A primavera de Anne Collins
2 Tulipas
Notas iniciais
"A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la."
– Cecília Meireles
(...)
Faziam apenas três dias que eu estava morando com meu tio, e esse tempo foi o suficiente para que ele me matriculasse em uma escola e me apresentasse à vizinhança.
– Anne, o café está pronto. – Gritou meu tio.
Olhei novamente para o espelho e passei a mão em meus cabelos que eram curtos demais para que eu os prendesse em um rabo ou fizesse um coque. Decidi, então, apenas colocar uma presilha na franja. Ajeitei o uniforme que era composto por uma saia de prega azul marinho que ficava um pouco acima do joelho, uma blusa social branca de manga comprida e uma fita azul que é amarrada no pescoço junto da blusa. Desci para a cozinha e lá estava meu tio, terminando de arrumar a mesa. Sentei-me, peguei uma xícara e coloquei um pouco de café.
– Me desculpe, querida. — Começou meu tio, pegando a chave do carro e sua maleta de papéis. – Não vou poder tomar café com você, trabalho muito cedo, você sabe, mas juro que vou tentar não chegar muito tarde hoje. – Falou beijando minha testa.
– Tudo bem, eu posso fazer o jantar. – Respondi sorrindo.
– Isso seria ótimo, há um dinheiro no pote que está em cima da geladeira, pegue ele para comprar os ingredientes. – Disse antes de sair de casa. E quando estava quase saindo da garagem pude o ouvir gritando: — Boa sorte na escola!
Sorri e gritei um “Obrigada” de volta.
Terminei o café e dei uma arrumada na mesa antes de sair de casa. A escola não ficava muito perto de casa, por isso era necessário pegar um ônibus e depois andar mais um quarteirão.
Chegando lá notei que faltavam poucos minutos para o inicio das aulas, por isso decidi ir direto para a diretoria para saber em que sala deveria ficar.
– Bom dia, com quem devo falar sobre meus horários? – Perguntei para um jovem rapaz de cabelos castanhos e olhos esverdeados, que estava digitando alguma coisa no computador.
Ele olhou pra mim, abriu um simpático sorriso e disse:
– Você é a nova aluna, certo? Qual é mesmo seu nome?
– Anne Collins. – Respondi
– Tudo bem, Senhorita Collins, eu sou seu novo professor, me chamo Seth Shaw.- Falou, e logo depois ergueu seus olhos para um relógio que estava preso na parede da sala e disse: — Bem, a aula já vai começar, venha, eu irei lhe mostrar sua sala.
Ele pegou sua maleta e caminhamos juntos até um extenso corredor onde havia várias salas de aula.
– Bem, chegamos. – Disse ele parado em frente á uma sala.
Olhei para uma placa que estava á cima da porta e que trazia os seguintes escritos: 1° — C. Então comecei a ficar nervosa. O professor abriu a porta e eu caminhei até a frente da sala junto dele. E levantei a cabeça para observar melhor a sala.
– Bom dia, pessoal. – Começou o professor. – Hoje vou apresentar a Senhorita Collins, que irá estudar junto com vocês á partir de hoje. Cuidem bem dela. – Falou o professor sorrindo para mim. – Vamos lá, se apresente senhorita.
Olhei para o rosto de cada um dos alunos e comecei:
– Me chamo Anne Collins. Vim de um vilarejo um pouco afastado daqui e estou morando na cidade com meu tio. Espero que sejam gentis comigo.
Algumas pessoas nem prestavam atenção, outras sorriam gentilmente para mim, e finalmente o professor Shaw falou:
– Bem, senhorita, há um lugar no fundo da sala ao lado direito, você pode se sentar ali até que um novo mapa de sala seja feito.
Fiz um sim com a cabeça e apressei os passos para que chegasse em meu lugar rapidamente. Assim que sentei-me o professor deu início à aula, e era notável a forma como o ensino era rigoroso em comparação com minha antiga escola. Ainda não havia tido tempo para conhecer totalmente a escola, mas pelo pouco que vi, diria que é quase o tamanho da vila em que eu morava. Também não havia engraçadinhos ou interrupções na aula, o que me assustou, pois todos os alunos pareciam bastante objetivos e centrados na aula.
O tempo foi passando e antes que eu percebesse o sinal para o intervalo havia tocado. E eu finalmente pude ver alguns grupinhos da sala, uns juntavam suas mesas para comerem juntos, outros saiam da sala para se encontrarem com outros alunos e havia também aqueles que simplesmente preferiam comer sozinhos. Pensei em ir dar uma volta pela escola, mas quando me verei para levantar, eu finalmente notei um garoto que sentava ao meu lado e se concentrava em seu livro; Não era muito mais alto que eu, tinha cabelos castanhos claros ligeiramente dourados e seus olhos verdes estavam fixos no livro por baixo dos óculos.
– Eles ficam juntos no final. – Falei, percebendo em seguida que aquela tentativa de diálogo foi péssima.
Seus olhos frios se voltaram contra mim como se pudessem me matar e antes que ele pudesse me xingar eu o interrompi:
– Prazer, sou Anne, qual é seu nome? – Perguntei estendendo a mão amigavelmente.
Ele olhou para minha mão e voltou a fitar o livro.
– Sou Kyle.
Eu esperei que ele falasse mais alguma coisa, mas como nenhuma palavra foi pronunciada eu resolvi continuar:
– Você já leu os outros livros deste autor? Eu acho que são realmente ótimos e... – Ele fechou o livro em um baque surdo, levantou-se, resmungou alguma coisa e foi embora como se eu não estivesse falando com ele.
Aquilo realmente me deixou assustada e um pouco triste, eu nunca havia sido rejeitada daquela maneira e eu nem ao menos fui grossa com ele, eu apenas queria fazer amizade.
O fim do intervalo foi anunciado minutos depois e eu ainda estava assustada e envergonhada demais para prestar atenção na aula.
No momento em que o último sinal foi tocado, e todos foram embora para suas casas eu ainda estava guardando minhas coisas e tentava apenas ignorar o que havia acontecido. Eu estava assustada desde o momento em que entrei na sala e não sabia o que fazer.
Comecei a caminhar rumo á saída da escola, deveriam ser umas quatro e meia da tarde e se eu continuasse ali por mais um tempo não chegaria muito atrasada em casa. Decidi, então, dar uma volta pela escola. E depois de um tempo caminhado, descobri atrás das grandes construções um pequeno jardim, que pelo estado de suas tulipas, não parecia muito visitado. As flores estavam um pouco secas e a terra não parecia própria para o cultivo. Vi um regador ao lado e decidi dar um jeito eu mesma naquelas flores, coloque minha mochila em um canto e encontrei uma torneira para encher o regador com água. Como não havia encontrado nenhuma pá, preparei o solo com minhas próprias mãos e trabalhei por ali durante um bom tempo.
– Você tem jeito com plantas, não é mesmo?
Assustei-me, deixei o regador cair no chão, e virei rapidamente para fitar a pessoa que falou comigo. O garoto era alto, tinha os cabelos maiores e mais escuros que os meus, os olhos tinham uma tonalidade dourada que pareciam duas moedas quando refletidos no sol e seu modo de levantar as sobrancelhas e sorrir deveriam parar o coração de muitas garotas da escola.
– Desculpa, vou encher o regador novamente para você.
– Não precisa. – Respondi rapidamente. – Já estava indo embora. Desculpe-me por mexer no seu jardim. – Falei caminhando até a torneira para lavar minhas mãos.
– Ei, calma aí, o jardim não é meu, eu só venho aqui nos finais da aula para dar um jeito nele. – Disse o garoto me seguindo até a torneira. – Mas não entendo, as flores me parecem sempre secas...
Olhei para ele e falei:
– Isso porque o solo está seco. Se quiser que as flores cresçam mais fortes e mais vivas, sugiro que use um adubo melhor.
Sequei minhas mãos na saia e andei até minha mochila enquanto ele falava:
– Muito obrigada, moça! Mas, posso lhe fazer uma pergunta?
Coloquei minha mochila nos ombros e fiz um sim com a cabeça.
– Por você está tão triste?
Assustei-me com a pergunta e respondi:
– É que eu me lembrei que não é fácil fazer amizade.
– Não se preocupe moça. – Ele sorriu. – Também não estava sendo fácil para as flores deste jardim crescerem no solo errado, mas elas cresceram, mesmo que secas, elas se esforçaram. Acredito que você deve se esforçar também. – Disse acenado antes que eu fosse embora.
Sorri, acenei de volta e corri para a saída da escola.
O jardim do meu coração estava começando a florescer.
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