A protegida de Anúbis
8 A face do Caos
Notas iniciais
O sequestro de Toth nos deixou sem saída, Anúbis ainda se perguntava o porquê não havia sentido a presença da serpente maligna. Ao votarmos ao vilarejo, Radamés nos serviu um tipo de caldo, havia pedaços de carne de carneiro e pão sírio sob a mesa.
—Ainda não acredito que Toth foi sequestrado..._Falei desanimada.
—Muito menos eu, ainda não entendo o que ouve. A presença de Apófis sempre foi algo que nós deuses nunca deixamos passar..._Anúbis coçou a cabeça, eu o entendia, estava confuso, se sentia inferior.
—Não fique assim, é normal errar..._Falei tentando anima-lo
—Não pra um deus..._Respondeu ele
Desde de nossa pequena invasão ao museu, Anúbis parecia cansado, provavelmente ter usado tanto de seu poder nesse mundo o deixou fraco.
—Se me permite meu senhor, acredito que deveria voltar está noite ao mundo dos mortos e descansar, assim recuperaria suas forças._Sugeriu Radamés.
—Concordo Anúbis, talvez você consiga uma pista por lá de onde Toth possa estar._Conclui
O deus da morte parecia não gostar muito da ideia, mas no momento parecia ser a única solução plausível.
Radamés preparou um quarto para mim, era muito simples, porém espaçoso, o que me fez lembrar do meu antigo na casa dos Abubakar.
Depois de me ajeitar e tomar um bom banho fui até a sacada do pequeno quarto, a vista era linda e o céu estrelado. Acabei me perdendo em meus pensamentos que mal percebi a presença de Anúbis .
—Oi..._Disse ele olhando seriamente para o horizonte, parecia preocupado e confuso.
—Nossa, não notei você entrar!_Exclamei.
—Esse é o motivo deu não querer voltar ao mundo dos mortos essa noite._Dizia ele ainda encarando o nada.
—Qual motivo?
—Você é muito distraída e vulnerável, precisa ficar atenta, não se esqueça de que eu não sou o único deus que sabe sobre você._Ele me encarou.
Suspirei.
—Olha...me desculpa por não ser o que você esperava, sei que Bastet era uma guerreira forte, mas eu não sou ela, sou Maya, sou uma garota comum Anúbis, posso ser a reencarnação dela, mas não sou ela._Respondi um pouco irritada.
—Eu sei que você não é ela, não espero que seja....não tem como ser..._Ele pareceu desapontado. De uma certa forma aquilo me entristeceu, eu não queria que Anúbis me visse como a deusa Bastet e sim como Maya.
—Desculpe se te desapontei..._Me virei no intuito de sair do quarto e ficar sozinha, mas Anúbis segurou minha mão.
—Não me entenda mal Maya...eu só...só não quero que você se machuque...
Me virei irritada e comecei a falar:
—Para com isso, desde de quando nos conhecemos você demonstra total desprezo por mim e ai agora simplesmente está preocupado comigo? Quem é você?_Fixei meus olhos diretamente nos dele.
—Sou eu Anúbis, porque está duvidando de mim?
—Não....você não é ele, eu conheço Anúbis, seu olhar, cada traço do seu rosto, posso afirmar que você não é ele.
De repente uma aura negra se instalou no quarto e um homem corpulento, deveria ter quase dois metros de altura, seus olhos eram vermelhos, mas diferente dos de Anúbis, era um vermelho sangue, a falta de cabelo o deixava mais sombrio ainda.
—Prazer em conhecê-la, acredito que seja a mais nova paixão dele hã?!
Então um pavor se instalou em mim, só podia ser uma pessoa, Seth.
—O que você quer aqui demônio!_Falei
Seth soltou uma gargalhada.
—Não quero nada ainda, por enquanto. Vim apenas conhecer a nova protegida daquele pobre garoto, como é mesmo o nome dele, Ah! Anúbis.
O sorriso maléfico de Seth me causava arrepios. Sua presença era tão maligna que eu mal conseguia me manter de pé.
—Porque você sequestrou Toth? Pra onde o levou?_Perguntei assustada.
Seth Sorriu maliciosamente.
—Adoraria dizer, mas precisamos fazer uma pequena troca, me de seu amuleto protetor que eu te digo onde aquele deus tagarela está.
Segurei meu amuleto com força, mas não podia fazer isso, ele estava comigo desde pequena, era sentimentalmente valioso pra mim.
—Não! Não vou entregar nada pra você..._Respondi confiante.
Seth riu e se aproximou.
—Já imaginava que faria isso, mas como sou um deus muito legal vou te dar uma sugestão, Quéops..._Numa risada maligna, Seth desapareceu. Senti algo me puxar com força, como se eu estivesse no fundo de um oceano e alguém me puxasse, quando abri os olhos vi Anúbis com o rosto em espanto.
—O que ouve?_Perguntei desnorteada.
—Vim te avisar que encontrei algumas pista no mundo dos mortos de onde Toth poderia estar, quando cheguei aqui você estava desmaiada.
Me levantei, ainda um pouco tonta.
—Não não, Seth veio aqui, apareceu se passando por você.....mas eu sabia que não era...
—E como soube que não era eu?_Anúbis perguntou curioso.
—Era muito gentil pra ser você..._respondi o fazendo rir._Mas ele queria meu amuleto, me recusei, exigi que ele me dissesse o paradeiro de Toth, mas aquela coisa só me deu uma “sugestão”,Quéops.
Anúbis então sorriu animado.
—Então era isso que Isis queria me dizer e não podia, Seth levou Toth para a pirâmide de Quéops!
Encarei-o por alguns segundos.
—Mas então...o que faremos a respeito de Seth? Afinal ele já sabe nossa localização...
—Não Maya, Seth não estava aqui, você estava no Duat._Respondeu Anúbis com uma expressão seria.
—Mas...mas parecia real..._Falei confusa.
—Ele te levou bem fundo no Duat, se você for muito fundo não consegue distinguir o que é real e o que não é, por isso ele queria seu amuleto, se você o entregasse, Seth teria o domínio da sua alma.
A ideia de passar a eternidade sendo atormentada por um deus maligno me deixou assustada.
—Você não me falou sobre isso..._Disse irritada
—Eu sei, mas não imaginava que você pudesse visitar o Duat, ainda é uma iniciante.
—Anúbis ou você me ensina tudo o que sabe, ou Seth vai acabar levando minha alma, e não queremos isso não mesmo?!_Retruquei.
—Tá legal, você tá certa, vou te ensinar tudo que sei, mas tem uma coisa que me intriga nessa sua conversa com Seth._Anúbis se colocou de pé e ficou me encarando.
—O que seria?
—Porque ele veio até você, ele sabe que não pode acessar Bastet, por mais que você seja o “vaso” dela, ainda não sabe como manifestar nenhum poder.
Corei no momento da pergunta.
—O que foi?_Anúbis perguntou curioso.
—Ele disse que sou sua nova paixão._Dei um sorriso sem graça, enquanto Anúbis pareceu ainda mais constrangido do que eu.
—O que!...claro que não...isso é ridículo, eu jamais me apaixonaria por uma mortal._Disse ele irritado.
Irritada, me levantei e encarei aqueles olhos cor de rubi.
—E eu muito menos...pelo filho do demônio._Me virei e sai do quarto batendo os pés.
Na manhã seguinte me levantei cedo, Radamés havia preparado o café da manhã, havia algumas frutas, mel e pão.
—Bom dia Radamés._Cumprimentei-o animada.
—Bom dia Senhorita Maya._Sorriu o gentil senhor.
Percebi que Anúbis não havia aparecido, fiquei intrigada e perguntei a Radamés pelo seu paradeiro.
—Meu senhor Anúbis foi até o mundo dos mortos, não se sentia muito bem.
—O que aconteceu com ele? Mordeu a própria língua e se envenenou?_Falei em deboche.
Radamés riu, mas o sorriso se desfez ao me contar o que estava acontecendo.
—Não acho que a senhorita devesse falar assim dele._Falou Radamés calmamente.
—E porque não?_Respondi._Ele é arrogante, insuportável e insensível.
Radamés sorriu.
—Por isso ele gosta de você, são parecidos até nas respostas.
—Como assim?_Já estava começando a me irritar.
—Anúbis é um deus generoso, apesar de toda essa atuação de deus da morte, ele se preocupa com quem ele gosta, já o sigo a anos, e o conheço melhor que qualquer ser humano da terra, ele nunca irá admitir que está apaixonado, pois Anúbis sabe a consequência de amar um mortal.
Fiquei em choque por alguns segundos.
—Senhorita Maya, um homem com um fardo como Anúbis, o deus da morte, jamais poderia estar ao lado de alguém como a senhorita.
—Até você Radamés!_Falei irritada, o senhor apenas riu e gentilmente respondeu.
—Calma, quero dizer que a senhorita é uma pessoa de luz, Anúbis é um deus das trevas, por mais que quisesse estar com a senhorita ele não poderia, pois a luz e as trevas não podem caminhar lado a lado.
Senti meu coração se despedaçar. Disse algo a Anúbis na noite anterior que com toda certeza deve ter o magoado.
Não o vi a noite, nem na manhã seguinte e nem no outro dia.
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