A sobrinha da Helô
13 Sentimentos e a Sobrinha da Helô.
Tiago olhava para a porta de Helena com as mãos na cintura, mordendo o canto da boca e olhando para os lados, pensando se batia. Tinha quase certeza que ela estava brava com ele depois de ontem. Só não sabia qual a razão.
Ele suspirou, coçou o maxilar, deu um passo para a frente e bateu na porta. Nada. Outra tentativa, agora menos tímida.
— Helena? Sou eu, Tiago!
Ela não respondia. Tiago tentou a maçaneta, mas estava trancada. Bateu de novo.
— Mas será possível, Tiago. – a vó de Tiago falou atrás dele, o fazendo pular de susto – Já a essa hora da manhã procurando essa garota?
— Vó, me deixa. – Tiago respondeu irritado, olhando para a porta, e levantando a mão pedindo para ela parar.
— Isso é um absurdo, meu filho. O que as pessoas vão dizer... – Mag ia se aproximando do neto, que já a olhava com cara feia.
— Liga não, Tiago, hoje a sua avó tá atacada.- falou Leila passando por eles, e sumindo pelo corredor atrás de uma Magnólia irritada.
— A senhora pirou de vez, é? – apareceu uma Camila furiosa vindo pelo corredor, na direção da avó – Vai me expulsar do meu quarto?
— Camila, abaixa esse tom, não sabe que seu avô está enfermo no quarto aqui do lado?
Tiago observava a cena com a mão ainda na cintura. Ele bem que notara barulho no quarto ao lado, que era o de Camila, mas achou que a irmã estava redecorando outra vez, já que andava muito tempo trancada em casa.
— Dona Magnólia, eu não sou a tia Vitória que fica abaixando a cabeça para a senhora pisar, pode mandar colocarem tudo do meu quarto de volta que não vou sair daqui.
— Se você fosse mais esperta, Camila, seria como a Vitória sim, que trata de ficar no canto dela sem me provocar. Aquele não é mais o seu quarto. Você não está se dando tão bem com a sua madrasta? Vai lá morar na parte da casa dela, com o seu pai! Aqui, na minha casa, você não mora mais.
Camila a olhava com as lágrimas transbordando nos olhos, dentes cerrados. De camisola, ainda, ela olhou para Tiago, fungou, e saiu dali batendo firme o pé no chão. Ele não se segurou vendo a irmã assim.
— Que loucura é essa, por que a senhora tá fazendo isso com a minha irmã? Ela já tá passando a maior barra desde que descobriram ...lá, sobre o tal book rosa.
— Tiago, acredite, meu neto – ela falou segurando os ombros dele, que tinha se aproximado dela e agora rumava na direção do quarto da irmã – eu tô fazendo isso para o bem dela. Camila vai ter que aprender a me respeitar, se não vai sempre ser um pesadelo para nós. Isso é bom para ela aprender.
Ele olhava incrédulo para a própria avó, mas não tanto quanto olhou para a figura que falou atrás dele.
— Escuta a sua avó, Tiago, ela sempre quis o melhor para todos vocês aqui.
Aline estava logo atrás de Tiago, maleta na mão, o admirando com os olhos brilhando e um sorriso que Tiago só conseguia ver como ameaçador, por mais simpático que parecesse.
— Isso é um pesadelo. Não pode ser, não pode. Vó, chama os seguranças para tirar essa louca daqui!
Ele apontou para Aline, que apenas abaixou a cabeça, fingindo vergonha.
— Calma, Tiago, calma. Ela está aqui a meu pedido. Eu preciso de mais alguém para ficar de olho no Fausto, cuidar das coisas da casa. Aline é alguém que já conheço...
— Sim, e que foi escorraçada daqui depois de se enfiar nua na minha cama e falar mal até da senhora que ela dizia tanto admirar. – Tiago aumentara o tom da voz, gesticulando com os braços em circulo no ar.
— Mas o que é isso? – veio Vitória do seu quarto, amarrando o robe, sonolenta – Gente, o papai... — Vitória parou horrorizada ao ver Aline. Magnólia fechou os olhos e respirou fundo prevendo o escândalo – O que essa maldita está fazendo aqui, mamãe?
— Aaah, mas bem que me avisaram que tinham visto essa pilantra entrando aqui. – chegou uma Luciane por trás de Aline, já toda produzida, diversamente da tia e irmã de Tiago que àquela hora ainda estavam com as roupas de dormir – Pode deixar que levo ela de volta para a porta da saída com as minhas próprias mãos.
Luciane foi pegando Aline pelo braço, que se assustou e correu para o lado de Tiago, pegando seu braço. O qual o neto de Magnólia logo puxou dela a olhando irritado.
— Não! – Magnólia interveio, Aline foi para o lado dela, enquanto Vitória a olhava com cara de nojo e se juntava a Tiago e Luciane do outro lado do corredor – A Aline é minha hospede, vai trabalhar diretamente comigo.
— Mas é o máximo da humilhação mesmo. Você vai colocar essa vadia no meu quarto vovó? – veio por trás de Mag e Aline uma Camila já com um vestido preto básico, e óculos escuros, que ela levantou na cabeça revelando os olhos inchados – Foi para isso que me expulsou, enfiar essa aí no quarto ao lado do Tiago? Por que não joga ela na cama dele de uma vez, e manda ele engravidar a cretina.
Magnólia se virou rapidamente para a neta, e antes mesmo de levantar a mão Vitória gritou.
— Não se atreva, mamãe. Encosta em um fio de cabelo da minha sobrinha, e você vai se arrepender até o ultimo dos seus fios brancos. E você sabe que eu posso fazer isso.
Falou uma Vitória tão decidida que todos olharam para ela, até Luciane, com as sobrancelhas erguidas.
— Iiiih colega, Vitória vai abrir a caixa de Pandora. – falou uma Luciane provocando.
Magnólia se virou para a filha e ergueu o queixo, mas então pensou melhor e resolveu apelar para o drama.
— Mas o que é isso, a família toda contra mim? Será que não é o suficiente tudo o que passei esses últimos meses? Meu marido fugindo com a amante, quase morrendo, bens congelados, escândalos atrás de escândalos na família, que quase não sai da delegacia – ela olhou rapidamente para Tiago – e isso, agora? Não posso nem ao menos ter alguém de minha confiança e que me conhece, perto de mim?
Com exceção de Tiago, ninguém se comoveu, Aline ainda fez um fingido apoio a Mag, passando a mão no ombro dela.
— Menos né, sogrinha. O nome disso que você tá passando não é sofrimento, é carma mesmo. Aqui se faz aqui se paga. E me dá licença que não vou deixar a gente pagar por mais um erro seu.
Disse Luciane, abrindo caminho e pegando Aline pelo braço, que largou a maleta no chão e começou a espernear, enquanto era arrastada pela mulher de Hércules.
Vitória, AnaLu e Camila fizeram uma barreira no meio do corredor para evitar que Magnólia fosse atrás das outras duas, mas Mag se livrou delas em pouco tempo. Tiago respirou fundo e seguiu todas, vendo, ao chegar no topo da escada, que Magnólia alcançara Luciane na metade daquela e estavam as três uma atrás da outra, Aline na frente segurada por Luciane, que por sua vez era segurada por Magnólia.
— Olha só que legal, tem festa. E começaram sem mim. – disse Helena entrando pela porta da frente, liberando uma das mãos das compras e levantando o óculos escuros dos olhos, seguida de Pedro, que também entrava cheio de compras de mercado nas mãos, olhando a cena na escada através dos seus óculos escuro. – É aquele velho ditado, os gatos saem...
— Helena! – gritou Camila descendo a escada animada indo abraçar ela e Pedro – Tio, a minha vó enlouqueceu. Ela não só quer enfiar a louca da Aline de volta aqui, como também tá me expulsando do meu quarto para isso!
— Era só o que me faltava, mais dois para se meter nisso. – esbravejou Magnólia, soltando Luciane que olhava para os recém-chegados.
Tiago olhava com as sobrancelhas levantadas e a boca levemente aberta, surpreso para Helena, que tinha de volta suas roupas pretas, calça e jaqueta de couro, coturno com a ponta prateada, e o tio. Olhou rapidamente para o corredor lembrando que bateu na porta dela às 10:00 da manhã para não acorda-la muito cedo, quando ela já devia estar acordada há muito tempo.
— Magnólia, isso é verdade? – disse Pedro pousando as compras no chão e tirando então os seus óculos.
Camila passava então o braço por sobre o ombro de Helena, que a rodeava com o braço em sinal de apoio, e juntas erguiam o queixo para a cena de Magnólia.
— É, é verdade, e uma realidade que TODOS terão de conviver. – ela esbravejou, deu dois passos e então pegou Aline das mãos de Luciane que ensaiou ir atrás – Pare! – a matriarca disse levantando a mão para trás e parando os movimentos de Luciane – Essa casa é minha, os filhos do Hércules são responsabilidade dele, então não se meta no que não é da sua conta. Pare de pensar que você já é a dona dessa casa, porque para isso, antes, vai ter que literalmente passar por cima do meu cadáver.
— Neste caso, vovó, eu e Tiago também saímos da sua casa.
Disse uma AnaLu decidida, chegando e cutucando o irmão ao lado, no alto da escada. O qual a essa hora já estava distraído com os personagens na entrada da casa.
— Deixa a vovó fazer o que ela quiser, a casa é dela. – ele falou erguendo os braços e descendo pelas escadas, passando por uma Aline que o olhava fascinada, achando que ele queria ela ali, o que o desagradou – Escuta só, não chega nem perto da porta do meu quarto. Se preciso, entra pela janela do segundo andar para nem passar em frente da minha porta, estamos entendidos? – ele disse olhando não só para Aline, que baixou a cabeça mas também para a avó, que sorria com o apoio do neto que foi descendo as escadas – Se não eu é quem sai daqui. E não vai ser para uma casa ao lado. E é bom não ir perturbar a tia Vitória também.
Tiago terminou de descer a escada e ameaçar, Camila e AnaLu o olhando indignadas com a falta de apoio, Pedro com a mão na cintura, a exemplo de Luiante e Vitória. Magnólia tinha um meio sorriso, e Aline olhava para todos com o queixo erguido. Então ele se aproximou de Helena e Camila.
— Vem cá, onde cê foi tão cedo? – Tiago perguntou para Helena, mão direita na cintura e a esquerda levantada, apontando para as compras.
Helena ergueu uma sobrancelha, olhou para Aline e Magnólia, as duas já não tão animadas diante da cena de Tiago, e, fingindo que não o via, voltou a colocar os óculos, puxando Camila a andar com ela até o pé da escada. Chegando perto da escada, ela baixou a cabeça e escorregou os óculos pelo nariz medindo a fulana que se metia no quarto de Tiago.
— Ih, Camila, acho que temos um problema – Helena voltou a erguer o queixo e acertar os óculos – eu e o Pedro fomos fazer as compras pra casa mas esquecemos a ração dos cachorros. E pelo jeito tão secos de fome.
E Helena saiu com Camila para a cozinha, levando parte das compras e rindo. Os outros também tinham um meio sorriso para o que ela disse, com exceção de Magnólia e Aline, e Tiago, que estava parado, mãos na cintura, depois de ser ignorado pela sobrinha da Helô.
Magnólia aproveitou para ir subindo com Aline.
— Não acabou não... – tentou Luciane, mas Vitória a parou com as mãos, olhando firme.
— Deixa a mamãe, pelo menos sabemos agora com a cobra que estamos lidando. Não importa o que falarmos mesmo, ela não vai tirar essa maldita daqui.
— Ai gente – Luciane se virou para a frente, erguendo os braços e descendo a escada – tem horas que não posso com vocês.
— Deixa, Luciane, a Vitória está certa. Se a Magnólia desceu do pedestal dela para manter essa menina aqui, é porque não vai ter o que faça ela parar. Vem, eu e Helena fizemos as compras da casa. Leila? Você pode me ajudar com o resto de compras no carro?
— Bom... – a empregada estava passando correndo para a escada – a sua madrasta me pediu para ir limpar o quarto da Aline, então... tenho o maior gosto em ajudar vocês sim. Tem muita comida? Porque anda um horror dar jeito nas refeições da casa.
— Tem sim, ele sorriu.
Os demais foram descendo a escada e se prontificando a ajudar Leila a buscar as compras. Restou Tiago parado, cabeça baixa, constatando que Helena estava mesmo brava com ele.
— O que cê fez ontem, cara?
Tiago olhou para o tio de rabo de olho.
— Nada.
— Certeza? Porque Helena parecia nem querer saber de falar de você hoje. Acho – e Pedro foi levando as compras para a cozinha – que você aprontou feio.
Tiago então seguiu o tio até a cozinha, torcendo para o tio estar enganado. Lá, Camila olhava com Helena as coisas trazidas.
— Meu Deus, até que enfim caviar de novo nessa casa, que maravilha. – Camila pulava abraçada a um pote de caviar, enquanto Helena ria balançando a cabeça negativamente.
— É isso mesmo, Helena me fez comprar só o que tinha de melhor. – falou Pedro colocando as compras sobre a bancada – Aliás, se eu puder recomendar alguém para fazer compras, eu recomendo Helena, a mais animada. Ia de corredor em corredor, via tudo, adorava, muito animada.
Pedro falou isso abraçando a garota e a beijando na testa, deixando Helena meio encabulada. Tiago só observava, braços cruzados mas olhos brilhando vendo ela tão feliz com as compras. Camila então gritou tirando de uma das sacolas um pote de sorvete de chocolate com pedaços, logo interrompida por Helena que alcançou o pote.
— Espera aí, um é meu. – Pedro a olhou com as sobrancelhas erguidas – Desculpa o egoísmo, mas tem mais potes aí e já comprei doida para tomar um. – ela dizia enquanto corria pegar uma colher.
— Ah não, sorvete – disse Leila chegando acompanhada das outras com as compras – era só o que me faltava. Vocês me comem isso certinho, sem derramar. Teve uma vez aí que passamos quase a manhã inteira tentando limpar a sujeira de um pote que derrubaram.
Tiago se ajeitou e colocou as mãos no bolso, Helena baixou a cabeça focada em abrir o pote.
— Ah...sorvete. – falou Luciane largando as compras no chão e mexendo no cabelo enquanto olhava de Tiago para Helena.
Helena que estava com os óculos no alto da cabeça, olhou rapidamente para Tiago e desviou a atenção para pegar uma colherada do seu pote.
— Mas olha, vou confessar uma coisa – continuou Leila, começando a guardar as compras, enxotando Helena para o lado, longe dos armários, e perto de Luciane e Tiago – antes vocês sujarem de sorvete, que de brigadeiro queimado. Essa cozinha tava com um cheiro hoje cedo, horrível! O chão cheio de cacos de vidro...
Leila falava enquanto Pedro olhava de Helena para Tiago, intrigado.
— É mesmo, Leila? – ele disse.
Luciane por sua vez tinha a boca aberta, esticando com o indicador da mão direita um tufo de cabelo o enrolando entre os dedos.
— Danadinho – ela chegou perto do Tiago – então teu lance é chocolate. – Helena passou a língua pelos lábios contendo um sorriso, Camila e AnaLu concentradas nas compras, enquanto Vitória comia uma fruta atenta a cunhada – Você vê só como são as coisas, teu pai é mais do chantilly.
Helena quase engasgou com o sorvete, Tiago olhou a madrasta enrugando o nariz, boca meio aberta de nojo.
— Você, não.... – e ele saiu do lado de Luciane, indo na direção de Helena, se colocando do lado dela que fingia que não o via.
Vitória olhava a cena divertida, Pedro ajudava as sobrinhas sempre atento ao papo.
— Que? Coisa mais natural, gente. – Luciane ergueu as mãos.
Tiago tentou fugir do assunto, enquanto Luciane caminhou até a cunhada, se juntando a ela na observação do casalzinho.
— Posso? – Tiago tentou se aproximar, apontando para o sorvete, Helena suspirou e nada respondeu, estava sem paciência para ele, depois de ontem – Quem cala consente. – Tiago pegou uma colher e foi na direção dela.
— Você tá brincando, né? – ela falou protegendo o sorvete dele.
— Ah, agora você fala comigo? – Tiago a olhou colocando as mãos na cintura.
Na cozinha, Luciane e Vitória riam, Camila levantava a cabeça na direção deles, estranhando, enquanto Pedro e AnaLu tentavam colocar todos a ajudar a guardar as compras para não prestarem atenção nos dois.
Helena olhava Tiago furiosa. Olhou ao redor, até Leila os olhava de canto de olho. Ela pôs o pote em cima do balcão e pegou Tiago pelo colarinho, que foi sendo carregado com um meio sorriso.
— E aí, o que você acha? – perguntou Vitória olhando toda animada para a cunhada que apenas mexeu a cabeça concordando, o dedo indicador na boca fechada e curvada para baixo, admirada como Tiago deixava a garota dominar ele.
Até Pedro e AnaLu estavam parados, se entreolhando, com os pacotes na mão, olhando para a entrada da cozinha.
Já Camila foi atrás do pote de sorvete, usando a colher de Helena mesmo, sem se importar com a cena dos outros dois.
— Acho é pouco, a tal Isabela fica de mimimi, hora tá morta, hora renasceu no mesmo corpo quadrado que roupa nenhuma fica bem, e ainda me pinta cabelo achando que é o Superman, que só mudando cabelo ninguém reconhece. Sem contar a Leticia que gosta de fazer a noiva defunta, sempre caindo de morta pelos cantos. Tiago tem mais é que pegar Helena que é bem viva!
Discursou Camila, olhando o seu pote de sorvete, e depois olhando para todos.
— Essa menina, de uns tempos para cá, só me dá orgulho. – disse Luciane piscando para Camila, que mandou um beijinho no ombro.
Vitória olhava para as duas com sua fruta na mão direita, mão esquerda na barriga de grávida de 6 meses, e concordava rindo.
— Não é bem assim – interveio AnaLu – Tiago ainda ama a Isabela, só que depois de tudo o que aconteceu, acho que tá meio confuso.
— É... – Pedro olhava sério por onde os dois saíram – se for assim mesmo, AnaLu, é bom Tiago se afastar de Helena, para não meter ela no meio dessa confusão e acabar a magoando.
Os outros concordaram com a cabeça. Até Leila, parada, com potes de sorvetes na mão.
Helena atravessou o hall de entrada carregando Tiago, passando por uma Magnólia que vinha pela escada e olhou feio para os dois.
— Tá na hora de fazer netinhos, vó. – provocou Helena, ainda levando um bobo Tiago, tentando achar um cômodo fechado para falar com ele.
Magnólia que estava a procura de Leila voltou correndo as escadas indo até Aline, que estava vindo no corredor.
— Teu serviço começou mais cedo. Helena está com Tiago lá embaixo. Já sabe, não pode tirar o olhos dos dois. Vinte e quatro horas por dia. Se ele sair no meio da noite, é bom você estar logo atrás. Faz valer o esforço que foi te trazer de volta.
— Pode deixar, Dona Magnólia.
E Aline desceu a procura dos dois.
Helena o jogou no escritório de Fausto e foi abaixando as persianas. Ele sentou na mesa a observando, braços cruzados, meio sorriso. Ela então se aproximou dele e apontou o indicador da mão direita para o nariz de Tiago.
— O que é que tu quer hein garoto? E pra quê esse sorriso? Gosta de me fazer de boba!
— Negativo – ele balançou a cabeça para os lados, olhando para baixo – eu só estou feliz que você parou com essa brincadeira de me ignorar.
— Quem disse que eu tava te ignorando? – ela o puxou pelo colarinho, ele continuou sorrindo – Só estava te dando a devida importância. Netinho da vovó.
— Ah, então é isso? O que eu falei ontem para a minha avó! Olha...
— Não vou olhar, você é que vai me escutar. Não quero saber a desculpa – ela trazia ele para mais perto, pelo colarinho – que você conta pra você mesmo e pros outros da razão de ficar se fazendo de cego para a pilantra que avó faz – ele fechou a cara – tentando justificar sua obediência cega a ela. Mas não me mete nas suas fantasias de muleque carente.
Tiago se levantou, a encarando.
— Eu meto você nas minhas fantasias? Desde a hora que você me viu fez teatro, cria situação daqui, cria situação dali. Não sei nem pra quê fiz tudo isso pra você ficar!
— Fez tudo isso o que? Não fez nada para eu ficar, não. Tu mesmo disse – ela mantinha o dedo apontado para o nariz dele – que fez pela Isabela e Leticia, não me venha colocar no seu harém. Se toca! — e ela largou ele, Tiago a olhou irado, enquanto Helena se virava de costas – E não fica aí querendo dizer que me fez favor porque não dependo do favor de ninguém. Me viro muito bem só comigo.
— Fala pros teus chefes!
— Disse bem – ela se virou para ele – meus chefes, é um acordo mútuo, não tô mendigando.
— Helena... – ele largou os braços do lado expirando forte, fechando os olhos e baixando a cabeça, ele precisava se acertar com ela, então falou se controlando – o que eu disse ontem para a minha avó foi para ela não fazer tempestade em copo d’água. Mas eu...
— Sem essa, Tiago! – ela levantou as palmas da mão, parando ele – Pra cada um você conta uma história diferente. Parece que nem você sabe por que terminou com a Leticia, e agora sinceramente nem me importo.
Tiago abriu a boca para falar, mas se calou. Então ele olhou para o chão, colocou as mãos na cintura e começou a rir nervoso, balançando a cabeça.
— Acho engraçado que você sempre esquece do nosso acordo, de que a gente ia se ajudar. O que eu continuo fazendo, buscando te ajudar. E é isso, Helena, nós precisamos estar juntos, se ajudar.
Ele foi até ela e a pegou pelos braços.
— Não, Tiago, o pacto era que eu ia te ajudar a encontrar Isabela e saber o que aconteceu, e acho que já está mais do que claro isso. Isabela não morreu, e Tião é o responsável. É meio óbvio, não? Agora que você nem tem mais a Leticia para te perturbar – Helena o olhava nos olhos, a voz ficando fraca – vai atrás dela, de quem você ama. Não foi o que você disse na sala outro dia?
Tiago deu um passo para a frente se aproximando mais dela, os olhos indo da boca de Helena para os olhos, um conflito dentro dele. Porque no cérebro dele havia todo um burburinho concordando com Helena, ele amava Isabela, passou tanta coisa com ela, bom, no pouco tempo em que estiveram juntos, era amor. Mas...todo o resto dele dizia outra emoção agora, e não era pela Isabela.
— Eu não...- ele suspirou e apertou os braços dela mais forte.
— Eu sabia! – Aline entrou pela porta, vendo os dois.
Tiago olhou para a porta furioso.
— Não é possível. Essa casa é um inferno, não se pode conversar com ninguém sem virem te interromper ou ficarem escutando pelos cantos. Como se não bastasse – ele falou largando Helena que erguia as sobrancelhas – os loucos da família, ainda dão abrigo para mais. Sai, Aline, sai.
— Não, Tiago, eu não vou deixar você com essa bandida.
Ele pegou Aline pelo braço.
— Aline, vê se entende, a Helena está aqui por gosto nosso, você está por gosto somente da minha vó, então respeita a Helena e pensa muito antes de falar dela.
— Tiago, você não vê? Eu estou te protegendo justamente dela. – Aline passou a mão no rosto dele.
— É o suficiente pra mim, por hoje. – falou Helena erguendo uma mão para o alto e se retirando com cara de nojo – Vou deixar você com mais uma das suas candidatas a leitoa!
— Espera, Helena. – ele foi atrás, a parando na porta – A gente preci...
— Não, Tiago. – ela ergueu o mão direita mostrando o polegar – Estamos ok. Cada um sabe o que o outro pensa. Se me dá licença, tive muita coisa por hoje.
— Mas você ainda está brava comigo.
— De novo, você está se dando importância demais, porquinho.
E Helena saiu, ainda brava com ele.
Tiago ficou parado na porta. Pensou em insistir, mas com Aline por perto seria impossível. Ele olhou para a garota.
— Vai. Te manda. Já me arrependi os fios do cabelo por ter falado que minha avó podia te trazer de volta.
Ele foi empurrando ela para fora, sob protestos.
Aline, fora, foi atrás de Helena, ameaça-la a pegando pelo braço e empurrando na parede. Helena apenas olhou da mão que a segurava para o rosto de Aline, se controlando.
— Conheço o seu tipo, garota. Já vi muitas iguais a você passando por São Dimas, a maioria tiveram o fim devido.
— É? – Helena pegou a mão de Aline que segurava o seu braço e começou a torcer os dedos dela, fazendo a outra se contorcer de dor – Pois eu acho que você se enganou, porque não tem ninguém igual a Helena Martins. Agora, pede desculpas por ter encostado os dedos em mim.
— Você... – Aline sentia os dedos esticando e a dor aumentando, se abaixando – não pode...ai...
— Você dizia?
— Aaaaaiiiii alguém me ajuda!
Luciane ia passando por perto e apenas riu e saiu parando qualquer um que fosse na direção delas.
— Tá faltando mais um centímetro para eu quebrar os teus dedos.
— Aii... eu nunca...
— Meio centímetro.
— Desculpa! – Aline falou abrindo os olhos, furiosa, já quase de joelhos de dor – Me solta.
Helena fez cara de decepcionada e a soltou. Olhos ainda em Aline que se ergueu segurando os dedos, doloridos, levantando o queixo, Helena bateu um pé na direção dela e Aline deu um pulo para trás.
— É assim que gosto dos meus poodles, obedientes.
Helena disse passando a mão na cabeça de uma Aline assustada e saiu para seu quarto, ignorando Vitória e Luciane perto da escada, que davam boas risadas.
Começa a tocar Me Adora da Pitty.
Helena passou a chave na porta do quarto olhando para os lados e agradecendo de não encontrar mais ninguém no corredor, entrou e se trancou lá. Jogada, na cama, ela engoliu em seco. Fechou os olhos. “O leitãozinho é encrenca, Helena. Faz cara de pobrezinho mas come quieto. Melhor se afastar mesmo, antes que te meta nas confusões dele. Você não quer ser mais uma das fulanas sem personalidade ao redor dele, quer?”
— Pra quê, leitãozinho, pra quê você foi fazer aquilo? – ela lembrava dele a olhando depois de contar para a família sobre o termino com Leticia.
Tiago ficou ali, mesmo ouvindo Aline gritar por ajuda. Deu uns minutos e saiu pelo corredor, quando já não tinha mais ninguém. Passou no hall sem falar com ninguém. Camila estava com Vitória e Luciane, rindo, perto da escada. AnaLu vinha da cozinha com Pedro.
— Tiago, espera, preciso falar com você.
— Não tio. – e ele saiu batendo a porta, entrando no carro e patinando pneu.
...não espere eu ir embora pra perceber, que você me adora.
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