A saga de V - Immortalis
18 Capitulo 17
Notas iniciais
Capitulo XVII
Visto um moletom azul marinho e calço meus velhos tênis, complementando minhas calça jeans e minha velha camiseta branca. Amarro meu cabelo em um rabo de cavalo bem preso e dou pequenos beliscões em minhas bochechas para ver se elas pegam um pouco de cor. Olho-me no espelho e suspiro.
–Só vamos ao supermercado mesmo. – e então saio e desligo a luz do banheiro. Tomo um susto ao ver Dante na beirada de minha cama.
– Então vocês vão mesmo me deixar só? – ele faz biquinho. Eu sorrio.
– Own. Que pena. – falo sarcasticamente, saindo do quarto.
– Para uma patricinha você até que está bem saidinha não é pequena? – ele me segue pela escada.
– Tenho que agradecer ao melhor professor do mundo não é? – falo rindo e indo até a cozinha onde Cho me espera.
– Então vamos? – ela pergunta apertando a pequena bolsa preta debaixo dos braços.
– Uhum. – confirmo com a cabeça.
– Já chamou o taxi Dante? – diz Cho.
– O trabalho pesado sempre para mim. – ele suspira. – Sim, chamei. – e então ouvimos uma buzina na frente de casa. Rimos ao mesmo tempo.
– Até mais tarde. – falamos.
– Vou estar na estufa. – ele responde já saindo pela porta dos fundos.
Logo que chegamos Dona Cho puxou uma lista enorme e pedia que eu pegasse algumas coisas e colocasse no carrinho de compras.
– 7 caixas de leite e 10 pacotes de preparo para torta de chocolate?! – falo abismada.
– É para o Dante. – ele diz dando de ombros olhando qual o próximo item da lista.
– É, acho que percebi. – falo assustada. – Ele vai pagar por isso? – falo apontando para os produtos no carrinho. Cho ri.
– E desde quando Dante paga alguma coisa? – ela ri novamente.
– É você que paga? – senti um rubor muito forte em minhas bochechas. Não sei por que, mas senti como se estivesse explorando aquela senhora.
– Sempre. – ela sorri pegando alguns produtos de limpeza. Ajudo-a. – Desde a época da senhora Wing.
– Pensei que a fortuna de Wing era dela mesmo. – falo.
– É minha. – ela diz. – Herdei de meus pais.
Passamos por um comercial de carros na área onde há varias TVs de plasma e LCD. Suspiro ao olhar um Impala novinho e então seguimos em frente.
– Para falar a verdade não lembro muito de você na época da Wing. – estranho o jeito que falávamos de Wing como se ela tivesse vivido um século atrás e foram apenas três meses.
– A senhora Wing não dava tantas liberdades como Dante, criança. – ela sorri e vejo-a tremer de leve ao mencionar isso.
– Como assim? – pergunto.
– Ela apenas era mais, preservada. – ela fala encerrando o assunto.
Enquanto andamos por todo o supermercado sinto uma estranha sensação que não terei outra oportunidade de ficar a sós com Cho e que devia aproveitar aquela chance.
– Posso fazer uma pergunta? – falo meio desesperada demais. Tento acalmar minha voz.
– Já está fazendo querida. – Dona Cho entra na área dos frios. Coloco minhas mãos nos bolsos e respiro fundo.
– Sobre os imortais. – falo devagar.
– O que quer saber? – ela confere os preços.
– Como eles viraram imortais? – pergunto primeiro.
– De muitos jeitos. Mas para a sua pergunta, por meio de um pacto com um ser com poderes. Como uma bruxa ou mesmo a venda de sua alma para você sabe quem. – ela fala calmamente. Respiro fundo.
– Robert vendeu a própria alma por Victoria? – falo meio sem chão.
– Pelo que eu soube, ele apenas fez um pacto com uma bruxa na época que ele viveu, elas eram mais comuns naquele tempo.
– E como se mata um imortal? – parecia uma pergunta boba com a palavra “imortal” no fim.
– Com uma arma angelical. – saímos da área dos frios.
– Arma? – falo meio confusa.
– Sim. Cada anjo tem uma própria. Por isso apenas os anjos podem matar os imortais.
– Isso quer dizer que o Dante tem uma? – sinto o sangue fugir de meus pulsos.
– Sim. Ela não tem a forma de uma arma mesmo, pode ser qualquer coisa que o dono quiser. Um alfinete ou uma vassoura. – ela ri da própria piada, mas eu estou sem humor no momento.
– Até quando Dante vai continuar aqui? – falo sem saber se ela vai compreender minha pergunta.
– Não por muito mais tempo. Se um anjo de missão permanecer muito tempo na Terra as penas de suas asas começam a cair, o anjo torna-se fraco e pode até perder as asas, ou seja, “morrer” – ela faz aspas quando pronuncia a ultima palavra.
– Com assim “morrer”? – falo angustiada, mas repetindo as aspas.
– Um anjo não morre, apenas volta para seu plano. Com exceção dos anjos caídos claro.
– Anjos caídos são aqueles que perderam suas asas, mas mesmo assim continuaram na Terra não é? – confirmo, não tenho muita certeza.
– Sim, aqueles que acham que podem ser como os humanos. Muitos deles são maus. – ela suspira. – Alguns viram assassinos profissionais.
– Então Dante tem que voltar logo. – falo tremendo com a ideia de Dante matando alguém por dinheiro.
– Sim, mas para isso ele precisa usar sua arma. – ela diz. Demoro alguns segundos para compreender.
– A missão de Dante não é me proteger no final. Ele veio para matar Robert? – falo quase gritando. Algumas pessoas olham para mim.
– Shh! – ela coloca o carrinho atrás de uma pequena fila em um caixa.
– Responde! – falo desesperada. – Por favor. – acrescento tentando não parecer grossa.
– Sim. – ela sussurra olhando para frente.
Coloco as mãos sobre o coração que pulsa desesperado. Um flash passa por minha cabeça. Dante segurando uma espada e em sua ponta está Robert de joelhos no chão.
– Não posso deixar que isso aconteça Cho. – falo quase chorando.
– Não é questão de querer criança, as coisas apenas acontecem. – ela suspira e então pega minha mão. – Mas se isso acalma seu coração, eu não acho que Dante faria algo que magoasse seu coração.
– Por que ele faria isso? – bufo. – Dante não se importa com o sentimento de ninguém. – ela sorri.
– Você sabe que no fundo isso é mentira. Apesar daquela casca, ele tem um bom coração. – reviro os olhos. – Coração esse que bate por você criança. – fico vermelha na hora.
– Isso é loucura. – é a única coisa que sai de meus lábios.
– Você sabe que Dante só se prolongou aqui por sua causa. Em três meses ele já poderia ter completado sua missão, mas ele está aqui até hoje, correndo o risco de perder as asas. Tudo por uma data. – ela sorri empurrando o carrinho mais para frente e começando a passar as comprar para a caixa.
– Que data? – falo.
– Seu aniversario.
Colocamos as sacolas marrons cheias de compras em cima do balcão. Bebo um copo com água e sento-me na cadeira.
– Pode ir descansar senhorita, eu cuido de arrumar as coisas. – Cho sorri.
– Tem certeza? – mordo os lábios, estou cansada, mas não quero deixar o trabalho sujo com ela.
– Ela tem sim, eu a ajudo, né Chozinha. – Dante sorri entrando pela porta dos fundos.
– Sim, vá descansar criança. Hoje foi um longo dia. – ela pisca para mim, sorrio e deixo os dois.
Tomo uma chuveirada bem demorada, molho os cabelos por que apenas um asseio não seria o suficiente, lavo-os com meu shampoo favorito e fico um tempo debaixo da água com esperança que ela leve o aperto em meu coração embora.
Sentia que com a chegada do meu aniversario muita coisa ia mudar. Nunca quis tanto que meu aniversario demorasse mais a chegar e ao mesmo tempo queria que ele passasse logo. Dante não podia ficar aqui por muito mais tempo, por mais que eu quisesse que ele nunca mais fosse embora.
Dividida. Essa era a palavra que me definia no momento. Enrolei os cabelos em uma toalha e coloquei uma roupa confortável, não que eu fosse dormir isso estava fora de cogitação, mas eu precisava pensar.
O que seria a arma de Dante? Cheio de si como ele era não seria algo fácil de achar. E três meses se passaram. Como eu não percebi isso? O tempo voou, e eu não fiz nada de valor para mudar minha situação atual, e tudo o que eu fiz se resumiu a pó.
Estávamos em pleno mês de setembro, não conseguia lembrar o dia exato, algo entre 11 e 15. Deitei na cama e olhei para o teto, o que sempre me acalmava. Mas havia algo diferente nas pequenas estrelas que brilhavam no escuro. Havia uma estrela nova.
Estreitei os olhos tentando melhor enxergar. Minha boca se abriu em um “O”. Será que era mesmo o que eu estava pensando?
“Gostou?” – Dante disse em minha mente, pulando minha janela em forma de gato.
– Um anjo. – falo suspirando. – Lindo. – olho de novo para a forma humana com asas grudada em meu teto.
“Que bom” – ele pula em cima da cama e se ajeita sentado ao meu lado. ”Tem alguma coisa para dizer?” – fala em meus pensamentos.
– Não. E você? – tento fugir do assunto.
“Vinny, eu já a conheço. Desde que chegou está estranha, nem falou comigo” – ele mia.
– Impressão sua. – falo deitando para o outro lado.
– Tem certeza? – ele sussurra em sua forma humana em meu ouvido. Viro para vê-lo. E ele está de calça branca como sempre e sem camisa.
– Pega, veste isso. – pego a primeira coisa que o possa cobrir em minha frente e jogo para ele.
– Não vou vestir seu roupão de banho Vinny. – ele ri olhando o roupão azul.
– Então vou ter que pedir que saia da minha cama. – falo ruborizada
– Por quê? – ele faz cara de assustado.
– Não posso ter um homem seminu em minha cama Dante! – ele ri da minha cara.
– É isso? – ele continua rindo.
– Qual é a graça? – falo cruzando os braços.
– Sou um anjo, então não me encaixo em sua regra. – ele me devolve o roupão e se esparrama em minha cama, colocando os braços por trás da cabeça. – Não vai deitar?
– Discutir com você vai adiantar? – falo. Ele fingiu pensar.
– Acho que não. – suspiro e deito ao seu lado.
– Em que está pensando? – ele pergunta depois de um tempo em silencio olhando para o teto.
– Nada. – minto.
– Pensar em nada é legal. Faço isso sempre. – ele bufa sarcástico.
– Não é nada importante. – minto de novo.
– Então... Um mês, é isso? – ele suspira.
– Sim. – suspiro também.
– O tempo passa muito rápido aqui. – ele diz.
– Tem ideia para onde vai depois que as coisas acabarem aqui? – falo omitindo em minha voz a decepção.
– Não. É sempre uma surpresa.
– E por que eu te vi em minha janela antes mesmo de nos conhecermos? – pergunto meio curiosa.
– Deve ter sido apenas uma coincidência. – ele diz dando de ombros.
– Você vai esquecer-se de mim? – pergunto já sabendo a resposta.
– Provavelmente. – ele suspira. – E você de mim.
– Nunca vou esquecer-me de você.
– Também espero que não. – suspiro e fecho os olhos. Preciso dormir.
Quando acordo pela manhã Dante não está lá, suspiro decepcionada e então vou me arrumar para a escola.
– Então vamos Dante? – falo tomando o último gole do suco do copo e levantando da mesa.
– Na verdade – ele começa. – Eu pedi um taxi para você. – ele diz sem se mover da cabeceira da mesa.
– Você não vai à escola? – falo desconfiada e decepcionada.
– Não. – ele responde seco. Ouvimos uma buzina. – Deve ser seu táxi.
– Tudo bem então. – falo confusa com aquele tratamento. Achei que tínhamos feito as pazes ontem à noite. – Tchau.
– Tchau. – apenas Cho responde.
Coloco minhas coisas sobre a carteira e os livros sobre a mesa. Logo que sento a minha única amiga na escola vem ao meu encontro.
– Bom dia. – ela senta no lugar onde Dante ocuparia.
– Bom dia Cass. – falo dando um meio sorriso.
– Tudo isso por que o gato de jaqueta de couro não veio hoje? – ela diz. Só então percebo que está sem óculos.
– Tirou os óculos? – falo tentando mudar de assunto.
– São lentes. – ela me responde meio seca. – Agora para de mudar de assunto e fala por que essa cara de bunda. – ela me olha fixamente. A sineta toca. Respiro fundo.
– Salva pelo gongo. – falo sorrindo.
– Na hora da saída. – ela fala levantando-se e colocando dois dedos em forma de V em seus olhos e depois apontando para mim. – Não tente fugir. – e então o professor entra na sala.
Guardo meu material no armário. O jeito frio que Dante falou comigo hoje ainda perturba minha cabeça. Será que foi algo que eu fiz? Ou disse? Repasso nossas ultimas palavras ontem mais uma vez. Não vejo nada que possa ter feito com que ele ficasse daquele jeito.
Na verdade, só vejo palavras bonitas. As melhores que tivemos em três meses de convivência.
– E então gata, quer companhia pra casa? – Cass balança a chave de seu conversível em meu rosto. Sorrio.
– Melhor que 3 km de caminhada. – falo pegando a chave. Ela sorri e me acompanha.
Ela dá a partida no carro que ruge ganhando vida, mas ao invés de ligar o som como seria previsível, ela o deixa desligado. Meu corpo liga a tensão automática.
– Desembucha. – ela diz dando a primeira.
– Sobre? – falo, fazendo-me de desentendida.
– De quem você gosta mais ué. – ela quase grita.
– Quem o que?! – falo rindo.
– O modelo loiro dos olhos azuis ou o gostoso de olhos pretos penetrantes?
– É complicado... – falo suspirando.
– Primeiro diga as qualidades de cada um. – ela diz como uma psicóloga ajudando um paciente. Demoro um tempo para falar. – Vamos Vinny, eu já sei quase tudo, ninguém naquela escola deixa passar nada. Principalmente da garota mais bonita da escola. – ela sorri
– Isso por que ninguém te viu assim. – falo apontando para seu cabelo loiro agora solto.
– Não muda de assunto! – ela ri.
– Tudo bem, tudo bem. – falo colocando as palmas da mão para cima. – Até onde você sabe? – pergunto.
– O loiro é um imortal. O gostoso um anjo. E os dois são caidinhos por você. – ela ri. Bufo discordando.
– Bom, o loiro se chama Robert. Ele foi o primeiro e único amor de minha primeira vida, ela se chamava Victoria e era uma patricinha metida a besta...
– Diferente de você. – Cass me interrompe. Lanço um olhar assassino a ela. – Calei.
– Enfim, ele é muito romântico e carinhoso. Não é todo dia que alguém vende sua alma para ter de volta o amor de sua vida. Não conheço muito dele. – falo vendo o quanto não sei praticamente nada dele, além disso.
– Mas...? – Cass fala vendo minha expressão.
– Ele gosta da Victoria, e como você mesmo disse não somos nada parecidas, além da aparência física. Tive algumas pequenas semelhanças dela, mas hoje vejo que não somos nada iguais. É claro que eu sinto uma enorme atração por Robert e uma vontade de protegê-lo incontrolável. Ele sempre me trata com tanto amor, me sinto segura e confortável ao seu lado. Mas eu não gosto dele. – suspiro. – Não tanto como Dante.
– O gostoso? – ela pergunta.
– Isso. – falo sorrindo. – Dante apareceu na minha vida quase que simultaneamente a Robert, e mesmo assim despertou o melhor e o pior de mim. – digo rindo e mexendo a cabeça negativamente. – Ele é tudo de bom e ruim. E talvez seja isso que me atraia tanto nele. Como Ying e Yang ele tem o bem o mal no olhar...
– Mas...? – Cass incentiva.
– Ele é um anjo. Um anjo em missão. E eu não posso me envolver com ele. No que daria? Ele vai embora daqui a um mês e provavelmente nunca vou vê-lo e ele vai esquecer-se de mim.
– E o que ele diz a respeito?
– Nada. – falo olhando pela janela vendo que começou a garoar. – Nem sei se o que ele sente por mim é real ou apenas um teatro.
– Eu discordo. – ela sorri. – Ninguém com aquele olhar pode estar fingindo.
– Que olhar? – falo curiosa.
– Não sei, mas sei que o jeito que ele olha para você como se estivesse pronto para enfiar sua arma angelical bem no coração daquele que entrar na sua frente pode estar fingindo. – ela ri. – Vocês já se beijaram? – ansiosa, ela pergunta parando o carro na frente de minha casa.
– Sim, algumas vezes. – falo. Ela ri alto. – O que foi?
– Vinny sua bobinha. Nenhum anjo pode ter contato físico com nenhum mortal. – ela sorri. – Esse anjo já é seu.
– Você está brincando né? – falo de olhos arregalados. Minhas mãos sobre o coração.
– Pergunte a ele então. – ela sorri. – Agora vá. Tenho uma festa para ir. – ela me abraça. – Espero ter ajudado.
– Ajudou. – sorrio. – E nos vemos amanhã na escola?
– Claro, quero mínimos detalhes. – ela sorri enquanto saio e bato a porta do carro. Ela acelera e em dois segundos já até longe.
Corro até a entrada com a bolsa na cabeça protegendo-me da chuva. Entro bato os sapatos no tapete e penduro a bolsa no cabide.
– Cho? – chamo.
– Sim senhorita? – Cho fala da cozinha. Vou até lá e chego bem na hora em que uma grande torta de chocolate sai do congelador.
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