A sobrinha da Helô

44 O sangue da Sobrinha da Helô


Notas iniciais
Mayana Neiva é tia Vania, e Marco Pigossi é Henrique.

Primeiro Helena notou as luzes do jardim se apagando. Então notou sombras se movendo lá fora, através da janela. Observou uns quatro homens, armados, cercando a casa e procurando as entradas possíveis. E se tinha quatro daquele lado dela, deveria ter mais dos outros.

Helena esfregou os olhos para ter certeza do que estava vendo. Então, não vendo mais ninguém nos jardins, aproximou o rosto da janela, batendo a testa nela com o pulo que deu ao ouvir algo batendo no portão da frente, duas vezes até derruba-lo com um estrondo, fazendo Helena acreditar se tratar de um veículo grande, possivelmente com mais homens.

Era isso! Estavam atacando a casa. E não podia ser somente para roubar cofres e joias. Um serviço daquele parecia mostrar algo de maior valor, ou maior desespero. “Tião está fora de si.” A única conclusão lógica bateu forte no estomago dela, a fazendo querer se esconder dentro do armário, “Vieram me matar. Ou ao Fausto, mas com certeza um de nós é a cereja do bolo.”

Com essa constatação, como se a temperatura do corpo dela caísse, a deixando torpe, a respiração pesada, e tudo ao seu redor desfocado, ela se afastou da janela sentindo as pernas pesadas, se deixando encostar na porta do roupeiro e escorregar. Helena se sentou e abraçou os joelhos, abaixando a cabeça, o desespero preso na forma de um grito na garganta.

“Vamos lá, Helena, você dá conta disso. Eles são só uns oito ou doze homens, treinados e armados, e você uma garota com nada.” Ela ergueu a cabeça, tentando tomar coragem. Mas ela não era uma garota com nada. Se fosse, estaria fora do quarto, pulando alto sobre cada um que aparecesse na frente dela, provocando o máximo de dor antes de ser combatida. Só que ela tinha Tiago, e se algo acontecesse com ela, não teria mais ele. Mais que a própria vida, naquele momento, ela não queria perder ele. Por isso vinha evitando os chefes, a vingança, e planejando tudo muito longe dali, porquê sabia que não teria mais Tiago e aquele mundo onde ela era finalmente feliz, se fosse adiante com o plano contra Tião e Magnólia.

“Você não pode aceitar as coisas com passividade, Helena, tem que lutar”.

A voz doce e ao mesmo tempo firme da Tia Vania, ecoou na cabeça dela.

E logo a seguir a de Henrique, numa das vezes em que a treinava em campo aberto, a atirar:

“Uma arma é só uma arma. É quem segura ela que faz a diferença. Muitas vezes alguém de mãos vazias consegue fazer mais estrago do que alguém com uma arma.”

“Você nunca correu da Rota, né Henrique?”

Ela falou com escárnio, observando ele montar uma semi-automática, e depois atirar bem no olho esquerdo de um desenho de uma figura humana, colado em uma porta de madeira, erguida há cinquenta metros deles, num campo aberto dentro de um sítio, que Henrique conseguiu sem revelar como.

“Você me conhece muito pouco, Helena. E, até hoje, você conseguiu se livrar deles, não conseguiu?”- ela não conteve um sorriso orgulhoso – “O que prova que você sem arma já é poderosa, com uma, não vai ter para ninguém.”

Ele respondeu sorrindo e a puxando para frente dele, de costas, colocando a arma na mão dela e erguendo os braços de ambos, segurando a arma e mirando.

“Sempre mire nos olhos.”

“Por que?”

“Porque ainda não inventaram colete de proteção aos olhos, e não há óculos que proteja de uma bala.”

“Se a pessoa tiver de costas?”

“Faça ela virar para você. Como eu disse, a arma só tem potencial na mão de quem sabe usar.”

Ela mirou no mesmo lugar que ele havia acertado, e atirou, errando por quase 30 centímetros, o tiro quase não pegando na porta.

“É, acho que comigo as armas não terão qualquer potencial.”

Novamente ele riu.

“Você desiste muito fácil. Escuta bem o que vou te dizer, Helena, quem passa o que você passou, e sobrevive, não é derrubada por uma arma.”

“E por dez delas apontadas para mim?”

“Nem por vinte! – ele a virou para si – Você derrubaria todos eles antes mesmo de pensarem em mexer o dedo no gatilho, pequena.”

Helena sorriu ao ouvir o apelido que ele costumava chama-la, e deixou ele a beijar, antes de voltarem a treinar.

Henrique sempre deu a ela a certeza de que enfrentaria tudo. A treinou como se soubesse que ela precisaria disso para o que passaria. Mas ele não a treinou para o medo de perder algo como o que ia arriscar. De um jeito ou de outro, acabou o sonho com Tiago. Ela sobrevivendo ou não, dali para frente estaria sempre fugindo, ou morta. Como ela vai levar ele com ela nessa vida?

Ela olhou para o lado. Lá estava o seu coturno. E ela sabia que dentro tinha o seu canivete. Foi para isso que o Henrique preparou ela, não foi? Eles sempre souberam, até tia Vania. Helena foi para todos eles uma peça mesmo. “Me jogaram no matadouro. Sabiam que não tinha chance de eu sair viva desde o inicio. Como sempre, eu estou sozinha.” De novo veio a imagem de Tiago, então veio a de Pedro e Helô. “E se não der errado? Se eu ganhar do Tião e ainda conseguir testemunhas que mostrem o criminoso que ele é? - ela suspirou — Vou morrer, mas tentando.”

Helena engoliu em seco e bateu com os punhos na porta do roupeiro, enchendo os pulmões de ar, erguendo o queixo e se levantando. Foi até seu coturno, pegou o canivete e olhou ao redor. Precisava, primeiro, de uma distração. Colocou os sapatos e começou a puxar a roupa de cama.

Os quatro homens que ela viu rodeando a casa eram basicamente os que ficaram postos a guardar as saídas possíveis. Havia apenas mais seis, um deles na van, que derrubou o portão, de modo a mostrar que fora ação de bandidos, e não de internos, como de fato eram a metade dos atiradores, pois seguranças da empresa de vigilância contratada por Magnólia.

Os cinco entraram na casa assim que fora cortada a luz geral, por um dos quatro que a vigiava por fora. Dos cinco, três ficaram na porta, os outros dois foram cada um para um lado: cozinha, alojamento dos empregados e residência do Hércules, e o outro cuidou da sala, escritório e garagem.

Todos tinham a roupa preta, sem coletes, economizando o dinheiro dado por Tião para aumentarem o próprio pagamento, capuz preto com abertura para os olhos e boca, óculos de tiro, arma semi-automática com silenciador, em punho, e um cinto com munição, algema, comunicadores, e bombas de efeito moral, caso precisassem.

O líder, que ficava entre os outros dois na porta de entrada da casa, achara a missão simples demais para gastar com equipamentos modernos. Uma garota e um velhote. Olhou para os dois ao seu lado e apontou a escada. Eles acenaram e subiram, cautelosos. Um seguiu pelo corredor indo conferir os quartos do corredor a frente, o outro começou com os primeiros quartos. Da Helena, e de Fausto.

Sozinho, o atirador rodou a maçaneta, notando a porta trancada a chave. Deu dois tiros na maçaneta e abriu a porta, devagar. Olhando atrás desta e não vendo nada, observou o local. A janela estava aberta, e uma corrente de panos amarrados descia por ela.

— Droga. – ele correu para a janela – A garota não está no quarto. – ele falou puxando seu comunicador do cinto e olhando para baixo – Não sei como ela pulou, mas fez uma corda com lençóis e está no jardim.

— Isso é impossível. – respondeu um dos vigias – Por aqui não passou ninguém.

— Você quer dizer que não viu ninguém. Mas ela passou. Corre aí.

— Tá certo. – o outro respondeu contrariado.

Entendendo como serviço feito, o atirador se dirigiu para a porta, e então notou algo. A corrente de panos terminava embaixo da cama, mas não estava amarrada no pé dela. Conferindo os lados, para ver se não tinha ninguém por perto, ele se agachou, apoiando a mão direita, com a arma, sobre a cama, a esquerda no chão, e olhou embaixo da cama. Ali só tinha a ponta solta da corrente de panos. “Como é que...”

Ele não completou o raciocínio. Helena abrira a porta do guarda-roupa, cautelosamente, ao notar que ele se abaixara, e ergueu o cano de ferro que servia de cabideiro do roupeiro, batendo na nuca dele e o desacordando. Pulou até a porta, a encostou, e foi até o capanga outra vez, puxando as roupas dele e vestindo.

Terminando de vestir as roupas dele, ela puxou a corda de roupas de cama e enrolou nas mãos dele, pés, pernas e no resto do corpo, arrastando o corpo para o banheiro, que ela trancou.

Disfarçada, ela ergueu a arma, e foi para o corredor.

No tempo em que ela se livrava daquele atirador, o outro fizera rapidamente a limpa nos quartos do outro corredor e de Vitória, e entrara no de Fausto e saíra, deixando a porta aberta, com a cama do patriarca desarrumada, e travesseiro no chão. “Merda, pegaram o vovô. O maldito do enfermeiro não deve nem ter ajudado.”

Irritada por ter perdido Fausto, ela conferiu ao redor dela, saiu para o corredor e olhou para os lados. Correu até o outro corredor, onde ficavam os quartos de Magnólia de um lado e de Tiago e irmãs do outro. Olhou para os lados e todos os quartos estavam com as portas abertas, mas sem movimentos dentro. Ela preferiu não perder tempo conferindo. Voltou ao próprio quarto e jogou a mochila dela nas costas.

Helena desceu as escadas, cautelosa. Lá embaixo, na porta, um tipo mais e alto e mais forte que aquele que ela derrubou, estava parado na porta.

— Então? Acharam a garota?

Ela respondeu apenas que não com a cabeça, fingindo relaxar os braços, se aproximando dele, a cabeça baixa.

— Pelo menos conseguiu pegar algo. – ele disse apontando a arma displicentemente para Helena, que franziu a testa e então lembrou da mochila nas costas, balançando a cabeça afirmativamente.

Helena olhou para os lados antes de se voltar para atacar o cara, notando então um outro atirador vindo do escritório, se colocando ao lado esquerdo dela.

— Nada para lá. Explodi o cofre, que estava vazio – o outro soltou um ruído de desagrado – remexi papéis e peguei um ou outro adorno que pode valer algo. Já que temos que fingir... – ele completou em tom malandro.

Helena mantinha o rosto virado para o outro lado, evitando que observassem muito o formato do seu rosto, e então notou daquele lado vir o outro atirador. Este, diferente dos outros, tinha uma metralhadora, que apoiava no ombro. Ela tentou controlar o nervosismo. Agora teria de derrubar três, pois o terceiro se colocou do lado direito dela.

— Ninguém para lá. – respondeu o terceiro, relaxando os braços e descendo a arma – Tudo muito tranquilo. Desperdício de pessoal, só nós três dava conta. Ao menos consegui pegar jóias e dinheiro de um cofre no quarto do filho da patroa.

Helena gelou. Ele mencionou Magnólia como patroa. De repente tudo se encaixava. Tião não ia conseguir colocar toda aquela gente ali justamente num dia em que ninguém estivesse, sem a menor ajuda. A avó de Tiago estava junta. Então Helena ferveu ainda mais por dentro, no exato momento em que o comunicador na cintura do grandalhão a sua frente chiou.

— Fala. — ele pegou o comunicador.

— O Teixeira não responde, e não há qualquer sinal da garota aqui. Sabe se o Perez conseguiu o velhote?

O grandalhão olhou para Helena, que tentava desviar o olhar, mirando ao redor.

— Do que você tá falando? Não pegaram ela ainda? Aqui dentro ela não está! Teixeira? — Helena virou a cabeça para frente, sem olha-lo nos olhos – Viu a garota ou o velho? — Ela apenas moveu a cabeça negativamente – Será possível que vocês são assim incompetentes? É um velho e uma garota! Procura direito. — ele desligou o comunicador, irritado – Por que você não está respondendo o seu comunicador? E onde está o Perez? – ele indagou Helena, os outros dois olhando para os lados, não querendo se meter no sermão, ela respondendo apenas com um levantar de ombros – Que merda tá acontecendo com você? – o tom dele era desconfiado – Tá calado por que? – os outros dois olharam rapidamente para o chefe e o colega e se miraram, sobrancelhas erguidas – Fala alguma coisa. – o grandalhão ordenou, mas em um tom desconfiado e agitado.

Helena ergueu o queixo e sorriu.

— Alguma coisa.

Ele arregalou os olhos diante da voz feminina, mas antes de erguer as armas, ela já chutava o estomago dele com a sola do seu coturno, puxava a metralhadora da mão do cara a direita, indo enfiar o cano fino dela no olho esquerdo do atirador a esquerda, e batendo com coronha no pescoço do cara a direita, todos abaixando o corpo, com dor.

O da esquerda tentou erguer a arma, mas ela se adiantou, puxando seu braço direito para trás, o torcendo, Helena o pôs a sua frente como escudo, enquanto o chefe se erguia e tentava avançar contra ela, o atirador a direita estava desarmado, com a mão no pescoço, tentando se recuperar.

Sem pensar, vendo o seu capanga como escudo, o chefe ergueu a arma e atirou nele, o matando e o fazendo tombar no chão.

Helena estava sob a mira do cara, o outro atirador, agora de boca aberta, observava o colega morto no chão.

— Nenhum movimento. A missão é justamente te matar. Seria melhor se de modo a parecer sua culpa, mas só te matar já é o suficiente. – ele ameaçou Helena, que não se mexia sob a mira dele.

— Chefe. – o comunicador chiou – Tem algo muito estranho acontecendo. O Juca, o Gustavo e o Mosca, não estão nos postos deles. A casa tá sem ninguém além...- um baque e não se houve mais o cara.

Helena e o outro atirador olham para o comunicador, e então para a testa franzida do chefe.

— Que porra...

Antes que ele consiga falar algo, puxando o comunicador, Helena chuta com o pé direito a mão dele, que não derruba a arma, mas permite que com outro chute alto ela enfie a sola do coturno na cara dele, quebrando o nariz, para logo depois, jogar a perna para trás, direto no estomago do outro cara, que sequer se mexia. Voltando para o chefe, que ainda tinha a arma na mão, ela puxou sua cabeça pelo cabelo, aproveitando que ele ainda não tinha conseguido se erguer, e o puxou na direção de seu joelho, uma, duas, três vezes, até ele cair no chão desacordado.

Ela olhou para o lado, o outro tinha as mãos erguidas, com a bomba de efeito moral na mão direita.

— Parada.

— Diz de novo. – ela falou dando um passo para frente, o fazendo arregalar os olhos e dar um passo para trás.

Helena agora chutou na altura da coxa, fazendo a parte de metal do coturno provocar uma forte e aguda onda de dor na perna do atirador, que ficou irrelevante diante da onda de dor provocada pelo chute que ela deu então nas costela dele, ainda com a ponta do coturno, o fazendo ficar sem ar. Novo chute alto, enquanto ele ia para trás, mas desta vez não o acertou, o fazendo tomar confiança e partir para cima dela, jogando a bomba no chão, que explodiu do lado deles, os fazendo se abaixar, sentindo os ouvidos zunindo, enquanto começava a sair uma fumaça de talco do artefato acionado.

Acostumada com o artefato, Helena logo se recuperou, olhou para o atirador a frente e o puxou pela roupa, o fazendo erguer o rosto apenas para receber um soco, e então uma cotovelada, num movimento de cima para baixo que quebrou o nariz dele e fez jorrar sangue. Mais outra cotovelada, e Helena puxou a cabeça do capanga entre os bíceps e o antebraço esquerdo, que ela puxava com a mão direita, apertando o pescoço do capanga, o deixando sem ar, até ele ficar inconsciente, caindo no chão.

Ela tirou o óculos e olhou ao redor.

O chefe ainda desacordado no canto da porta, o outro morto, e aquele ali desacordado.

— É, até que foi fácil. – ela falou alto e cedo demais.

A porta se abriu com força, batendo no corpo do grandão, enquanto um tipo nervoso entrava por ela, apontando a arma para Helena, a fazendo erguer a arma dela, mirando o capanga de volta.

Os dois ficaram se encarando. O outro olhou ao redor notando os colegas apagados e para ela, desconfiado.

— Helena?

— Quem deseja? – ela respondeu com escárnio.

— Mas é uma senhora encrenca mesmo! – o cara disse, sorrindo e abaixando a arma – Pode relaxar, sou eu, Gustavo. Me mandaram para te ajudar.

Helena abaixou a arma e abriu a boca.

— É o que?

Mas antes que ele respondesse, Gustavo ergueu a arma dele rapidamente e ela ouviu vários tiros.

Tiago ergueu os olhos do celular, sentindo o ambiente girar enquanto tentava assimilar a informação. Heloisa desesperada na sua frente, o acordou.

— Tiago, me escuta. Eu senti algo. Liga para a Helena, vê se ela está bem. – Helô o puxava pelo paletó.

— Não precisa. – ele respondeu, desnorteado – Ela não está. – Tiago voltou a olhar para a festa, dessa vez atento, a procura de Tião – Mas vai ficar.

O vilão estava do outro lado da festa, próximo de sua avó, com cara de desagrado, falando algo entredentes com ela, ambos parecendo disfarçar uma conversa pesada. Mas Tiago não queria saber o que se passava ali, ele queria ir até lá e matar o desgraçado a porradas. Mas isso era arriscado, pois Helena estava em perigo, e agora ele teria que correr até ela e chamar a policia, sem Tião perceber.

— O que você está dizendo? – Helô tinha os olhos arregalados para ele.

— Vem, Helô, vamos até a cozinha para você tomar uma água.

Tiago a puxou, colocando o braço sobre o ombro dela, tentando não parecer nervoso e apressado, o que de fato aparentava. AnaLu foi logo atrás deles. Os três pararam no corredor.

— O que está acontecendo? – Heloisa falou, dessa vez firme, para Tiago.

— O Tião...faz meses que tá tentando algo contra Helena, e hoje, pelo visto... não sei. Mas ela tá em perigo. Me avisaram agora pelo celular. E eu tô indo lá. – Tiago falava rápido, gesticulando no ar, olhando para cima e para o celular – Mas o Tião não pode saber, se não pode ser pior. Vocês ligam para a policia, avisam que a casa está sendo atacada, mas sem permitir que alguém perceba.

Ele falou para as duas, mas só Heloisa balançava a cabeça concordando.

— Não, Tiago. Desculpa, mas o Tião tem a policia na mão dele. Avisar ela, seria o mesmo que avisar o Tião.

Tiago olhou a irmã como se fosse a primeira vez que a visse na vida toda.

— O que?

— Desculpa, mano, mas acho melhor eu chamar o meu reforço, e você fica aqui.

— Do que você está falando, AnaLu?

Ela nem respondeu, discava um numero no celular. Tiago entendeu rapidamente que a irmã devia ser mais uma das ligadas a quem quer se vingar de Tião. Os chefes de Helena.

Ele queria muito parar e dizer todos os desaforos que vinham na cabeça dele, diante de tal informação. AnaLu desde o inicio ajudando outros. Sabendo de coisas que poderiam ajudar a ele e os familiares! Mas o espirito dele estava como o de Heloisa, e só conseguia pensar em Helena.

Dando as costas para a irmã, ele deu um beijo na bochecha de Heloisa.

— Fica tranquila, vou trazer Helena, inteira. – ele disse já saindo, correndo pelo corredor, sem se importar com a irmã o chamando.

Helena só pensou em se abaixar, quando o corpo de Gustavo já caía no chão, baleado no ombro, perna e abdomem. O chefe havia acordado quando Gustavo entrou, e, se erguendo devagar, começou a atirar no capanga que traíra eles, e no alvo. Gustavo conseguira acertar no ex-chefe, uma bala no ombro, mas logo caiu.

Ouvindo que o outro parou de atirar, ela ergueu a cabeça. Ele tirava o óculos e a mascara, tentando respirar com o nariz quebrado, o ombro sangrando. Helena procurava no chão, perto dela, a arma que deixara cair quando atacou o ultimo capanga.

— Olha isso. – o cara falou se erguendo e apontando ao redor – Agora entendi a razão do Tião pagar tão caro e exigir um serviço alto nível. Você – ele deu mais um passo, ficando sobre ela e apontou a arma para a cabeça de Helena – realmente exige um serviço de qualidade.

Helena achou a arma. Jogou o corpo para o lado a tempo de ouvir o zunido do tiro dado pelo grandalhão, passando rente a orelha esquerda dela. De costas no chão, ela apontou a arma e atirou. O corpo do atirador caiu quase em cima dela, à sua esquerda, com um tiro no olho esquerdo.

Ela olhou para trás. Gustavo gemia no chão.

— Você tá vivo?

— Não.

Ela deu um meio sorriso. Ouviu o barulho de motor ligando. A vã estava indo embora.

Tiago dirigiu o mais rápido que podia, furando sinais, e quase capotando o carro nas curvas, tentando não pensar em quanto tempo levara desde a mensagem enviada e lida, e como poderia ser tarde demais. Mas chegando no portão da casa dele, foi impossível.

Ele avançou com o carro sobre os escombros do portão. Mas não havia carro nenhum ali. O desespero aumentou. Acelerou e brecou em frente a porta da casa, entreaberta e com perfurações que pareciam de tiros.

Sem tomar qualquer cuidado, ele abriu a porta e correu até a namorada, que puxava uma perna de debaixo do corpo de um tipo bem grande.

Helena havia tirado a mascara e agora tentava livrar a perna esquerda de debaixo do corpo do bandido, para poder socorrer Gustavo, quando ouviu a voz de Tiago. Olhou para ele, vindo até ela, e teve vontade de chorar.

— Meu Deus. Eu...Helena! Você está bem... – ele a abraçou forte, fazendo Helena perder o ar, o abraçando de volta – Eu quase... achei que ia te perder. – ele agora segurava o rosto dela entre as mãos, descendo a testa dele sobre a dela.

— Vai ter que ser mais distraído do que já é, para me perder, Porquinho.

Ele afastou o rosto, sorrindo, mas tinha lágrimas nos olhos. Fungando, Tiago deu um beijo demorado na namorada, que correspondeu o desespero. Ela também achara que nunca mais o veria.

Tiago afastou o rosto dela, passando a mão direita sobre ele, fungando.

— Vem, te ajudo. – ele então percebeu a perna dela – Certeza que você está bem? – ele se alertou diante do sangue sobre ela.

— Sim. – ela respondeu com a voz baixa, puxando a perna enquanto Tiago levantava o corpo do outro – O sangue é deles.

— Você derrubou todos eles?

— Não... – então ela se lembrou de Gustavo e virou o corpo – Tiago! – com esforço ela se ergueu e foi até Gustavo – Meu Deus...ajuda aqui, Tiago, temos que levar ele no hospital.

Tiago se aproximou dela, que tirava a mascara do cara. Ele então olhou de Gustavo para Helena, surpreso. Mas a namorada nem o olhou, mexia no corpo do outro, buscando os ferimentos.

— Ele tá com três tiros, deve estar perdendo muito sangue. A gente tem que levar ele para o hospital e logo. – Helena se ergueu e foi para a parte da cabeça de Gustavo, abaixando e passando as mãos pelos ombros dele, puxando – Ajuda, Tiago.

O namorado correu para o outro lado, quando Gustavo gemeu e eles o largaram.

— Gustavo! – Helena se ajoelhou e aproximou o ouvido esquerdo da boca dele – A gente vai te levar no hospital. Aguenta.

— Não. – ele tentou gritar, mas saiu apenas um sussurro – Me leva para a Salete. Ela vai cuidar de mim. – ele falava com esforço – No hospital eu não estou seguro.

Helena e Tiago se entreolharam, entendendo que Tião provavelmente o acharia lá e daria fim dele.

— Teu carro está aqui na frente? – ela perguntou para Tiago, que só acenou afirmativamente – Ótimo. Me ajuda a limpar esse tapete e coloca-lo ali. Nós vamos arrasta-lo até lá.

Cinco minutos depois, Tiago dirigia novamente, rápido e angustiado. De vez em quando olhando para trás, onde estava Helena, com Gustavo com a cabeça em seu colo, o braço esquerdo de Helena pressionando o paletó do Tiago sobre a ferida no abdomem, para estancar o sangramento, a mão direita na testa dele.

— Chegamos. – estavam em frente a casa da Salete.

Tiago olhou para trás, Helena continha as lágrimas, Gustavo simplesmente não se mexia.

Sem saber o que fazer, Tiago saiu correndo do carro e começou a bater em todas as portas e janelas, até que Flávia saiu por uma das portas, amarrando um robe rosa bebê.

— O que é isso? Pirou?

— A sua mãe, está?

— Sim! Chegou da...

— Chama ela.

— Escuta aqui, Tiago...

— O que tá acontecendo? – Salete veio até a porta, ainda com as roupas do comicio, calça jeans, blusa decotada e tamanco, e antes de Flávia responder, Tiago puxou a dona do posto pelo braço, a carregando até o carro.

Salete olhou para o veiculo e entrou desesperada, pegando o rosto de Gustavo das mãos de Helena.

— Gustavo, meu amor, o que aconteceu? – Salete olhou os ferimentos, desajeitada dentro do veiculo, e notou Helena – O que ele aprontou?

— Ele salvou a minha vida. – foi só o que Helena soube dizer.

Salete a olhou uns segundos e sorriu, triste, voltando a olhar o namorado.

— Flávia! – ela saiu do carro – Chama os meninos. Agora. Tiago, querido, obrigada. Mas eu tomo conta daqui.

Flavia corria para a casa, pegar o telefone.

— Salete. – Tiago tinha as mãos na cintura, e olhou para a dona do posto, e depois para o carro, onde Helena deitava a cabeça para trás, fechando os olhos – Ele não pode ir ao...

— Hospital. Eu já imaginava. Não se preocupa, Tiago. Sei o que fazer. Agora, querido, imagino que você vai precisar de um carro.

— Mas o me...

— Vou ter que confiscar. Pega o da Flávia. Não vou ficar passando Gustavo de um carro para outro, correndo o risco de mais danos internos.

Tiago quis discutir, mas a mulher o deixou ali e foi pegar as chaves do outro carro, que jogou para ele, indo até o banco de trás, chamar Helena.

A mulher era um furacão, agitou tudo ao seu redor, e entrou no carro de Tiago, a filha sentando no banco ao lado. Ela piscou para Tiago e Helena e ligou o veiculo, saindo dali, devagar, os faróis apagados.

— Acho que – Tiago começou a falar, o braço esquerdo sobre o ombro de Helena, a puxando para ele, observando o veiculo sumindo da vista deles, ela sem expressão e lívida – o Gustavo estava certo. A Salete vai saber ajudar ele melhor que muito hospital.

Ele olhou para a namorada, que já tinha os olhos fechados e caía nos braços dele desacordada.

— Helena? – ele gritou, a segurando com o braço direito nas costas e o esquerdo na cintura, sentindo a mão, ali, ficar úmida – Sangue...

Ele notou que na roupa preta da namorada não tinha o sangue seco do capanga morto, mas sim o sangue dela, saindo de um buraco na roupa, do lado direito do abdomem. Helena estava ferida, e há um bom tempo perdendo sangue!