A sobrinha da Helô
16 Com ciúmes da Sobrinha da Helô
Na quarta-feira, depois das três horas da madrugada, Tiago desceu do seu quarto para a sala de estar. Ele já não conseguia dormir direito desde sábado. Ele vinha evitando o horário para não encontrar Helena. Tiago sentia que não poderia contar com ela para resolver isso.
É que pouco depois de ter voltado da viagem com o tio e as irmãs, quando finalmente conseguiu almoçar, recebeu uma mensagem na qual Isabela pedia para encontrar ele, e assinava ao fim com o verdadeiro nome, mostrando que estava afim de ser sincera com ele.
“E agora, Tiago? Você vai se acertar com a Isabela?”
Sem saber o que responder, ele apenas deixou de responder a mensagem.
Chegando na sala ergueu as sobrancelhas. Parada no sofá maior, estava a sua tia Vitória, com as pernas esticadas e a mão direita sobre a barriga, cotovelo esquerdo no encosto do sofá com a cabeça pousada sobre a mão, olhos fechados.
— Tá tudo bem, tia? – ele falou se sentando aos pés dela, que abriu os olhos.
Ela só respondeu afirmativamente com a cabeça para ele.
— Pronto, Vitória, pega um copo de água, e tenta se acalmar. Se ... – Luciane foi entrando e parou quando viu Tiago – Que cê faz aqui, garoto? Tá com dor também.
— Não. O que a tia tem?
— Ah, é dores de grávida, espasmos, sei lá. Se continuar a gente leva no hospital.
Tiago a olhou curioso.
— Que é garoto, em puteiro tinha mulher que engravidava também. Eu sempre me cuidei, mas quando uma colega se perdia nas contas, a gente tentava segurar o tranco juntas.
Ele só ergueu as sobrancelhas rapidamente e se voltou para a tia.
— Mas e você? Tá aqui por que? – perguntou Vitória, respirando fundo e abrindo os olhos.
— Não consigo dormir.
— É...mal de amor? – perguntou Luciane tentando ser sutil.
— Mais ou menos. – ele passou as mãos no rosto.
— Conta pra nós, querido, quem sabe podemos ajudar? – falou Vitória curiosa, já olhando para Luciane, cumplice, imaginando que ele falaria de Helena.
— Tá bom – ele se sentou para frente, apoiou os cotovelos na perna e se inclinou, batendo forte as mãos – vocês sabem da história da Isabela? – as duas fizeram um “ah” desapontadas, ganhando um olhar intrigado de Tiago – Então... depois do acidente, ela voltou como Marina.
— Certo, a irmã gêmea com corte de cabelo diferente. – respondeu Luciane impaciente, sentando no outro sofá se inclinando para Tiago, atenta.
— Isso. – ele puxou o ar, jogando o tronco para trás – Eu terminei com a Marina.
— Jura? – Luciane se animou e bateu as mãos em frente ao corpo, e os pés animada, enquanto Vitória abria a boca feliz com a surpresa.
— É... – Tiago olhou para as duas desconfiado – Eu disse para ela que não fazia sentido eu tentar algo com alguém só porque lembrava a Isabela, que minha história era com ela e não com a Marina...
— Certo, certíssimo. Muito bem, Tiago, não se mete em outra roubada assim não. – apoiou Luciane.
— É... só que agora ela mandou mensagem querendo me encontrar, assinando como Isabela. Acho que ela quer voltar ...
Ele nem terminou e as duas já viraram a cara. “Mais que vaca.” Ele entendeu Luciane dizer.
— Você vai voltar com ela, Tiago? – perguntou Vitória preocupada com o sobrinho, já quase esquecendo da dor.
Ele se inclinou para frente apoiando o cotovelo esquerdo na perna e a cabeça na mão.
— É o que tem me tirado o sono.
— Por que, querido? – Vitória continuou com sua voz doce, Luciane só observava com um dedo no canto da boca, atenta.
— Porque – ele engoliu em seco – eu sei lá. – ele se levantou.
— Ah não. – Luciane se levantou junto – Não tem isso de não sabe se quer voltar com a pessoa. Ou você quer, ou não quer. Qual o problema, não ama mais ela?
Ele esticou os lábios e o levou para a direita e a esquerda, pensando.
— Vamos aqui falar a real, Tiago. Você ama essa garota? – Vitória puxou as pernas e ficou atenta ao interrogatório de Luciane – Vai dizer que não sabe?
— Vou. Tá? Eu não sei mais o que sinto pela Isabela, e isso tá me deixando louco, porque, depois de tudo o que a gente passou...
— Tudo o que, Tiago? A tentativa de morte dela? Isso não é sinal de amor, não, e sim de que precisa abrir o olho.
— Luciane, eu queria me casar com a Isabela. Eu a amava muito.
— Ali, amava. Não tô dizendo que a gente sempre sabe o que sente! Escuta aqui, Tiago, — Luciane se aproximou do enteado – a gente sente, o que sente, não tem como ficar enganando os sentimentos, eles vão sempre nos denunciar. Você pode ter amado ela do jeito louco de amor juvenil, mas hoje você claramente não ama mais.
— Isso não faz sentido. — ele evitava o olhar da madrasta, mãos na cintura.
— Faz sim, e muito, Tiago. Você no começo do namoro com a Leticia também era o maior love. Tem sentimento que é profundo, mas se não é verdadeiro, se vai. Escuta aqui, pergunta para a sua tia como foi com ela e Ciro.
Vitória que só assistia arregalou os olhos para Tiago.
— Não me mete nisso não.
— Vamos lá, Vitória, conta aí. Fala logo que você achou que amava o cara.
— A minha história é totalmente diferente da do Tiago. Eu me decepcionei com o Augusto e busquei no Ciro uma forma de amor, uma fuga para a minha decepção, sob forte influencia da mamãe. – ela suspirou – Mas a Luciane está certa, Tiago. O sentimento quando existe a gente não controla. Uma hora ou outra ele vai bater na sua cara quando você estiver achando que é a pessoa mais feliz do mundo, daí, depois de bêbado da alegria de ter conseguido ser tão feliz, a ressaca vem. E com ela o vazio, aquela sensação de que está tudo errado. Mas você quer acreditar, e volta a sonhar, a pintar a realidade com cores da sua cabeça – Vitória agora olhava para um ponto a sua esquerda, por sobre o sofá – se enganando. Faz viagem, festa, planos, mas sempre, uma hora ou outra, o coração vence o cérebro e vem um grito lá do fundo de ti sabe?“Com ele seria diferente. Imagina se ele tivesse aqui? Com ele eu seria mais feliz.” Sempre Tiago. A gente pode até criar um novo amor e apagar, mas amor de verdade, ele se cria sozinho, é independente, não precisa de mentiras e loucuras para nascer e nem mesmo se manter, e... não há o que apague ele. Fica na alma. Vem dela.
Vitória enxugou uma lágrima que desceu do olho esquerdo, e sorriu para o primo, encabulada. Tiago olhou para baixo, emocionado com a tia.
— Você nunca esqueceu o Augusto?
— Nunca, nem um minuto. – ela sorriu olhando para a barriga, triste – Você não esquece quem ama, apenas distrai a mente com a ausência dela. Mas basta a voz – ela olhou para cima, os olhos brilhando – ouvir o nome, e já vem algo diferente, sabe? Você sente isso com a Isabela?
Vitória o enquadrou.
Tiago tentou pensar nos sentimentos. Ele de fato ficava nervoso e em êxtase quando ouvia a voz da Isabela ou falava sobre ela no seu começo com Isabela, e então veio o acidente, e por meses ele não podia ouvir falar dela sem ter essa dor. Quando Marina apareceu, foi como se ele tivesse recuperado algo muito importante. E então ela veio com aquele teatro, veio com a mentira, sem se importar para o quanto isso o magoava. Tiago tentou entender e acreditar nela, mas com o tempo para de sentir que isso importasse. É como se fosse indiferente agora o que Isabela quer, ou faz. Uma vez que ele soube que não teve culpa, que de fato Tião pode muito bem ter provocado tudo, foi como tirar a dor que ele sentia sempre que sabia dela, do peito.
— É tudo muito complicado.
— Ou vai ver é tão fácil que você nem acredita. – Luciane contra-atacou – Tiago, olha só – ela pegou o queixo do enteado para olhar nos olhos dela – é fácil ficar com outra pessoa quando não se ama ela. No final fica tudo por conta da pele. Você não conseguiu ficar com a Leticia, mesmo apaixonado pela Isabela? – ele olhou para o lado, desviando o olhar – Mas quando você encontrar mesmo quem ama, não faz igual a sua tia não. Não inventa aí que ama outra e fica se iludindo, sofrendo porque não tá com quem realmente quer. Não força nada, Tiago, segue o fluxo. Pra depois não se arrepender de ter perdido algo real por medo da força dele.
Ele olhava sério a madrasta, com as mãos na cintura. Suspirando, ele concordou com movimento rápido de cabeça. Olhou para a tia que os olhava emocionada.
— Eu acho melhor ir para a cama. Você está melhor, tia?
— Sim, querido. E você?
— Vou ficar.
E Tiago foi caminhando até a escada, no pé dela ligou para Isabela. O telefone tocou várias vezes.
— Oi, é a Isabela?
— Shhh Tiago, ninguém além de você pode saber.
— Ahã – ele respirou fundo – eu achei melhor não marcar nada por mensagem. Que tal amanhã no mesmo local e horário?
— No posto da Salete? Não, Tiago, melhor como das ultimas vezes que você veio aqui em Paraty. Eu não me arrisco em São Dimas.
— Eu não posso. Não se preocupa, a gente não vai ficar ali. É só para se encontrar, depois podemos ir para um hotel. – Tiago falou colocando um pé na escada, cabeça baixa.
— Está bem. Te vejo lá...Tiago?
— Hum...?
— Te amo, viu?
Ele fechou os olhos balançando a cabeça negativamente.
— A gente se vê amanhã, Isabela.
Tiago desligou e olhou para cima a tempo de ver o vulto de Aline saindo correndo do alto da escada, ouvindo a conversa dele.
— É incrível! Quando se trata de te ouvir saindo do quarto Aline tem sono levíssimo, mas quando alguém entra no quarto dela para aprontar ela até ronca. – Helena falou pouco atrás dele, rindo, com um pote de sorvete de chocolate na mão, e usando camisola de algodão rosa.
Tiago a olhou assustado.
— Você estava me ouvindo?
— Você podia falar mais baixo ao telefone, né? Quem quiser agora já sabe que você vai se encontrar com a Isabela. – ela caminhou em direção da escada atenta ao seu pote de sorvete – Boa festa amanhã. Como diz teu tio Pedro, “juízo”.
E Helena foi subindo as escadas, queixo erguido, sem olhar para ele.
— Impressionante como nessa casa tem sempre a pessoa errada na hora errada escutando as conversas erradas, ou interrompendo na hora errada. – ele falou irritado, agitando o celular no ar.
Tiago foi então para a cama, irritado.
Na manhã seguinte Aline foi levar a novidade o mais cedo possível para Magnólia.
— Tiago vai se encontrar com a Isabela?
— Sim, e parece que vão a um hotel.
— Mas que curioso. – Magnólia falava olhando para cima, ainda sentada na cama, de camisola preta – Bom, antes ele voltando a se enrabichar por ela do que pela louca da Helena. Isabela me parece mais fácil de controlar. Bom trabalho, Aline, até que enfim você fez valer tua vinda. Agora, por favor, vai lavar esse rosto.
— O que tem meu rosto?
— Está vermelho, horrível.
Aline tocou no próprio rosto desesperada. Procurou um espelho e viu o seu rosto vermelho, principalmente no nariz, deu um grito e saiu correndo pelo corredor, esbarrando em Tiago.
— Não olha para mim.
— Não precisa pedir duas vezes. – ele falou indo para a escada.
Chegando no pé da escada ele viu Helena e Camila, ambas vestidas em vestidos pretos de couro, a primeira com coturno e a segunda com scarpin, rindo.
— Bom dia! – ele se aproximou rindo, imaginando o que elas tinham aprontado – Estamos muito felizes hoje, né? – ele colocou a mão nos ombros delas, olhando para Camila e então para Helena.
— E vai melhorar! – falou Helena animada, olhando cumplice para Camila.
— Vem cá. Foram vocês que fizeram isso com a cara da Aline.
— Me desculpe, Tiago, mas já fiz muita coisa errada, e Aline nascer com aquela cara não é uma delas. – disse Camila fingindo irritação.
As duas se olharam sorrindo.
— Vocês estão de saída? – ele perguntou olhando as duas de cima a baixo – Tão bonitas.
— É... – Camila ficou um pouco nervosa – Nós vamos dar umas voltas com o tio Pedro, tentar sair desse clima pesado da casa.
— Que bom. Se divirtam.
— Ah, pode ter certeza. – disse Helena erguendo o queixo, sorrindo para ele enquanto colocava os óculos escuros.
Tiago estranhou, mas seu tio chegou logo interrompendo eles.
— Bom dia, gente. Daí, vamos? – ele deu uns tapinhas nas costas do Tiago e olhou para as meninas.
— Sim, senhor, comandante! – Helena falou animada, já puxando Pedro pelo braço, sendo seguida por Camila.
— Tchau, Tiago. – foi o que ele teve tempo de falar.
Tiago então olhou a cena, e viu o celular. Ele ainda tinha meia-hora até Isabela chegar lá. Só dava tempo de tomar um café e ir. E foi o que fez.
Enquanto isso, Pedro chegava com Camila e Helena no posto da Salete. A sobrinha da Helô torcendo para que estivesse tão diferente do outro dia que não fosse reconhecida pela dona do posto.
Pedro saiu primeiro do carro, deixando o carro abastecendo.
— Daí Pedro, serviço completo? – veio Salete da loja de conveniência dar um abraço nele.
— Por favor. E, se possível, uma conversa em particular? – Pedro a olhou sério e depois para o carro, observando Camila.
— Claro, entra, vou mandar meus meninos cuidar do carro. Robinson, dá uma atençãozinha ali ó. – Salete chamou o frentista que estava cabisbaixo num canto, apontando o carro de Pedro, piscando para o tio de Camila.
Robinson se aproximou do carro, e notou que tinha gente dentro.
— Vocês me dão licença...
— Claro. – falou Camila sorrindo para ele.
— Não acredito!
Robinson se ajoelhou no banco da frente, de costas para o volante e puxou Camila que estava no banco de trás para um beijo. Helena, que estava no banco de caroneiro, saiu do carro para não atrapalhar o casal, feliz pela nova amiga finalmente ter conseguido reencontrar o paquera. Magnólia vinha fazendo marcação cerrada com a menina, segundo a mesma, desde que Camila resolveu assumir os sentimentos por Robinson, que não só era frentista como também era o filho de cartomante amiga do inimigo politico dela. Só aí o cara já ganhou todo o respeito de Helena.
Ela então foi passear pelo posto, aproveitando que não tinha chances de ser pega pela patroa, que estava com Pedro, dando um tempo para o casal, como combinado.
Helana andou até a ponta direita da fachada da loja de conveniência do posto, se apoiando com as costas ali, suspirou. Lembrou da conversa que escutou de Tiago a noite anterior. “Esses ali já estão acertados. Não é à toa que ele nem para mais em casa...não fala mais comigo. Acho é pouco ter que ficar com aquela bicha fresca que fica fazendo charme para retornar do mundo dos mortos.”
— Mas olha só se não é a própria Dona Encrenca de novo aqui. – falou uma voz que vinha dos fundos da loja.
Ali, se apoiando com o braço direito no alto, estava Gustavo, observando Helena, dentro de um macacão jeans com uma alça aberta, regata branca por baixo. Ela olhou para ele já começando a sorrir.
— Mas não é essa a ideia da prestação de um bom serviço? Fazer o cliente voltar! Estou aqui.
— Então eu fiz um bom serviço?! – ele agora apoiou o ombro na parede cruzando os braços.
— É...Não foi excelente – ela meneou a cabeça fazendo bico – mas nessa cidade, né, temos que trabalhar com o que tem.
Ele riu alto.
— De fato, a cidade é bem caída. Mas de vez em quando ela dá um up grade.
— Olha só, trabalhamos em inglês também! Que lugar moderno.
Os dois riram e continuaram o flerte. Enquanto em frente a loja de produtos esotéricos do outro lado da rua, Isabela já esperava impaciente.
Tiago então chegou. Baixou o vidro do carro para ela vê-lo, e indicou para entrar. Isabela rodeou o carro olhando para os lados, tentando não ser reconhecida e atravessou a rua indo até o carro. Ele então se inclinou sobre o banco ao lado para abrir a porta para ela, quando viu Helena do outro lado da rua, conversando com Gustavo, rindo. A expressão dele, que já não era boa passou para lívida.
— Isso só pode ser brincadeira. – ele esbravejou enquanto Isabela entrava fechando a porta, obrigando ele a mexer a cabeça para acompanhar a cena – Então era essa a diversão? Vou acabar com isso é agora! – ele foi tirando o cinto de segurança e abrindo a porta.
— O que é isso, Tiago? Vai me deixar plantada de novo? – ela puxou ele pela camisa.
— Calma aí, Isabela, eu tenho que resolver uma coisa.
— Tiago, para! – ela o puxou com força – Não pode ser mais importante que nós dois.
Tiago a olhou e então viu Helena colocar a mão direita no ombro esquerdo de Gustavo.
— Pode sim.
— Tiago?
Helena desceu a mão pelo braço de Gustavo. Ele fechou os olhos e respirou fundo, a raiva consumindo. Olhou para Isabela.
— Quer saber? Vamos! – ele falou passando a mão na barba mal feita e ligando o carro, saindo patinando dali.
Helena apenas olhou para o local de onde vinha o barulho de carro patinando, estranhando.
— É, papo tá bom, mas chegou cliente. Vou lá.
Gustavo disse saindo para atender um carro chegando. Ela então voltou a se apoiar com as costas na parede, levantando a cabeça para cima, suspirando. “O cara é alto, forte, cara de bandido, tatuado, bom de papo e ainda tem barba, o teu tipo, Helena. Mas ainda assim...” Ela fechou os olhos e a imagem do rosto de Tiago sorrindo para ela, segurando a sua coxa e a olhando; a segurando depois de descer a bancada; a prendendo no chão depois de se salvarem do afogamento, pularam na sua mente. “Maldito porquinho”
Tiago levou Isabela a um hotel em São Paulo que seu avô às vezes ficava. A viagem toda ele remoendo a cena do posto.
— Pensei que você queria conversar. – Isabela disse irritada, olhando para a frente.
Ele olhou para ela tentando controlar a raiva. Suspirou se sentindo culpado.
— Melhor no hotel... dirigir me deixa nervoso.
— Sei... – ela abriu o vidro olhando para fora.
Tiago chegou no hotel e alugou o quarto, só chamando ela quando estava tudo acertado. Subiram no quarto, e quando ele fechou a porta atrás dele, Isabela o atacou, o beijando e o jogando contra a parede. Ele não soube como responder, deixou ela beijar ele.
Isabela estranhou a reação dele, e o largou, o olhando intrigada.
— O que foi, Tiago?
— Acho que a gente precisa conversar primeiro.
— Não precisa meu amor – ela foi passando a mão sobre o peito dele – eu já te perdoei.
— Pelo quê? – ele franziu a testa.
— Por tudo!
— Esse tudo inclui o que? – ele olhou para cima – Marina...Isabela, eu não tive culpa no que aconteceu na lancha. O atentado é ação só do Tião. Você consegue entender isso? – ele agora segurava o rosto dela entre as mãos.
Isabela não parecia muito firme quando concordou com a cabeça.
— Não acredito, Isabela, você ainda acha que tenho algo com isso? – ele largou o rosto dela.
— Não, Tiago, eu acredito em você. – foi a vez dela segurar o rosto dele.
— Eu é quem não acredito em você, agora. – ele a olhou frio.
— Agora? Sempre, né Tiago! – ela o largou – Você sempre viu primeiro quem eu era de acordo com minha condição. Eu sou a garçonete, a boba do campo, a que pode ser alguém se casar com você, a única que tem a perder se você não me querer mais.
Ela se afastou dele e virou de costas.
— Do que você está falando, Isabela?
— Não disfarça, Tiago! Você nunca confiou em mim. Tanto que na primeira oportunidade me acusou de estar me vendendo para você!
— Eu...? – ele colocou as mãos na cintura, e olhou para baixo – Ok, eu tive culpa nisso, mas não quer dizer que não confiasse em você.
— Ah é? Então me diz quando foi que você mostrou confiança em mim? Vai lá, Tiago! Nem apoio para eu denunciar os crimes do amigo do seu avô você me deu.
Eles se encaravam de frente agora.
— Que apoio você queria? Você estava se colocando em perigo fazendo isso.
— E no final minha vida correu perigo por causa de você. Quem me colocou na zona de caça foi você, Tiago.
Tiago a olhava incrédulo.
— Você tá se escutando, Isabela? Melhor, está nos escutando?
Ela olhou para os lados, mão nas costas, tentando se controlar.
— Tiago... olha, a gente passou por muita coisa...
— Não, Isabela, o que tá acontecendo aqui, hoje e agora – ele se aproximou dela, dedo indicador da mão direita girando nervoso no ar próximo ao rosto dela — não é diferente do que acontecia antes de... de tudo!
Ela apenas sustentava o olhar dele.
— O que você quer dizer, hein Tiago? Tá querendo o que? Pediu para eu me revelar como Isabela para isso! Para continuar de onde paramos, brigando, se acusando!
— Não, Isabela! – ele olhou para cima com as mãos na cintura – Eu só estou constatando o óbvio. Algo que se eu não estivesse tão louco e desesperado para ficar com você, teria notado.
— O que? – ela agora baixou as mãos, prendendo a respiração.
— Que a gente não se ama.
—Tiago... – ela coçou a nuca com a mão direita – Não foi brincadeira o que a gente viveu. Foi real. – ela então respirou fundo e foi até ele, pegando o seu rosto e aproximando do dele – A gente se ama sim.
Isabela beijou ele. Tiago dessa vez fechou os olhos se entregando ao beijo, buscando sentir ao máximo o sentimento que tinha antes. Mas logo abriu os olhos de novo e se afastou. Não adiantava forçar. Ele sentia pela Isabela agora apenas um sentimento compaixão. Esse tempo todo desde o acidente transformou o sentimento frágil da paixão em um forte sentimento de culpa. O que era fogo tinha virado geleira. Parecia fogo porque queimava tanto quanto, mas não confortava.
Foi o que ele sentiu com o beijo. Frieza. Distancia. O fato era que ele teve poucos momentos bons com ela antes do acidente, e só se alimentou deles depois. Mas agora via de um modo geral, com clareza, sem o desespero da culpa, da perda. Eles só tiveram a paixão, e ela não resiste se não alimentada.
— Isabela? – ele a segurava pelo rosto, distante do dele – Você consegue dizer com certeza que me ama?
Ele a mirava, sério, já sabendo a resposta. Ela baixou o olhar afirmando com a cabeça.
— Olha para mim, e seja sincera.
Ela olhou para ele, fez cara de choro e tentou olhar para os lados puxando o ar.
— Pra que isso agora, Tiago?
— Isabela, a gente sempre sabe o que sente. E se você não tem certeza do que sente depois de tudo que passamos, é porque provavelmente não sinta nada. – ele a largou e colocou as mãos nos bolsos, Isabela relaxando com a liberação, segurando com a mão esquerda o braço direito – Mas eu sei o que sinto, Isabela, e pode até parecer cruel eu dizer isso agora, mas eu sinto só carinho por você.
Ela levantou os olhos com lágrimas a beira do olhar e o nariz vermelho, os dentes cerrados de raiva.
— Desculpa, Isabela, por tudo o que eu fiz, e pelo que você pensa que eu fiz. – ele a olhava de queixo erguido, lábios comprimidos – Eu sei que com essa loucura do Tião você acabou entrando na zona de caça DELE, aonde muitas pessoas que eu amo também estão. Não esqueça disso, Isabela, eu sofro com as atitudes dele. E por isso, pode contar comigo. Vou ajudar no que for. Mas a nossa história, acabou.
Ela o olhava sem falar nada, as lágrimas já caindo, boca meio aberta mostrando os dentes ainda cerrados.
— Você veio aqui para me humilhar?
Ele a olhou e balançou a cabeça negativamente.
— Você tá sempre esperando das minhas atitudes uma forma de te atacar. Simplesmente não me conhece, e nem confia em mim. Como eu não te conhecia e por isso não confiava em você. Nossa história começou errada, nós fomos empurrando ela desse jeito e a única coisa a se fazer certo é terminar. Tchau, Isabela.
Ele a olhou carinhoso, comprimiu os lábios e saiu do quarto de hotel, dando as costas para ela. Andando pelo corredor com uma sensação de leveza, sentindo como se finalmente ele conseguisse sustentar o próprio corpo depois de muitos meses.
Isabela, no quarto começou a gritar, tacando travesseiros na direção da porta. Se sentando no chão, com as costas apoiadas na cama.
— Que idiota, Isa, ele tava mesmo só te usando. Acaba com a sua vida, e ainda vem terminar contigo. Nojeeeento!
Ela olhou para a bolsa, lambeu os lábios. Engatinhou até ela pegando o celular. Limpando o nariz e fungando, ela colocou na discagem rápida.
— Alô? Só para avisar... não deu certo. – a voz do outro lado pareceu não entender – Não, o Tiago veio sim, mas ao invés de cair de amores por mim ele resolveu assumir que nunca me amou. Me humilhou. Eu agradeço muito tudo o que fizeram por mim, mas avisa que eu não vou me sujeitar mais a isso. O Tiago já não me parece mais o caminho para conseguir o que quero!
E ela desligou o telefone, se erguendo, pegando a bolsa e saindo decidida do quarto, enxugando o resto de lágrimas dos olhos.
Tiago se sentou no banco do carro pensativo. A cada passo longe do quarto ele se sentia mais seguro da decisão. Demorou tanto para fazer aquilo! Nem acreditava que estava se sentindo tão bem com a decisão.
Ele olhou para a frente e pensou onde iria agora. No Posto da Salete foi a primeira ideia. “Pra quê? Ver Helena se divertindo com o frentista com cara de bandido? Se merecem mesmo!”
Mesmo assim, decidido a ir para a fábrica, ele acabou passando em frente ao posto para constatar que ela não estava mais lá. Foi então para a fábrica. Com a mente livre de preocupação com Isabela, pensou que teria a tarde toda focado no serviço. Mas quando que conseguia se a imagem que invadia a cabeça era de Helena passando a mão no braço do frentista? Pior, o alivio de não ver ela no posto logo foi substituído por uma dúvida. Ele também não viu o frentista ali! Será que saíram juntos?
Assim, Tiago mal conseguiu almoçar e mal ouvia Misael na fábrica, terminando o expediente já na metade da tarde, depois de mais um cancelamento de pedido. Foi para a casa.
Chegando em casa, encontrou na sala de estar Helena, Luciane, Vitória e Camila sentadas, as mais velhas no sofá grande e as novas no menor, conversando em tom cumplice.
— ...tô muito admirada ainda com você. Um frentista! Que loucura, gata! – falava Luciane, animada, para Camila, mas Tiago não notou que era para a irmã.
— Boa tarde! – ele foi para a frente da sala, olhando para Helena, assustando todas – Perdi algo?
Tiago olhava furioso para Helena. Que o olhou de baixo a cima e voltou a virar a cabeça para Vitória e Luciane, o ignorando.
— Boa tarde, Tiago! O que tá fazendo aqui? Não tá vendo que é reunião de mulheres? – Camila atacou o irmão.
— Certo... – ele balançava a cabeça afirmativamente – E o papo parece ser Helena, né?
Vitória olhava o sobrinho séria, Luciane previa barraco e já ria, Camila e Helena se olharam estranhando.
— Que foi garoto? – Helena então se virou para ele o encarando.
— Nada! Só estou tentando participar do papo da minha família. – ele colocou a mão direita no peito ao dizer “minha”.
Helena agora o fuzilava com o olhar.
— Ah é?
— É!
— Então conta para nós – ela se ergueu e foi para perto dele – como foi o dia no hotel!
Tiago se virou para ela colocando as mãos na cintura mantendo o olhar de Helena.
— Provavelmente menos animado que seu dia no posto!
— É – ela o cheirou – pelo cheiro de mofo deve mesmo ter sido bem meia boca! Não tem vergonha de levar as minas em hotel vagabundo?
— Aaaah, faz me rir! Olha só quem tá falando. Antes sair para um hotel vagabundo do que com um vagabundo.
— Gente, chama a Leila, quero pipoca! – disse Luciane se inclinando para a frente atenta ao babado, enquanto as outras pareciam assustadas.
— O que você tá falando? – perguntou Helena franzindo a testa.
— Não se faz comigo, Helena! – ele gesticulou movimentando a mão entre os dois – Eu vi você no posto com o frentista com cara de bandido hoje!
Ela olhava para os lados tentando assimilar a informação.
— Você tá nos seguindo agora, é Tiago? Tá se prestando a esse serviço para a vovó? – Camila se levantou indo para o lado de Helena, encarando o irmão.
— Camila, fica na tua que meu papo é com a Helena. Você foi mesmo atrás daquele babaca?
Ele estava indignado, olhando para Helena. Ela confusa.
— Tiago, responde a Camila, o que você fazia no posto?
Ele olhou para baixo.
— Você sabe...é meu ponto de encontro.
Helena ergueu as sobrancelhas e dilatou as narinas.
— Cretino! Saiu logo cedo e passou o dia com a morta-viva, é? – ela empurrou ele pelos ombros – E ainda quer ter moral para falar com quem ando.
E ela saiu furiosa da sala. Ele foi atrás se livrando de Camila. Vitória e Luciane se olharam com a boca aberta.
— Helena, volta aqui, eu ainda não terminei.
— Vai te ferrar, Tiago! – ela já estava no alto da escada – Me deixa!
Pedro estava descendo a escada para ver o porquê do escândalo, levando um esbarrão de Helena que foi para o quarto se trancar e bater no travesseiro.
— Olha isso! – Tiago falou apontando para ela, conversando com tio – Eu vou...
Pedro o segurou.
— Não vai não. Acho que você já fez o bastante por hoje.
— Tio!
— Para, Tiago! Você tá alterado e claramente a deixou nervosa. Não sei o que você...
— Eu não fiz nada! – ele se soltou do tio – É essa aí que só sabe se meter em encrenca. Você sabe onde ela tava hoje cedo?
— Claro, Tiago, esqueceu que ela saiu comigo e a Camila?
— Verdade! Tio, você levou ela para o posto da Salete por que?
Pedro olhou ao redor, colocou as mãos na cintura e respirou fundo. Sabia que era algo sigiloso, Magnólia não podia sonhar com isso, mas tinha que defender Helena.
— Sua irmã foi proibida de ver o namorado. Lembra o Robinson? Sua avó faz marcação serrada e hoje consegui encontro com eles no posto.
Tiago caía em si se lembrando de Robinson, um frentista. Entendeu o que ouviu na sala.
— Fez cagada, né? – Pedro olhava o sobrinho.
— Mas eu vi ela com o frentista lá.
— O Gustavo?
— Não sei e nem me interessa o nome.
— Bom, neste caso não vai te interessar também saber que Helena passou quase o tempo todo comigo passeando de carro pela cidade depois que deixamos Camila com Robinson na casa dele. Eu precisei falar com Salete para liberar o garoto. Sua irmã tem sofrido muito com as intervenções da sua avó, Tiago. A Helena tem sido um grande apoio para a Camila, e hoje ela demonstrou mais um vez isso.
— Não tio... – Tiago passava as mãos no rosto – Eu fiz cagada!
— É! – o tio olhou o sobrinho arrependido e suspirou – Acontece, Tiago, ciúmes às vezes cega mesmo. Depois você conversa com ela, agora ela deve estar magoada. – e Pedro deu tapinhas nas costas do sobrinho e subiu as escadas deixando ele ali arrependido.
Tiago ainda tinha as mãos no rosto. “Ciúmes?”
Ele suspirou e saiu de casa para o bar, sem Antônio. Hoje os conselhos do amigo só poderiam confundir mais ele.
Helena não estava conseguindo dormir direito. Assim escutou quando um carro chegou já passada da uma da madrugada. “Porquinho ainda foi para a farra!” Ela passou o fim de tarde com estomago embrulhado só de imaginar ele com a “tá viva tá morta”. Assim, tampou os ouvidos com os travesseiros quando ouviu os passos pelo corredor.
Então ela tirou os travesseiros ao notar na porta um barulho estranho de alguém mexendo na fechadura. Um barulho que ia crescendo. “Deus! Estão tentando arrombar a minha porta. Tião descobriu o que fiz e já veio me eliminar.”
Ela foi até o coturno, pegou o canivete, e se agachando perto da porta, foi virando a chave devagar e a abriu rápida, se preparando para atacar as pernas dos invasores, quando Tiago caiu no chão com o puxão na porta, bem na sua frente.
— Tiago? – ela se assustou e foi virando ele para ver se estava bem.
— Funcionou! – ele sorria bêbado segurando um cartão de crédito na mão, o erguendo para o alto.
— O que você tá fazendo?
— Shhh... eu arrombei a sua porta.
— Ahã! Gênio do crime, você. Anda, sai do meu quarto.
Ela se levantou e olhou no corredor, notando que luzes iam sendo acessas. Tiago não se mexia.
—Droga, leitãozinho! – e Helena o puxou pelos braços para dentro do quarto, fechando a porta.
Tiago então se ergueu nos cotovelos observando ela de camisola e de costas.
— Eu adoro essa camisola preta. Você fica tão linda nela.
— Cala a boca, muleque! – ela se ajoelhou do lado dele colocando a mão na boca dele, o calando, escutando alguém passar no corredor.
Passado o perigo ela o olhou, brava. Tiago se mantinha nos cotovelos, a olhando com a cabeça inclinada para a direita, olhos brilhando. Ela tirou a mão da boca dele, permitindo um sorriso.
— Você tá bem mais pra lá que pra cá, né?
— Tô? – ele olhou ao redor dele, fazendo ela rir.
— Vem, se levanta.
— Não! Você vem e se deita comigo. – ele disse deitando a cabeça sob as mãos a olhando com a boca meio aberta e a língua pressionando o lábio inferior.
Helena ficou de pé, olhando ele com as mãos na cintura tentando parecer séria. Mas não conseguiu e olhando para cima, sorriu.
— Ai, o que fiz para merecer você, leitãozinho? Ninguém pode contigo.
Ela se inclinou pegando os braços dele para levanta-lo, mas ele começou a puxa-la para baixo, fazendo cabo de guerra.
Começa a tocar Raging fire.
Tiago então começa a se erguer puxado por ela, e aproveita que ela relaxou para puxa-la. Helena cai rindo sobre ele. Ela estava rindo se apoiando com o antebraço direito no peito dele, a cabeça pouco acima da dele.
— Olha que linda, rindo para mim. – ele disse com os olhos brilhando, soltando o ar dos pulmões.
Helena o olhou, parando de rir, e jogou o corpo para o lado, deitando no chão do lado direito dele. Tiago então aproveitou e foi jogando o corpo por sobre o dela, a perna esquerda passando pelas dela, a mão esquerda vindo passear pelo cabelo e rosto dela.
— O que você quer Tiago? – ela respondeu com a voz falhando.
Ele a olhou sorrindo.
— Um beijo.
Ela sorriu.
— Você tá brincando com a minha cara. – Helena falou olhando para o teto.
— Só um beijinho.
— Tá, um beijinho, se você se erguer e for embora, certo?
Ele a olhava agora apoiando o corpo no cotovelo esquerdo, cabeça apoiada na mão. Então abriu sorriso para a proposta e concordou com a cabeça animado.
Helena jogou o corpo dele de lado, se levantou e então o ajudou a se erguer.
De pé, Tiago ficou com o corpo bem perto dela, cabeça inclinada na direção de Helena.
— Agora beijinho?
— Agora, beijinho. – Helena respondeu rindo – Fecha os olhos.
Tiago sorriu e fechou os olhos. Helena puxou a cabeça dele e o beijou na testa. Ele abriu os olhos franzindo a testa e balançando a cabeça negativamente.
— Não, assim não.
— Quer mais?
Ele só fez que sim com a cabeça.
— Pede para a sua namorada! Agora sai. – Helena o afastou, decidida.
Tiago a puxou de volta, forte.
— Eu não tenho namorada.
— Ah não?
— Não.
— E a Isabela é o que?
— Nada.
— Mas é um safado mesmo! Passa o dia com a garota e ainda vem me importunar, bêbado.
Ela foi empurrando o peito dele. Mas não tinha muita força nos braços para o intento.
— Não... – ele pedia com voz de menino – para Helena. Para, me escuta. – ele pegou com a mão esquerda o queixo dela, a fazendo parar – Eu odeio quando você fica brava comigo. Sério. Me sinto muito mal. Eu sou muito idiota. – ele fechou os olhos e ergueu a cabeça para o teto – Me desculpa. – ele então baixou a cabeça encostando a testa dele na testa dela.
Os dois de olhos fechados.
Helena engoliu em seco.
— Tiago... – ela expirou fundo – não... eu não estou brava contigo, ok? – ela pegou o rosto dele com as mãos – É muito difícil ficar brava com você por muito tempo.
— É? – ele a olhou rindo.
— Sim. – ela devolveu o sorriso.
— Ai que bom. – ele mexia no cabelo dela – Agora vamos dormir.
Ele saiu puxando ela para a cama. Helena livrou a mão que ele segurava quando Tiago se jogou na sua cama, e ficou em pé de boca aberta vendo ele se ajeitar sobre as suas cobertas, cheirando o seu travesseiro.
— Você é o bêbado mais sem noção que eu já tive que me livrar!
— Vem. – Tiago, deitado, olhou para ela e estendeu o braço esquerdo para o lado, batendo com a mão direita no muque, indicando para ela deitar ali.
Helena franziu a testa. Balançou a cabeça negativa. E então colocou o polegar da mão direita na boca começando a roer a unha. Mordeu o lábio inferior, olhou para a porta e para ele, para a porta e para ele.
— Ai Helena... – ela disse para si mesma, indo se ajeitar na cama, colocando a cabeça sobre o braço de Tiago.
Tiago sorriu e puxou ela com o braço, olhos fechados, sorrindo. Beijou e cheirou o cabelo dela, e a apertou num abraço, gemendo de prazer, ele relaxou e dormiu. Helena porém teve que esperar o coração parar de bater acelerado para conseguir começar a relaxar e dormir, sentindo as batidas do coração de Tiago no peito dele.
Helena estava acordada fazia uns quinze minutos, e sentiu Tiago acordar fazia uns cinco minutos. Fingindo ainda dormir, ela sentiu ele se mexendo, dando um pulo ao notar onde estava e então parando. Ele passou então o braço esquerdo sobre ela, a abraçando e suspirou. Ela sentiu quando ele baixou a cabeça e sentiu o cheiro do cabelo dela.
Mas antes que os dois se revelassem, alguém bateu na porta.
— Helena? – bateu Dona Magnólia irritada a porta.
Helena se ergueu alerta e olhou para Tiago. Ele arregalou os olhos para ela.
— E agora? – ela sussurrou para ele que só deu de ombros e levantou as mãos – Vou ter que limpar sua barra por causa da cachaça, né?
Ela disse olhando ao redor.
— Helena? – Mag batia mais forte – Anda Aline, vai buscar a chave reserva.
— Já vai! – Helena gritou para a porta – Aqui, vem! – ela puxou Tiago para dentro do banheiro, ligou o chuveiro e pegou uma toalha.
Tiago então ficou parado do lado da porta do banheiro o vendo se encher de fumaça. Então Helena abriu rápido a porta jogando a camisola no chão. Ele foi e abriu uma fresta da porta para ver o que acontecia lá no quarto. Helena estava com a toalha enrolada no corpo, abrindo a porta.
— O que é isso? Sabia que temos um doente neste andar? – ela abiu a porta sussurrando.
— Mais é uma pentelha mesmo. Me deixa entrar.
— Com ordem de quem?
— Não se faça de idiota, a casa é minha. – e Mag foi entrando a empurrando.
A matriarca olhou pelo quarto, Aline foi para debaixo da cama ver se achava Tiago.
Helena se fez de indignada!
— Que isso? Pra que essa revista?
— Você sabe muito bem a razão. Tiago não está no quarto dele, mas o carro está na garagem.
— E? Acaso você está insinuando que matei o garoto e estou escondendo o corpo?
— É bem o seu tipinho mesmo. – falou Aline se aproximando com os braços cruzados.
— Bom, como podem ver ele não está aqui!
— Vê no banheiro, Aline. – Tiago escutou e começou a procurar onde se esconder ou como se apresentar para a avó.
Ele ficou então atrás da porta, quando Aline a abriu olhando para dentro e não o encontrando.
Helena se mantinha impassível, encarando Magnólia.
— Pronto, Dona Magnólia, micão tour já terminou?
Ela suspirou, olhou ao redor irritada e foi saindo, com Aline atrás igual cachorrinho. Helena foi para a porta aberta as observar se distanciarem. Mordeu o lábio inferior e foi buscar Tiago no banheiro.
— Tiago? – ela foi até o box, ele apareceu atrás dela – Cê tá aí. Anda, vai pro seu quarto antes que elas voltem!
— Tá! – ele tinha um meio sorriso malandro no rosto – Ó, sua camisola.
Ele estendeu a peça para ela, que pegou rápida.
— Vai garoto.
Tiago foi saindo empurrado por ela, que na porta ainda deu uma paradinha, olhando para os lados. Não tinha ninguém.
Tiago no batente, apoiando as costas e a admirando.
— Pode ir, Tiago. Vai, vai, vai... – ela o empurrava com a mão esquerda para fora.
Ele parou sorrindo para ela.
— Tá, já vou. – ele olhou para a toalha em que ela estava enrolada – Mas a gente se fala hoje a noite de novo. Lá na sala. É sério.
— Vou pensar.
— Helena, por favor...
—Tá vindo gente!
Ele então seguiu para o quarto enquanto Helena fechava a porta. AnaLu foi até o quarto do irmão procurando ele, encontrando a mesma trancada. Então foi avisar a avó.
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