Takahashi Mari

Muitas pessoas por todo o mundo discutem sobre assuntos envolvendo a genialidade humana e os motivos que levam uma pessoa a ser mais talentosas do que as outras. Algumas dizem que a inteligência deriva de um dom divino, dado mais abundantemente para poucos, outros dizem que a genialidade vem do tratamento que uma criança recebe desde o seu berço, os mais descrentes desacreditam de palavras como o “talento” e preferem imaginar que tudo se deriva do esforço. Existem vários padrões para medir a genialidade de uma pessoa, porém o mais conhecido é definitivamente o teste de QI e aquela que detêm a pontuação mais alta é a jovem japonesa conhecida como Takahashi Mari. Em meio a uma gigantesca árvore de grandes gênios, a sua estrela possui a impressionante marca de duzentos e trinta dois pontos.

A programadora de apenas vinte e dois anos entrou para o livro dos recordes quando ainda estava no ensino médio, onde mostrou todo seu talento nos campos que envolvem redes neurais e inteligência artificial. Após se formar ela foi logo contratada pela maior empresa de tecnologia do seu país natal conseguindo revolucionar o mercado mundial e o cotidiano de todo o mundo com a suas ideias revolucionarias. Dentre alguns de seus méritos, os mais importantes foram a criação de casas totalmente automatizadas que se adaptam de acordo com a rotina dos seus moradores e a invenção de microchips que presos à cabeça são capazes de mostrar imagens diante dos seus olhos por meio de conexões neurais, isso possibilitou a criação de produtos conhecidos como “celulares mentais”.

A empresa que contratou Mari se tornou a maior vendedora de tecnologias do mundo e as suas invenções foram vendidas e repercutidas por todo mundo. Algumas pessoas dizem que a existência dessa garota conseguiu fazer o mundo evoluir em vinte anos no espaço de tempo de apenas quatro. Mesmo com tantos méritos e relevâncias são poucas as pessoas que realmente a conhecem, mas eu sou uma delas e posso afirmar que as vezes é difícil olha-la e não imaginar que seja apenas uma pessoa comum.

Meu nome é Kobayashi Souta e assim como Mari eu tenho vinte e dois anos, minha aparência nunca foi das mais agradáveis e sinceramente, eu não me importo com isso. O meu nariz é enorme e eu possuo olhos arregalados como os de peixe morto, que por sinal era o meu apelido na infância, tenho olheiras causadas por problemas de insônia e meu cabelo volumoso está sempre desarrumado. Mesmo que eu costume comer bastante, sou extremamente magricela e provavelmente toda a comida foi usada para me fazer crescer, já que eu detenho uma altura de um metro e noventa e oito. Mesmo sendo alto, eu não costumo colocar medo em nenhuma pessoa, já que meus olhares naturais geralmente demostrem tristeza ou algum outro sentimento ruim, embora não seja isso que eu sinta por dentro. Com essa aparência tão lastimável, por algum motivo que eu ainda não consigo compreender, eu namoro uma garota chamada Takahashi Mari, a mesma que eu citei agora há pouco. Nós entramos num relacionamento oficial há quase quatro anos e já até estamos morando juntos.

Minha namorada não possui uma aparência tão perfeita, mas já está longe de alguém como eu. Com os seus um metro e sessenta, ela deve pesar aproximadamente cinquenta quilos, possuí olhos castanho claro e usa um óculos azul escuro, seu cabelo ondulado é preto e curto, sua pele é branca com várias pintas pelo corpo, principalmente na bochecha. Mari é uma daquelas pessoas que você consegue deduzir o seu humor apenas olhando para o seu rosto, por isso é difícil definir uma expressão padrão para ela e o fato do seu humor mudar constantemente também não ajuda.

Eu e ela moramos num apartamento em Tóquio. Nós dois nascemos em Quioto, mas nos mudamos por causa do trabalho e da minha faculdade. Por causa das suas invenções, Mari possuí muito dinheiro, mas sinceramente, a maioria dele fica guardado em bancos e nós dois só usamos o necessário. Talvez, para alguns, guardar uma fortuna para viver em um apartamento no meio da cidade seja idiotice, mas no geral eu gosto da minha casa, o prédio fica próximo ao meu trabalho e ao de Mari, ele também fica próximo de Akihabara e da estação de metrô.

Eu terminei a faculdade faz pouco tempo, estudei para me tornar roteirista de animes e consegui um emprego numa pequena produtora. Desde pequeno, as animações são um dos meus poucos amores na vida, eles estiveram do meu lado mais do que a maioria das pessoas que se diziam amigas, sempre me levaram para um mundo onde eu conseguisse esquecer qualquer coisa que me angustiasse. Eu me esforcei bastante para conseguir encontrar emprego, mas confesso eu possuo algum talento natural para a escrita, principalmente quando o assunto são roteiros.

Já faz um pouco mais de doze anos que eu conheço a Mari. Ainda me lembro perfeitamente de quando nos vimos pela primeira vez, e naquela época eu nunca pensei que aquela menina irritante se tornaria a pessoa mais importante da minha vida.

Éramos apenas duas crianças idiotas, minha mãe havia mandado que eu saísse de casa para brincar em companhia do meu primo, naquela época eu era um garoto tímido, do tipo que se contava numa mão os amigos da escola, não sai detrás do meu primo por quase todo o tempo em que ficamos fora. Nós estávamos em um pequeno parque que ficava na frente da minha casa, meu primo havia reunido um grupo de amigos para brincar e eu fui obrigado a participar. No meio das correrias e agitações eu percebi que havia uma garota sozinha naquele parque, ela estava sentada no banco mais distante e lia um livro de capa cinza. Aquela menina me trazia uma estranha sensação de curiosidade e empatia, perguntei ao meu primo quem era aquela garota e recebi a resposta de um dos outros garotos que estava brincando:

“Ela é a monstra!”

“Monstra?” – Eu olhei novamente para aquela garota, tentando encontrar algo que lhe valesse ao apelido.

“Se eu fosse você ficaria bem longe dela, dizem que ninguém é capaz de se tornar amigo da monstra.”

“Mas por quê?”

Ninguém sabia me responder.

Eu tentei seguir o conselho que me foi dado, mas uma força conhecida como curiosidade me puxava cada vez mais forte, queria saber porque aquela garota estava sozinha e de onde veio esse apelido de monstra. No momento em que já não aguentava mais me segurar, eu fui na direção dela e me parei na sua frente. Foi naquele momento em que percebi um enorme problema: eu não fazia ideia do que fazer, quero dizer, não poderia simplesmente chegar e jogar as dúvidas, além de que minha habilidade de socialização era extremamente limitada. Foi a garota estranha quem acabou soltando a primeira frase:

“O que você está fazendo aqui?” – Ela me perguntou sem tirar os olhos do seu livro.

“Nada...”

“Resposta errada!” – A garota afirmou em voz alta e vibrante, como se eu tivesse acabado de perder um jogo de perguntas e respostas. – “O ser humano nunca faz nada sem um propósito, mesmo que isso envolva intensões instintivas.”

“Do que você está falando?”

“Então você também não entende?” – Aquela garota não tirava os olhos das folhas brancas de seu livro.

“Na verdade, vim perguntar o porquê de você estar sozinha.” – Eu segurava o nervosismo de conversar com uma pessoa desconhecida, tentava esfregar as mãos e olhar para os lados para me ajudar.

“E para que você precisa saber disso?”

“Não sei. Pensei que talvez a sua resposta me ajudasse a entender.”

“Eu estou sozinha porque eu quero ficar sozinha e porque as pessoas querem que eu fique sozinha.”

“E porque alguém iria querer isso?”

“As pessoas costumam se enfurecer quando encontram outras melhores do que ela. Nesse caso, isso aconteceu com uma garota popular o bastante para passar qualquer boato ruim sobrem mim.”

“E você não se importa em deixar as coisas desse jeito?”

A garota não me respondeu, mas pelo que conheço dela hoje em dia, diria que a resposta era algo como “eu não consigo fazer nada”.

Eu comecei a olhar novamente a garota que estava na minha frente e o livro que prendia os seus olhos, o título que estampava a capa dizia “python avançado”, na época eu não entendi o que isso queria dizer, mas com o conhecimento mínimo de programação que possuo hoje, posso dizer que um livro daqueles não era indicado para crianças de apenas nove anos, talvez nem mesmo para estudantes do ensino médio. No cabelo da garota eu encontrei uma presilha um tanto familiar.

“Esse daí no seu cabelo é o Unhappy, certo?” – Eu apontei para a mecha que estava presa pelo acessório.

“Isso mesmo, meu pai que me deu.” – Ela tirou a presilha para eu poder ver com minhas próprias mãos.

“Seu pai gosta de Fairy Sting?”

“Algum problema com isso?”

“Não, mas meu pai vive me dizendo que só crianças tem tempo para perder com coisas como animes.”

“Desde que eu me entendo por gente, meu pai me coloca para assistir essas coisas, eu acho que ele praticamente me forçou a gostar.”

“Então você também gosta de animes?”

“É claro!”

“E qual é o seu favorito?”

“Na verdade, eu ainda não vi nada que eu poderia chamar de favorito...”

A menina que estava na minha frente finalmente começou a olhar para mim e ainda sorriu de uma maneira despreocupada, eu fiquei envergonhado e acabei virando o olhar para o chão. Parecia que finalmente a barreira de indiferença que a cercava havia sido desfeita.

“Qual é o seu nome?” – A garota me perguntou colocando a presilha da volta no cabelo.

“Souta...” – Eu respondi de maneira tímida, como se o meu nome fosse vergonhoso ou algo do gênero.

“Soul!” – Ela gritou com firmeza.

“O que é isso?”

“Seu novo nome.”

“Como assim novo nome?”

“Agora você já pode ir avisar para os seus pais sobre a sua mudança de nome!”

“Mas eu não concordei com isso...”

“Mas eu já decidi, a partir de agora você será o Soul!”

“Tudo bem, me chame como quiser. E qual é o seu nome?”

A garota colocou o seu livro no colo, apontou com a mão direita para o seu peito, abriu um sorriso radiante e estufou todo o seu corpo. – “Sou Takahashi Mari, guarde bem esse nome, pois eu não aceito apelidos!”

Eu poderia ter discutido o ego inflado daquela frase ou a hipocrisia de dizer que não aceita apelidos após me dar um, mas naquele momento eu só consegui ficar calado. Por algum motivo, eu sentia que algo estranho estava acontecendo envolta daquela garota, algo como um gigantesco vendaval que entrava em sincronia com os seus movimentos, aquela sensação me dava um pouco de medo e me fazia tremer, mas mesmo assim, eu queria sentir ela cada vez mais.

E com isso a minha história com a pessoa mais inteligente do mundo havia começado.

Notas finais
E esse foi o primeiro capítulo.

Obrigado por lerem e não esqueçam de deixar uma crítica para me ajudar a sempre melhorar minhas histórias.