O orfanato

“Soul, acorde!” – Abri os olhos e vi Mari me sacudindo. Eu estava deitado em cima do tabuleiro de banco imobiliário.

“O que foi?” – Me sentei ainda com a vista turva.

“Eu consegui fazer biscoitos!”

“Sério? Onde eles estão?”

“Aqui.” – Mari colocou os biscoitos na frente dos meus olhos e o cheiro doce entrou pelo meu nariz.

“A aparência está boa. Eu posso provar um?”

“Claro! Mas não se acostume com isso. Quem é responsável pela comida é você!” – A garota colocou um dos biscoitos dentro da minha boca, depois de mastigar um pouco eu tive que correr até o banheiro para colocar o biscoito para fora.

“Não gostou?”

“Isso está horrível! O que você colocou nesse negócio?”

“Eu pensei em colocar molho para pizza, mas achei melhor usar orégano.”

“Você ainda queria fazer um doce? Me dá essa bandeja de biscoitos!” – Eu peguei os doces e joguei na descarga, Mari ficou furiosa comigo.

“O que você fez?!”

“Salvei as pessoas que possam comer isso.”

“Mas eu fiz isso para o Hiro.”

“Você queria dar isso para ele? Por que você inda tenta fazer essas coisas sozinha.”

“Porque se eu não treinar nunca vou aprender.”

“Mas você poderia ter me chamado! Não é porque você consegue aprender a programar qualquer coisa sozinha que você vai fazer tudo sem a ajuda de ninguém.” – Mari não estava nada feliz com os meus sermões. Eu tentei me acalmar e comecei a falar com mais paciência. – “Vamos nos trocar.”

“A visita ao orfanato não é de tarde?”

“É sim, mas agora nós vamos no mercado comprar os ingredientes do biscoito. A gente não vai sair daqui enquanto você não fizer um doce decente.”

“Tudo bem!” – Mari mudou sua expressão para um sorriso e depois correu para o quarto.

Desde que eu a conheço, a maneira como Mari tenta fazer tudo sem a ajuda de ninguém nunca mudou. Geralmente é isso que acontece quando não se tem muitos amigos, você acaba tendo que depender de si mesmo. De uma certa forma, esse problema me atingiu também algumas vezes, mas no meu caso sempre fui eu que fugi das outras pessoas, agora com a Mari são as pessoas que foram fugindo dela, até acabar não confiando mais nos outros.

Eu sou um especialista quando o assunto é ser um invisível pessimista, mas não sei qual é a sensação de ter um amigo ruim, diferente de mim a Mari sabia muito sobre isso, ela sabia como era confiar numa pessoa e ser traída, sabia com era ser manipulada por alguém que dizia ser sua amiga, sabia como era ouvir “você é um monstro” de uma pessoa querida. Muitas vezes eu assisti esse sofrimento e fiquei calado, imaginando o motivo daquilo tudo.

Eu consigo entender os problemas que cercam a Mari, mas queria que ela tentasse confiar mais em mim, afinal nós somos namorados. Ela já é responsável por pagar todas as despesas de casa, então o mínimo que eu posso fazer para ajudar é cuidar das tarefas domésticas e isso inclui me esforçar para tentar ensina-la a fazer as coisas.

As vezes eu me culpo por ter demorado para proteger uma pessoa tão querida para mim, talvez o medo de que as pessoas me odiassem também fez com que a Mari ficasse do jeito que está agora. Nesse momento, a única coisa que consigo pensar m fazer para compensar os meus erros é ficar do lado dela o máximo de tempo que puder.

“Eu deveria comprar isso?” – No mercado, Mari me perguntava sobre a receita do biscoito enquanto segurava um saco de farinha.

“Isso é muito útil. O que mais você acha que deveria pegar?” – Isso pode parecer meio infantil, mas é o único método de ensino que funciona.

“Talvez sal.”

“O quanto de sal você pretende colocar?”

“Duas colheres?”

“Você só deve colocar uma pitada de sal!”

“Então não precisa comprar?”

“Não. O que mais?”

“Chocolate?”

“Agora está certo.”

Somando as compras com o tempo fazendo o biscoito, nós demoramos cerca de três horas para terminar tudo. Foi uma missão muito trabalhosa que sujou a cozinha inteira e quase terminou com um dedo ralado, mas o resultado final ficou perfeito, tanto em aparência quanto em sabor. Já estávamos atrasados para a nossa visita ao orfanato.

Além da Mari, a única amiga que eu tive no ensino médio se chama Hasegawa Sayuri. Nós éramos do mesmo do mesmo clube e ela foi a única companheira da Mari quando nós ficamos em salas diferentes. Eu tenho uma enorme dívida com ela por ter ajudado a mim e a minha namorada várias vezes. Hoje em dia ela estuda artes cênicas aqui em Tóquio e trabalha num orfanato para ajudar a pagar a faculdade.

Sayuri é uma garota de um metro e sessenta e cinco, possuí olhos castanho claros e um cabelo comprido da mesma cor. O seu rosto é rosado e emana uma sensação de vida a quem o observa. Em questão de personalidade Sayuri sempre foi do tipo bondosa e simpática, sem nunca arranjar problemas com ninguém, mas sempre estando disposta a dar um puxão de orelha e alguns gritos quando necessário. Sayuri sempre foi uma boa conselheira quando eu precisei, além de ter sido essencial para que eu acabasse em um namoro.

As vezes nós vamos até o orfanato para visitar a Sayuri e numa dessas visitas acabamos conhecendo um menino chamado Hiro, na verdade a Mari foi quem o conheceu. Aparentemente os pais desse garoto são imigrantes ilegais que acabaram deixando ele no orfanato quando ainda era recém-nascido. Mari parece ter sentido algum tipo de empatia por aquele garoto, pois os dois são bem parecidos no geral.

Logo que chegamos no orfanato, Sayuri apareceu para nos cumprimentar. — “Há quanto tempo Souta-kun, Mari-chan.”

“Na verdade, foram só duas semanas.” — Minha namorada respondeu da maneira mais grosseira possível.

“Isso é só uma maneira de cumprimentar!” – Eu tentei corrigir a atitude daquela garota nada amigável. – “Me desculpe Sayuri, hoje ela acordou de mau-humor.”

“Parece que vocês dois nunca mudam.” – Sayuri sorriu como se não se importasse com a grosseria alheia. – “Vamos entrar, o Hiro está ansioso para ver vocês.”

Nós começamos a andar por uma gigantesca área aberta, até chegarmos no prédio principal onde havia vários brinquedos espalhados. Sayuri me disse que geralmente as crianças passavam a maior parte do tempo do lado de fora, mas por causa da reforma que estava acontecendo no orfanato elas precisavam ficar o maior tempo possível dentro do prédio para prevenir acidentes.

Aquele orfanato vivia apenas de doações e abrigava cerca de vinte crianças. Há algum tempo atrás ele correu o risco de fechar por causa da estrutura debilitada. Sayuri e todas as crianças começaram a fazer várias campanhas para conseguirem arrecadar dinheiro, mas a única coisa que realmente salvou esse prédio foi pedir ajuda para uma garota podre de rica que deixa todo o seu dinheiro no banco, talvez vocês conheçam ela melhor como Takahashi Mari. Para ela, a quantidade doada foi de dois meses de salário, mas aquilo era o suficiente para reconstruir o prédio inteiro e ainda comprar mais produtos básicos para as crianças.

Uma vez eu perguntei para Mari o motivo de ela ter doado tudo aquilo e a resposta direta não parecia ser a verdade: “se o orfanato fechasse o Hiro iria para outro lugar e a Sayuri ficaria sem emprego”. Mari tentava se convencer que aquela era a verdade, mas eu sabia que alguma parte humana naquele pequeno coração que se negava a aceitar outras pessoas havia ficado comovido com o olhar entristecido da infância.

As crianças ainda estavam almoçando. Isso me fez lembrar que tanto eu quanto Mari não havíamos comido nada que não fosse os biscoitos. Me perguntei se minha namorada não estaria com fome, mas acabei ficando calado, para evitar constrangimentos.

Antes que a gente tivesse chance de conversar, um grupo de crianças entrou naquela bagunçada sala e começou a brincar sem se importar com a nossa presença. Uma delas se separou da multidão e foi na nossa direção, dando um abraço na Mari.

“Você voltou, mãe.” – O garoto disse como se a palavra “mãe” fosse algo natural.

“É bom te ver de novo, Hiro.” – Mari respondeu sem ainda se importar com o vocativo.

“Que história é essa de mãe?”

“Eu pedi para o Hiro me chamar assim a partir de agora.”

“Eu acho que isso não é muito recomendável...” – Antes que eu pudesse terminar minha frase, Hiro soltou a Mari e me encarou com um olhar nada amigável.

“Então você também veio, Souta-san.”

“Que diferença de tratamento é essa?”

O garoto me ignorou e voltou a dar a atenção para a Mari. – “Mãe, eu desenhei o diagrama que você tinha me falado na semana passada.”

“Sério? Você prestou atenção nos níveis de acesso?”

“É claro!”

“O que você anda ensinando para esse menino?” – Ninguém me respondeu.

“Me segue, eu vou te mostrar!” – Hiro puxou a Mari para bem longe de onde nós estávamos e começou a mostrar algumas folhas para ela.

O garoto de pele escura e cabelo liso tem uma aparência muito diferente do que se costuma ver pelo Japão, tento provavelmente descendência latina. Aos onze anos, a sua altura é um pouco maior do que a média comum, tendo um metro e quarenta e cinco. Seus olhos castanhos refletem um brilho chamado “curiosidade pelo mundo” e o sorriso que ele nunca tira do rosto mostra a inocência de uma criança. Mesmo com essa descrição admirável, Hiro não parece ter muitos amigos, já que ele está sempre brincando sozinho.

“Eles realmente se entendem.” – Sayuri percebeu que eu encarava a criança com um olhar nada amigável.

“Esse garoto é capaz de acompanhar a genialidade da Mari, isso nunca aconteceu antes.”

“Você tem ciúmes dele?”

“Se for para mim perder para um garoto que tem a metade da minha idade eu desisto da vida.”

Sayuri deu uma risada e depois me chamou para sentar num banco que ficava no canto da sala. – “Você não deveria se preocupar com a Mari, ela já não consegue mais viver sem você.”

“É cada peso que eu sou obrigado a carregar... Por falar nisso, como estão as coisas entre você e o Yugito-senpai?”

“Nós terminamos...” – Eu me surpreendi com aquela resposta direta.

Diferente de mim e da Mari, Sayuri sempre teve muitos amigos na escola e um dos mais queridos era o Yugito-senpai, um garoto do clube de teatro um ano mais velho do que a gente. Ele e Sayuri acabaram fazendo a mesma faculdade e começaram a namorar há dois anos atrás.

“Me desculpe por ter perguntado.”

“Tudo bem, eu já superei isso.” – A expressão de tristeza mascarada por um sorriso que Sayuri fazia mostrava que ela estava mentindo, mas decidi não conversar mais sobre assunto. – “Você disse por mensagem que precisava de um conselho meu, certo?”

“Na verdade, eu queria a opinião de uma pessoa normal sobre o relacionamento meu.”

“Como assim?”

“Eu não sei bem como explicar, mas eu costumo ver vários casais por aí e comparado a eles nós parecemos mais dois irmãos, quero dizer, dá para contar na mão quantas vezes a gente já se beijou e nós ainda nem fizemos...” – Eu acabei corando antes de terminar a frase. – “Sexo.”

Sayuri se engasgou com a própria saliva depois da minha confissão, como se isso fosse algo realmente assustador, assim que ela conseguiu voltar a respirar, voltou a falar num tom de surpresa. – “Mas vocês não dormem juntos?”

Eu assenti com a cabeça. — “Só dormimos.”

“Considerando que vocês já moram juntos é incomum que ainda não tenha acontecido nada, mas acho que as coisas têm que vir ao seu tempo. Quanto à parte que você acha o relacionamento seu diferente do normal eu acredito que isso é uma coisa boa.”

“Como assim?”

“A maioria dos casais vê o parceiro como uma criatura endeusada, já vocês se conhecem há tanto tempo que essa visão nunca existiu. Isso significa que vocês se conhecem de verdade.”

“Então o que eu deveria fazer?”

“Deixar as coisas como estão. Como eu já disse antes, a Mari já não consegue mais viver sem você, então ela não vai se incomodar no quanto você é romântico.”

“Acho que ela poderia conseguir qualquer cara melhor do que eu na esquina mais próxima...”

“Não é bem assim que funciona. Já parou para pensar no motivo das pessoas odiarem tanto a Mari e no porquê de você ser o único que não tem esse sentimento?”

Eu olhei para a garota que estava longe escrevendo alguma coisa num papel como se estivesse ensinando o seu filho. – “Eu consigo entender o porquê das pessoas a odiarem, mas nunca pensei sobre a segunda parte.”

“Você ainda se lembra de quando a gente se conheceu?”

Aquela pergunta não parecia se encaixar na nossa conversa, mas mesmo assim eu decidi responder. – “Quando eu entrei para o clube de teatro.”

“Parece que foi ontem quando o meu colega de classe quase chorou ao saber que o clube de teatro não escrevia roteiros originais.”

“Não precisa me lembrar dessas coisas constrangedoras...”

“No final você foi obrigado a nos ajudar atuando e o clube de teatro aceitou encenar alguma peça que você escrevesse.”

“Pensando agora já faz sete anos que isso aconteceu.”

“A peça que você escreveu fez um sucesso gigantesco e nós começamos a usar os roteiros que você criava. Eu achava impressionante como você conseguia captar os sentimentos de todos os membros do clube e criar para cada um o personagem necessário sem nem mesmo conseguir conversar com os alunos.”

“Eu nem era tão bom assim, só ligava o meu computador e escrevia o que passava na minha mente.”

“Mas esse é o problema, parecia ser tudo tão fácil. Foi com isso que eu percebi o porquê de só você conseguir se dar bem com a Mari: assim como ela, você nunca falha.”

“Isso não faz sentido, afinal eu já falhei várias vezes.”

“Então me diga um roteiro seu que não deu certo.”

“Agora é difícil de lembrar...”

“Você não tem um QI superelevado ou um currículo revolucionário, mas mesmo assim você consegue tudo o que tenta de verdade.”

“Eu ainda não consigo entender no que você quer dizer.”

“Em suma, a Mari nunca vai te deixar porque assim como ela você não sabe qual é a dor de lutar até não aguentar mais para no final ser derrotado.”

“Não sei se concordo muito com você, na verdade, eu acho que é algo muito mais simples.”

“Essa é a minha opinião, mas acho que você não vai conseguir entende-la.”

As palavras da Sayuri me fizeram refletir sobre a minha vida e lembrar os roteiros que eu já escrevi na vida. Em uma parte, ela estava certa, não importe quanto eu tente lembrar, todas as apresentações que eu escrevi sempre deram certo, até mesmo o meu primeiro anime teve a parte da roteirização elogiável. Talvez eu seja tão assustador quanto a Mari, talvez eu tenha destruído muitas pessoas que perderam horas de sono com algo que não me demandou o mínimo de trabalho...

“Mas você não precisa ficar pensando muito sobre isso.” – Sayuri cortou meus pensamentos quando percebeu o meu olhar de tristeza. – “O que importa é que está tudo bem na sua vida.”

“Obrigado pelo conselho.”

“Mas mudando de assunto agora... Você conseguiu marcar a cirurgia?”

Eu balancei a cabeça para concordar. — “Vai ser daqui há três meses.”

“E você já contou para a Mari?”

“É só uma cirurgia simples, eu não quero preocupa-la com algo desnecessário.”

“Se eu fosse você eu contaria.”

“Por quê?”

“Você está a tratando de maneira muito infantil se acha que ela vai se destruir com uma única notícia ruim.”

“Acho que você está certa, eu vou contar para ela no momento...”

Antes que pudesse terminar a minha frase, eu percebi que a Mari estava voltando para a nossa direção. – “Por que vocês estão conversando aí sozinhos?”

“O que você esperava? foi você que saiu correndo com aquele garoto.”

“Não chame meu filho de ‘aquele garoto’!”

“Tanto faz o nome, você não deveria ter ciúmes quando foi você que me deixou sozinho!”

“Vocês dois realmente não mudam.”

Nós ficamos a tarde inteira no orfanato. Mari do passou a maior parte do tempo conversando com o Hiro, já eu alternei entre escutar a conversa estranha desses dois, falar com a Sayuri e brincar com as outras crianças do orfanato.

Quando a lua já começava a aparecer no céu, eu e a Mari voltamos para a casa. Eu ainda não havia comido nada, por isso estava quase desmaiando, já minha colega de casa não estava com fome pois havia comido os biscoitos com aquele garoto sem dar nenhum para mim.

O resto do dia se seguiu normalmente, com exceção do final, quando eu fui surpreendido com um comentário da minha namorada quando já estávamos no nosso quarto nos preparando para dormir:

“Ei Soul, eu consegui ouvir uma parte da sua conversa com a Sayuri.” – Mari parecia estar tensa, por isso eu imaginei que fosse a parte da cirurgia.

“E o que você acha sobre isso?”

“Se você quiser fazer qualquer coisa comigo, sinta-se à vontade...” – Mari começou a ficar extremamente vermelha, ao ponto de eu imaginar que ela fosse explodir.

“Que parte você escutou?”

“Eu não entendi direito, mas você estava falando com a Sayuri que estava incomodado da gente nunca ter feito sexo.”

Eu também acabei me avermelhando. – “Então foi isso?”

“É esperado que você tenha esse incomodo, afinal isso é uma relação normal para a reprodução da espécie humana...”

“Não é isso que o seu rosto vermelho está dizendo.”

“Você está do mesmo jeito!”

“Mas é porque você foi tocar nesses assuntos constrangedores.”

“E aí, você vai fazer alguma coisa ou não?” – Eu fiquei em silêncio por um segundo, nós dois não conseguíamos nos olhar por causa da vergonha.

“Eu passo.” – Eu me joguei na minha cama tentando mascarar o constrangimento.

“Tem certeza disso?”

“É claro! Você mesma disse que nós dois somos superiores a qualquer outro casal, não precisamos desses prazeres humanos para sermos felizes.” – Com essa minha frase, Mari perdeu a vergonha no rosto e conseguiu me olhar diretamente. – “Além do mais, nós já temos um filho, não precisamos pensar em reprodução tão cedo.”

Mari sorriu para mim e depois pulou do meu lado na cama.