A prometida das sombras
9 Capítulo 9
Notas iniciais
300 Anos Antes.
Seus cabelos negros voavam conforme a carruagem disparava para a mansão Lockwood. Seus braços apoiados na carruagem e seu rosto apoiado sobre eles. Seu rosto estava sério e tudo o que ela queria era que tudo fosse mentira. Ela estava voltando pra casa, finalmente estaria em casa, mas isso seria por pouco tempo. Isso se o tempo fosse generoso o suficiente para com ela.
Amara sentiu uma lágrima solitária descer por seu rosto, mas antes que a próxima descesse junto àquela, ela a limpou rapidamente.
Ela foi criada para obedecer, seguir regras, comandar quando necessário e ser fria de alma e coração, por mais que fosse do lado da luz. Amara olhava a paisagem verde a sua volta, ela sentia a magia em tudo, até mesmo das menores pedrinhas que quicavam no chão com as patas pesadas e grosseiras dos cavalos à frente. O céu estava nublado, fazendo um sol tímido sumir entre as nuvens delicadas que andavam sem pressa pelo céu.
Ela fechou os olhos e ficou daquele jeito até avistar a cidade, onde todo o seu povo e alguns humanos normais, que aos poucos chegavam e tiravam suas liberdades, estavam.
Algumas pessoas vendiam frutas, artesanatos e tecidos coloridos. A carruagem passava pelas pessoas e um pequeno grupo de crianças corriam na direção da carruagem pedindo moedas de prata. Amara pediu para que o cocheiro fosse mais devagar e deu para casa criança uma moeda com um sorriso. Aquelas crianças com certeza eram exploradas por aqueles humanos para pedir esmolas aos ricos. Crianças de seu clã eram bem cuidadas, poderiam até ser pobres, mas eles eram uma família, unidos, ajudando uns aos outros em tempos difíceis. Todos tinham educação, sabiam ler e escrever, treinavam seus poderes e ganhavam alguma posição no clã, que iam desde Anciões aos seus seguidores.
As crianças correram de volta de onde vieram, ela mandou que o homem fosse mais rápido agora. Ela estava exausta pelo tempo em que ficou dentro daquela carruagem, só parava para poder comer ou fazer alguma necessidade feminina.
Seth que comprava algumas coisas no mercado olhou para a carruagem, vendo a mulher mais linda que havia visto. Seus cabelos negros, selvagens, soltos ao vento, enquanto ela sorria a cada moeda que dava as crianças que sempre perambulavam por ali. Os olhos castanhos da moça, mesmo distantes, brilhavam cheios de luz e inocência. Ela era magnifica ao seus olhos. Com certeza também era de uma família rica, tanto pela carruagem, quanto pelas joias que usava. Mesmo que fossem modestas pedras azuis.
A acompanhante de Amara, Sarah, uma menina tímida que mal falava, a olhava com admiração e medo. Mesmo que ela fosse do lado luz e não trevas, todos a temiam, pois trevas e luz lutavam dentro de si, ela não tinha equilíbrio, nem controle pelo o que acontecia. A cada dia ela se
tornava mais forte, mais persuasiva e sem perceber, mais poderosa do que qualquer bruxo da história do clã. Ela era uma força da natureza, prestes a explodir a qualquer momento.
— Assim que chegarmos, peça para algum empregado pegar minhas coisas, por favor. – Deu um sorriso para a menina encolhida, com as mãos em seu surrado vestido. – Depois vá ver seus pais. Sei que sente a falta deles.
A menina estava com ela para ajuda-la no que precisasse, sem chamar a atenção de caçadores ou inimigos de outros clãs.
A menina apenas assentiu nervosamente.
Sem perceber a carruagem parou em frente à uma elegante mansão de três andares. O prédio era branco com alguns detalhes negros, era um trabalho lindo. Havia algumas estátuas feitas de pedras perfeitamente esculpidas no jardim, algumas pilastras com detalhes e pinturas trabalhadas no prata e no ouro. Uma riqueza que poucos na cidade tinha.
O cocheiro abriu a pequena porta para ambas as moças saírem da carruagem. Ele estendeu a mão a Amara.
— Senhora! – Disse enquanto uma de suas mãos estavam atrás de suas costas e a outra segurando a da moça.
— Obrigada! – Disse gentilmente.
Amara andou cheia de pressa até a porta da frente, onde seu irmão a esperava, junto ao seu pai.
— Irmão! – Disse fazendo reverencia, mesmo não querendo faze-lo. – Papai. – Fez o mesmo ao homem a sua frente. Logo depois deu-lhe um abraço. – Senti sua falta. Foram longos meses longe de casa.
Mesmo que a viagem até sua casa fosse triste, com sentimentos de arrependimento, ela estava feliz por voltar ao seu povo.
— Graças a deus voltou, sem seu filho bastardo. – Mesmo que doesse ver seu pai falar aquele jeito de seu pequeno bebê, de nada poderia fazer. – Fico feliz em tê-la de voltar, querida.
— Estou feliz por estar de volta também, papai. Estou cansada, se não se importar, quero descansar e tomar um banho. Com sua licença. – Disse sem animo indo para seu quarto.
Ela sentou-se na cama e ficou olhando para a janela com tamanha tristeza. Ela podia sentir seus seios maiores e cheios de leite para seu filho, que tanto queria ninar até dormir em seus braços. Ela sentia-se culpada por deixar a criança pra trás. Seu filho era a coisa mais perfeita que havia posto no mundo. Os olhos eram tão azuis quanto o céu, com sua mais esplendorosa vista durante o dia. Mas estava convicta de que sua tia cuidaria do menino e o ensinaria sobre o mundo oculto do clã. Ela deixou com ele em seu pequeno pescoço, um medalhão de ouro com o símbolo do clã. Todos o respeitariam futuramente e saberiam que ele era um Lookwood, por aquele colar.
Uma empregada entrou em seu quarto, com um grande balde de água quente. Os braços da pobre moça estavam vermelhos pela água que balançava e respingavam em seu braço. Quando viu os braços da moça, ficou horrorizada pelo o que seu pai andava fazendo. Ele era cruel, assim como era e ainda é com ela.
Amara se lembrava bem, de quando ele lhe batia com uma cinta nas costas, ela se lembrava de cada movimento em suas costas, assim como as mãos das empregadas cuidando de seus machucados. Ela aprendeu desde cedo que ela nasceu para ser fria como ambos os seus familiares que dividiam o teto com ela. Amara aprendeu que mesmo que estivesse no fundo do poço, poderia se levantar sem ajuda. Ela aprendeu desde cedo que teria que ser como eles, mesmo que seu coração se negasse a tamanhas maldades.
— Deixe a água ali, por favor. Quando terminar, venha até aqui. – Disse para a empregada que a olhava com medo. – Ande logo, se apresse.
A pobre moça deixou a água e correu até Amara.
— Dê-me estes braços. – A empregada a olhava apreensiva, se perguntando o que ela iria fazer, mas estendeu os braços, mostrando-os vermelhos, descascando e com algumas bolhas. A empregada virou o rosto, pensando que levaria uma bronca por tamanha incompetência. Mas se surpreendeu por escutar alguns sussurros da moça a sua frente e a encarou. Vendo que os olhos da menina mulher, estavam pretos, com uma textura de pedras negras, foscas. As mãos estavam ficando vermelhas e quentes. Ela olhou assustada para sua acolhedora e tentou puxar os braços. Ela queria gritar, mas estava apavorada demais, até perceber seus ferimentos se curarem aos poucos.
Amava voltava ao normal e se sentiu fraca, aquele feitiço havia exigido muito de si, tanto que sentiu o nariz sangrar.
— Espero que fique melhor... – Falou para a moça que estava extasiada e catatônica a sua frente e limpando o nariz.
— Que bruxaria a senhora fez? Irei denuncia-la as autoridades... O que fez comigo? O que usou em mim escrava do demônio? – A mulher começava a fazer escândalo.
Amara riu, isso sempre acontecia. Gentinha mais medíocre, sempre que tentava ajudar, eles faziam um escândalo e um show e tanto.
— Eu poderia deixa-la sofrendo com o que tinha nos braços, sua empregadinha piolhenta! – Ela disse irritada. – Prepare meu banho, e se qualquer palavra dita sair deste quarto ou qualquer tipo de fofoca surgir aqui na casa, irei mata-la, ou melhor... Presentearei o demônio com seu corpo! – No fundo Amara se divertia com o medo da mulher que a olhava assustada. – BOO! – Riu do pulo que a mulher deu e correu até o balde preparando o banho dela e logo saindo correndo do quarto.
— Esses humanos nunca mudam... Tsc... Tsc... – Estalou a língua.
Amara tirou o vestido e o colocou pendurado atrás da porta, quando a empregada viesse ao quarto, o mandaria para lavar, afinal, estava usando o mesmo vestido há dois dias pela viagem.
Sarah entrou no quarto com algumas moças segurando as malas de Amara.
— Senhorita, suas coisas... quer que eu as arrume?
— Sim, por favor, menina Sarah. – Sorriu.
— Seu pai... Mandou-me entregar-lhe este convite, disse para não se atrasar, porque será um evento importante perante a sociedade, tanto dos humanos, quanto a dos clãs. – Disse de cabeça baixa me entregando a carta.
— Tudo bem, obrigada. Por que não fostes a casa de sua família?
— Seu pai mandou-me ajuda-la primeiro, senhorita.
— Tudo bem, deixe-me ver do que se trata.
Ela abriu a carta e com um sorriso presunçoso.
— Um baile, minha cara. Vai haver um baile! Vai acontecer na casa dos humanos, o duque Hemecker dará um baile, veja só... Um baile! – Sorriu. – Prepare aquele meu vestido, o verde. Coloque as joias que ganhei no verão passado junto a ele.
— Sim, senhora. – Respondeu.
Amara adorava festas, os bailes eram suas únicas distrações. Ela já havia visto os filhos do Duque, para ela, eles eram verdadeiros colírios aos seus olhos. Ela saiu de seu banho quente, pegando um de seus panos e enrolou-os no corpo indo para o quarto onde a menina preparava tudo.
Ela sentou-se na penteadeira deixando o pano cair e parar em sua cintura. Seus cabelos presos com dois palitos importados da China, foram retirados deixando seus cachos definidos e soltos, caírem tampando seus seios.
— Traga-me as joias! – Pediu.
A menina um pouco desajeitada levou as joias simples até a dona. Amara pegou-as e as colocou a sua frente. O cordão de esmeraldas brilhavam e destacavam-se em sua pele morena clara. Ela colocou os brincos, logo em seguida o cordão simples.
— Então... Como ficou... Bom? – Perguntou.
A menina corada pela nudez de Amara, respondeu cheia de vergonha.
— Ficou boa senhora... Quer ajuda com o vestido?
— Sim... principalmente com o espartilho. – Sorriu.
A menina pegou o vestido e a ajudou a vesti-lo.
***
Amara descia as escadas e encontrou seu pai tomando conhaque junto ao seu irmão. Eles conversavam seriamente, cochichando. Quando um deles a viu, levou um susto e sinalizou para o outro que falava.
— Minha querida filha, que bom que desceu. Pronta para o baile? Ainda é cedo, vamos jantar primeiro e ir para a festa.
— Tudo bem... – Respondeu.
O irmão da mesma a encarava, pensando que quando descobrisse a façanha que estavam preparando para limpar a honra da família, fosse anunciado a ela, a mesma ficaria revoltada. Mas pouco se importavam com o que ela pensaria.
— O que tem para o jantar, papai?
— Galinha e porco assado.
— Tudo bem.
Eles sentaram-se a mesa e jantaram, conversaram e ela contou sobre o filho que deixou com a tia. Eles a ouviam atentamente. Amara parou de pensar no homem que a enganou assim que arrancou o coração humano de seu corpo e o viu queimar na sua frente. Ela não se arrependeu, tão pouco se sente culpada por deixar seu filho sem pai. O homem havia mentido, dizendo que a amava, enrolando-a, enquanto tinha uma noiva do outro lado do oceano. Ela não aceitava traições, muito menos mentiras.
— Vamos para o baile agora?
— Tenha calma, minha querida. – Disse o pai dela.
Apesar de tudo o que aconteceu, o pai, preferia fingir que nada aconteceu, do que ficar martelando num mesmo prego, sabendo que ele estava torto e que pouco seria reto novamente.
— Pai, vamos logo com isso. Tenho coisas a fazer ao amanhecer. – Disse o irmão.
— Estou vendo que tenho uma família pior que relógio. – Gargalhou limpando a boca. – Vamos então, só me deem um tempo para me lavar. Façam o mesmo.
— Sim, papai. – Respondeu Amara.
A mesma foi até o lado de fora e se lavou com a bacia que tinha ali, depois retocou o batom avermelhado que guardava no decote, aquela preciosidade vinha de fora e poucas tinham o privilegio de ter.
A carruagem foi logo arrumada. O pai sentou-se de frente aos irmãos e começou a ditar as regras.
— É sério, fique perto de seu irmão sempre, por favor, não nos envergonhe, querida. Não diga sobre o filho, para todos você ainda é pura. Com sorte, arrumará um bom casamento.
— Pai... Por favor. – Disse ela. – Não toque mais no assunto que se resume ao meu filho, ele é responsabilidade minha. Se eu quiser ou não arrumar um marido, não vai ser o senhor a escolher ou aponta-lo. – Disse indignada.
— Você fala como a rameira de sua mãe... São iguais. – Disse áspero. – Agora cale-te, ou você sabe o que te espera.
Amara sabia muito bem, que ele deixou o menino nascer somente para chantageá-la, não no sentido em dizer a todos sobre ele, mas sim sobre a vida e o futuro do pobrezinho. Ela sabia que tudo o que fosse dizer, teria que ter um limite, ou tudo estaria perdido para seu precioso bebê.
Algum tempo depois eles chegaram ao local, onde eles viviam, parecia mais um castelo. Era meio mórbido, mas com um belo de um jardim. Haviam flores da neve, as mais lindas produzidas pela magia. Era uma forma de conexão entre as bruxas e a natureza. Tudo que existia nela eram sagrados para os bruxos.
Seu irmão estendeu seu braço a ela, que a contra gosto, segurou-o e entraram no castelo, indo para o salão de baile.
— Sorria! – Disse baixo, somente pra ela ouvir.
Ela soltou o braço dele e andou até um amontoado de gente vendo alguns casais e algumas conhecidas dançarem. Ela olhava cada par, dançando com perfeição e maestria. Alguns sussurravam
um para o outro, quando se aproximavam. Outros sorriam por errar algum passo e outros apenas dançavam sérios, como se nada importasse.
— Será que essa bela dama, caridosa poderia me conceder a próxima dança? – Sem saber quem sussurrou em seu ouvido, atrás de si, se virou pronta para falar alguma coisa, mas seus olhos ficaram presos nos olhos do desconhecido. Olhos profundamente enigmáticos e azuis como os de seu filho. Aquele pensamento aqueceu seu coração, pela saudade e culpa por deixa-lo. Mas eram as regras da sociedade, ela seria apontada e julgada por todos, mesmo que ela seja rica e uma pessoa influente.
Amara sorriu para o desconhecido, ela sabia que era um Hemecker, mas ainda não sabia qual eram seus nomes.
— Depende, se esse nobre senhor, dizer-me quem és, posso ceder um pouco de meu tempo para uma dança. – Disse cortes sorrindo.
— Prazer, Seth Hemecker. – Disse pegando uma das mãos de Amara e depositando um beijo demorado, olhando dentro dos olhos castanhos da moça.
— Amara Lookwood. Encantada por conhece-lo, senhor Hemecker. – Ela sabia que ele flertava com ela, então porque não entrar no jogo daquele homem?
— O encanto é totalmente meu, nobre senhorita.
Seth sabia, aquela mulher era perigosa, por fora havia um anjo, mas por dentro um demônio perigoso e nada cortes. Mas naquele momento, nada mais importava.
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