A sobrinha da Helô
7 Mais próximo da Sobrinha da Helô
Helena entrou no quarto acompanhada de Pedro. Estava muito satisfeita consigo mesma, nem conseguia acreditar que dera a volta tão bem em Tião.
— E aí, menina? Dia pesado pra você hein.
Ela se virou para Pedro que permaneceu perto da porta, ainda aberta.
— É... nada mal para um segundo dia na cidade.
Ela se sentou na cama e abaixou a cabeça parecendo triste. A farsa tinha que continuar.
— Acho que agora eu só quero mesmo aquele banho e tentar descansar. Acho que não vou conseguir esquecer o rosto daquele homem tão cedo.
Ela colocou as mãos no rosto.
— Ei... – Pedro se aproximou dela, se ajoelhando – não fica assim. Essa gente não merece. Você não pode ficar presa a isso. Deixa ir, o pior já passou e você tá aqui, bem, segura. E a partir de agora não vamos mais te deixar sozinha. Você vai ficar bem protegida.
Pedro beijou a testa dela. Mas Helena só conseguia pensar no que ele falou de ela não ficar mais sozinha “Genial, Helena, agora você conseguiu uma babá. Como vai se livrar de Pedro depois dessa?”
— Eu agrade... – Helena ia começando um discurso para se livrar da proteção de Pedro quanto Heloisa apareceu na porta.
Helô tinha nas mãos várias sacolas. Helena a olhava sem expressão. Pedro virou o rosto na direção que Helena olhava e viu a ex. Foi então se levantando devagar.
— Acho que eu estou atrapalhando. — ela disse com sorriso tímido.
— Não. Eu só tava tentando acalmar ela. Mas já...eu vou.
Pedro respondeu rápido, saindo do quarto, evitando olhar para Helô.
Ela por sua vez o observou saindo e molhou os lábios, para logo depois os morder. Suspirou. Então olhou para as sacolas e lembrou do que veio fazer ali. Viu Helena na beirada da cama, com cara preocupada e triste.
— Você parece muito abalada. Era melhor eu deixar isso pra depois.
Helena acordou dos devaneios.
— O que? Não, não, pode entrar.
Heloisa foi até a cama e sentou do lado da filha verdadeira, colocou as sacolas no chão e então se virou para Helena, dando-lhe um abraço materno. Helena apenas o recebeu.
— Eu não acredito que você teve que passar por tudo isso. Se eu tivesse lutado mais com Tião e Leticia você ainda estaria...
— Não. A culpa não foi sua. Deixa assim.
Helena a cortou, colocando a mão sobre a de Helô, que sorriu e passou a outra mão no rosto da primeira.
— Luciane falou uma coisa certa, você poderia ser minha filha. Até me lembra de mim na tua idade, sempre tentando ser forte. – Helô terminou a frase aproximando o seu rosto até encostar testa com testa em Helô — Lutando pelo que acredita.
Helena suspirou.
— Então, o que tem nessas sacolas?
— Ah... – Helo se afastou fungando animada e puxou as sacolas, abrindo um sorriso feliz – eu tenho presentes pra você.
— Pra mim? – Helena olhou ressabiada.
— É... eu sei que você não gosta. Mas você saiu só com as suas roupas lá de casa ontem, nem pegou os presentes que comprei pra você. – Heloisa murchou um pouco o sorriso – Eu fiquei tão preocupada com você. Só consegui dormir quando Edu veio no meu quarto e contou que Pedro tinha trazido você pra cá. Aparentemente ele tem uma relação mais amigável com meu ex do que eu.
Elas sorriram.
— Então... – Helô puxou as sacolas – eu sai bem cedo e fui comprar mais umas coisinhas pra você, voltei e peguei as sacolas que você deixou para te trazer aqui. Mas...- novamente o sorriso murchou – como sempre Tião adivinhou minhas intenções e convenceu Leticia a vir junto, de certo pra me inibir a te dar estes presentes.
As duas ficaram em silencio. Helena respirou fundo.
— Posso ver o que mais você comprou pra mim?
— Claro! Olha.
E Helô se ajeitou na cama para ficar de frente para Helena, dobrando uma perna sobre a cama. Helena a imitou, e elas começaram a despejar as sacolas sobre a cama, vendo cada peça. Helena não parecia animada de inicio, mas logo entrou no animo de Helô. Tinha umas roupas mais leves, simples, e umas prestas, jovens, mostrando que Helô pensou em abranger bem as opções. Ela olhava Helena carinhosa, feliz com cada descoberta de roupa nova.
— Agora os sapatos.
— Tem sapatos?
Helena levantou as sobrancelhas acompanhando com o olhar a bolsa que Helô erguia e colocava no seu colo.
— Claro que tem! Esse eu pensei em você na hora que vi.
Helena abriu o pacote, quase chorou. Um coturno. Mas não qualquer coturno, era um de couro preto, com várias spikes nos lados e na barra atrás, e na ponta era envolto em metal. Lindos. Ela não resistiu, ainda segurando um dos calçados na mão, se jogou para frente e abraçou Helô, que estava emocionada com a alegria da falsa sobrinha. Elas ficaram assim uns segundos até ouvirem a famosa voz de mau agouro.
— Que tocante. – Tião, na porta, observava as duas, que agora alteravam o semblante feliz para desconfortáveis – Então é para isso que meu dinheiro tem servido? Mimar quem prejudica a sua filha?
Leticia estava do lado, olhando desgostosa, como sempre. Helô abaixou a cabeça, irritada.
— O dinheiro... – Helô ia começar quando Leticia os interrompeu.
— Ai gente, sem brigar agora. Mãe, vamos embora? O Dr. Bruno está com Tiago agora, disse que ele precisa descansar, e eu já to começando a me sentindo mal. — Leticia disse a ultima frase olhando feio para Helena, que devolveu sorrindo meiga e falsa.
— Certo, filha. – Heloisa suspirou. Levou a mão a frente, afagando a de Helena e saiu do quarto, indo com a filha, deixando Helena para trás, no quarto, ainda ouvindo a conversa delas no corredor – Mas o Tiago tá melhor?
— Não sei bem – respondeu Leticia – quem conversou com ele foi só o pai. Ficaram um tempão no escritório do avô...- e a voz das duas foi sumindo.
Helena arregalou os olhos. Tiago havia conversado com Tião. Ela olhou rápido para a porta, pensando em ir ver se conseguia descobrir mais alguma coisa, e ali, parado, encostado no batente da porta, estava Tião, a observando, frio.
Primeiro ela se assustou, com aquela imagem fria e agourenta diante dela, olhos fixos como se ela fosse carniça e ele o urubu, e então ergueu o queixo. Os dois sabiam o porquê do afronte. Tião já devia saber, ainda mais depois da cena que acabou de ver, que ela era a verdadeira filha da Helô.
— Algum problema, Tião? – disse Pedro vindo novamente salvar ela.
— Muitos! – ele respondeu se retirando, sempre com o olhar fixo sobre Helena.
Pedro acompanhou ele com o olhar, mãos na cintura. Depois olhou para Helena.
— Helena, esse é o doutor Bruno, médico da família. Ele vai cuidar de você.
Disse Pedro apresentando Bruno e o introduzindo no quarto de Helena. Esta ultima perdida nos próprios pensamentos, mal sentiu o médico mexer nos machucados. “É agora. Tião já sabe quem eu sou. E eu nem tenho um telefone para me comunicar com Paulo e perguntar o que faço, e avisar a situação.”
— Você me ouviu? – Bruno perguntou.
— Hã? Desculpa, não.
— Ela teve um dia bem agitado hoje, ainda tá meio..
— Sim, sim, eu soube. – Bruno cortou Pedro. – Eu vou lá ver Tiago que precisou primeiro tomar banho antes de eu fazer curativos, e enquanto isso eu preciso que você tome banho. Ok? Não se preocupe com a limpeza dos machucados que eu mesmo faço.
Ela concordou aérea. Pedro estava preocupado com ela. Bruno saiu e ele a olhou.
— Tudo bem, Helena?
— Sim. Acho que eu só preciso do banho mesmo.
Ela sorriu. ele respondeu o sorriso e foi até ela, dando um beijo na testa, depois saindo. Helena olhou por alguns segundos ainda a porta e depois pegou uma das roupas leves que Helô tinha acabado de trazer, e foi para o banheiro que tinha no quarto.
Na ducha ela levou mais de uma hora só pensando no que ia fazer, tentando organizar os pensamentos. Mas então lembrou que faltava saber o que Tiago contou para Tião. Dependendo do que ele disse, ela estava bem mais perdida do que poderia recuperar em um golpe certeiro.
Saiu do banho com um vestido fitt and flare jeans, ainda descalça, enxugando o cabelo, que finalmente não tinha mais nenhum galho ou folha.
Ela parou diante do que estava em cima da cama e sobre as outras roupas. Uma caixa de encomenda. Ela olhou ao redor do quarto, procurando alguém. Foi até a porta e a trancou. Pegou o pacote, rasgou e levantou as sobrancelhas. Uma caixa de telefone caro. A caixa começou a tremer a assustando. O telefone devia estar ligado lá dentro.
Ela abriu a caixa e pegou o telefone.
— Olá, Helena...- disse a familiar voz de Paulo na outra linha – O chefe mandou esse novo presentinho e avisou que esse é pra não perder no rio. Entraremos em contato de novo em breve. É só o que posso dizer. Segue em mensagens algumas informações importantes. Tchau.
— Espera...
Helena estava tão impactada que só foi lembrar que precisava falar com Paulo quando ele já ia desligando. Suspirou.
Doutor Bruno bateu na porta. Ela abriu.
— Bom, vamos ver esses machucados.
Ela tirou as roupas da cama e deixou ele fazer o trabalho dele. Até que as mensagens que Paulo falou foram chegando, e ela foi ficando aliviada e ao mesmo tempo intrigada com os seus benfeitores.
Já era quase três da madrugada quando Helena olhou no relógio e desistiu de tentar dormir. Depois que fizeram os curativos e passaram as indicações, ela se trancou no quarto com a desculpa de precisar descansar. E até tentou mesmo, mas o máximo que conseguiu foi duas ou três horas de sono agitado, tendo pesadelos com ela sendo afogada por Tião.
Ela saiu do quarto, usando só uma das camisolas de algodão que Helô trouxe, uma preta, alça fina, com uma estampa bem grande escrita “Kiss me” em vermelho, mesma cor das alças, e que terminava dez centímetros acima do joelho. Foi até a cozinha. Deixou o celular na bancada e foi pra geladeira. Precisava de algo doce. Abriu a geladeira, procurou, algo bom, mas não tinha nenhum resto de sobremesa ou doce caseiro ali. “Que merda de gente rica é essa que nem um doce bom na geladeira?”. Abriu a parte do freezer e lá estava um lindo pote de sorvete de chocolate com pedaços. Ela bateu palminhas e pegou o sorvete feliz.
Pegou uma colher, tirou a tampa do pote e pulou na bancada de azulejo no meio da cozinha.
— Não consegue dormir também?
Falou Tiago entrando na cozinha e indo até ela. Usando só a bermuda do pijama e uma faixa ao redor da costela. Estava com o olho roxo, assim como o lado esquerdo da boca dele. Mas mais nada inchado.
— Que susto, cretino! – ela sussurrou, com a mão que segurava a colher, sobre o peito.
Ele riu. Era sempre bom fazer ela provar do próprio veneno.
Ele foi até ela, que estava de costas para a entrada da cozinha. Apoiou uma mão na bancada, próximo a onde ela estava.
— O que você tá comendo? – ele enfiou o dedo no pote de sorvete, pegando um pouco. – Bom.
— Mas... é um porquinho mesmo! Para com isso nojento, deixa meu sorvete.
— Seu sorvete!? A casa é da minha família, lembra? – Helena revirou os olhos, ele ficou de frente para ela agora, com as duas mãos apoiadas no balcão, a rodeando, olhando para o pote, se preparando para enfiar o dedo de novo – Esse sorvete é meu, e não seu.
— Hummm... ela fingiu olhar dentro do pote – não vejo o seu no...espera, tá ali na embalagem “produto de origem animal”, é deve ser seu mesmo, leitãozinho, pode pegar.
Ele levantou a cabeça e deu um meio sorriso, fechando quase totalmente os olhos, meneando a cabeça para o lado esquerdo, quase encostando no ombro.
— Mais uma ótima piada para não se contar.
Ele enfiou outro dedo no pote. Ela olhou feio, e com uma mão segurando a colher e o pote sobre o colo dela, deu tapinhas na mão de Tiago com a outra mão. Pegou então outra colherada, e, ainda saboreando o sorvete, perguntou colocando uma mão na boca.
— E você, não tá conseguindo dormir?
Ele levantou apenas o olhar rapidamente, ela então sorriu da própria pergunta idiota balançando a cabeça, enquanto ele baixava a dele de novo para o pote de sorvete. Ela o havia pousado bem sobre o colo dela, na parte ainda coberta pela camisola, a beira de onde as pernas começavam a aparecer. Tiago se viu preso a uma gota de sorvete que estava bem em cima da coxa direita.
— Ôu... – Helena, com a palma da mão esquerda, afastou a cabeça dele de cima do pote – tem mais ali dentro. – ela apontou para a geladeira, de certo pensando que ele namorava apenas o pote de sorvete.
Ele suspirou. Se afastou do balcão e abriu o freezer. Não tinha mais sorvete ali. Voltou a olhar pra ela, mas Helena já estava em pé sobre a bancada, o olhando com um sorrido pirracento.
— Acho que me enganei. – ela se lambuzava.
— Tu acha que eu não vou aí em cima buscar é?
Ela riu.
— Eu acho é que você vai ter mais hematomas pra cuidar se tentar.
Ele colocou a mão na cintura. De fato ele já tinha muitos por causa dela.
— Então tá... — ele disse andando devagar para a porta da cozinha – conto depois sobre a conversa com Tião.
Ela arregalou os olhos. Tinha esquecido.
— Espera aí, leitão. – ela se ajoelhou na bancada o chamando com a mão, sussurrando – Eu tinha esquecido. Me conta.
Tiago se virou sorrindo. Mas parando quando sentiu nova dor no lado esquerdo do rosto. Foi até ela e enfiou outro dedo no pote de sorvete, que agora ela segurava na altura do peito, já que estava ajoelhada e inclinada para a frente, sob a bancada.
— Foi tenso. Tião me assusta cada vez mais. – Tiago disse saboreando o sorvete e olhando sério para Helena.
Ele começou relembrando a conversa.
Tião entrou no escritório do seu avô e o jogou na cadeira em frente a mesa onde seu aquele sentava, e lá se sentou, sob o olhar reprovador de Tiago.
— Que isso, Tiago. Somos quase da mesma família. Nós temos que nos entender.
Tiago, mudo.
— Dia difícil hoje, né? História cabeluda aquela. – Tiago só balançava a cabeça afirmativamente – Complicada de acreditar que aconteceu mesmo tudo isso, em tão pouco tempo.
Tiago entendeu onde ele estava tentando chegar. O espião dele claramente contou que não houve assalto, e ele já devia estar sabendo que ele foi ver Helena naquele local. Mas até onde Tião sabia? Tiago, então, seguindo o conselho de Helena, resolveu contar a verdade.
— Hmmm – ele começou gemendo – e não aconteceu mesmo. – ele falava evitando ao máximo abrir a boca – Essa louca inventou quase tudo.
— Sério? Mas então não houve assalto?
Tiago o olhou firme e balançou a cabeça afirmativamente.
— E como você foi ficar desse jeito?
— Ela me bateu! – ele respondeu, verdadeiramente indignado.
— Não... Isso eu já imaginava. Me desculpe rapaz, mas você não parece ser do tipo que se sai bem em uma briga. — Tiago fez cara de ofendido, Tião saiu do outro lado da mesa, e, desabotoando o paletó, sentou a beirada desta mesa, de frente para Tiago — Eu quero saber de tudo, como você chegou lá, porque foi lá, o porquê dessas roupas. O que conversaram. Tudo!
“Ah, ele tá me tratando igual otário pra contar tudo pra ele. Mas como Helena disse, só não posso contar as verdades que não tem necessidade.”
— Ela me enganou! – Tião levantou as sobrancelhas fingindo surpresa – Ela marcou o encontro ontem a noite, depois que a achei aqui em casa e perguntei o que ela queria. A louca me disse que contaria tudo que eu quisesse se fosse encontrar ela na antiga casa da Helô. Eu não imaginava a bandida que ela era. Cheguei lá e ela me veio com papo de que só contava o que eu queria se trocasse de roupa e entrasse no barco. Não tenho orgulho de dizer que fiz tudo isso, mas fiz. Quando chegou no meio do rio ela veio com papo de “sim e não” para tudo que eu perguntava. Uma louca, louca mesmo. Me irritei. Daí ela começou a rir de mim porque eu tinha trocado de roupa e feito tudo que ela mandou. Então eu derrubei ela do barco, sem querer. – ele emendou rapidamente — Foi quando vi que ela estava se afogando.
Nesse ponto Tiago parou. Durante tudo o que ele contava Tião parecia ouvir mais do mesmo, sem interesse, mas quando chegou na parte de ela começar a se afogar, ele cruzou os braços e se inclinou interessado para Tiago. Então ele entendeu que foi nessa parte que Tião não teve mais noticias do seu espião.
— Pode continuar.
— Ah... eu pulei na agua para salvar ela e o barco virou levando tudo o que tínhamos.
— E daí vocês vieram embora?
— Sim.
— E ela inventou a história do assalto?
— Na verdade ela só me bateu, aqui é que fui saber da invenção.
— E você deixou ela bater assim em ti, só por bater?
— Deixar meeeeesmo, mesmo, não. Mas ela é teimosa, sabe?
— Sim. Se percebe. – Tião se ergue e virou de costas para Tiago, para não vê-lo rindo da sua cara – Mas quando vocês saíram da agua? Não viram ninguém? – Tiago fez cara de perdido – O bandido, o que ela descreveu, vocês não ... de onde ela tirou aquilo? – Tião agora se inclinava apoiando as mãos sobre a mesa de Fausto.
— Não teve ladrão.
Tiago se manteve impassivo.
— E por que você não a desmentiu?
— Olha.. – Tiago se ajeitou na cadeira, essa ia ser difícil – melhor ela dizendo que foi ela quem veio atrás de mim e me meteu em confusão, do que eu dizer que fui feito de bobo por ela e ainda levei uma surra.
Tião sorriu para Tiago.
— Verdade. É sempre bom manter a postura e a boa fama.
— Sem contar que com Leticia ali eu poderia piorar e muito a situação dela.
— Sim, claro. Quanto menos a minha filha souber da historia verdadeira, melhor. A falsa já a deixou abaladíssima.
Tião andou até a porta, ficando de costas para Tiago.
— Mas e a conversa, Tiago? O que vocês conversaram? O que você perguntou? O que ela contou...?
— A gente mais discutiu mesmo.
Tiago estava aliviado de não ter Tião olhando pra sua cara, mas a alegria durou pouco, Tião veio até ele e se inclinou até o rosto ficar bem próximo dele.
— Não falaram de nada? Das origens dela, de onde ela veio, do que veio fazer aqui?
Tiago encarou Tião bem sério, com a testa franzida. Tião sorriu.
— Imagina, por que você perguntaria isso né?
Tiago não respondeu.
— Deixa rapaz. Melhor assim, quanto menos se envolver com essa menina, menor a confusão.
Tiago assentiu com a cabeça. Tião suspirou, abotoou o paletó e voltou a sorrir para Tiago.
— Mas que bom. Ficou tudo esclarecido.
E dando dois tapinhas no ombro de Tiago, Tião saiu da sala sem nem dar tchau.
Helena ouviu o fim da história de Tiago e passou a língua pelos lábios, os limpando do sorvete, enquanto olhava pro alto a esquerda. Ela se endireitou sentando nos calcanhares e pousando o pote de sorvete na bancada, colocando o braço esquerdo sobre a barriga onde apoiou o cotovelo do direito, com a mão direita então passeando pelo seu rosto, enquanto ela pensava.
Tiago a observava com o rabo do olho, cabeça baixa, com as mãos apoiadas no balcão, corpo inclinado para a frente, também lambendo os lábios do sorvete.
— Então?
— É... – ela o olhou rapidamente antes de responder – você se saiu muito bem. Eu sabia que ele não ia engolir a minha história, mas não imaginei que iria te pressionar. Mas depois do que a Lucia...
Tiago franziu a testa e ela parou. Não podia contar que depois do que Luciane falou, Tião passou a desconfiar que Helena fosse mais do que uma sobrinha da Helô louca e atraída pelo noivo da filhinha.
— Parabéns, ele deve te achar ainda um noivo exemplar. — Ela falou cruzando os braços e sorrindo para ele, erguendo as sobrancelhas — Sabe, desses que trai a filha.
Tiago se afastou do balcão a encarando, reprovador. Depois, se virou de costas e pulou sobre o balcão, do lado dela, e pegou o pote de sorvete que já começava a derreter. Sem cerimonia nenhuma pegou uma colherada, Helena observou ele e fez cara de nojo.
— Mas tu é abusado em garoto. Essa colher é minha.
— De novo, casa da minha família, colher minha. – ele disse ainda com sorvete na boca, se inclinando para ela e apontando com a colher.
Ela revirou os olhos, se sentou na bancada e pulou, indo até a gaveta pegar outra colher. Tiago acompanhou os movimentos dela com um meio sorriso. Ela andava de pés descalços e cabelo solto, bem natural. Ele subiu o olhar dos pés descalços até o cabelo solto, observando Helena. Quando ela se virou para voltar ele voltou a olhar concentrado para o pote de sorvete.
Ela então voltou a se sentar na bancada, com a colher na mão. Quando ia enfiando no pote, Tiago o afastou, esticando o braço esquerdo para ficar longe dela.
— Que isso, esganado?
Ele sorriu.
— Acho que eu mereço mais pelo que passei hoje né?
— Ah é?
— É!
— E qual dos dois quase morreu?
— Lá vem de novo. E qual dos dois salvou a vida do outro?
— E qual dos dois tentou matar o outro?
— Acho que a resposta pra essa pergunta é os dois, né?
Ele falou pegando uma colher de sorvete e trazendo lá do lado esquerdo até a boca. Só que nesse movimento, parte do sorvete caiu sobre a barriga.
— Droga!
Helena olhava rindo. Então percebeu que o cara estava ali só de bermuda mesmo. Respirou fundo e olhou pro lado. Tiago lambia os dedos.
— É, não é meu dia de sorte mesmo.
— Como não? Você conseguiu uma grande aliada, e ainda enrolou o seu maior inimigo. É um dia vitorioso. Pior é pra mim que passei a maior barra por sua culpa, consegui um aliado furreca, e oficialmente estou com o pé atrás com meus outros aliados.
Ele franziu a testa. Helena pensou se valia a pena contar sobre as mensagens de Paulo. Mas as fotos interessavam a ele também.
— Ok, eu vou te mostrar uma coisa, mas não é pra você ficar grilado e nem fazer perguntas.
Ela olhou para os lados procurando o celular. Ele estava do outro lado da bancada, mais para o lado esquerdo dela, do lado de Tiago. Ela se virou para o lado esquerdo, e, de preguiça, se esticou para pega-lo. Tiago só observava o esforço dela, o corpo deitado na bancada, a camisola subindo pelas pernas. Olhou pra frente.
— Vem...cá.
Ela não conseguia pegar. Tiago então se agoniou, se virou do lado direito onde as costelas não doíam, ficando de frente pra ela e se esticou para pegar. Só que bem na hora ele se atrapalhou e acabou empurrando o celular para o chão. Helena virou lentamente a cabeça para Tiago, que tinha um sorriso envergonhado.
Ele olhou pra ela e levantou as duas sobrancelhas.
— Ops!
Helena então apoiou a cabeça na mão esquerda e apertou os olhos.
— Eu devia ter batido mais forte em você.
Ele riu.
— Eu devia ter deixado você engolir mais água.
— Ah claro – ela se inclinou até ele, o cutucando com o indicador no peito, pouco acima da faixa – assim você teria a desculpa pra fazer o boca-a-boca.
O rosto dela estava bem próximo. Tiago observou uma linha que começava no pescoço e terminava no decote dela.
— Se enxerga garota.
Tiago respondeu se erguendo, expirando, irritado. Só não sabia se era com ela ou com ele. Pensou na Isabela. Respirou fundo. “ Só aturo essa garota por ela.”
Helena ficou lá, na mesma posição, olhando ele com a testa franzida. Não achou que ele fosse ficar assim com uma brincadeira. Ele parecia ter ficado mais amigável com ela, mas pelo visto se enganou. Ele a olhou, virando a cabeça.
— Que foi?
— Meu celular. Você derrubou, você pega!
Ele a olhou, juntando as sobrancelhas e baixando a cabeça, quase encostando o queixo no peito. Ela respondeu erguendo o queixo e levantando as sobrancelhas. Ele pulou da bancada e foi pegar o celular.
— E vai rezando pra não ter quebrado nada. Celular é novinho!
Helena se mantinha na bancada, deitada. Tiago foi até o celular, e se abaixou para pega-lo, gemendo com a dor nas costelas.
— Ai, tadinho, tá dodói. Dá aqui.
Helena estava totalmente deitada na bancada, agora, com a mão direita estendida para trás, a palma da mão para cima onde ele depositou o celular. Para ficar mais confortável, ela levantou o joelho direito, mantendo a planta do pé na bancada, enquanto procurava as mensagens do Paulo.
Tiago olhou a cena. O joelho erguido fez a camisola descer, e agora estava quase toda a perna dela a mostra. Ele colocou a mão direita na boca, a esfregando, e depois a desceu até o pescoço, levantando a cabeça, e o coçando. “Isabela, Isabela, Isabela...”.
— Para de gemer, rapaz. – Helena disse concentrada. Tiago estranhou, não estava com dor – Aqui. Olha aí as fotos.
Helena devolveu o celular para ele, que o pegou ainda tentando olhar mais para o alto. Mas logo arregalou os olhos para o celular e baixou a cabeça. Eram fotos deles. De Tiago chegando no ex-casebre, falando com Helena, sumindo dentro do casebre, “Desgraça!”, o casebre pelo visto não o protegia totalmente enquanto se trocava.
— Eu amei as fotos do casebre, que cê achou? – ela sorriu jogando a cabeça para olhar a cara dele, mesmo que de cabeça para baixo.
Tiago engoliu em seco. As outras fotos seguiam até ela cair na agua.
— É, como eu imaginei, o cara foi apagado depois que tu caiu...
— Fui derrubada!
— Caiu na água! – ele se apoiou no balcão inclinando a cabeça até ela parar bem acima da cabeça de Helena – Mas fala, de onde veio esse celular? É o do vigia?
— Não. – ela nem olhou para ele, enquanto mexia no celular e balançava a cabeça negativamente – Esse é um celular novinho que apareceu dentro de um pacote com um bilhete hoje depois do meu banho, em cima da minha cama. Ah, desculpa, sua casa, sua cama.
Tiago olhou para cima pensando na cena, ela saindo do banho indo pra cama dele. Balançou a cabeça pros lados afastando logo a ideia.
— Eu não entendi.
— Quem não entende sou eu como é que você é tão lerdo! Os caras que me encontraram e me mandaram para cá é que derrubaram o espião, pegaram o celular dele, e me mandaram as fotos. E como eles estavam lá, sabiam que eu estava sem celular e me mandaram um novo.
— Tá, mas como isso? Você perdeu o celular pela manhã, como eles mandaram ele por correio a tarde?
— Leitãozinhô, não faz o burrinho! – Helena olhou para ele de novo, e colocou o telefone de lado – Eles entregaram aqui, dentro da casa da sua família.
— Impossível.
— É, você ser parente do Pedro também parece impossível e mesmo assim...
Tiago colocou a cabeça bem acima da dela, a olhando irritado. Helena sorria da irritação dele. Os narizes quase se tocando.
— Enfim... – ela disse respirando fundo e o afastando pelos ombros, com as mãos – Acho que ao menos essa dúvida não carrego mais.
Ela foi se erguendo e voltando para sua posição, sentada a beira da bancada. Pegou o pote de sorvete quase todo derretido, e procurou um pedaço ainda inteiro.
Tiago ficou ali, se apoiando na bancada, pensativo.
— Isso tá me parecendo muito perigoso.
— Ó, a evolução da genética é impressionante mesmo. Você é o primeiro porco-frangote que conheço. Deixa de medinho, garoto.
Tiago se afastou da bancada, e fez cara de quem ria sem achar graça da piada dela, quando ela virou o rosto para vê-lo. Ele então deu a volta e foi se sentar agora do lado direito dela.
Helena mexia no que sobrou no pote, com a colher. Pensativa. Tiago pegou da mão dela sem cerimonia, de novo.
— Agora não tem nojo de usar a minha colher é? – ele falou olhando pra ela depois de pegar algum pedaço de sorvete que ainda não derreteu e coloca-lo com a colher na boca.
— Ewww... – ela fez cara de nojo quando percebeu que de fato tinha usado a colher dele para tomar sorvete.
— Quem é a porquinha agora?
Ele começou a rir, e inclinando a cabeça na direção dela. Helena apertou os olhos e rapidamente deu um tapa no pote, o jogando no chão.
— Ops!
Tiago olhou pro estrago. O pote sujou quase toda a parede de respingo de sorvete de chocolate. Na verdade, respingos foram até nas pernas deles também.
— Qual a sua idade?
— Mentalmente? Bem maior que a sua!
— Sabe qual é o seu problema?
— Ter um cara cheio de problemas achando que tem moral para falar do problema dos outros?
Ele a olhou sério. Ela o olhou erguendo uma sobrancelha. Uma luz que entrava pela janela da cozinha agora caía sobre o ombro dela. Tiago seguiu o caminho da luz e viu algumas cicatrizes pouco abaixo da nuca e uma fininha pouco acima do cotovelo do braço direito. Helena acompanhou o olhar dele, fechando a cara. Ela virou a cabeça para a frente e olhou para baixo. As mãos apoiadas na beirada da bancada.
— Certo... — ele disse, o rosto ainda virado para ela, o olhar baixo.
Tiago engoliu em seco. Olhou de novo para ela pensando em falar algo para cortar o clima.
— Olha! Seu cabelo não parece tão cacheado. — ele agora o observava caindo pelas costas dela.
— Ah, é! Ele é mais liso mesmo. Só que... – ela passou a mão no cabelo – eu já sou muito parecida com a Helô, se ainda aparecer de cabelo liso.
— É...- Tiago levou a mão ao cabelo dela que caía sobre sua face direita, e o afastou para trás, liberando o rosto dela.
Helena franziu a testa sem se mexer. Ele então viu um pouco de sorvete na bochecha dela, próximo a boca. Molhando o polegar ele o passou ali para limpar. Ela então jogou o corpo um pouco para trás assustada, o encarando. Tiago tinha o polegar na boca, a olhando intrigado.
— Você tá tentando me seduzir é?
Ele riu nervoso, jogando a cabeça pra trás.
— Que convencida.
Ela ainda o encarava, a boca meio aberta e o olhar brilhando. Tiago olhava meio para cima e pro outro lado, engoliu em seco.
Então Helena deu um empurrãozinho no ombro dele, usando o ombro dela.
— Hmmmm quem diria, eu te agrado aos olhos. – ela riu da cara de irritado dele.
— Já vou indo pro meu quarto que você já está delirando.
— Ahã. Todo fofinho igual um porquinho fazendo o bonzinho. – ela riu – Só que se tem uma coisa que eu não gosto, é de garoto “inho”.
Irritado, ele pulou e quase caiu. O sorvete derretido fez ele escorregar. Helena gargalhou.
— Cuidado, não vai quebrar o restos das costelas.
— Muito engraçada. – ele tentava ficar em pé – Espera só quando você for descer.
— Não seja por isso! — Helena esticou as pernas e as colocou sobre a bancada, para depois ficar de pé, sobre ela – Agora eu só preciso decidir em qual lugar descer sem sujar os pés.
Ele a olhou de rabo de olho e começou a tentar sair do lugar. Ela o mirava rindo com o olhar, lábios comprimidos, segurando o riso. Quando ele conseguiu sair da área suja de sorvete e ia saindo da cozinha, ela o chamou.
— Pera aí, vem cá – ela o chamou com as mãos – me ajuda a descer daqui.
Ele a olhou colocando as mãos na cintura.
— Você sabe muito bem sair daí sem mim.
— Qual o problema? Tá com medo de mim? – ela provocou.
Tiago apertou os olhos para ela. Olhou para baixo e passou a língua pelos lábios, engolindo em seco enquanto balançava a cabeça negativamente.
— Tá certo então. – ele aceitou o desafio.
Tiago foi até ela, que se inclinou um pouco para a frente desconfiada. Não achou que ele fosse aceitar.
— Cuidado com o material, hein.
— Pode deixar. – ele respondeu colocando e mão na cintura dela.
Helena colocou as mãos no ombro dele para ter apoio. Ele então, gemendo de dor, a suspendeu no ar, e a trouxe para perto do corpo dele, descendo devagar o corpo dela sobre o dele, os corpos se encostando, a camisola dela subindo enquanto as pernas desciam pelo corpo de Tiago, fazendo os dois engolir em seco. Assim que ela colocou os pés no chão, não que sentisse muito as pernas, ele a pressionou contra a bancada. Helena respirou fundo. Ele chegou com o rosto bem perto dela, a respiração rápida. Ela conseguia sentir o coração dele batendo próximo do dela, Tiago não soltara a sua cintura, as pernas se friccionando.
— Se eu quiser te seduzir, eu vou. — ele olhou nos olhos dela, virando a cabeça um pouco pro lado esquerdo e erguendo o queixo, aproximando mais a boca dele da dela.
— Ui, ui, ui... – ela falou jogando a cabeça para trás, fingindo achar graça.
— Eu tô interrompendo?
Tiago fechou os olhos e puxou o ar profundamente. Helena riu da cara dele, pego de surpresa. Na porta da cozinha estava Luciane.
Fale com o autor