Escutei uma voz ecoando ao longe, aos poucos o que era um sussurro foi se tornando gritos angustiados. Reconhecia aquela voz.O lugar era escuro e sombrio, a cada passo que eu dava me aproximava mais e mais dos gritos, o medo e a angustia me cercavam, eu não sabia onde estava e nem como havia chego aquele local. Avistei um grande Portão feito de ossos, ao me aproximar notei que todos eram ossos humanos. Assustada apertei o passo para adentrar o que o enorme portão parecia guardar, uma espécie de templo. Nas paredes haviam hieróglifos e imagens de pessoas sendo torturadas, andei mais alguns passos e vi a imagem de um homem com cabeça de chacal, em sua mão havia uma balança, era Anúbis. Passei por outras pinturas e hieróglifos quando ouvi novamente um grito, corri entre um corredor escuro e estreito, nas paredes haviam pessoas e essas se mexiam e pediam ajuda, uma cena horrenda e desagradável. Atravessando o corredor finalmente encontrei a origem dos gritos, era Anúbis, o deus dos mortos em sua verdadeira forma. Seus olhos eram vermelhos e maléficos, a boca continha dentes afiados como navalhas, sua pele era como a noite, suas garras eram enormes assim como as de um animal, ele rugira e chicoteava um pobre rapaz amarrado em meio a sala pouco iluminada, parecia sentir prazer dando enormes gargalhadas diabólicas. Ao notar minha presença a criatura estendeu a mão para mim.

—Venha e me ajude._Falou o deus dos mortos.

Me aproximei, Anúbis em sua forma verdadeira, me entregou o chicote e ordenou que eu açoitasse o pobre rapaz, obedeci sem hesitar, quando terminei me aproximei para ver seu rosto, para meu desespero era Anúbis, mas em sua forma humana. Ensanguentado e sem forças, o pobre deus tentou se levantar, mas foi impossível. Em desespero gritei por ajuda, mas a criatura com a face de chacal me jogou com toda força contra a parede e eu apaguei.

Acordei assustada e perdida, demorei a notar que tudo não havia passado de um sonho. Me levantei e fui até a sacada do quarto, ainda era noite, mas a brisa suave do vento me acalmou um pouco, ainda assim eu me sentia mal, o sonho havia sido muito real. Resolvi descer as escadas e pegar um pouco d’água, quando estava indo em direção a pequena cozinha quase soltei um grito ao me deparar com Anúbis.

—Você quer me matar do coração! some por três dias e aparece assim do nada!?_Exclamei

Ele apenas me encarou.

—Anúbis você está bem?_Perguntei analisando sua expressão cansada, ele não parecia nada bem.

—O que você foi fazer lá?_Perguntou irritado.

—Lá onde?

—Como você achou aquele lugar?_Ele se aproximava com fúria nos olhos, tentei me afastar, mas ele me puxou com força pelo braço.

—Me diz como achou aquele lugar!_Gritou ele socando a parede com uma enorme força que acabou fazendo um buraco.

—Do que voc-_De repente me recordei do pesadelo._Meu deus! aquilo tudo foi real? Mas como?_Perguntei assustada.

Radamés surgiu preocupado de pijama nas escadas.

—Maya, senhor Anúbis!? O que está acontecendo?

Anúbis me encarou com ódio, me afastei tremendo de tanto medo.

—Não é nada Radamés, volte pra cama._Disse Anúbis seriamente.

—Mas meu senhor...

—Eu disse pra ir para seu quarto!_Gritou Anúbis.

Radamés se curvou e subiu as escadas. Espantada e chocada com a reação de Anúbis me levantei e segui em direção as escadas para assim também retornar ao meu quarto, porem Anúbis me segurou pelo pescoço com toda sua força.

—Você não deveria ter visto aquilo._Disse ele de cabeça baixa ainda me segurando pelo pescoço, já estava quase sem ar quando Anúbis finalmente me soltou. Cai no chão tentando me apoiar em minhas mãos quase sem forças.

—Maya!_disse ele tentando me ajudar a se levantar, dei um tapa em sua mão, sentindo tanto ódio que nem o encarei quando consegui me levantar.

—Fica longe de mim! O que você estava pensando? Quase me matou!

Anúbis parecia perdido e eu não sabia o que estava acontecendo.

—Eu...eu estou tentando controlar, mas parece que tem algo errado._Disse passando as mãos pelos cabelos negros.

Encarei-o.

—O que está acontecendo? Porque você disse que meu pesadelo tinha sido real?

Anúbis virou o rosto.

—Me diz agora ou eu vou abandonar essa merda de missão!_Gritei

Sentamos no sofá. Anúbis não parecia avontade com a conversa, mas eu estava pouco me importando.

—Agora me conta o que está havendo, porque você disse aquilo?

—Você estava vendo minha alma._Respondeu ele.

—Como assim sua alma?_Perguntei irritada.

—Todo deus tem uma.

Confusa pedi que ele me explicasse de forma coesa.

—Não sei como e nem o porque você teve acesso aquela visão, nem Bastet conseguiu ver o meu verdadeiro eu.

—Aquele ser demoníaco é seu verdadeiro eu?_Perguntei

—Sim, aquela é minha verdadeira forma, quem eu sou de verdade. Não queria que você tivesse visto._Ele baixou a cabeça, me aproximei e peguei em sua mão.

—Anúbis tudo bem, todo mundo tem seus próprios demônios para lidar.

—Você não entende, se eu deixar aquilo sair serei tomado pelo mal e Apófis poderá me usar assim como fez com Seth._Disse ele preocupado.

—Mas então se você era aquela criatura quem era aquele rapaz, porque eu me aproximei e vi você, eu juro vi seu rosto ali.

Anúbis suspirou.

—Não acredito que estou tendo essa conversa com você...enfim aquele é meu lado bom, o lado solidário, generoso e heroico do deus Anúbis._Ele deu um sorriso tristonho._O meu lado sombrio de deus da morte está sempre travando uma luta constante com o meu lado bom e essa noite ele quase venceu quando vi você aceitar me açoitar...

Horrorizada me ajoelhei e o abracei.

—Me perdoa eu não sabia, aquela coisa tinha uma influencia enorme sobre mim eu não queria te machucar, jamais faria isso com você._Falei

—Me perdoe pelo que fiz agora pouco, não era eu...

Parei por alguns longos segundos e fiquei admirando as pequenas lagrimas que caiam dos olhos do pobre deus.

—Ei está tudo bem, eu não imaginava que seu fardo era tão pesado, nunca imaginei que um deus pudesse sofrer tanto...

Anúbis sorriu e deu um beijo em minha mão.

—Desculpe por tudo, não tenho sido um bom guardião pra você...espero que ainda me aceite._Ele se levantou e curvou-se.

—Mesmo você sendo bipolar eu gosto de você...gosto de verdade._Senti meu rosto queimar, constrangida tentei disfarçar, mas claro ele já havia notado.

—Maya..._Ele hesitou.

—Pode falar.

—Acho melhor você ir dormir...amanhã iremos atrás de Thot.

Senti meu coração se despedaçar, imaginei por um segundo que talvez Anúbis estivesse abrindo o coração pra mim. Desapontada apenas concordei e subi as escadas.

Meu pescoço ainda doía da noite passada, mas não se comparava com a dor de levar um fora. Eu estava me apaixonando por Anúbis e isso não era bom, além de uma personalidade dupla ele ainda era o deus dos mortos, não podia ter me apaixonado por outro qualquer? Mas não tinha que ser ele!

—Radamés quero me desculpar pela noite anterior._Dizia Anúbis enquanto se despedia do fiel sacerdote.

—Oh não meu senhor, não precisa se desculpa entendo muito bem como o senhor deve estar se sentindo._Piscou ele para Anúbis.

—Entende?_Perguntei curiosa._Então me diga também porque esse cara é um enigma.

—Um homem apaixonado perde a cabeça senhorita Maya._Riu Radamés.

Anúbis corou e seguiu na frente irritado com o comentário do sacerdote.

—Me espera eu ainda não peguei o jeito com esse camelo.

—Você é muito lerda!_Debochou Anúbis a minha frente.

Seguimos pelo deserto escaldante até chegarmos a necrópole de Gizé, onde ficava localizada a pirâmide de Quéops a maior das três pirâmides do Egito.

—Estou sentindo a aura demoníaca de Apófis._Disse Anúbis encarando a pirâmide.

—Qual o plano?

Anúbis tinha um plano, seria um suicídio, mas entraríamos na pirâmide e ele se manifestaria em sua verdadeira forma para lutar contra Seth e salvar Thot.