A sobrinha da Helô
45 Salvando a Sobrinha da Helô.
Notas iniciais
— Calma, Helô.
Disse uma AnaLu controlada, ao lado direito de Heloisa, pousando gentilmente uma mão em seu ombro e acompanhando o olhar daquela, que estava fixo em Tião, do outro lado da sala, próximo de Gigi e Magnólia, olhando nervoso para a tela do celular a cada meio minuto.
Havia alguns minutos que Tiago havia saído, e Heloisa havia trocado o ar angustiado por uma expressão de fria determinação.
— Como é que vou ficar calma, AnaLu? Eu venho suportando anos de...humilhação, desgosto e repulsa por esse homem. Todo esse tempo achando que dava para suportar, que ele não podia fazer pior, e em uma noite ele não só coloca a minha filha numa humilhação diante de todos os amigos, uma filha que eu achei que ele tivesse ao menos...consideração por todo o amor que lhe retribui, como... — Heloisa se virou para AnaLu, abaixando mais a voz, os olhos vermelhos e narinas dilatadas, as palavras ditas entre os dentes – como ainda mostrou novamente o monstro que é perseguindo a Helena. Deus queira que nada de pior tenha acontecido. Se Helena sair nem que seja um pouco machucada... – Heloisa olhou para Tião novamente, e se virou de costas rapidamente, enxugando os olhos com as mãos no rosto, quando aquele a olhou de volta, apertando os olhos, como se sentisse a fúria dela sobre ele – Faço eu a justiça com as minhas próprias mãos. — ela disse, saindo do lado de AnaLu a seguir.
— Helô?
AnaLu arregalou os olhos, observando Heloisa se encaminhar até o banheiro, de onde só se retirou quase meia-hora depois. Não vendo o momento em que Tião recebeu uma ligação minutos depois, e se retirou da festa, furioso.
Só AnaLu notou a alteração nele e na avó, com o telefonema que o enfureceu. “Mas nem deu tempo de Tiago chegar lá ainda.”
— Repete isso, Valdir!
— Patrão...eu ... – o outro gaguejava – Tinha gente infiltrada, não sei como...
— Mas você não selecionou pessoalmente cada um?
— Sim...sim... – Valdir tentava se explicar, estacionando a van, já há uma boa distancia da mansão, em uma estrada de chão com terrenos vazios e tomados de matagal – Mas tinha um...ex parceiro do Firmino, parecia...ele começou a derrubar o pessoal. Quando eu percebi já era tarde, ele já entrava na casa. Eu até sai para ajudar, mas quando cheguei na porta da casa...começou tiros...
— Quem atirou em quem? Ao menos mataram a garota?
— Não sei. Eu não entrei para ver, liguei a Van e saí de lá.
— É um incompetente mesmo. Não só fez um mal serviço, se é que fez, como ainda correu deixando as provas todas lá, largadas. Anda, se mexe. Volta para aquela casa e limpa o que tiver, nem que tenha que trocar tiros com a policia!
— Mas sozinho?
— Melhor sozinho que morto. Porque se algo escapar, Valdir, você é que vai virar meu alvo.
Tião desligou, olhando ao redor. Ninguém no corredor e ele não estava com paciência para voltar para a festa e ter de responder Magnólia. Foi embora, esperar noticias o capanga.
Valdir engoliu em seco. Transpirava. Se sobressaltou com o barulho de algo se mexendo no matagal ao lado da estrada, e olhou para trás. A porta da parte de trás da Van parecia destrancada. Irritado ele saiu do veiculo e foi trancar a porta pelo lado de fora. Voltou ao veiculo e respirou fundo antes de ligar o automóvel e retornar. Era melhor morrer em troca de tiros com a policia, que nas mãos de Tião.
Quando a Van já estava fora de vista, o corpo de um homem, vestido como os capangas de Valdir, saiu do matagal, cambaleando pela estrada na direção da cidade.
— Helena? – Tiago havia deixado ela escorregar pelo corpo dele, a sentando no chão, a segurando pelas costas com a mão esquerda, a direita no seu rosto, mexendo várias vezes – Fala comigo. – ele pediu, encostando a testa dele na dela.
Sem resposta, mas sentindo ela respirando, Tiago olhou ao redor, pensando no que iria fazer.
O carro de Flávia estava há poucos metros, ela havia trazido para eles. Olhando de Helena para o carro, ele fungou, secando as lágrimas que ensaiavam descer dos olhos com as costas da mão direita, Tiago a deitou no chão com cuidado e foi até o veiculo, o trazendo para bem perto, com a porta do caroneiro do lado em que Helena estava.
Ele reclinou o banco, de modo que a namorada ficasse deitada, e saiu do carro para acomoda-la ali.
Quando ela já estava totalmente deitada e Tiago se erguia para sair e fechar a porta, ela gemeu, e começou a abrir os olhos.
— Helena? – ele voltou rápido, segurando o rosto dela entre as mãos – Graças a Deus. Helena. Você tá ferida, como é que você não me contou?
— Tiago? ... – ela falou com a voz baixa, tentando olhar para ele, mas a vista estava embaçada – O que aconteceu?
Ele olhou a situação dela. A conversa com certeza não levaria a nada, e ela continuava perdendo sangue. Agora era hora de agir.
— Nada. Helena, você tem que se poupar.
Ele fungou olhando o rosto sem cor da namorada, e então para o ferimento aberto. Passando a mão manchada de sangue seco pelo nariz, Tiago começou a desabotoar a camisa, a tirando e colocando na mão de Helena, ficando apenas com a regata branca, quase tão manchada de sangue quanto o resto de roupa dele
— Aqui. Você tem que me ajudar a se ajudar. Segura isso em cima do ferimento. Tenta pressionar o mach... – ele colocou a mão dela sobre a camisa, mas notou que estava fria e a namorada tinha pouca força.
Tiago queria chorar, mas tinha que ficar em pé e salvar ela. Colocou a mão direita sobre a boca e tampou a emoção que queria sair como um grito pela garganta. Pegou ela pelos ombros e a beijou, prendendo o ar, fazendo Helena dar um leve sorriso, quando ele se afastou.
— Eu vou dar um jeito.
Tiago olhou para os lados, saiu do carro. Olhava em todas as direções para si. E então viu o próprio cinto. O tirou e amarrou o mais forte que podia ao redor da cintura de Helena, pressionando a camisa sobre o ferimento do lado direito do abdomem dela.
— Isso deve dar um jeito por agora. – ele respirou fundo, beijou a testa dela e fechou a porta, indo para seu lugar ao lado dela, dirigindo – Agora eu tenho que saber para onde vamos – Tiago pegou o celular, sabia exatamente onde não poderia ir, e onde todos estavam: na mesma festa que Tião – O Tio Pedro! Ele não foi. – ele gritou animado, Helena virara a cabeça para ele e sorrira, ainda tentando entender o que acontecia – Tio? – Pedro atendera – Tio, onde você tá? Beleza. Eu vou até o barco. É urgente, não sai daí. E não diz pra ninguém também. Não...tio, fica tranquilo. Não importa o que digam, você não sai daí, e me espera. A Helena...ela precisa de ajuda. Tio... não posso falar agora.Tchau.
Ele desligou o celular e o jogou no chão, já ligando o carro.
— Agora nós precisamos de um médico para você. Assim como você está , nem eu ou o tio conseguimos ajudar. — ele mantinha a conversa com ela, sabendo que Helena mal entendia o que ele dizia.
Tiago sentiu as mãos começarem a tremer, mas ele precisava ser firme.
Levou o carro até o estacionamento do hospital mais próximo, e estacionou perto da área dos funcionários. Aguardou alguns minutos. Uma médica apareceu, mas estava grávida, ele não arriscou. Então notou um médico vindo, com uma enfermeira. Ele parecia com mais de 50 anos, e ela com uns 30. Estavam de jaleco e crachás ainda.
Tiago jogou a cabeça para frente, batendo no volante, acordando Helena que parecia ter dormido. Do caminho do posto até ali ela fizera muito isso, parecia adormecer, Tiago se desesperando, dando tapinhas nela enquanto dirigia, e ela acordando. Ele respirou fundo, e olhou para ela.
— O que você faria, Helena? – ela só sorriu para ele franzindo a testa – Eu também.
Tiago se virou sobre ela e procurou no cinto do conjunto dos capangas a arma que ela havia guardado ali. Puxou com cuidado para não mexer no machucado dela. A camisa parecia estar se encharcando de sangue, para mais desespero dele. Quando finalmente retirou a arma, o dedo escorregou e a arma disparou para fora, fazendo um buraco no vidro da porta do caroneiro, e fazendo Helena ficar mais acordada.
— Tiago? O que você tá fazendo?
— Shhh... sorte que tem silenciador. – ele colocou a mão livre sobre a boca dela, a esquerda segurando a arma apontada para cima – Eu vou te salvar.
— Você... – ela tentava ter forças mas não conseguia – Você não sabe mexer com isso. Vai machucar alguém.
— Helena, eu...eu tenho que fazer algo. – ele a olhou desesperado, a mão agora segurava o queixo dela.
Ela fechou os olhos e engoliu um pouco de saliva, sentindo a pressão caindo mais, o suor frio começando pelo corpo e a respiração acelerada.
— Tá certo. Mas... – ela puxou o ar e fez força para erguer as mãos, segurando a mão de Tiago com a arma – pelo menos trava ela. Aqui ó. – ela ensinou a ele como travar e destravar a arma – Assim não tem acidente. Se precisar, já sabe o que fazer.
— Certo. – ele falou atento à arma então a beijou – Já volto.
— Tiago?
— Oi?
— No meu cinto, pendurado, tem uma mascara.
— Pra que?
— Pra dar mais medo. – ela respondeu o olhando séria.
Ele suspirou e sorriu para ela, procurando a mascara preta que ela usara e colocara ali depois de ter atirado no chefe, e pensado em se mover para ir atrás de Gustavo. Ela não notara o ferimento até procurar um lugar para guardar a mascara, no caso de precisar fugir de mais bandidos. Mas naquela hora Tiago apareceu, e ela se concentrou em Gustavo, que parecia mais ferido.
Tiago vestiu a mascara, se olhou no espelho retrovisor e saiu. Helena sorriu fechando os olhos, perdendo os sentidos.
Tiago entrou no estacionamento desviando da portaria, que estava vazia, e procurou um veiculo se mexendo. Mas não precisou, pois tinham poucos, e num deles estavam, do lado de fora, o médico e a enfermeira, com livros nas mãos, conversando. Ele estava há uns vinte metros quando o notaram. Tiago ergueu a arma para eles e colocou o dedo indicar na boca, mandando eles não gritarem.
— O que tá acontecendo? – falou o homem deixando os livros caírem, a mulher indo se esconder atrás dele – Olha, não vamos resistir, pode levar o carro.
— Vocês dois, – Tiago falou com a voz mais grossa – Vem comigo. Sem alarde.
Se Tiago visse a sua figura, entenderia o porquê ambos aceitaram sem pestanejar a ordem. Ele estava de regata branca suja de sangue, calça social suja de sangue, o suor brilhando nos braços e dorso, molhando a regata no peito, com uma máscara que permitiam ver o olhar vidrado e a boca, apenas. Em nenhum momento a mão tremeu com a arma.
Médico e enfermeira seguiram o caminho que ele apontou com a arma. Tiago chegou até o carro, do lado do caroneiro, e mandou o médico abrir a porta.
— Minha...ela está ferida. – ele disse para o médico, a voz já não mais grossa, normal e um pouco embargada – Você vai examinar ela.
— Mas... – o médico ergueu os braços, olhando para Helena – A gente está em frente a um hospital...
— Sem mas. Examina ou mato a sua namorada...
— Não é minha... – o médico começou mas Tiago ergueu a arma para a mulher que tampou a boca abafando um grito – Tá certo.
Ele se inclinou sobre Helena, tirando o cinto e o pano. Mediu com o dedo indicador direito os sinais vitais dela no pescoço. Tiago mantinha o olhar na enfermeira, de vez em quando jogando o olhar sobre o médico e suspirando.
— Não tem jeito. Ela precisa ir pro hospital. O ferimento não parece que fez grande dano, acho que não atingiu nenhum órgão vital, mas ela perdeu muito sangue. Precisa de transfusão e soro...
— Hospital não é opção. Tem que ser fora. O que precisa para fazer a transfusão?
— De uma enorme máquina e um doador. Você tem isso? – o medico gritou estérico, ainda inclinado sobre Helena.
Tiago puxou o ar e deu uma coronhada no homem, que caiu para frente, no colo de Helena.
Os olhos arregalados para o que acabara de fazer, a adrenalina correndo no sangue, a mão começando a tremer, Tiago se virou para a enfermeira, que tinha o olhar arregalado e as mãos sobre a boca.
Ele engoliu em seco, sentindo remorso. Fechou os olhos e continuou.
— Escuta. Eu não vou fazer nada contra vocês. – abriu os olhos e a mirou firme – Mas a moça ali é a minha namorada, e ela precisa de ajuda. – a enfermeira se mantinha na mesma posição, mas soltava o ar devagar – Por isso, eu peço que você volte ao hospital – ela desceu as mãos concordando rapidamente – e traga as coisas do doutor, e mais o que for preciso para fazer o que ele disse. Para cuidar dela. – ela voltou a arregalar os olhos e mexer a cabeça negativamente – Sim.
— Não.
— Tá certo. Vou deixar mais claro. Você vai fazer tudo isso em no máximo três minutos. Eu vou ficar aqui com o médico. Se você não aparecer com tudo, ou eu ver algum movimento estranho, eu levo ele comigo e você só vai ver seu amigo... — ele a olhou significativamente — Você entendeu? — Tiago tentou dar o olhar mais frio possível, e pelo visto conseguiu um muito bom, pois a enfermeira novamente arregalou os olhos – Pode ir, os seus três minutos estão começando.
Ele falou isso balançando a arma na direção dela. A enfermeira levou uns segundos, se virou e saiu rápida. Aproveitando ela já longe, ele colocou a arma no chão e pegou o corpo do médico, o colocando no banco de trás. Isso levou quase dois minutos.
Olhou para o hospital e não notou movimento estranho. Pegou a arma do chão e foi até Helena, que não acordara com todo o barulho. Tiago se agachou ao lado dela, e pôs a mão direita sobre o seu rosto. Ela suava, muito, molhando a mão dele e desmanchando o sangue seco, na palma dele, sobre a bochecha esquerda dela.
Música Speak To Me – Amy Lee
O choro saiu, soluços que saíam em solavancos, enquanto Tiago aproximava o rosto dele de Helena, a testa caindo sobre o queixo dela. Ele puxou o ar e ergueu a cabeça para ela, beijando o queixo dela. Nenhuma reação, estava perdendo ela.
— Não morre, Helena. Por favor. – ele falou afastando o rosto e levantando a máscara para limpar o nariz, fungando – Se você morrer, — ele colocou a testa sobre o rosto dela, encostando os lábios – eu morro também. Não me deixa. Luta, Helena.
Ele deixou mais choro sair, quando foi surpreendido por uma mão no seu ombro.
— Vem, vamos.
Tiago se levantou rápido, puxando a mascara para baixo, encarando uma enfermeira compadecida. Ela ergueu uma bolsa branca grande.
— Não parece a maleta do médico.
— E não é. Aqui coube mais coisa. Vamos. – ela já foi entrando no carro, abrindo a porta do banco de trás e empurrando o colega para o lado.
— Não desconfiaram? – Tiago perguntou entrando rápido no carro.
— Eu espero que não. – ela falou olhando para trás e notando dois seguranças saindo da porta do hospital – Mas pensando bem...
Tiago já tinha visto os seguranças pelo retrovisor e acelerou. A viagem que levaria de uma a duas horas levou quarenta minutos. Ele havia ligado para o tio enquanto ia, pedindo para esperar com algo para levar Helena até o barco, na entrada do porto.
Quando chegaram Pedro já estava a espera, com algo como uma porta arrancada de algum lugar, no chão, e cordas na mão. Com o medico já acordado pelos solavancos da viagem, e a enfermeira o puxando para fora do carro, para ajudar, Tiago saiu do carro correndo, chamando o tio para pegar Helena no outro banco.
— Meu Deus, Helena. – o tio falou, pegando o rosto dela entre as mãos – A gente vai ter que ser muito rápido. Era para ela ir no hospital.
— Não. Eu trouxe o hospital.
— Tiago... – Pedro reclamava, mas já pegava Helena no colo, a pousando na porta no chão.
— Tio, o Tião tentou matar ela lá em casa. Pode muito bem tentar o mesmo no hospital. A gente tem que esconder ela.
Enfermeira e médico observavam os dois. Pedro envolvia Helena com a corda e se erguia, olhando para o sobrinho e colocando as mãos na cintura.
— Tá certo. Vamos. – ele apontou para a porta e então viu o médico e a enfermeira – Vieram ajudar?
— Sim. – Tiago apontou a arma, sempre na mão esquerda dele, para o médico, indicando a outra ponta da porta, para ajudar o tio a carregar Helena – Vamos.
A enfermeira empurrou o médico, contrariado.
— Mas... – Pedro começou mas Tiago o interrompeu.
— Sem tempo para explicações.
Os dois levaram Helena para o barco, com a enfermeira e Tiago atrás, este por ultimo.
Com muito esforço conseguiram levar ela até a cabine, onde a deitaram na cama de Pedro e imediatamente o médico se debruçou sobre ela.
— Isso é muito arriscado e precário.
— Mas não tem outro jeito. É só dizer o que precisa.
Tiago respondeu com a arma apontada, observando o médico retirar a blusa preta de Helena, e começar a trabalhar no ferimento, com a ajuda da enfermeira.
— Pois eu tenho que primeiro fechar o ferimento, isso se não tiver uma bala ainda ali dentro, e depois eu vou precisar da transfusão de sangue e soro... Tudo isso arriscando que só de olhar superficialmente já saberei os efeitos do tiro, o que ele atingiu...
— Eu trouxe soro, e agulhas com mais algumas coisas que vai dar para fazer uma transfusão. Sim é precário, mas antigamente também era e funcionava. — respondeu a enfermeira, prestativa.
O médico olhou de soslaio para a enfermeira, contrariado. Tiago notou e suspirou, se agachando do lado do médico, que se inclinava sobre Helena, mexendo com uma pinça dentro do ferimento.
— O senhor tem esposa? Filhos? – o médico apenas fechou os olhos e inspirou fundo – Porque ela vai ser minha esposa e mãe dos meus filhos. – Tiago falava emocionado e decidido, apoiando os cotovelos nos joelhos e juntando as mãos a sua frente, a arma ainda na mão esquerda – Então, por favor, doutor, faça por ela o que gostaria que um colega fizesse por sua esposa e filhos.
A enfermeira engoliu em seco. Sabia que o médico não tinha nem esposa e nem filhos.
Pedro estava num canto, sentado, as mãos sobre o rosto. Sabia que o sobrinho estava fora de controle, mas era o único que agia de modo a salvar Helena. E ele não queria perder a garota. Se sentia tão desesperado quanto Tiago.
— É nobre a sua intenção, garoto. Mas errado. O erro não se justifica pelo fim. – o médico finalizou puxando o projétil de dentro do ferimento, com cuidado, e o estendendo para Tiago, que abriu a mão para pega-lo.
— Não tenho problema em pagar pelos meus erros, doutor. – Tiago olhava para a bala na sua mão direita – Eu só não vou aceitar pagar pela maldade dos outros.
Tiago se ergueu e foi para junto do tio, esperar o médico terminar o serviço dele.
Fechado o ferimento e estancado o sangramento, o doutor se ergueu, olhando para os outros dois, principalmente para Pedro, que desviou o olhar.
— Terminou? – Tiago perguntou ansioso, tentando ver se Helena reagia.
— A parte mais fácil. Agora preciso fazer a transfusão, e para isso...um doador é material principal.
— Beleza. – Tiago se levantou – De mim.
— Mas é... – o médico observava Tiago ir até a cama com o braço direito estendido – Eu preciso de alguém compatível.
— Doutor, eu sou sangue O negativo. Doador universal, não é? Então? De qualquer forma, não tem como saber o tipo sanguíneo dela agora, né? Só eu sirvo.
Enfermeira, médico e Pedro se entreolharam.
— Tiago tá certo. – Pedro se manifestou, levantando e dando apoio ao sobrinho, mesmo diante do olhar repreendedor do médico.
— Vamos! – Tiago gritou, tirando a mascara e jogando no chão.
— Certo. Se vamos fazer isso, tem que ser direito.
O médico achou apertada a cama para Tiago e Helena ficarem deitados e improvisaram com bancos um lugar para deita-lo do lado dela. Com os utensílios trazidos pela enfermeira, começaram a transfusão de sangue diretamente dele para ela. Isso levou algum tempo. Tempo em que Tiago preferiu pensar em Helena se recuperando, e não na dor.
— Ótimo. Isso está bom. – o médico falou chamando Tiago e tirando a agulha da sua veia – Agora é só colocar soro e esperar. Talvez precise de outra transfusão. Vai assaltar um banco de sangue?
— Não. Você tira mais de mim. – Tiago respondeu se levantando, tentando ignorar a tontura.
— E daí você morre!
— Doutor. – a enfermeira chamou, cuidadosa – Eu também sou O negativo. Posso ajudar.
O médico suspirou, sem nem mesmo olhar para trás.
— Certo, então. – ele olhou para os bancos que Tiago deixou livre e levou uma para próximo de Helena, medindo o pulso dela – Vamos ter que ficar aqui de qualquer jeito, então, me prepare algo para comer. – os outros três se entreolharam – E algo para o garoto beber. Ele acabou de fazer uma transfusão.
Pedro providenciou algo para eles enquanto o médico e a enfermeira providenciaram soro para Helena. Tentando compensar o transtorno dos outros dois, ele resolveu pedir desculpa pelo sobrinho e explicar a situação enquanto comiam. Tiago se afastara, indo até Helena e se agachando ali. Notando que ela estava sem nada por cima, sobre o peito apenas um pano amarrado, que ela devia ter feito para disfarçar os seios e enganar os capangas do Tião, Tiago procurou o lençol e o puxou sobre ela, beijando o seu rosto, que não suava mais. Ele sorriu e se sentou no chão, ao lado da cama, ouvindo Helena respirar.
Jogando a cabeça para trás, a pousando sobre a cama, cansado e fraco, ele dormiu.
— Deixa a Helena em paz. – alguém gritava no sonho de Tiago – Seus desgraçados. Avisa para o Tião que onde ele for – a voz foi se tornando cada vez mais nítida para Tiago, que começou a perceber que não era do sonho – eu vou atrás. Que eu não me importo com quanto tempo vou ficar na cadeia. Vou matar ele!
Pedro gritava, segurado por dois homens encapuzados e vestidos de preto.
Tiago ergueu então o olhar e viu a sua frente, um outro encapuzado, que desviou o olhar do tio dele, notando que Tiago acordara, e apontou a arma para a sua cabeça.
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