dá licença que tenho que ir ver meu irmãozinho, de quem estou morrendo de saudades.
— Não mesmo. – Magnólia segurou o braço dela, fazendo parte do champanhe cair no vestido – Voce não tem noção do perigo?
— O que? Vai me ameaçar, agora? A senilidade não tá deixando a vovó nem disfarçar mais? O que vai fazer comigo, vovó? Me jogar da escada, me intoxicar com medicamentos, vai mandar capangas atirarem do meu carro, ou forjar um acidente de carro igual fez com a minha mãe?
Magnólia arregalou os olhos e soltou a neta.
— Isso mesmo. Faz tempo que eu venho notando você, Dona Má. Você pode até enganar o Tiago que sempre se achou muito importante por ter toda a atenção do vovô e da vovó, mas eu sei bem com quem tô lidando. E faz tempo que venho desconfiando do que você fez. Aumentar a dose de calmantes para tentar matar a tia Vitória foi a gota d’agua para mostrar que as minhas duvidas estavam corretas. – Camila aproximou bem o seu rosto do da avó – Eu posso não ter as provas ainda, vadia, mas até lá vou dar um jeito de você pagar por tudo.
Magnólia manteve o olhar frio sobre a neta. Que se afastou, olhou o copo meio vazio e foi até a cozinha trocar o copo e tentar limpar o vestido.
No corredor para a cozinha, AnaLu seguia Margarida.
— Ei! – ela sussurrou, chamando a atenção da outra – Tá fugindo do que?
A enfermeira se virou surpresa, e depois apertou os olhos para a outra, se aproximando.
— Do que você acha? Do seu irmão!
— Por que?
— E se ele me reconhece?
— Até parece! Tiago não te vê desde muito pequeno. E você mudou algumas coisas.
— AnaLu, mãe é mãe. Eu reconheço o olhar dos meus filhos em qualquer lugar. Até o seu. Por mais nova que você fosse quando...
— Tá certo. – elas pigarrearam quando um garçom saiu da cozinha levando uma bandeja de canapés, passando por elas – O que você está fazendo aqui?
— Tião insistiu para Leticia vir. Como Bruno se demitiu, só tinha eu para acompanhar. O plano dele está indo muito bem. Você viu a cara do seu irmão? – ela falou com os olhos angustiados, não só por constatar o plano de Tião dando certo, mas pela imagem de Tiago sofrendo ao ver a menina daquele jeito – Nós estamos ficando sem tempo, AnaLu. Temos que fazer algo para proteger ele.
— Não se preocupa. Duvido que Tiago seja imbecil de casar com a Leticia. Ainda mais agora. Ele está muito envolvido com a Helena.
Carmem olhou para a filha, intrigada.
— Você acha mesmo?
— Acho! Hoje tive certeza. Por maior que seja a pena que ele sinta pela Leticia, ele não vai fazer nada que magoe Helena. – ela se aproximou da mãe – Ao menos isso nós ainda temos, mãe, apesar de termos perdido a ajuda dos outros. Só temos que voltar a manter contato com ela para garantir isso. Talvez, dessa vez, ser totalmente honestos.
— Filha. Você também achava que ele estava apaixonado pela Isabela, e olha no que deu.
— Eu sei. E ele era apaixonado pela Isabela. Mas a Helena ele ama. Eu sei do que tô falando. Conheço meu irmão. Ou conhecia. Ele mudou muito por ela.
— Tomara. – Carmem nem olhou para os lados antes de abraçar a filha – Eu ando tão preocupada. Todas essas brigas. A gente perdendo o apoio dos outros, você e Elio escondendo as coisas. Eu tenho sentido como se o perigo rondasse cada vez mais os meus filhos e novamente eu não posso fazer nada. Tantos anos lutando para proteger vocês do Tião e da Magnólia, e agora de novo isso!
— Não se preocupa, mãe, logo não vai ter mais com o que se preocupar. Pelo menos não quanto a minha vó.
— O que você...
Carmem não conseguiu terminar a pergunta, assim que ela escutou a filha, abriu os olhos e notou a presença de Camila. Com duas taças de champanhe na mão, a outra filha olhava com a boca levemente aberta, os olhos com lágrimas já caindo.
AnaLu notou a expressão da mãe e se virou, vendo Camila passar de abalada, para indignada e finalmente furiosa.
— Camila... – AnaLu se virou para a irmã, erguendo as mãos.
— Mãe? Filha? – Camila só disse isso, o rosto comprimido de dor – Não se aproxima de mim! – Camila gritou vendo AnaLu dar um passo na direção delas. – Eu tô com nojo de vocês. – ela se virou, largando as taças no chão e saiu correndo da festa, sendo seguida por Robson.
— Deixa. – AnaLu segurou a mãe para não ir atrás de Camila, a mantendo no corredor –Eu sei o que ela tá sentindo. Vai levar um tempo.
Tiago levou Leticia até próxima a mesa, foi para a frente dela e se agachou, pegando a mão dela, a olhando preocupado e compadecido.
— Leticia...- ele não sabia escolher as palavras, e ela manter o olhar sobre o colo não ajudava – Eu nem sei o que dizer.
— Não diz nada.
Ela mantinha os olhos sobre o colo. Quando o pai a convencera de deixar de se tratar para convencer Tiago a voltar com ela, aquele era o momento que mais aguardava. E agora ela só conseguia se sentir mal. O que acabou sendo justamente o que a deixou mais sincera.
— Eu devia ter mantido contato, para saber se você estava bem. Eu achei que me afastar era o melhor, que você se desprenderia dessa ideia de nós dois. Me desculpa. Não se abandona um amigo.
Leticia levantou o olhar para ele, fungando.
— O que você disse?
Tiago sorriu para ela, pegando o seu rosto com a mão direita.
— Amigos. A gente é amigo, apesar de tudo, não é?
— Tiago, eu fui tua noiva. Duas vezes.
— O que prova que algum afeto existia. Leticia, sempre quis o seu bem. Você, sua mãe e o Edu, foram quase minha família. Tirando o seu pai, que, particularmente, quero muito longe de todos nós, eu tenho muito carinho por todos da sua família.
Leticia apertou os olhos. Um lampejo de fúria passando por ele.
— Até a minha prima?
Tiago engoliu em seco, soltando o rosto dela e se erguendo, expirando o ar dos pulmões, sendo seguindo pelo olhar de Leticia, enquanto colocava as mãos nos bolsos e a olhava firme.
— Principalmente ela.
— Então é verdade! Você tá namorando com aquela intrusa! – Leticia mostrava mais força do que a frágil situação vazia crer, o ódio lhe dando vigor – Desde o primeiro dia, né Tiago? Você viu ela lá, e já planejou ficar com ela e me dar o pé na bunda. Nem se segurou durante a festa, os dois já foram se agarrar. Eu ali, feita de trouxa. Ela até me atacou para te defender, e eu acreditando que era só ela quem estava interessada em você! Você realmente nunca me amou, não é, Tiago!? – ela virou o rosto para o lado.
— Eu não sei do que você está falando. – ele voltou a se agachar perto dela – O que quer que tenha acontecido entre eu e Helena foi muito depois que ela chegou na sua casa.
— Foi antes de você terminar comigo?
Tiago puxou o ar e ergueu o queixo, tentando ter dignidade ao assumir aquilo.
— Talvez. Tinha muita coisa acontecendo na época.
— Espero que você a faça sofrer como me fez.
— Leticia, eu nunca te fiz sofrer. Você é que sempre se enganou, junto comigo, de que o afeto e a pie...a luta pelo seu melhor era amor.
— Nunca me fez sofrer? – Leticia se indignou, as palavras de Bruno ecoando na cabeça dela, martelando cada erro e defeito de Tiago que ela fingia que não via – E a Isabela? Quando você me abandonou no hospital depois de se envolver com ela, mesmo namorando comigo?
Tiago novamente tentou encarar com alguma dignidade a situação, mas foi vencido pelo olhar firme dela. Abaixou a cabeça, e fechou os olhos.
— É, isso não tem defesa. O que mostra mais um vez que não havia amor entre nós dois.
— Não, isso mostra que você não presta!
— Ok. Eu realmente não fui correto com você...
— Correto? Tiago, você não teve a menor consideração! Primeiro me largou por uma e depois por outra.
— Não foi bem assim. Realmente na primeira vez eu... estava envolvido com a Isabela. Mas na segunda vez foi porque era o certo a fazer, antes de provocar mais dor em você.
— Então da segunda vez você não me traiu com a Helena? Não beijou ela?
— Não! – então veio na mente de Tiago a lembrança dos beijos em Marina/Isabela – Não a Helena. A Isabela... que se dizia ser a Marina. – ele fechou os olhos – Leticia, me perdoa. Só agora eu estou notando o quanto eu fui ...como disse o Bruno, um infeliz, um merda. Eu mantive você nessa relação mesmo sabendo que era só por comodismo...ou por qualquer outra coisa, que não amor. E mesmo depois de ter te magoado uma vez, eu voltei com você, sabendo que não tinha como dar certo, e voltei a correr para outra fantasia.
Ele tinha agora as mãos sobre o rosto, lembrando não só como fora egoísta e infantil ao não considerar os sentimentos de Leticia, quando se envolveu com Isabela, nas duas vezes, mas também das frases de Helena o reprovando. E pior, ele também não foi o melhor dos homens quando se envolveu com Isabela. O mais digno que ele chegou foi quando terminou com ela antes de continuar um relacionamento que não ia ter futuro. Quando assumiu que não amava ela. Porque ele já estava apaixonado por Helena, e o que sentia pela Isabela já não era a mesma coisa. Mesmo ele negando os sentimentos pela sobrinha da Helô, eles ainda eram mais fortes.
Ele baixou as mãos e olhou para Leticia, que mantinha um olhar intrigado sobre ele.
— O que você tá dizendo?
— Me desculpa. Por tudo...
— Não. Isso eu entendi. Antes. O que você falou do Bruno.
Tiago franziu a testa tentando se lembrar.
— O Bruno me encontrou no bar, e outra vez na minha casa, e me disse algumas verdades, sobre como eu fui infeliz e um merda com você e a Isabela.
— Ele falou isso?
— Sim. Depois de me agredir. Bem merecido.
— Foi ele que fez isso no seu olho? – ela apontou para o olho que Tiago tentava disfarçar um roxo.
— Não. Bruno me atacou faz quase um mês.
Ela colocou a mão sobre a boca.
— O que foi?
— Nada, Tiago, me leva. – Eu não quero mais te escutar. Nem o quanto você não me ama, ou o quanto lamenta não me amar, ou nem o quanto você ama a Helena. Ou quem você ainda vai amar. Só me tira daqui, da sua frente.
Ela estava genuinamente enojada com ele, mas também com algo muito bom em movimento dentro dela. Nos ouvidos a frase de Tiago se repetindo “O Bruno me encontrou no bar, e outra vez na minha casa, e me disse algumas verdades, sobre como eu fui infeliz e um merda com você e a Isabela.”
— Espera, Leticia. Antes de sairmos, agora que eu vejo o meu erro, temos que falar do seu. Eu não fui o único a me enganar e levar a frente algo que era errado. Olha tudo o que você fez. Olha como você está. Parece que não tá lutando por si mesma.
— O que você sabe sobre mim?
— Eu sei o suficiente para só olhando para você, saber que não está fazendo quimio, ou outro tratamento. Por que isso?
— Você não sabe mesmo? – ela apertou os olhos para ele.
Tiago franziu o nariz e o cenho, quase juntando as sobrancelhas, a boca levemente aberta tentando negar a resposta absurda.
— Por mim? – ela desviou o olhar diante da indignação dele – Leticia...você... tá falando sério? – ela só fungou como resposta – E você chama isso de amor? Você usando da própria saúde para me chantagear? Por isso a cena hoje? Para me comover? Isso não é amor, não Leticia. Isso é doença. Com vários sintomas, raiva, despeito, inveja, mas não é amor. Você realmente acha que pode ser feliz com alguém que só tá do seu lado por pena? Obrigado, por se sentir responsável? – ela não virava o rosto, que corava – Leticia, olha para mim. – ele balançou a cadeira, agressivo – Você não é assim. Isso não é ideia sua. É do seu pai não é? – ele se levantou furioso – Eu sabia, desde o inicio ele é quem está por trás de cada ideia sua sobre nós, não é? – ele voltou a se agachar, as mão sobre a cadeira – Tudo bem. Sabe como eu sei que amo a Helena e não amei você e a Isabela? Porque antes de pensar em mim, eu penso nela. Porque se eu ver que o que faço pode machucar ela, eu paro. Simplesmente não consigo com a ideia de algo acontecendo com ela. Simplesmente não penso. E não consigo ter qualquer sentimento ruim quando penso nela. Minha raiva por qualquer coisa não passa de alguns minutos. Nunca tive inveja dela, despeito, ódio. Eu não faria ela sofrer, unicamente para satisfazer uma vontade minha...
— Tá bom, Tiago, tá bom. Eu entendi! Você ama muito ela. – ela se alterou, gesticulando com as mãos no ar.
— Não foge do que estou dizendo, Leticia. – ele novamente agitou a cadeira dela – Você entendeu muito bem o que eu quis dizer. Quem ama não faz mal ao outro. Agora. Me diz. Quem foi que te convenceu a ficar entre a vida e a morte apenas para ter uma forma de nos casar? Quem tá colocando a sua vida em perigo, por uma vontade...sei lá, maluca!?
— Sai daqui, Tiago. – Leticia tinha os dentes cerrados, os olhos marejados, fixos nele, as bochechas vermelhas – Sai daqui, sai daquiiii, SAI DAQUI, TIAGO! SAI DAQUI! – ela gritava, fazendo Tiago se afastar, os lábios apertados, as mãos no bolso.
Bruno entrou no meio da gritaria e já foi pegando Tiago pelo colarinho.
— O que você fez?
— Eu só disse verdades.
— Seu...
— Larga ele, Bruno. – disse Helô, aos pés da filha, sendo obedecida.
Bruno se ajoelhou e pegou os rosto dela pelas mãos. Leticia o olhou entre as lágrimas.
— Me tira daqui. – ela jogou a cabeça para frente e a afundou no pescoço dele.
— Calma. – Bruno a abraçou, fechando os olhos e inspirando fundo – Eu vou te levar para casa.
— Não. – a voz dela saiu fina mas decidida – Me leva pra outro lugar. A sua casa, um hospital. Mas para lá, não.
Ele olhou para Heloisa, que devolveu o olhar de dúvida. Mas, respirando fundo, concordou.
— Leva ela. Vai estar mais segura com você do que com qualquer outra pessoa.
— Tá certo. – o médico concordou e voltou a segurar o rosto de Leticia entre as mãos – Eu vou te levar para onde você quiser.
— Tá. – ela fungou – Bruno se levantou para guiar a cadeira de rodas – Não. Eu vou em pé.
Heloisa e Bruno se entreolharam, enquanto Leticia tentava se erguer, apoiada na cadeira. Vacilou e Bruno a segurou.
— Vem. Eu bebi demais e preciso de alguém para me levar até a porta. – Bruno disse, a fazendo sorrir.
Tentando manter a cabeça erguida, Leticia consegui caminhar com o apoio de Bruno até quase a porta, onde ele insistiu em carregar ela. Antonio cochichou no ouvido da noiva algo, sorrindo, observando ela fazer que sim, a boca levemente aberta com a cena.
Tiago não foi até a sala ver a cena. Podia ver ela de onde estava, na cara de Tião. O vilão ficara parado na porta do escritório vendo tudo, a boca levemente aberta e então comprimida, de ódio, ao ser ignorado por Leticia e Bruno.
Heloisa e Tiago saíram do escritório, juntos, o queixo erguido para o banqueiro.
— Não foi dessa vez, campeão. Seu plano falhou. – disse Tiago, batendo no ombro direito do inimigo, sem olha-lo na cara, Heloisa com um sorriso contido.
— Calma, garoto. São quinze minutos do segundo tempo, e eu estou com a boca na área de ataque, enquanto voce mal teve um escanteio.
Tiago apenas apertou os olhos e saiu de perto dele. Atrás de Tião, Magnólia esbravejava, fazendo o vilão revirar os olhos e respirar fundo.
— Estou cercada de incompetentes.
AnaLu e Carmem observavam do meio da festa. A primeira sorriu e olhou para a mãe, com um olhar que dizia “Não disse?”.
Tiago e Helo se dirigiram até as duas. Carmem engolindo em seco.
— Oi, maninho. Festa animada, né?
— Já tive melhores. – ele respondeu suspirando e então olhando para Carmem, sorrindo amigável e então intrigado – Já nos conhecemos?
— Acho que não, Tiago. Essa é a Margarida, enfermeira da Leticia. – Heloisa comentou – Só foi contratada um mês depois que vocês terminaram.
— Certeza? Nossa eu...
— Bom, eu vou pegar uma bebida que hoje pede. – AnaLu interrompeu.
— Acho que vou te acompanhar, AnaLu. – falou Heloisa, deixando os dois, Carmem olhando alarmada para AnaLu, que engoliu em seco e seguiu com Helô.
Eles ficaram ali, sem se falar. Tiago então notando os olhares ao redor.
— Parece que eu virei o centro das atenções. E o noivado nem é meu.
— Não liga para eles. – ela falou olhando ao redor – Você fazendo algo certo ou não, há sempre alguém te criticando.
— É... mas no caso eu sou o cara que levou à crise, uma doente.
— Só há uma pessoa culpada pela situação da Leticia, e não é você. Não se culpe pelos erros dos outros. – ela disse carinhosa, afagando o braço direito de Tiago, que estranhou o gesto, a fazendo se afastar – Acho melhor eu ir embora. Meu trabalho foi embora.
— Um bom motivo para você aproveitar a festa.
— Não se o seu chefe é o Tião Bezerra. – ele concordou com a cabeça – Eu vou indo.
Tiago meneou a cabeça e a observou ir embora, enquanto Heloisa se aproximava com uma taça de vinho branco.
— Iniciamos os trabalhos? – ele gracejou, desanimado, olhando para a taça de vinho.
— Depois do dia que tive... nossa.
— Complicado, né?
— Demais. Tudo isso, e mais essa sensação ruim – ela gesticulava com a mão direita, livre, apontando para o peito – que ficou comigo o dia todo. Eu devia estar prevendo isso com a minha filha. – ela piscou várias vezes – Mas agora ela está bem. Perto de Bruno e longe do Tião. E Helena?
Helô não segurou mais. Queria perguntar dela desde que chegou.
— Sabe como é. – ele enfim conseguiu sorrir – Não podia vir depois da ultima festa. Mas está bem.
— Sério? Que bom. – ela falou aliviada. Pois por mais que a sensação fosse algo sobre a filha, desde as duas ultimas vezes que Helena passou perigo e ela sentiu aquilo, que Heloisa sempre associa a sobrinha – E a viajem?
Heloisa continha um sorriso, olhando para Tiago, mas então o soltou de vez, quando Tiago franziu a testa para ela e então se virou para frente, sorrindo largo.
— Muito boa. – Heloisa fechou os olhos e respirou fundo, devagar, aquela sensação apertando o peito – O que foi? – Tiago se virou para ela, a segurando pelo braço.
— Nada. Sensação boba.
— Mas a Leticia está com o Bruno. Achei que isso fosse bom.
— E é...mas. Coisa de mãe. – ela despistou tentando voltar a sorrir.
Tiago já se sentia desconfortável. Algo começando a agitar nele. Olhou de novo para Heloisa. Nessa hora ela ficou imóvel, olhando para frente. No ouvido dela um grito de uma voz feminina que ela tinha certeza era da Helena. Deixando a taça de vinho cair e se agarrando em Tiago, Heloisa o olhou desesperada.
— A Helena!
Ele se assustou. E então notou atrás de Heloisa o olhar da irmã, perto do bar, o celular na mão e os olhos arregalados para ele. Tiago se desesperou. Pegou o celular no bolso e finalmente abriu a mensagem do celular desconhecido que mandara mais umas 10, todas perdidas na confusão que se deu até ali.
HELENA ESTÁ EM PERIGO!!!!!!!!!!!!!!
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