A sobrinha da Helô
8 O que está acontecendo com a Sobrinha da Helô?
Tiago parou na entrada da sala e olhou para o sofá, fazendo cara feia. Lá estava Helena, sentada, de costas para ele, concentrada no seu celular e com fone de ouvido.
Ele mal conversara com ela, e praticamente não a viu mais desde a noite na cozinha. Cujo o final lhe rendeu alguns inconvenientes. Ele lembrou daquela noite, e da vergonha diante de Luciane...
Ouvindo a madrasta a entrada da cozinha, Tiago tentou pensar em algo para responder a ela, mas não vinha nada a mente e a cara zombaria de Helena, ainda presa junto a ele, não ajudava em nada.
— Tá interrompendo não, viu, Luciane? – Helena se adiantou a responder — O que a gente tava fazendo já finalizou faz um tempinho, a gente tava só dando uns reparos finais, né Gogo? – ela falou imitando Luciane, debochada.
— É mesmo, é? – Luciane arregalou os olhos assanhada, se apoiando na entrada da cozinha com a mão esquerda, no alto – Mas quem diria hein Tiago, cê é mais mineiro que muito mineiro.
Tiago pensou em responder, olhando para Helena a sua frente, a fuzilando com o olhar. Mas ela novamente se adiantou, deu uma risadinha do que Luciane falou e encerrou a cena com chave de ouro: sutilmente ela levou os lábios até o inicio do pescoço dele, os lábios mornos, entreabertos. Ele sentiu ela pressiona-los e depois colocar a língua dela naquele ponto, molhada e quente, e, se controlando para não fechar os olhos, inspirando fundo, Tiago se viu prendendo a respiração quando sentiu a sucção. As mãos em cima do balcão estavam fechadas em punho, a cabeça baixara levemente enquanto Tiago piscava. Helena subira levemente uma das pernas entre as pernas dele.
Helena se afastou fazendo estalo, olhando para a cara dele, sorriso maroto, que sumiu ao olhar para Tiago. Ele a mirava intenso, respiração difícil, a cabeça baixa, próxima da sua. Ela engoliu em seco.
— É, acho que eu tôu mesmo atrapalhando. Cês me dão licença.
— Não! – Helena quase gritou – Pode ficar. Eu já vou indo.
Tiago não se mexeu. Helena olhou pros lados. A opção se abaixar e sair sob o braço dele não era viável no momento. Ela pigarreou, Tiago ainda olhando firme para ela. Então ela chegou o corpo próximo dele, se erguendo, dando uma passo para a frente, o fazendo recuar, e o mirando de canto de olho, saiu dos braços dele. Ofegante, ela só deu um sorrisinho e um tchauzinho para Luciane, correu para o quarto. Tinha muitas coisas para o dia seguinte.
Ele continuou ali, se apoiando na bancada, cabeça baixa. Agora balançava a cabeça indignado. A garota só lhe trazia problemas. Com Luciane sabendo era pouco provável que seu pai, e logo a casa toda, não ficasse sabendo. E pior que ele nem sabia como explicar que aquilo não era o que parecia.
Luciane, porém, depois de acompanhar de boca aberta a saída de Helena, suspirou e foi até a geladeira, desviando pelo outro caminho ao ver a poça de sorvete no chão.
— Xiii, na geladeira de vocês também não tem sorvete. E o que tinha pelo visto gastaram em brincadeirinhas. – ela disse a ultima frase fechando a geladeira e olhando pro enteado, marota.
Tiago bufou, e levantou o olhar para ela, com a cabeça ainda baixa, dando um sorriso amarelo.
— Quê isso, Tiago. Precisa ficar assim não, sossega. Eu não vou contar pro seu pai nem pra ninguém o que vi aqui, viu?
Ela chegou próxima de Tiago, pegando uma maçã em uma cesta na bancada e mordendo.
— O que? Não tem nada para contar! Essa garota... – Tiago respirou fundo, com raiva – é uma louca, me coloca nas roubadas dela e ainda ...é ...deixa assim.
Luciane sorria enquanto ele levantava a cabeça pra cima, tentando respirar.
— Certo. Como quiser. Deu pra ver bem como você estava encurralado por ela. Enfim – ela continuou depois que ele a fuzilou com o olhar – eu vou indo pro meu quarto, que seu pai também adora me colocar em umas roubadas. – Luciane piscou para ele – E ó, bom banho frio.
Tiago ficou ali mais uns minutos até a raiva, entre outras coisas passarem, e foi pro quarto dele.
No dia seguinte e nos outros, cerca de um mês, quase não viu ela. E o pouco que viu nem conversou. A garota não ficou na casa, durante o dia, nos primeiros 5 dias, e depois praticamente não saiu dela, sendo sempre acompanhada pelo tio Pedro, AnaLu e Camila. Evitava todo mundo. Se mantinha trancada no quarto. Ele chegou a bater no quarto dela e chama-la, no dia em que vira pela primeira vez aquela garota igual a Isabela, que depois se disse chamar Marina, mas ela simplesmente não atendeu. “Que belo pacto. Quando preciso dela, a garota se esconde.”
É claro que ele ainda estava com certa raiva dela. É que ele só foi entender a razão do chupão daquela noite no dia seguinte, quando Leticia teve uma crise ao percebe-lo. Não havia explicação plausível. Ele inventou que fora um bicho que mordeu, mas Leticia ficou uns 3 dias sem falar com ele. Por um instante ele se sentiu aliviado de que ela cancelaria o casamento e ele estaria livre. Mas não, no quarto dia ela o chamou, e já estava toda empolgada com os preparativos.
Tiago cruzou os braços e pensou se valia a pena ir até o sofá ou só deveria virar-se e voltar para o quarto. Então ele pigarreou, para ver se ela o notava. Nada. Ele pigarreou mais forte e ela nem se mexeu. Então Tiago foi até o sofá e se jogou do lado dela.
— Oi, saudades de mim?
Helena deu um pulo no sofá, largando o celular do lado e se jogando sobre Tiago, o enforcando contra o móvel.
— Por que eu não tô surpreso com isso? – ele perguntou com a voz estrangulada.
— Porquinho! – ela esbravejou o soltando – Você é suicida, é? Chegar assim nas pessoas, no meio da noite.
Helena voltou pro lugar dela, pegando o telefone e desligando, olhando de rabo de olho, enquanto Tiago se recompunha.
— Olha só quem fala – ele passava a mão no pescoço – outra noite você fez a mesma coisa comigo nesse sofá.
— O que você quer? – ela disse bufando, ignorando a crítica dele.
— Que jeito estranho de tratar o ...como é mesmo que você me chamou outra noite? Parceiro!
— E quem disse que eu não trato os outros parceiros assim?
— É – ele respondeu franzindo a testa – pensando bem, é a tua cara.
Os dois ficaram ali parados uns segundos, sem falar nada. Helena inclinada no sofá, sobre o telefone, tentando proteger ele de Tiago.
— Então? – Tiago suspirou, sentado, enquanto esfregava a palma das mãos nas próprias pernas, num vai e vem do joelho até a coxa – Você tem alguma novidade?
— Tipo?
— Tipo o que você me prometeu quando apertamos as mãos outro dia, lembra? Isabela! Você disse que era ótima em descobrir coisas, descobriu algo?
— E como é que eu ia descobrir algo se você nem me contou o que aconteceu? Como vou descobrir o que aconteceu com ela se nem sei como ela sumiu?
Ele se virou para ela, irritado balançou a cabeça.
— Isso não tá dando certo. – se levantou – O que foi? É por causa daquela noite na cozinha, porque eu já esqueci o que você fez. Não precisa se preocupar.
Helena cruzou os braços e olhou para ele com um meio sorriso, como ele parecia falar seriamente ela jogou a cabeça pra trás e riu.
— Você é ótimo, leitãozinho! Tem umas piadas ótimas. Primeiro, não me preocupo com o que quer que você sinta quanto a mim, segundo eu não fiz nada de errado aquela noite para me preocupar.
— Primeiro, eu não sinto nada quanto a você, e segundo, tá de brincadeira? Você deu aquele chupão só porque sabia que a Leticia ia ver e pirar.
— E ela pirou? – Helena o olhou curiosa – Como?
— Você é meio psicopata, parece feliz com o sofrimento dela.
— Sofrimento dela? Você acha mesmo que ela ficou tristinha no canto dela, é?
— O que você tá falando?
— Tô falando, seu muleque fofoqueiro, que sua noivinha me encurralou na casa dela, quando fui fazer uma visita a minha querida tia, e me ameaçou!
Tiago colocou as mãos na cintura.
— Você não cansa de mentir?
Helena, de braços cruzados o olhou furiosa. Em seguida bateu com as mãos no sofá, pegou o celular e se levantou, o encarando.
— Beleza, não acredita em mim. Ninguém acredita mesmo!
Ela se virou, mas Tiago pegou ela pelo braço.
— Sério, o que tá acontecendo contigo?
— Nada – ela olhou para outro lado – e me solta antes que...
Ele puxou e pegou o outro braço, dela, ficaram os dois de frente. Tiago a olhava preocupado. Ela mantinha a cabeça baixa. Ele engoliu em seco, respirou fundo, e, largando um dos braços, pegou o queixo dela e subiu a cabeça para olha-lo.
— O que é? Vai me beijar agora? – Helena falou, azeda.
— Nem nos seus melhores sonhos. — os dois sorriram – Sério, me conta o que tá acontecendo.
Helena suspirou, tentando ser forte e não jogar a testa no peito dele. Estava cansada de tudo o que aconteceu naquele mês.
— Pra quê? Você não vai acreditar em mim mesmo!
— Prometo... tentar.
Ela levantou a cabeça para ele, que deu um sorriso amigável.
— Ok. – ela suspirou – Mas fique sabendo que é coisa entre só nós dois, e... – agora ela pegou o queixo dele – não é pra você fazer nada com o que eu dizer, tá? O que vou contar é bem sério, e eu ainda tô pensando no que vou fazer com isso.
— Tá certo, parceira.
— Ótimo, agora pode me largar que o material é frágil e caro.
Ele a soltou, levantando as mãos. Helena se sentou mais animada no sofá, e deu um tapinha no lugar do seu lado para ele sentar. Eles então ficaram sentados, um de frente para o outro no mesmo sofá, Helena com as pernas sobre o móvel, dobradas, e ele com uma perna dobrada e o pé da outra pousado no chão, o braço direito estendido no alto do sofá, a mão próxima do rosto dela.
Helena começou contando o que já tinha feito na mesma noite da cozinha, horas antes. Acontece que depois de receber o celular de Paulo, ela resolveu que não podia mais ficar a espera de mais surpresas, e resolveu montar a própria rede de informações, então usou os cartões de lojas que vendiam itens de espionagem, que achou na carteira do capanga desmaiado de Tião, e ligou para eles, encomendando para o dia seguinte escutas ambientes. Tiago franziu a testa quando ela contou isso.
— Você prometeu...
— Prometi acreditar, mas não concordar.
— Ah... fala sério. – ela foi se levantar e ele a puxou de volta – Tá bom, vou fingir que não estou te julgando. Melhor?
Helena respirou fundo e voltou ao seu lugar e continuou contando. No dia seguinte, novamente, ela conseguiu enganar o espião do Tião, saindo com a moto e a deixando em uma oficina, saindo por trás, ela pegou um taxi, e com algumas roupas e lenço para a cabeça, maquiagem e lentes de contato, ela se fez passar por uma colega de fisioterapia de Leticia, indo até a firma de Tião, depois de pegar as escutas, pedir emprego.
— Você entrou no escritório do Tião? E ele não estava lá?
— Ai, por favor. Eu sei o horário que ele vai. Tião é chefe, sempre chega mais tarde. Eu só precisei fazer cena de que queria falar com ele, e entrar, mesmo com a secretária tentando me impedir. Daí fingi desmaiar, perto da mesa do Tião, claro. – Tiago novamente fez cara de intrigado – Porque assim eu podia colocar a escuta ali sem que câmera nenhum visse. Vai que ele é desses loucos que tem câmera até na própria sala. Quando a secretária voltou eu já tinha colocado um embaixo da mesa dele. Ela trouxe uns seguranças, me levantaram e foram me tirando dali....
— Essa menina vai morrer aqui, meu Deus – disse a secretária de Tião, nervosa – Levem ela a um hospital o mais rápido que puder.
— Não... eu estou melhorando – disse Helena – só preciso de ar mesmo. Faz parte do tratamento.
— Mas menina, você não pode brincar com uma coisa dessas! – a secretária falou olhando pros seguranças, esperando em frente ao elevador com Helena atrás deles.
Quando o elevador abriu a secretária soltou um gritinho.
— Doutor Bezerra!
Helena arregalou os olhos, tentou pensar em algo para escapar da situação.
— O que é isso? Por que os seguranças aqui?
— Ah, uma amiga da sua filha... – a secretária foi abrindo caminho para mostrar Helena, que deu um passo a frente, e, depois de enfiar o dedo na boca, começou a vomitar em cima de Tião, que deu passos para trás enojado.
— Mas o que é isso?
— Meu Deus, ela está passando mal. Senhor! Levem ela no hospital.
— Tira logo essa garota daqui.
“Funcionou!” Helena entrou com a cabeça baixa, segurada pelos seguranças no elevador, enquanto Miro e a secretaria ficavam ali tentando ajudar Tião a se limpar. Ele nem mesmo olhou a suposta colega da filha, com a mesma doença dela, e passando mal. Chegando no lobby da empresa ela convenceu os seguranças de que não precisava deles, que tinha um taxi a esperando. Eles resistiram mas deixaram ela ir. Então ela só precisou voltar a oficina, e sair de lá direto pra casa ver se estava funcionando a escuta. E estava.
— Espera, durante esse um mês inteiro você tem escutado as conversas do Tião no escritório dele? – Tiago perguntou se inclinando para a frente, tendo como resposta um sorriso vitorioso de Helena.
— E da casa dele também!
Mas então Helena suspirou. Lembrando do que aconteceu quando fora colocar a escuta da casa de Heloisa.
— Imagino que enquanto eu vomitava no Tião, você visitava a sua noiva, né?
Tiago ergueu a cabeça para lembrar. De fato foi logo na manhã seguinte ao ocorrido na cozinha que ele passou para ver Leticia. Não tinha conseguido conversar com ela depois de voltar do “assalto” e ela não parara de mandar mensagem dizendo que queria ver ele. Quando chegou lá, ela se pendurou no seu pescoço, e por mais que ele tenha tentado disfarçar a marca, ela percebeu o chupão. Leticia nem deixou ele explicar. Gritou pela mãe dela, pareceu desmaiar, Tiago até tentou ajudar, mas Helô, que já segurava a filha, o mandou sair.
Ele ficara tão furioso com Helena que foi para a casa indo tirar satisfação com ela, mas de fato Helena não estava. Ainda furioso ele saiu para a tecelagem. Depois, no dia seguinte ela novamente não estava em casa pela manhã, e nem nas outras três seguintes. Logo, ele esqueceu o fato, com a Leticia voltando as boas com ele.
— Bom. No dia seguinte eu fui na casa da tia Helô...
Helena teve de ligar para a “tia” para que deixassem ela passar pelo portão. Helô, por sinal, foi quem abriu a porta.
— Helena!
Helô falou em tom um pouco baixo, mas entusiasmado e abraçou forte Helena, que dessa vez ao menos passou os braços ao redor dela, fechando os olhos.
— Que bom que você veio. Achei que depois do jeito que Tião a expulsou daqui aquele dia, você não viria mais.
— Ah, é, aquele dia. Eu acho que todos nos alteramos. – Helena de repente se lembrou de ter ameaçado todos.
— Sim. Sei como é. – Helô conversava guiando Helena até o seu quarto – Vem, vamos no meu quarto que tem mais privacidade.
— Ah... claro.
Helena estranhou, mas seguiu com Heloisa. Elas entraram no quarto. Helena olhou para o cômodo, realmente luxuoso, mas assim como o resto da casa, com o aspecto frio de Tião. Não era à toa que Helô tivesse perdido muito do brilho dela, a companhia com aquele verme podia ser intoxicante. Helena sentiu uma vontade de tira-la dali.
— Mas me conta – Heloisa sentou na própria cama e chamou Helena a sentar em frente a ela – estão te tratando bem lá? Eu sei que o Pedro nunca deixaria te fazerem qualquer mal, mas... Magnólia pode ser tão desagradável quanto Tião.
Elas riram uma para a outra. Helena não gostava daquela sensação de proximidade entre elas. A deixava desconcertada.
— É, realmente Pedro é uma pessoa maravilhosa, ele me protege muito. Mas eu também sei me virar. Evito até encontrar ela nas refeições.
— Isso, garota esperta – Helô pegou no braço dela – forte, uma Martins mesmo daquelas.
Heloisa sorria. Mas então abaixou a cabeça diminuindo o sorriso.
— Pedro não falou nada de mim, ou explicou porque te deu abrigo?
— Sim. – Helena viu onde ela queria chegar – Ele disse o porquê me levou pra lá. – Helô levantou a cabeça e as sobrancelhas, atenta – Queria que você ficasse tranquila quanto ao meu bem estar. Ele se preocupa muito com você.
Helena viu o sorriso da mãe e não resistiu, sorriu também.
— Sabe, Helena, não sei se já te contaram sobre minha relação com Pedro, mas nós ...
Leticia entrou no quarto interrompendo as duas.
— Eu não acreditei quando me contaram! Mãe, como a senhora deixou ela entrar? A senhora não tem nenhum amor por mim?
Helena respirou fundo diante da interrupção, grosserias, e o drama desnecessário de Leticia.
— Leticia, o que é isso? — Helô se levantou, firme e foi até a bezerrinha – Helena é sua prima, minha sobrinha, que mal há ela me visitar?
— Que mal, mãe? Não lembra de ontem, da festa, dela com Tiago?
— Leticia, já te falei, isso é coisa da sua cabeça!
— Não mãe. Eu sei, ela até se mudou para a casa de Tiago para tentar tirar ele de mim. – Leticia se aproximou de Helena, que de repente entendia a raiva, a bezerra devia ter visto a marca que ela deixara em Tiago – Mas você não vai conseguir.
Helô se aproximou de Leticia, a pegando pelo braço.
— Já disse o que penso disso. Você tem uma visão equivocada de Helena e do Tiago. Acho que só tá enxergando o que te agrada, Leticia. Por favor, você não precisa se perturbar mais, ontem já passou mal, hoje...
Mas assim que Heloisa mencionou a saúde de Leticia, a mesma começou a puxar o ar, forte, colocou a mão na testa e foi indo em direção a cama, fazendo Helena pular para trás, dando espaço a doente.
— Leticia! Eu avisei... Helena, cuida dela, eu vou buscar a enfermeira.
Assim que Heloisa saiu pela porta, Helena arqueou a sobrancelha para Leticia.
— Eles sempre caem nesse truque, é?
Leticia que tinha a cabeça para trás, braços sobra a cama, se sentou, reta e a olhou fixamente, claramente sem qualquer falta de ar ou mal estar.
— Nesse e em outros. Acontece que minha saúde tem requerido cada vez mais atenção, e minha mãe acaba tendo que cuidar mais de mim.
Leticia deu um meio sorriso, fazendo Helena respirar fundo “A cretina estava torturando Helô só para ela ficar por perto. E a demonia ainda a chama de mãe!”
— Mal posso esperar pelo dia que a tua casa cair, Leticia. E escuta o que to dizendo, vai ser logo.
A outra se inclinou para Helena, olhos semicerrados.
— Não se eu fizer a tua cair antes.
Nessa hora Helô veio com a enfermeira e Leticia caiu sobre o colo de Helena, fingindo um desmaio. Helena observou a enfermeira tira-la do seu colo, a endireitando na cama. Edu entrou no quarto também. Todos rodeando Leticia, observando a enfermeira. Helena achou o momento muito oportuno, saiu devagar e foi até o escritório de Tião.
Sempre tomando o cuidado caso tivesse uma câmera no cômodo, ela fingiu estar procurando coisas nas gavetas dele, compartimentos, e até tirava livros como se esperasse ver algo, e entre um desses livros, grudou uma das escutas disfarçadamente. Então fingiu não achar nada e saiu, indo em direção da porta. Mas passando pela porta do quarto de Heloisa, foi puxada por uma mão forte.
— Credo, garota, para quem tá morrendo você tá muito forte!
— Sem brincadeiras, eu vou te avisar só uma vez: para de perseguir o Tiago, sai da casa dele, da nossa, da vida de todo mundo. Meu pai é muito influente e sempre consegue o que quer... e o que eu quero.
Helena a escutou, com os braços sendo segurados por uma Leticia descalça e muito forte a sua frente.
— Então manda ver, fofa.
— Você acha que eu estou blefando?
— Não, eu tenho certeza que você e seu pai são farinha do mesmo saco, ou devo dizer fruta podre do mesmo saco? Enfim, não tenho medo de nenhum de vocês dois.
Leticia largou os braços dela e deu um passo para trás. Desafiada, ela então encarou Helena, com o olhar felino, ergueu o queixo.
— Você não tem medo do meu pai?
— Não!
— Nem do que ele pode fazer com você?
— De novo, não!
— Nem o que pode fazer com minha mãe, meu irmão, ou até com Tiago?
Helena prendeu a respiração, o ódio e asco crescendo dentro dela. “Bezerra maldita tá ameaçando a suposta mãe e irmão? Até o noivo? Que vadia” Helena então não se segurou e pegou a outra pelos braços, a chacoalhando, tirando do rosto da outra o olhar vitorioso.
— Se você fizer, ou mandar seu pai fazer qualquer coisa contra a Helô, o Edu ou mesmo se você se meter com o Tiago, eu acabo pessoalmente com a tua raça.
Helena observou a menina fazer cara de assustada e depois puxar o ar, nervosa. Quando ia sorrindo da outra ter entendido o recado, percebeu que caiu em uma armadilha. Na porta do quarto estava Helô com um travesseiro na mão. O rosto de Heloisa era pura surpresa e decepção. Helena fechou os olhos e respirou fundo antes de olhar para a víborazinha em seus braços. Com certeza ela armara a situação toda para Helô a pegar ameaçando ela, ou confessando qualquer coisa para poder fazer a outra ficar contra ela.
— Helô, eu....
— Não! – Heloisa saiu de onde estava, furiosa, jogou o travesseiro no chão e pegou a filha dos braços – Pode sair, Helena! – Ela foi colocando a filha na cama, Leticia escondia um sorriso de felicidade – E dessa vez não se sinta convidada a retornar.
Helena engoliu em seco. Saiu do quarto e ficou na sala, esperando por Helô. Dali a minutos, quando ela veio cruzando rapidamente a sala, Helena a interceptou.
— Tia...
— Não! Não me chama de tia. No que eu estava pensando, não é mesmo? Você chegou outro dia, como é que poderia do nada ser parte da família em tão pouco tempo? Como eu fui me enganar com essa ideia de ligação pelo sangue!? Olha o que você fez com a minha filha? – Heloisa não deixava Helena falar, e ela não conseguia ter qualquer reação – Helena, a minha filha, meus filhos, são minha vida. Eu sacrifiquei muita coisa para salvar a minha filha dessa doença, não vou deixar isso ir pelo ralo por nada e nem ninguém. E depois do que vi ali, sinceramente, eu não tenho como não acreditar no Tião e na Leticia, você claramente não quer o bem da sua prima. E por consequência não quer o meu. Então, por favor...
— Espera aí! – Helena a interrompeu – Eu quero sim o bem de você e Edu..
— Mas não o da Leticia?
— Não. Você quer a minha sinceridade, aí tá ela! A sua filha não é doente, é a doença! Ela é quem te mina, é quem te faz mal, é quem acaba com toda a alegria da casa, unicamente para ter tudo o que quer! A sua filha não tá doente, tá se divertindo a custas de vocês, e eu não vou me deixar ser bonequinha dela nessa brincadeira. E nem você deveria deixar!
Heloisa escutou ela com a respiração presa. Negando as verdades que Helena falou, Helô levantou o braço esquerdo e apontou a porta com o dedo indicador.
— Helô, você não vai nem...
— Fora, Helena! Fora, por favor, sai!
Helena passou a língua pelo lábio inferior, segurando as emoções.
— Certo. – Helena respirou fundo, se dirigindo para a porta, a abriu, e ainda de costas para Helô, continuou – Eu vou sair! E não volto, entendeu? Essa é a ultima vez que você me troca por essa aí!
E sem olhar para trás Helena saiu. Erguendo o queixo e evitando a emoção tomar conta dela, foi até a moto, colocou o capacete e partiu. A vontade de chorar queimando os olhos. Helô se sentou no sofá, e com a mão no rosto, deixou os soluços saírem.
Tiago escutava essa parte da história que Helena contava dividido. Por mais que achasse impossível acreditar que Leticia fosse capaz de ameaçar qualquer pessoa ou mesmo fingir a doença, Helena contava de uma forma, parecia sinceramente sentida com o que aconteceu.
— Helena... você tem certeza que isso sobre a Leticia...
Ela ergueu a cabeça rápido, o encarando, os olhos um pouco marejados.
— Sabia que você também não acreditaria!
— É que... Helena, a Leticia – ele levantou a mão pousada no alto do sofá até uma mecha do cabelo caindo sobre o rosto dela, e o reconduziu para trás da orelha dela – ela passou por muitas coisas... essa doença realmente a fragilizou.
— Tiago – ela suspirou – eu não inventei da minha cabeça. A sua noivinha é tão perigosa quanto o pai dela! E tá sim usando a doença dela para manipular todos! Isso se o próprio Tião não tiver indicado ela fazer isso para atormentar Helô.
Helena cruzou os braços e olhou para o lado, desviando a visão do rosto incrédulo de Tiago.
— É muito difícil acreditar...
— É mesmo? Ela nunca fingiu para ti? Você nunca percebeu que ela agiu de modo dissimulado, ou usando a doença para te obrigar a fazer algo?
Tiago ia responder automaticamente não, mas então lembrou de situações que o deixara incomodado, principalmente na noite da festa em que Helena fora expulsa. Ele realmente cogitou que ela fingira acreditar que Helena é quem o atacara, e depois ainda fingiu estar dormindo quando ele entrou no quarto.
— Aaaah, viu? — Helena leu no rosto dele a dúvida.
— Eu não sei, Helena. – ele comprimiu os lábios e balançou a cabeça negativamente.
— Mas você também não afasta completamente a hipótese, afasta?
Ele a olhou. Helena inclinara a cabeça na sua direção. Parecia muito importante para ela que ele acreditasse nela. Acontece que ele conhecia Leticia há tanto tempo, enquanto Helena só havia umas semanas, como ele poderia acreditar nela assim? Mas um pouco dele acreditava. Ainda mais se tudo isso for uma armação de Tião.
— Ok. Eu acredito em você – Helena apertou os olhos, depois voltou a posição anterior, fechando os olhos rapidamente – ela pode até ter falado isso... fingido, o que for. Mas, Helena, isso só mostra o poder que Tião tem sobre ela. Não acredito que Leticia possa ter qualquer maldade no que faz.
Helena revirou os olhos.
— Tá bom, Tiago! Pense o que você quiser. Deve ser mesmo muito difícil admitir que pode estar sendo enganado para casar com uma dissimulada.
— Olha aí, já passou dos limites!
— Eu? Quem passou dos limites foi você. Os limites da imbecilidade! Me diz uma coisa, por que você aceitou se casar tão cedo com ela? O casamento é daqui dois meses, não é? Por que?
Ele franziu a testa. Pensando bem, ele só havia voltado para Leticia, depois do fim do noivado e do desaparecimento de Isabela, porque ela ficara do lado dele durante as acusações de assassinato e conflitos familiares. Mesmo diante da situação de ele ter sido acusado de matar a garota pela qual trocara ela, Leticia demonstrou realmente ama-lo, ficando do seu lado. Então, ela piorou, voltou ao hospital, o médico anunciou que a doença podia ter voltado. Helô ficou arrasada. Tiago se viu novamente envolvido com tudo, e então Leticia o pediu em casamento. Ele aceitou. E como ela dizia que não queria esperar por algo pior acontecer, ele concordou com uma data só dali 5 meses. Sendo que por Tião eles nem faziam preparativos de casório, Tiago se casaria semanas depois.
— Novamente. – Helena via na expressão de Tiago que havia de fato algo estranho na situação – Viu? Olha, Tiago, beleza, você pode continuar acreditando na bondade da moça, mas que essa doença dela parece ser uma desculpa muito boa para o Tião ter o que quer naquela casa, e até nessa aqui, isso não pode negar.
— Talvez. Mas que pai seria capaz de fazer algo assim?
— Tiago, Tião é capaz de fazer coisas que nem mesmo eu imaginava. – ela falou isso puxando o ar, lembrando de conversas e confissões de crimes que ouvira das escutas de Tião – Piores até que ter dado sumiço na sua amada Isabela.
Ele a olhou intrigado, boca levemente aberta.
— O que você ouviu nessas escutas? Algo sobre ela?
— Eu ... não tenho certeza. Eu escutei ele falar de outras coisas. Digamos que ele não toca nesse assunto, a não ser para dizer que já é assunto morto, quando o nome dela é mencionado.
Tiago estufou o pulmão, puxando o ar, pulou até Helena a pegando pelo ombro.
— Como é? Ele matou ela?
— Não sei! Ele só fala isso.
— Mas Helena, isso é impossível. Se for verdade...
— É..., lamento.
— Não, Helena, não pode ser. Eu vi a Isabela esses dias. De primeira achei que era fantasma, mas daí cheguei perto. Toquei nela, beijei, é a Isabela, só que usando outro nome!
Helena jogou o corpo para trás se desvencilhando dele.
— Como é que é? Você beijou a garota?
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