A prometida das sombras
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Capítulo 10
Seus dedos tamborilavam sob a mesa de forma nervosa. Sua respiração lenta, o coração parecia parar por alguns segundos e depois voltava forte. Sua mente distante e seus olhos vagavam para qualquer direção que não fosse a do homem à sua frente.
Kate não sabia o que dizer, talvez nada poderia ser dito ou feito. ¹Sebastian estava calado a encarando com um sorriso presunçoso, mantendo suas pernas cruzadas e sua cabeça apoiada sob sua mão.
— Não está curiosa, docinho? Não têm perguntas para fazer? – Ele não e mexeu. Sua voz era calma e baixa.
Kate não queria falar com ele. Ela só poderia pensar em tudo. Todas as mentiras, enganações e na forma suja que a usou para suas próprias metas.
— Você não presta, não vale nada. Você não vale nada. – Kate não se deixou chorar. Algo a deixava no pedestal. Completamente sã do que queria e da forma em que iria agir e por ela, seria fria assim como ele foi ao deixar ela com Esther e uma irmã pequena que o amava demais. Ele a enganou, mentiu e a deixou.
— Docinho... – Ela ergueu a mão e fechou os olhos, como se cada palavra dita por aquele homem fosse doloroso demais. Como facas rasgando sua carne, com sua vitalidade saindo de suas estranhas. Ela sentia um bolo na garganta, como se tivesse engolido mil sapos. Aquele gosto amargo não saia de sua boa.
— Não me chame de docinho, Sebastian. Você não tem o direito de agir normalmente depois de tudo o que me fez passar. Sua mulher é o diabo, sua filha morreu, eu não sei mais o que aconteceu... Para onde vou todos mentem. Não sei mais o que fazer. Com certeza isso foi tudo armação também não foi? Minha irmã morreu? Esther morreu? Cadê a plateia, Sebastian? E quem diabos é Kesiah? Seu mentiroso, nojento! Eu estou com nojo dessa sua cara de pau de aparecer na minha frente como se o tempo nunca tivesse passado me chamando de 'docinho.' – Riu. – Sua filhinha morreu assim que saiu de casa, Sebastian. Assim que você morreu uma nova Katherine nasceu, naquela noite, uma nova eu, nasceu.
Ele riu e levantou da cadeira que estava sentado, Kate fez o mesmo cruzando os braços.
— Você não tem o direito de fazer isso comigo. Quero minhas roupas de volta, estou indo embora. – Disse se sentindo incomodada com tudo. Com o vestido que usava, com o lugar e a vontade de ficar com a luta interna entre abraçar o homem que era seu pai e ir embora e nunca mais o ver.
— Docinho, não faz assim. – Disse tentando se aproximar e tocar no braço de Kate, mas ela afastou-se.
— Não. Não me toque.
—Querida, vamos conversar. Você tem que me ouvir antes de qualquer coisa... Tudo isso foi necessário. Espero que com o tempo perdoe este velho homem que você chama de pai. – Ele gargalhou como se também não acreditasse naquele momento.
— Você não pode dizer isso... – Balançou a cabeça. – Foi necessário deixar-nos? Fingir que morreu pra suas duas filhas e sumir do mundo por anos? Seu filho da mãe desgraçado! Você nunca ligou não é mesmo? Nunca ligou pra gente!
— Cale-se! Cale-se, Katherine. – Ele perdeu a calma naquele momento. Ela o olhou espantada pela atitude. – Você não sabe de nada, nunca soube não é? Menina insolente, sempre desse jeito. Nunca sabe a hora certa de parar... Igual a mãe! Mulher do cão! – Esbravejou. – Você, sente-se e cale a merda da boca e me escuta! – Ele pareceu voltar a calma.
— Como você ousa...
— Me escuta, por deus... – Reclamou. – Eu não morri, estou vivo, mas fiz tudo isso para salvar meu povo. Nosso povo! Você tem pouco tempo, a vingança te espera assim como todo o sangue deste povo pode ser derramado, o de seu amado também será. Seu sangue é o único que proverá para a desgraça que sobrará.
Kate não entendeu nada, ele havia dito tudo rápido demais. Ela se sentou na cadeira e o observou.
— Consegui sua atenção? – Disse puxando a cadeira e se sentando frente à frente com ela. – Você, ganhou uma profecia assim que começou a existir. Ninguém soube de quem era, até seus poderes surgir. Você se manifestou pela primeira vez, quando tinha apenas um ano. – Ele riu. – Você colocou fogo no quarto em que estava dormindo. Você havia tido um pesadelo. Você era forte demais para uma criança, Katherine. Então eu a fazia praticar, a fazia colocar todo o seu mal para fora. Você tinha duas camadas dentro de você. A primeira sempre brilhava mais, era magia negra. A magia branca quase nem existia em você. Sua magia lutava uma com a outra, a branca e a negra. Nunca tinha um equilíbrio. Foi ai que eu soube, era Amara, sangue do nosso sangue que também corria em suas veias. Então passei a temer por mim e por você.
— Não minta para mim, Sebastian. Quem me garante se é verdade?
— Eu posso garantir, se me ouvir vai saber que é verdade
— Você carrega a ruindade, rancor, ódio... Tudo o que um dia ela sentiu, você sente. Mas em doses pequenas. Ela está em você e essa fusão, não acaba bem.
— O que você está dizendo? – Riu. – Eu sou a reencarnação de uma deusa maluca?
— Não. Ela usa seu corpo para obter o que quer. Vingança.
— Espera... Ela morreu e está me assombrando mesmo morta?
— Sim, mas alguém está ajudando nisso. Desconfio que seja alguém do conselho ou de fora da cidade.
— Ainda estou perdida. O que você quer dizer?
— Você precisa estar preparada para governar, lutar e principalmente para sobreviver a ela. Amara não quer apenas vingança, quer destruir tudo o que conhecemos e lutamos para conseguir. Ela perdeu o coração para as trevas. Toda magia, tem um preço e a dela foi o coração e a capacidade de amar.
Kate ficou pensativa, sem conseguir digerir todas aquelas palavras. Sem entender ela balançou a cabeça. Ela sentia que precisava controlar seus poderes, tudo daria no mesmo. Ela sentia saudades de Matt e sentia a necessidade de voltar para ele, mas para isso precisava se controlar, já que ele causava-lhe sentimentos evasivos fazendo seu poder interior entrar em conflito.
— Estou dentro.
— Fez a escolha certa. Quero manter segredo sobre você. Este povo ainda não está preparado para você, nem mesmo conselho. Eles mataram Amara e podem fazer o mesmo com você.
Ela assentiu o encarando. Mas só percebeu sua aparência opaca há poucos. Ela parecia mais pálido, fraco e muito mais magro. Mas para Kate, poderia ser velhice ou o tempo que passou e ele mudou. Ou simplesmente, o tempo que os afastou a fez esquecer de seu rosto e o jeito do homem.
— Obrigada por me escutar, Docinho. Eu sinto muito pela perda de minha filha, Emma. Sua memória estará sempre guardada em meu coração. Sempre olhei por vocês, sempre tinha alguém de minha guarda olhando vocês e ajudando sempre que necessário. Esther recebia o bastante para cuidar de você. Nunca a desamparei, Kate.
— Não quero falar sobre isso, mas quero saber quem é Kesiah. Quem é esta mulher?
— Sua verdadeira mãe.
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