A sobrinha da Helô
20 A trama
Ciro olhou para Vitória.
— Que cara é essa, Ciro? O que você aprontou com a câmera de vídeo da Ana Luiza? – ela falou começando a temer a resposta.
Ele apenas suspirou rememorando o que aconteceu desde que brigaram mais cedo.
Ciro subiu exasperado pelas escadas, e quando chegou perto da porta do quarto de Fausto, topou com Magnólia que saía rindo dali.
— Ciro! — ela o olhou surpresa e então lembrou da discussão que ouvira pelo corredor — Brigando de novo com a Vitória? – ela o repreendeu.
— Sogra! Torturando de novo meu sogro com ameaças? — ele rebateu sorrindo desaforado — Desnecessário, aviso, eu mesmo já fui hoje comunicar do sumiço de Pedro e a netinha querida dos vídeos chatos...
— Shhhh! – ela o interrompeu, irritada, apontando para a porta do quarto de Helena próxima – Vem cá. – ela o puxou para o lado – Que história é essa de viagem de semanas? Você não tinha dito nada.
— São coisas da empresa. – ele falou bufando, desviando o olhar dela, olhando para frente – Mais um comprador que preciso convencer a fugir da fábrica. Os pontos finais do plano.
— Sei. – ela o olhava desconfiada – Você geralmente me mantém bem informada de todos os compradores e esquemas. Como é que agora nem mesmo me contou antes de viajar? – ele apenas a olhou com a mandíbula salienta, olhar irritado – Olha bem hein, Ciro, não vá me aprontar nada. Não esqueça que nessa casa ainda vive sua esposa esperando o seu futuro filho.
— Você quer dizer seu futuro neto?
Ela ia responder mas escutaram algo do quarto de Helena.
— Me encontra no escritório daqui uns minutos.
Magnólia o intimou e foi se enfiando de volta no quarto de Fausto.
Helena saiu do seu quarto e deu de cara com Ciro, se assustando e o fazendo rir.
— Perdeu o sono? – ele perguntou rindo.
— Antes o sono que a dignidade. Tá igual a Aline, agora? Me espiando para a Má? – ela respondeu desdenhosa.
— Petulante. – ele respondeu indo para o seu quarto.
Helena foi para as escadas. Ciro chegou na porta do seu quarto e teve uma ideia. Foi até o quarto de AnaLu, que ficava próximo do de Tiago, encontrando no caminho Aline que vinha espiando os movimentos de Helena. Ambos disfarçaram as intenções.
Ciro procurou por todo o quarto a câmera, apressado para o encontro com Magnólia.
Quando achou verificou a memória. Vazia. Ele pegou os cabos e um pen drive, e saiu para seu quarto, logo depois de ouvir Vitória entrando no quarto com Aline esperneando.
Ele correu para o escritório. Chegando lá, em cima de um balcão em um canto do lado esquerdo da mesa do escritório, em um ângulo que pegasse ela completamente, ele ajeitou a câmera e saiu do escritório a tempo de ver Magnólia chegando pelo corredor.
— O que está esperando? Pode entrar? – ela ordenou.
Ele fingiu desconforto e entrou na frente. Foi até a sua cativa cadeira de frente para a mesa, enquanto Magnólia tomava a cadeira de couro de Fausto, atrás da mesa.
— Agora a gente pode conversar mais confortavelmente. – ela falou o encarando.
— Acho que já ficou tudo esclarecido, não? Estou indo dar seguimento ao plano de quebra da empresa de tecidos, para desmoralizar Tiago e ainda fazer ele colocar a empresa nas mãos de Tião, para depois voltar para as no...suas mãos.
— O que é isso? Para que essa narração toda? Quer que passe alguém e escute? – ela falou se exaltando, mas falando baixo.
Ciro torcia que a câmera tivesse boa captação de som.
— Me desculpe, minha sogra, mas do jeito que você estava me interrogando, parecia que não estava sabendo de nada do plano. Se perdeu?
— Ciro. – ela se levantou, apoiando as mãos na mesa e se inclinando para ele – Eu sei que tem sido muita pressão para você nesses últimos anos, e tolerei muitas vezes suas respostas abusadas, mas hoje, particularmente, não estou inclinada a tolerar.
— Algo em especial?
Ela apertou o olhar para ele.
— Você não viu mais cedo? Tião nem atendeu meus telefonemas. Tiago foi de uma imprudência! Aquele homem está descontrolado, se dá na ideia em sumir com meu neto, nem sei o que será de nós!
— Não entendi, Tiago morto ou vivo não vai fazer muita diferença para nós em breve.
Ela se sentou e ergueu o queixo para ele.
— Falou direito, em breve! Mas por agora, ele vivo faz muita. Precisamos que ele termine de pôr o nome dele nos papéis. Não esqueça que segundo o testamento que Fausto havia feito, e que não mudou antes do atentado, Tiago é quem fica com a fábrica. Com os bens todos congelados, e possivelmente perdidos para pagar os desvios que Fausto – Ciro riu dela colocando a culpa em Fausto do que ela o orientou a fazer – cometeu na prefeitura, coitado, o único bem que vai restar dele quando morrer ficará para o neto, que até lá já terá empenhado com o seu futuro sogro.
— O qual vai achar que conseguiu finalmente ter a empresa do Fausto Leitão nas mãos, bem quando você vai chegar com mais dinheiro “repatriado” e emprestar para Tiago em troca de todos os bens dele.
Completou Ciro para uma Magnólia que ergueu as sobrancelhas e conteve um sorriso orgulhoso.
— Inclusive – ele continuou – os bens que Tiago nem mesmo sabe que tem, como é o caso das empresas laranjas criadas quando Fausto achou que estava vendendo a fábrica de tinta para se livrar de problemas, mas na verdade estava entrando na sua armação sua com Venturini.
Ela o olhou desconfiada e então ergueu novamente o queixo.
— Fausto sempre foi um imbecil. – Magnólia se recostou na cadeira – Se o advogado do meu pai...
— Avô materno do Pedro.
— Sim, avô desse outro traste. Se ele não tivesse feito meu pai perder tudo com suas orientações falhas, para depois usar o dinheiro que meu pai pagou pelos serviços dele para arrematar a massa falida da empresa da nossa família, Fausto nunca teria nem metade do que tinha quando você o conheceu. Mas pra que estou contando essa história, já te contei antes.
— Não, pode continuar. – ele falou enquanto pegava um cigarro – Você conta com tanto gosto, e ódio, que é fascinante.
Magnólia apertou os olhos para ele e inclinou o corpo para frente, se apoiando na mesa. Ciro deu uma baforada e sorriu para ela. Magnólia se encheu de empáfia e voltou a se recostar, olhando para cima, lembrando.
— Aquele advogado de quinta, mais aquele maldito fiscal do trabalho. Ambos pagaram pelo que fizeram, assim que tive a oportunidade. Primeiro, é claro, o pai da Stela, assim ela herdava tudo o que ele tinha roubado do meu pai.
— Que havia se matado, já.
— Sim! Não podia ser diferente. Ele sabia disso, eu mesmo comentei com ele. Nossa família se manteria manchada enquanto perdurasse a imagem do fracasso que vinha dele. Um tiro na boca era a saída que melhor atenderia a mim e minha mãe. Pena ela ter ficado tão doente e vindo a morrer depois, mas ao menos a morte dele me permitiu postergar contas e até ter algumas perdoadas. Ao mesmo tempo em que Stella se compadecia da amiga, vitima da ganancia do pai dela, e me acolhia em sua casa. Fausto foi muito fácil de fisgar. Ele se acha um romântico, assim como o Tiago, mas tem é fraco por um rabo de saia. Stela ficou tão triste quando o pai dela faleceu, e eu dando o suporte... – Magnólia inspirou fundo, satisfeita – Do nada toda a responsabilidade pelos negócios da família dela caindo no colo de Fausto, que tinha mal conseguido formar uma fábrica de tinta, e não sabia o que fazer com todo aquele patrimônio... Foi fácil demais, até. – ela sorriu – E lá estava eu, enquanto a minha pobre amiga adoecia, e ele só tinha a mim para ajudar. Eu só precisava dar a dosagem diária do veneno da Stella e correr para os braços de Fausto, que fazia tudo o que eu dizia. Até para demitir um funcionário ele me consultava antes. Eu ajudei ele a usar muito bem o dinheiro que aquele cretino roubou da minha família. E quando Stella finalmente morreu, ele já estava enlaçado. Tão enlaçado que nem deu ouvidos ao Tavares quando ele disse para fazerem autópsia nela para saber a real causa da morte. Outro que recebeu o fim merecido assim que a poeira baixou. Eu cuidei de cada centavo roubado da minha família, exceto o que ficou para Pedro, é claro. Que também me pertence.
— Tudo é seu, sogrinha.
— Será meu. Por isso Fausto não pode morrer ainda, muito menos Tiago. Pedro é o único possuidor dos bens que restaram de Stela. Você sabe. – Ela se levantou e foi até Ciro, se inclinando para ele – Assim que Pedro morrer, como não tem filhos, passa tudo para Fausto, e se Fausto já definiu Tiago como seu maior beneficiado, fica tudo para o meu neto na hora certa da morte do meu amado marido.
— E Tiago vai passar tudo para você.
— Obviamente. – Ela se ergueu olhando para a frente, ainda com ar vitorioso.
— Mas e se o que Bruno disse for verdade?
— Isso complica um pouco, mas não muito. Não vai tudo para Fausto, mas basta conseguirmos agora, mais do que nunca, que Tiago se case com Leticia. Se ela for ou não a filha de Pedro, de um jeito ou de outro ele vai estar casando muito bem. É uma pena não termos essa certeza, pois assim já nos livraríamos do Fausto. Com Leticia com o pé na cova, assim que casasse com Tiago, se revelaria que é filha de Pedro, matava ele e pronto, ela herdava tudo. Morria da sua triste doença e Tiago afortunadamente teria todos os bens do tio.
— E com a verdadeira fortuna que você e Venturini fizeram com a extinta fábrica de tinta e atual grande empreiteira das obras públicas de São Paulo e região, sempre subcontratando as empresas indicadas pelo nosso caro colega congressista, mantendo é claro parte do pagamento das obras no bolso, assim que o garoto te nomear senhora de tudo, você terá muito mais que a merreca que seu pai tinha quando morreu.
— Shhh, fala mais baixo. – ela estendeu a mão para ele e sorriu, indo para a sua cadeira em frente a mesa – E você pode até ficar com a fábrica de tecido, assim que recuperarmos ela. Eu vou me livrar da empreiteira e outras laranjas, e deixar tudo para trás.
— Tentando apagar os rastros dos crimes arquitetados por você, que ficaram nas costas de Hércules e Tiago.
— Alguém tem que pagar, não é? É uma pena, gosto muito do Tiago, mas eu não passei o que passei para no final jogar tudo pro ar por um neto. Até por isso acho que depois de tudo concretizado, ele morrer seria até melhor para o menino.
— É, quem sabe não venha uma boa alma que o indique o caminho das pedras para que ele opte pelo suicídio, tal qual o bisavô.
— Quem sabe...
— Tiago não sabe mesmo a maravilhosa avó que tem.
— Calma aí, sempre dei muito amor para ele. O criei como um filho.
— Mas também – Ciro deu outra baforada – depois de mantar matar a mãe dele por não aceitar mais assinar os papeis como representante legal do Tiago. Era o mínimo, sogra.
— Eu já ia esquecendo de Carmén. Que serviço ruim o seu naquela época, Ciro. Ela quase sobreviveu no hospital. Não que você tenha feito melhor com Suzana. No final teve mais sorte que juízo, porque Fausto vivo ou morto, com o que ele sabia sobre as empresas criadas com nome do Tiago, acabaria nos trazendo muito problema. Mas seus capangas conseguiram matar a amante, e deixar ele preso na cama, mesmo a base de incompetência. Saiu melhor que a encomenda.
— Como você sempre diz, Magnólia, Deus quer assim.
— É! – ela se inclinou para a frente apoiando os braços na mesa e olhando para cima – Se ele quisesse diferente já teria me parado há muito tempo. Isso é justiça divina.
— Eu ainda acho que é a sua maravilhosa mente. E seu total desapego pelos seus. Porque fazer Hércules assumir as assinaturas dos contratos por Tiago e ainda o colocar como procurador da empresa sem ele nem saber o que faz, sabendo que está ferrando os dois, é não ter qualquer amor ao filho.
— E lá alguém consegue amar o Hércules? Vai ter o que merece por ser preguiçoso.
— Eu aprendi muito com você, Magnólia. Até esse desapego.
— Jura?
— Sim. Por isso, não tente mais me ameaçar usando o filho da Vitória, é perca de tempo.
— Isso me preocupa, como é que vou te manter sob controle agora?
— Da mesma forma de sempre. – ele apagou o resto de cigarro na mesa – Dinheiro. Vou querer uns 5% do que conseguir tirar de todos eles. Até o que conseguir tirar do Tião com esse casamento.
Ela riu jogando a cabeça para trás.
— O Tião. Esse vai ser o que mais vou gostar de ver a cara quando tudo tiver concluído. Tanto trabalho que ele teve para enriquecer, me cercar e empurrar a filha para meu neto tentando entrar na minha família, unicamente por dor de corno. E no final só vai me ajudar a conseguir o que quero. Como sempre.
— Você acha mesmo que é por isso que ele vem fazendo todas essas investidas? Será que ele não sabe de mais coisas? Ele pode estar de olho no casamento para conseguir ser dono de tudo o que você construiu no nome de Tiago. O garoto é, querendo ou não, o cheque em branco disso tudo.
— Tião não tem inteligência para isso. É um arrogante. O beijo que ele me deu prova bem que ele só quer mesmo é me ter nas mãos como não conseguiu há anos atrás. Um louco, por mim.
— O maior erro dele, te beijar.
Magnólia sorriu. Foi depois do beijo que ela começou a desconfiar que conhecia Tião de tempos atrás e então investigou o passado dele, descobrindo se tratar do peão que ela marcou com ferro.
— Bom. Façamos assim, para restabelecer nossa parceria que parece abalada. Você não fica apenas com a fábrica ao final de tudo, mas ainda te dou 2% do que conseguirmos com os demais. E vai ser muita grana.
Ciro a olhou ganancioso. Sorriu piscando para ela.
— Agora estou muito mais feliz. Vou viajar com a energia renovada. – ele se levantou.
— Ainda vai viajar? – ela o questionou levantando a cabeça para ele.
— É claro, sogra, eu não estava tentando fugir, se é o que estava pensando. Tenho mesmo que terminar com esse contratante, antes que Tiago consiga uma mísera compra. Lamento, mas vou ter que te deixar aqui sozinha, com a missão de controlar a sobrinha da Helô e os hormônios do seu neto. – ele falou se virando – Aaah, e a fúria do Tião.
— Mas é um imbecil mesmo. – ela resmungou para si o vendo sair.
— A senhora quer ir na frente, ou prefere que eu vá? Sabe, para não desconfiarem do nosso papo.
— Bom. Deixa que eu vou na frente. Preciso ir acordar o enfermeiro do Fausto, avisando que terminei com meu turno de esposa solícita.
E Magnólia saiu o olhando firme. Ciro fechou a porta atrás dela, delicadamente e então respirou fundo, sorrindo.
— Velha prepotente. Agora eu tenho como garantir que mesmo que me tire do caminho, você vá pagar por tudo o que fez, com essa confissão. Se o que vou fazer em Curitiba não resolver, ou me tirarem do caminho antes, vai ser da mão da mãe do meu filho, e sua filha, velha desgraçada, que teu fim vai ser desenhado.
Ele falou pegando a vídeo-camera, tentando esconder ela por baixo do pijama preto. Saindo do escritório, olhando para os lados, avançando pelo corredor. Não percebendo que Magnólia o observava de outro ponto.
— O que será que ele tem embaixo daquela camisa? Não vou esperar para saber.
Ela foi então na direção do genro. Mas quando chegou na escada, encontrou Pedro já no final dela.
— Magnólia, ainda acordada? Me esperando ansiosa, suponho.
— Pedro, que alegria te ver, bem. AnaLu também está bem?
— Sim. Já deve estar no quarto. Eu vou avisar o enfermeiro que meu pai está sozinho e já vou para o meu também.
— Ótimo, foi para isso que desci, avisar ele.
— E por que está vindo da direção do escritório, de onde Ciro acabou vir também?
— Veja você... eu justamente. — ela desistiu de se explicar — Não tenho tempo, agora, Pedro. Não importa o que eu diga, você vai sempre acreditar em algo perverso da minha parta.
— Ah é claro, pobre santa Má..gnólia. Boa noite, querida mádrasta.
Ele se encaminhou na direção da cozinha, para o quarto do enfermeiro, enquanto Magnólia subiu as escadas lamentando ainda não ter conseguido se livrar dele.
Ela só teve a ideia de ter o dinheiro dele passando para Fausto com a sua morte, quando Venturini, a achando a mente mais sábia da casa, lhe fez a proposta de usar uma das fábricas do Fausto como fachada para as licitações que começariam a ocorrer nas repartições públicas, fazendo muito dinheiro com obras e serviços superfaturados e inconclusos. Com essa oportunidade de passar a perna em Fausto, veio a ideia de pegar até mesmo o que ficara em nome de Pedro. Mas daí ele já estava indo para a Europa e ficou difícil concluir o plano. Que com as turbulências da chegada dele se tornaram ainda mais complicadas.
Quando Magnólia chegou no corredor, viu Vitória entrando no quarto a fazendo desistir de ir falar com o genro.
— É, acho que não vou poder arriscar com Ciro. Uma pena. Vou sentir falta dele. Amanhã cedo dou um jeito.
Vitória olhava o marido desconfiada.
— Fala, Ciro, o que você está fazendo com as coisas da AnaLu.
Ciro, que tinha conseguido passar a gravação da câmera para o seu computador e depois para o pen drive, se virou para ela, sombrio.
— Agora não é hora, Vitória. Pega as coisas da sua sobrinha e devolve amanhã sem ela perceber. Antes de viajar eu te explico.
Ele se levantou, e começou a terminar de arrumar as suas malas. Quando já estava tudo pronto, ele se sentou no seu canto da cama, Vitória já embaixo das cobertas, o olhava aflita.
— Ciro, por mais mágoas que existam entre nós, eu quero que você saiba que eu ainda me preocupo com você. Se tiver algo te incomodand...
— Shhh... – ele levantou uma mão no ar, ainda de costas para ela – Não se incomode tentando fazer a boa esposa. E eu sei bem o que estou fazendo. – ele virou meio corpo para olhar ela – Mas te prepara, porque as coisas vão ficar sérias, e você não vai poder repetir os erro de deixar as pessoas pisarem em ti. Principalmente a sua mãe. – Vitória prendeu a respiração – E eu não falo isso por preocupação com você – ele se virou de novo para a frente – mas por esse filho.
Vitória passou a mão na barriga, comovida com ele demonstrando algum afeto.
— Não se preocupe, já sei lidar com a minha mãe.
— É o que você pensa. – ele riu sarcástico – Mas não é só dela que estou falando. Cuidado com quem a sua mãe subestima também. Principalmente Tião Bezerra. Sua mãe está cega de prepotência. – ele foi tirando os chinelos e ajeitando o despertador para às cinco da manhã – e não enxerga o que aquele homem é capaz. Vai quebrar a cara quando notar que ele é alguém do tamanho dela.
Ciro apagou a luz e se virou para tentar dormir, enquanto Vitoria olhava na sua direção, no meio do escuro, com os olhos arregalados.
Tiago acordou às cinco da manhã. Na verdade não conseguiu dormir todas as horas do resto daquela noite, só pensando no que podia ter acontecido na cozinha. Helena conseguia mesmo fazer ele perder todo o controle sobre si. É como se fosse tão certo estar com ela que o corpo não tinha o mínimo de resistência, só o cérebro ainda se esforçava. Mas ele ficava entrando em curto com ela por perto. Por isso, ele evitaria ela ao máximo pelas próximas semanas até ficar forte o suficiente para resistir. Só a veria durante o dia. Sem mais idas a cozinha. E só falaria com ela se tivesse mais pessoas por perto.
Ele foi se aproximando do quarto dela pensando na sua ideia, quando Helena saiu do seu quarto dando bote nele no meio do corredor, o fazendo dar um passo para trás.
— Porquinho, porquinho, do que você está fugindo?
Tiago respirou fundo e a olhou, com a mesma camisola de antes, olhando para ele, muleca.
— Não estou fugindo de nada. Estou indo trabalhar. Você não deve saber que horas se levanta para isso, porque não trabalha.
— Que leitão rabugento logo cedo. – ela falou fazendo biquinho aproximando o corpo dela ao dele.
— Eu realmente preciso ir. – ele falou tentando se esquivar, olhando para baixo, a observando.
Helena não saia da sua frente enquanto ele tentava caminhar.
— Para que a pressa? Nem tem gente na fábrica a essa hora? Eu só preciso trocar algumas palavras.
Eles foram chegando perto da escada. Tiago olhava ela falando mole com ele, o segurando pela jaqueta enquanto andava de ré.
— Eu... – Tiago parou observando a cena no pé da escada.
Helena franziu a testa e então olhou lá para baixo também.
Lá estava Ciro e Vitória, em um momento em que não pareciam brigar. Ele entregava algo para ela.
— Escuta bem. É muito importante que você saiba como usar isso. No momento certo, quando as coisas se tornarem perigosas, ou mesmo que você sentir que vão ficar assim, use. O que tem aqui vai te defender, entendeu? Vê se usa a sua cabeça uma vez na vida, por esse filho, e não estraga a sua única salvação.
Ciro falou baixinho, entregando o pen drive para Vitória. Ela apenas pegou o objeto e o olhou temerosa. Respirou fundo e concordou com ele, colocando-o no decote, olhando para os lados.
— Se cuida, por favor. Volta pro seu filho. – ela disse o pegando pelos braços.
— Não seja ingênua, Vitória, nós sabemos que não vou poder voltar para fazer papel de pai. Isso que vou fazer é o máximo que posso fazer como pai para o futuro dessa criança. Não estrague como tudo o que você já fez até hoje.
— Sempre doces palavras para mim.
Ele olhava para os lados impaciente quando ela disse isso. Respirou fundo e então olhou para a barriga dela. Para a qual ela agora olhava também, acariciando.
Ciro se ajoelhou, e beijou a barriga de Vitoria, a fazendo se emocionar.
— Nunca imaginei isso vindo do Ciro. – disse Tiago para Helena, escondidos no alto da escada.
— Somos dois.
— Mas sabe que... por acaso você viu Ciro fumando dentro de casa ou perto de Vitória alguma vez?
Helena parou um pouco para pensar e olhou para Tiago.
— Não. Ele sempre sai mesmo para a rua.
— Mas na empresa ele fuma igual chaminé em todos os cantos. Pela primeira vez tenho algum respeito por ele.
Ciro se levantou. Pegou o rosto de Vitoria nas mãos.
— Me escuta, você tá sozinha, não vou poder evitar as consequências das suas loucuras, o que quer que me aconteça, não foge, fica em pé para defender esse muleque, ok?
Ela apenas balançou a cabeça afirmativamente, emocionada.
— E – ele foi pegando as malas para sair – me faz um favor. Daqui para frente chame o menino de Ivo. – ela o olhou intrigada – Era o nome do avô do Pedro. Sua mãe vai ter arrepios, vai por mim.
E Ciro saiu, deixando em Vitoria aquela sensação de adeus.
Tiago e Helena voltaram para o corredor. Se entreolharam.
— Taí algo que não se vê todo dia. – Helena falou cruzando os braços.
— É. – ele a olhou, lábios comprimidos, e então se alertou – Eu já vou indo.
Tiago tentou escapar, Helena o puxou pela jaqueta e o jogou na parede de novo, o segurando com o antebraço esquerdo na altura do peito.
— Como é bem a sua cara ficar fugindo de mim a semana toda, vou me precaver e já deixar agendado horário com sua pessoa suína. – ela sorriu observando o nervosismo dele – Nessa madrugada, no mesmo horário de sempre e sofá, vamos nos encontrar.
— Sabe o que é... – ele engoliu em seco – Vou estar muito cansado, com o serviço e tudo mais. Podemos falar outro dia.
— É urgente! – ela disse o mantendo na parede, quando ele tentou fugir – Tenho noticias dos chefes. Nós ainda temos um pacto, não?
— Temos?
— Sim. Se quiser podemos fazer outros, também.
Ela se aproximou e ficou na ponta do pé, aproximando os lábios dela dos lábios dele. Tiago inclinou a cabeça na direção dela, os olhos perdidos nos lábios de Helena. Ela sorriu, o olhando no olho. Tiago revirou os olhos percebendo que ela estava brincando com ele.
— Te vejo mais tarde. – ela o largou molhando os lábios – E já vou avisando que se não aparecer no sofá, eu apareço no seu quarto.
Helena então o deixou ali, encostado na parede, a observando ir para o seu quarto.
Ela fechou a porta do quarto atrás de si e ele suspirou.
— Eu consigo. – ele falou para si enquanto foi indo para a escada, pensando.
Tiago foi descendo a escada sem nem notar a tia, subindo e o olhando intrigada. “É fácil, Tiago. Vai no encontro e se mantém afastado, não vai ser problema. Você consegue se controlar, cara. Pode não conseguir evitar pensar nela o dia inteiro, mas pode sim conseguir manter as mãos... e o resto do corpo longe dela.”
— Eu consigo sim. – ele reafirmou para si, saindo da casa, sem notar que o carro ainda nem estava ali, e precisava ir na garagem.
Mais tarde, com a boca subindo pelo ventre de Helena, ele notou que não conseguia.
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