Mais uma noite

Era mais uma noite normal, a lua brilhava do lado de fora do meu apartamento e era possível ver pela sacada as pessoas saindo na luz das estrelas para tentar encontrar algum sorriso. Eu e Mari estávamos sentados no sofá assistindo televisão, como sempre fazíamos nos fins dos dias. Era início de verão, por isso o calor dominava qualquer cômodo do nosso apartamento. Estava passando um programa de comédia sem graça que nem eu e nem a Mari queríamos assistir, mas nós dois não iriamos mudar daquele canal nem por um segundo.

Não temos muitos amigos, na verdade, acho que só existe uma pessoa nesse mundo inteiro que eu considero uma amiga de verdade, por isso, nenhum de nós costuma sair muito de casa quando não há necessidade. No geral, a minha vida sempre se resumiu na Mari, nos meus roteiros e nas coisas que se passam na minha cabeça. Algumas pessoas podem desacreditar, mas eu vivo feliz com isso, na verdade, eu acho que uma vida cercada desse pouco é muito mais feliz do que se eu estivesse cercado de amigos que não me trazem nenhuma simpatia.

“Está nervoso com a sua estreia?” – Mari começou a me cutucar para piorar ainda mais o meu nervosismo.

“Como não estaria? Estou morrendo de medo do público achar ruim o primeiro episódio e não querer assistir o resto.”

“Não se preocupe, quando o assunto é roteiros não tem ninguém que supera você.”

“Obrigado.”

“Mas em qualquer outra qualidade você é o pior.”

“Você ainda está tentando me motivar?”

“É brincadeira.”

Eu havia escrito o meu primeiro roteiro para um anime que iria estrear naquela temporada, o enredo era baseado numa light novel que conta a história de duas crianças que passaram toda a sua vida num universo destruído, mas que conseguiram achar uma civilização sobrevivente. O irmão mais velho sabe falar Russo, por isso as crianças ficam ao cuidado da única pessoa capaz de entende-las: um professor de história que perdeu sua família na mesma guerra que destruiu o mundo.

Mesmo que essa história seja muito interessante e complexa, ela não fez tanto sucesso, mas pelo menos conseguiu ganhar dez episódios de quinze minutos na televisão. No geral ela trata de assuntos que envolvem a humanização e a adaptação das pessoas ao meio em que vivem, o exemplo mais claro disso são o casal de irmãos protagonistas que agem como animais assustados em relação ao novo mundo que encontraram. É uma história que foi trabalhosa de escrever, mas o resultado final do roteiro ficou impressionante até para mim.

Eu escrevo desde pequeno, na verdade o meu objetivo de vida aos sete anos era virar um mangaka, porém depois de descobrir que odeio desenhar decidi participar somente da parte escrita. Eu também tentei virar escritor de novels, mas nunca tive coragem de mandar minhas histórias para uma editora nem publicar em algum site.

Para ser sincero, Mari foi a única pessoa que já leu as minhas histórias de criança e mesmo assim foi depois de tempos de insistência. A primeira vez que a mostrei foi com meus onze anos, acabei dizendo por acidente de uma história que eu estava escrevendo e a reação dela foi como se estivesse impressionada com o fato de estar fazendo algo relevante. Nós dois havíamos entrado no mesmo colégio fundamental e acabamos na mesma sala também, foi durante um almoço qualquer que eu dei com a língua nos dentes.

“O que?! E por que você nunca me mostrou essa história?” – Nós dois estávamos sentados nas nossas carteiras, mas Mari se levantou para mostrar o quanto ela estava surpresa.

“Eu tenho vergonha de mostrar para os outros.” – Eu disse abaixando minha cabeça para tentar esconder a minha vergonha.

“Mas eu não sou os outros.”

“É claro que é.”

“Não importa quem eu sou! Agora você vai ter que me mostrar essa história.”

“De jeito nenhum! Você vai rir se ver.”

“Eu prometo que não.”

“Eu não confio em você!”

“Como você é cruel. Eu já te traí antes?”

“Muitas vezes.”

“Vamos lá, deixa eu ler a sua história.”

“Não!”

“Por favor, senão eu conto para todo mundo sobre o pôster gigante da Mio que você tem no seu quarto.”

Depois da ameaça daquela garota eu levantei a cabeça e mostrei toda minha vermelhidão, tive que ceder. — “Tudo bem, eu te mostro.”

Eu entreguei meu celular com a história para Mari e ela leu tudo numa velocidade descomunal, numa certa parte da história ela começou a rir descontroladamente, mesmo que a minha história seja um drama. — “Que porcaria de cena emocional é essa?”

“Você falou que não iria rir!” – Eu tentei arrancar o celular das mãos dela, mas não consegui.

“Mas isso daqui já é crueldade, está muito mal feito.”

“Então por que continua lendo.”

“Porque eu quero saber o final.”

“Isso não faz sentido.”

“É claro que faz. Você consegue dar um desenvolvimento muito criativo, mas as palavras que você usa são muito desestimulantes.”

“Ainda não entendi.”

“Eu nunca esperaria que o protagonista fosse recusar o pedido da princesa, mas a reação que ela teve com isso não foi legal. Eu acho que você precisa começar a estudar mais as pessoas para melhorar isso, além de comprar um dicionário para parar de repetir tanto as palavras.”

“Ouvir isso de uma pessoa que sabe de tudo é fácil.”

“Eu não sei tudo, só sei o que eu sei. Além disso, os problemas que te indiquei você consegue melhorar com o treino, agora essa liberdade que existe para criar qualquer universo num piscar de olhos é algo que só você tem.”

“Você quer que eu te diga obrigado?”

“Eu só quero que você não desista.”

Por fora, eu peguei o meu celular e virei a cara, mas por dentro senti uma estranha sensação de orgulho pelo meu trabalho. As sugestões que aquela garota me deu foram ouvidas, eu comecei a desperdiçar algum tempo da minha vida para analisar as pessoas e acabei ficando bom nisso, hoje em dia eu sou capaz de perceber padrões em várias ações que alguém realiza e consigo entender os seus sentimentos sem que elas precisem dizer. Mesmo sendo algo impressionante, não é admirável que se consiga essa habilidade depois de se treinar por uma década.

Hoje em dia eu não tenho mais medo de mostrar os meus trabalhos para o mundo, afinal eu trabalho com isso. Eu ainda sinto um frio na barriga e uma sensação estranha toda vez que eu mostro algo que escrevi a alguém, mas acho que isso é normal, afinal mostrar uma história para alguém é mostrar um pedaço de quem você é.

“Está tudo bem com você?” – Eu perguntei para Mari quando percebi que ela estava pensativa e distraída, ela se assustou com a minha voz.

“Por que você pergunta isso?” – Ela tentou mudar de expressão para fingir que estava normal.

“Geralmente, meia hora depois de quando a gente se senta no sofá, você sempre se cansa de ficar sentada e deita, colocando os seus pés em cima do meu colo. Deve ter algo te incomodando para você não fazer isso.”

“Você é assustador! Como consegue reparar essas coisas?”

“Eu só segui o seu conselho de analisar as pessoas.”

“Eu criei um monstro...”

“Mas você ainda não respondeu a minha pergunta.”

“Na verdade, eu estou pensando em pedir para me mudarem de área no trabalho.”

“E o que você quer pesquisar?”

“Estou pensando em estudar alguma coisa sobre realidade aumentada.”

“Parece interessante, e você pode alegrar a vida de milhões de japoneses trazendo namoradas virtuais para o mundo real.”

“Acho que isso iria acabar com a reprodução humana...”

“No meu caso, eu poderia criar uma cópia sua para usar quando você me abandonar.”

“Isso era para ser romântico ou estranho? Além disso, você vai ser obrigado a me aguentar por toda a vida.”

Mari sempre falava isso. Dizia que quando eu morresse iria me ressuscitar no meu funeral só para poder me irritar um pouco mais. Prefiro acreditar que aquele era o jeito dela de dizer que não aguentaria viver sem mim. Tanto eu quanto ela não conseguimos transmitir os nossos sentimentos da maneira mais simples, provavelmente por vergonha. Foram poucas as vezes que eu disse “eu te amo” para a minha namorada. A gente costuma mascarar essas partes românticas com alguma piada idiota.

Nós definitivamente estamos distantes de um estereótipo de casal apaixonado, para dizer a verdade, tirando o fato de termos começado a morar juntos, quase nada no nosso convívio mudou com esse namoro, parece que ainda continuamos os mesmos amigos de sempre. As vezes eu me pergunto se isso não seria culpa minha, me pergunto se a Mari não estaria esperando que eu fosse mais ativo no nosso relacionamento. Eu estou feliz do jeito que as coisas estão, mas não sei se isso é correspondido pela garota do meu lado.

Qualquer conversa ou pensamento que estava passando por nós dois naquele momento foi interrompido quando o apresentador anunciou o final do programa, isso queria dizer que o anime tão aguardado iria finalmente ser exibido. Eu havia me recusado a ver qualquer pedaço daquele episódio para ter a surpresa do momento. Depois de um comercial que parecia interminável, o primeiro episódio finalmente começou.

Eu e Mari ficamos em silêncio por todos os quinze minutos. Confesso que o resultado foi mais desanimador do que eu esperava: a animação ficou mal desenhada, a trilha sonora não conseguia entregar o esperado e existia diversos erros de direção, mas pelo menos não houveram mudanças drásticas no roteiro. Quando o episódio acabou eu fiquei olhando para a Mari esperando uma opinião, mas ela não me disse nada.

“O que você achou?” – Por fim, eu mesmo tive que perguntar.

“Bem amador.”

“Eu sabia...”

“Mas a parte do roteiro ficou bem-feita. Mesmo que eu não tenha lido a obra original ficou claro o seu bom trabalho em adapta-la.”

“Eu só segui o que já estava escrito no original...”

“Mas você parece ter tido o esforço de melhora-lo e esse é o trabalho de uma adaptação. Além disso, eu me apaixonei pela protagonista feminina, ela é tão fofinha... E o trabalho da dubladora dela foi uma das poucas coisas que prestaram, junto com o seu roteiro.”

“Parece que conseguiram trazer uma dubladora famosa para fazer a voz dela.”

“É sério? Quem era?”

“Eu não me lembro o nome...”

“Como você esquece o nome de uma pessoa famosa que trabalhou com você?”

“Você sabe que sou péssimo em decorar nomes, mas eu sei que foi a mesma pessoa que dublou a Shiro de No pain no life.”

“Agora está explicada a voz tão fofa.”

“Mas no geral, que nota você dá para o episódio?”

“Acho que uns... Cinco!”

“Só isso?”

“Você esperava mais?”

“Talvez um sete...”

“Se for para considerar só o roteiro a minha nota é oito.”

“Sério? E você assistiria um novo episódio?”

“É claro! Eu estou muito curiosa para saber o que vai acontecer com o professor de história.”

Depois que a pessoa mais inteligente do mundo diz que o seu trabalho está bom, você acaba criando coragem de olhar as críticas alheias. Eu ativei meu celular mental e comecei a pesquisar os comentários das pessoas em relação ao meu trabalho. A maioria criticava a estética do anime num geral, mas pelo menos ninguém falou nada de ruim sobre a história, para falar a verdade, um comentário até elogiava a minha estreia como roteirista.

Eu comecei a sentir uma estranha sensação, minhas mãos não paravam de tremer e eu não conseguia tirar o sorriso do meu rosto. É claro que uma pessoa pessimista como eu não sabia qual era o significado de se sentir superior com um trabalho bem realizado, não sabia a alegria da vitória. Aquilo era tão bom que eu queria sentir cada vez mais. Eu já havia inventado alguns roteiros para o clube de teatro no ensino médio e outros na faculdade, mas eu nunca havia tido uma sensação tão boa ao ter meus roteiros elogiados.

Depois de um tempo, percebi que Mari estava me olhando, provavelmente esperando que eu dissesse os resultados. Eu me virei e mostrei minha expressão de felicidade, ela retribuiu com um sorriso. Quando olhei novamente para o meu celular mental percebi que havia chegado uma mensagem privada para mim.

“A Sayuri me mandou uma mensagem dizendo que a gente pode ir no orfanato amanhã.” – Anunciei para a minha namorada assim que visualizei.

“É sério?” – Mari pareceu surpresa com as minhas palavras.

“Por que não seria? Amanhã nós dois temos o dia inteiro livre, além do mais, faz tempo que não vamos visitar o Hiro.”

“Parece divertido! Amanhã eu vou acordar bem cedo e preparar alguns doces para ele.” – Eu acabei fazendo uma expressão de medo acidentalmente e Mari percebeu isso. – “Você não acredita que eu possa cozinhar alguma coisa?”

“Da última vez que você fez isso o prédio inteiro teve que ser evacuado.”

“Aquilo foi só um erro de cálculo, nada de ruim vai acontecer dessa vez.”

“Espero...”

Existe uma grande diferença entre uma pessoa genial e uma pessoa perfeita e a Mari é o maior exemplo disso. Essa garota é a maior decepção quando o assunto é serviço doméstico. Qualquer trabalho simples como usar um micro-ondas se torna um desafio complexo nas mãos da Mari. O pior de tudo é o fato dela não admitir a sua incapacidade, se é que ela conhece essa palavra. Sempre que algo dá errado ela coloca a culpa no eletrodoméstico e ainda tenta inventar algum efeito físico para explicar o seu problema, mas na verdade ela só não quer perceber o quão inútil pode ser.

Quando nós dois começamos a morar juntos era prometido que as obrigações da casa seriam divididas, mas no final eu sempre tinha que fazer a minha parte e ainda resolver o problema que Mari causou na dela. Depois de passar um mês inteiro a base de noodles eu decidi fazer sozinho as compras, depois de ver meu quarto transformado numa piscina eu decidi lavar a casa sozinho e depois de quase morrer com uma faca no pescoço eu decidi fazer o almoço sozinho. Hoje em dia eu sou responsável até por lavar a roupa íntima dela e tenho medo de um dia ainda ser responsável pelo seu banho.

Eu entendo que a falta de habilidade em coisas tão simples não é de total culpa da Mari, afinal ela se esforça para aprender, mas acho que a cabeça dela está tão ocupada com coisas acima da realidade que as coisas simples se tornam complexas demais...

“Parece que não tem nada de interessante na televisão agora.” – Mari estava passando pelos canais, procurando algo que a interessasse.

“Então que tal se a gente jogar alguma coisa?”

“Vamos jogar banco imobiliário!”

“Acho que talvez xadrez...”

“Nada disso! No xadrez eu tenho certeza que eu vou te vencer, agora quem vai ganhar no banco imobiliário é sempre um mistério.”

“Isso é mentira!”

Se já estávamos falando de defeitos da minha namorada, outro ponto que não pode ser esquecido é a sua falta de sorte em jogos. Uma partida de banco imobiliário que geralmente costuma durar horas passa a ser jogada em dez minutos quando a Mari é sua oponente. Se alguma coisa pode dar errado ela vai dar! Quando o assunto são jogos de estratégia a história sempre é uma derrota humilhante para o oponente da Mari. Por esse motivo ela detesta esses jogos.

Geralmente quando nós dois jogamos banco imobiliário a Mari perde todas as partidas, mas não desiste de tentar, ela fica insistindo que eu jogue mais uma partida no final de cada derrota até que ela não aguente mais ficar acordada. É isso que acontece quando alguém que está acostumada a ganhar qualquer coisa encontra uma barreira. O pior disso tudo sempre é o dia seguinte, quando ela geralmente acorda de mau-humor comigo, como se eu tivesse culpa pela sua falta de sorte.

“Eu perdi... Vamos outra!” – Mari começou a reorganizar o tabuleiro sem antes saber se eu queria jogar mais.

“Por que você não desiste logo de ganhar? Eu sou muito sortudo...” – Nesse momento uma frase me veio a cabeça, eu fiquei envergonhado com ela e virei o rosto para a Mari, mas tentei dize-la em voz baixa. – “Uma prova disso é ter conhecido você.”

Minha namorada parecia surpresa com aquela frase, mas logo isso mudou quando ela se distanciou do tabuleiro e apontou para mim com uma expressão assustada. – “Quem é você e o que fez com o Soul?”

“Do que você está falando?”

“Vocês alienígenas finalmente chegaram na Terra?”

“Eu só estava tentando ser um pouco mais romântico, afinal é isso que casais normais geralmente fazem.”

“Mas nós somos superiores a qualquer casal normal, não precisamos dessas besteiras de romance para sermos perfeitos.”

“Deixa eu adivinhar, o nosso pacto de namoro está selado pelo olho da morte?”

“Quase isso. Mas agora não tente mudar de assunto! Eu ainda não desisti de te vencer.”

Nós dois passamos a noite inteira jogando e quando percebi, eu já estava dormindo no chão da sala.

Notas finais
Quem conseguiu ler até o final muito obrigado. Deixe um comentário com a sua opinião sobre o capítulo, por favor.