A primavera de Anne Collins
3 Cravos
Notas iniciais
"Não se pode impedir a primavera de colorir novos olhares"
– Heva Freitas
(...)
A cozinha estava completamente vazia. Em cima da mesa encontrava-se um farto café da manhã e um bilhete de meu tio.
“Anne, desculpe, não poderei tomar o café da manhã junto com você, pois precisarei chegar mais cedo no trabalho. – Com amor, tio Stephen.”
Isso era tudo que o bilhete dizia então me sentei á mesa e enchi minha xícara de café. Estava vivendo com meu tio a pouco mais de duas semanas e desde então notei o quão árduo era seu trabalho afinal, eram raras às vezes em que conseguimos passar as manhãs juntos.
Terminei meu café e fui direto pegar meu ônibus para a escola. Eu havia decidido, desde minha última tentativa falha, que arrumaria um amigo custe o que custar. A viagem de ônibus não durara muito e me sentia tão avoada aquele dia que quase não percebi que já estava em frente à escola, pois o que me acordou de meu transe foi o agudo barulho anunciando o inicio das aulas.
Entrei rapidamente na sala e me sentei organizando os materiais. Foi então que notei uma aura de expectativa pairando sob o ar.
– A professora Rikki vai entregar as provas de química daqui a pouco. Tenho quase certeza de que não irei muito bem esse semestre. – Disse uma garota de cabelos repicados e rebeldes que sentava em minha frente. Ela choramingava para a amiga ao lado já imaginando o que teria que fazer pra se recuperar.
Assustei-me com a figura que havia acabado de entrar na sala. A professora Rikki é sem duvida a mais temida de todas as classes da escola, não por ser ruim ou injusta, mas simplesmente porque era a mais exigente entre os professores.
– Bom dia, Classe. – Disse a mulher de cabelos curtos e acinzentados com uma expressão séria no rosto. – Hoje irei entregas as provas que fizeram semana passada. – indagou abrindo a bolça e retirando de lá um diário escolar repleto de papéis.
Pegou as folhas e encarou-as um tempo antes de começar a falar:
– Como sempre as piores notas estão concentradas nessa turma. — Seu olha era quase mortal para com a sala. – Porem, tive uma felicidade extrema ao corrigir uma das provas, pois uma pessoa conseguiu tirar a nota máxima. – Vi meus colegas de turma ficarem boquiabertos. – Então, vou começar entregando a prova para ela e a parabenizando por seus esforços. – Falou ao retirar umas das provas da papelada em que segurava. – Anne Collins, pode vir aqui? – Perguntou fitando-me com uma expressão de orgulho.
A sala inteira virou-se para me encarar de olhos arregalados. Levantei-me sentindo um pouco envergonhada e assim que fui pegar a prova das mãos da professora ela sibilou um ligeiro: — Meus parabéns.
Agradeci-a e voltei a me sentar rapidamente enquanto ela entregava as provas dos outros alunos.
Quando restou apenas uma única prova nas mãos ela disse:
– Senhor Kyle, como sempre com a pior nota na minha matéria, infelizmente desta vez vou ter que encaminha-lo para a direção. Quando acabarem as aulas me procure na sala dos professores, pois você precisa de uma conversa com o diretor. – Disse impacientemente.
Ele continuou a não prestar atenção na professora mantendo seus olhos apenas no livro em cima da sua mesa. A senhora Rikki suspirou e prosseguiu a aula.
Desde que conheci Kyle descobri pequenas coisas sobre ele, como por exemplo, que ele não larga o livro por um único segundo, que Seth (o professor que havia me ajudado no meu primeiro dia de aula) era seu irmão e que tinha extremas dificuldades em conteúdos que envolvessem cálculos.
As aulas prosseguiram normalmente até a hora do intervalo e assim que o sinal bateu juntei minhas coisas para ir para algum lugar comer sozinha como sempre.
– Anne, aqui!
Ouvi o grito agudo e me virei imediatamente para ver.
– Você pode se sentar com a gente, se quiser. – Reconheci a menina rapidamente ao ver que era a mesma que hoje de manhã estava desesperada com relação a suas notas juntamente com a outra que estava consolando-a.
Fiquei um pouco nervosa, pois aquela era a segunda vez que poderia conversar com um colega de sala. Peguei meu almoço e caminhei em sua direção rezando para não estragar tudo como da ultima vez.
– Prazer, meu nome é Mika. – Disse mostrando a cadeira em que eu poderia me sentar. Pude então ter uma visão mais detalhada sobre a garota. Além de cabelos medianos, repicados, rebeldes e castanhos ela possuía um par de olhos tão escuros que eram fascinantes destacando ainda mais a pele branca.
Sentei-me e a garota ao lado olhou-me simpaticamente e disse:
– Meu nome é Suzanna, muito prazer.
Suzanna era sem duvidas aquele tipo de pessoa que aparenta ser mais velha apenas pela personalidade. Possuía longos cabelos pretos, olhos dourados e ligeiramente esverdeados e uma pele mais escura que de Mika.
– Então Anne, desculpe-nos parecermos aproveitadoras. – Começou Mika enquanto comíamos. – Mas o fato é que realmente necessitamos da sua ajuda.
– No que eu poderia ajudar vocês? – Respondi um pouco sem graça.
– Basicamente: Química. – Mika respondeu rapidamente. – Queremos umas aulinhas de reforço com você e em troca pagaremos quanto quiser. – Pediu juntando as mãos e rezando por uma resposta positiva.
Eu assustei-me um pouco de inicio, mas logo achei graça e respondi:
– Claro que posso ajudar vocês. – O sorriso de Mika foi inevitável. – Mas não quero dinheiro como pagamento. Quero apenas poder passar o intervalo com vocês todos os dias. Tudo bem pra vocês?
A garota de cabelos rebeldes quase chorou de alegria. Ela e sua amiga concordaram imediatamente com minha proposta. Então o intervalo prosseguiu-se enquanto conversávamos sobre os mais diversos assuntos. Notei que Mika era bastante animada e extrovertida, fazia piada de qualquer assunto que estivéssemos falando. Enquanto Suzanna era mais fechada, falava pouco e raramente, mas não que fosse arrogante ou metida, pois o brilho de simpatia nunca saia dos seus olhos.
As aulas recomeçaram e eu me sentia extremamente bem e leve e pude continuar assim até o ultimo horário. Antes de sair da sala despedi-me das meninas e passei meu endereço para que pudéssemos estudar no dia seguinte, pois já era sábado.
Antes de ir embora corri para o jardim para dar a noticia a Luke. Desde aquele dia nós temos conversado quase todos os dias e acreditava que poderíamos estar começando uma verdadeira amizade.
Estava caminhando até o jardim quando parei ao lado de uma das salas e ouvi uma conversa pela janela.
– Senhor Kyle, essa é a terceira e ultima vez que te avisamos. – Escutei uma voz grossa e ameaçadora.
Olhei pela janela e lá esta o garoto de cabelos castanhos, quase inexpressivo, olhando para algum ponto da sala e a sua frente estava o diretor calvo e rechonchudo, repreendendo-o.
– Se o senhor me aparecer mais uma única vez nessa sala com notas baixíssimas como essa eu, infelizmente, vou ter que expulsa-lo. – Falou. – E você sabe que a reputação do seu irmão como professor novato também corre risco, certo?
Kyle continuava inexpressivo.
– Olha Kyle, você sabe que nossa escola é uma das melhores escolas publicas de Tóquio. Essa reputação precisa ser zelada e não podemos deixar que nenhum de nossos alunos zerem três provas seguidas, você me entende? – Disse o diretor dessa vez com um olhar de súplica.
A sala ficou em silencio por um tempo até que o garoto resolveu se pronunciar:
– Eu posso ir agora?
O diretor deu um suspiro ao notar que nada do que dissera havia surtido efeito e simplesmente levantou a mão apontando à saída para o jovem. Então Kyle saiu apressadamente.
Mudei meu trajeto e decidi procura-lo e por sorte peguei-o na entrada arrumando seus materiais em frente a seus armários.
Eu estava ao seu lado e ele nem precisou levantar os olhos para me olhar antes de dizer:
– O que você quer aqui?
– Eu posso te ajudar a não ser expulso, se você quiser. Estou dando aulas particulares para ajudar algumas pessoas que também precisam de ajuda.
Ele riu em deboche.
– E o que você quer em troca? O meu dinheiro? Porque se for...
– Sua amizade. – Respondi imediatamente antes de ele continuar.
– Minha oque?
– Eu quero sua amizade em troca das aulas. – Falei mesmo achando que aquilo não ia dar muito certo.
– Você é retardada?
– Não eu não sou! Vou lecionar você gratuitamente e em troca você deverá apenas fazer comigo o que um bom amigo faz, tudo bem?
– Você só pode tá de brincadeira comigo. – Respondeu rindo.
– Tudo bem então, se não quiser eu vou embora. – Respondi dando meia volta e indo embora, mas rezando para que ele mudasse de ideia.
– Espera! – Ele resmungou e eu quase pulei de alegria.
Virei-me e esperei que ele continuasse.
– Eu aceito sua proposta. – Falou um pouco irritado.
Caminhei até ele com o meu melhor sorriso de vitória, pois era evidente que ele não estava nenhum pouco feliz com aquela história, estendi minha mão e disse:
– Amigos?
Ele olhou para minha mão pairada no ar e juntou com a sua consolidando o aperto de mãos. Não respondeu mais nada, mas era evidente em que seus belos olhos esverdeados surgiam um brilho diferente.
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