A pessoa mais inteligente do mundo
4 Trabalho
Trabalho
Quando eu era menor acreditava que uma produtora de animes era um local mágico, onde a criatividade e a produtividade de todos se encontravam para formar uma incrível obra e todos os funcionários viviam felizes, se ajudando mutualmente. Hoje em dia, quanto mais tempo eu passo nessas produtoras mais depressivo eu fico, pois esses lugares nada mais são do que escritórios como qualquer outro, onde os funcionários se matam de trabalhar e passam as folgas contando as moedas para não terminar mês no vermelho. Eu confesso que se eu não morasse com alguém que tem um salário monstruoso estaria na mesma situação, afinal meu lucro mensal é bem baixo em relação a maioria dos trabalhos comuns.
Eu geralmente tenho a liberdade de trabalhar em casa, porém preciso vir constantemente a minha produtora para resolver assuntos que não dão para tratar por e-mail. Dessa vez eu vim conversar com meu chefe sobre o meu futuro projeto. Como a minha parte no primeiro anime já havia se encerrado, eu precisava encontrar um novo trabalho.
Eu estava sentado do lado de fora da sala do presidente da editora. Era possível ver uma grande parte da produção do anime e constantemente se escutava pessoas gritando coisas do gênero: “como está revisão do episódio cinco?” ou “com quem ficou as gravações da dublagem do episódio sete?”. Eu encarava aquela enorme bagunça agradecendo por poder trabalhar no sossego da minha casa. As únicas pessoas do ramo de produção que eu conhecia era o diretor do projeto, o presidente e uma estagiaria que vinha pegar os meus roteiros, essa última nem o nome eu sabia.
Depois de algum tempo esperando, o presidente me mandou entrar. Ele estava de pé, do lado da sua mesa com um olhar nada amigável, mas isso parecia ser comum já que eu nunca o vi de maneira diferente. De nome Matsumoto Han, o presidente parece um típico velho mal-humorado da ficção, com uma barba por fazer e problemas de calvície, além de uma baixa estatura e uma barriga que demonstra a sua falta de exercícios físicos. Mesmo com a sua aparência nada agradável, o presidente Han era um homem simpático que sabia lidar muito bem com as pessoas.
“Bom dia, Souta-san.”
“Bom dia.”
“Pode se sentar em qualquer lugar.” – Eu puxei a cadeira que estava mais próxima de mim.
“E como foi a sensação de ver o seu primeiro episódio na televisão?”
“Foi ótima.”
“Como sempre, você é uma pessoa de poucas palavras.” – Eu não soube como responder aquilo, por isso fiquei calado. – “Me pergunto como conseguiu namorar uma jovem gênia.”
“Você conhece a Mari?”
“Eu já ali algumas coisas sobre ela. A sua namorada é uma pessoa que já entrou para a história do Japão. O seu relacionamento com ela eu acabei descobrindo enquanto ouvia algumas fofocas do pessoal da produção.”
“Então meus esforços para deixar a minha vida pessoal escondida estão sendo inúteis?”
“Claro que não. Isso prova que você não está namorando só por causa do sucesso. De qualquer forma, acho que não foi disso que você veio falar.”
“Sim, eu queria participar de alguma nova produção.”
“Me desculpe Souta-san, infelizmente não temos nenhum trabalho disponível por enquanto, mas podemos procurar você daqui...” – Antes que o presidente pudesse terminar a sua frase o seu celular tocou. — “Desculpe, eu preciso atender.”
“Tudo bem.”
O presidente ainda usava um celular comum, que retirou do bolso para atender. – “Alô... É ele mesmo... O quê?... Mas você já como está o roteirista?... E não tem mais jeito de ele produzir?... Tudo bem, ligue para algum outro roteirista bom, nós precisamos de um original para ontem!... E diga que nós lamentamos pelo acidente.” – Ele desligou o telefone com um olhar mais raivoso do que o comum. – “Me desculpe Souta-san...”
“Me deixe fazer esse trabalho!”
“Como assim?”
“Eu posso estar enganado, mas pelo que eu entendi da ligação, o roteirista que iria escrever alguma obra original teve algum problema e agora vão precisar de um novo para substituir. Se o senhor me permitir eu posso ser responsável por isso.”
“Infelizmente eu não posso fazer isso, mesmo que o roteiro do seu projeto tenha ficado muito bom, você ainda é inexperiente e esse projeto será exibido em um bom horário...”
“Como eu não tenho nenhum trabalho, eu posso escrever esse roteiro para vocês jugarem qual está melhor, assim vocês têm duas opções de conseguirem um bom roteiro. Vocês não precisam nem me pagar se o projeto não funcionar.”
O presidente pensou por um tempo. – “Acho que não tenho motivos para recusar a sua proposta. Você tem duas semanas para entregar pelo menos o projeto dos quatro primeiros episódios. Eu sei que é pouco tempo, mas é o que eu posso te dar.”
“Muito obrigado! Qual era o tema da história que foi perdida?”
“Era uma dessas histórias de garotas mágicas que se dão mal no final. Mas não se preocupe com o enredo anterior, tente só criar um bom roteiro.”
“Tudo bem, eu vou tentar.”
Quando eu sai da sala do presidente me segurei para não me jogar no chão. Nunca falei daquela maneira com o meu superior e ainda por cima dando certo. Precisei segurar ao máximo o meu nervosismo para conseguir falar daquela maneira e ainda acho que o presidente percebeu como eu estava me sentindo. Felizmente eu consegui uma chance de tentar escrever uma grande obra original e espero que não decepcione.
O meu tempo estava curto e eu teria que trabalhar ao máximo para terminar esse projeto. Era um anime de temporada única com vinte minutos cada episódio. Já imaginava as horas de sono que precisaria perder para acabar essa história e ainda nem havia imaginado qual seria o tema desse roteiro.
Eu havia ficado de me encontrar com a Mari no seu trabalho assim que eu saísse da reunião. Como o lugar de trabalho dela ficava entre o estúdio e a nossa casa era comum isso acontecer, mesmo que geralmente eu fique muito tempo esperando por ela.
A faixada do prédio onde Mari trabalhava era assustadoramente grande e você provavelmente não imaginaria que fosse uma empresa ao vê-lo. O local consiste em vários prédios com várias áreas de pesquisas. Era praticamente como uma pequena cidade no centro de Tóquio. Eu costumava me sentar num banco que ficava do lado de fora da empresa e trazia meu computador para escrever os meus textos enquanto esperava, infelizmente dessa vez eu não pensei que teria uma história para criar.
Em pouco tempo de espera, um homem de aproximadamente sessenta anos me abordou. Eu nunca havia visto ele antes, mas pelo seu terno presumi que ele cuidava de alguma parte administrativa daquela empresa. Ele dava um sorriso bondoso e estendia a mão para mim como se eu fosse alguém importante.
“Você é o Souta, certo?”
“Sou eu mesmo, mas quem é você?”
“Me chamo Ryoji Chubachi, sou o vice-presidente dessa empresa.” — Eu arregalei os olhos surpreso com a pessoa que estava na minha frente, depois me levantei e apertei a mão dele.
“É um prazer te conhecer, Ryoji-san.”
“Não precisa dessa formalidade, eu também estou feliz em te conhecer. O que acha de entrar para bebermos alguma coisa?”
“Eu posso?”
“É claro! Eu estou muito curioso para conversar com você.”
Eu ainda não havia entendido sobre o que o vice-presidente da maior empresa de tecnologia do mundo queria conversar comigo, mas presumi que fosse algo que envolvesse a Mari. Eu o segui para dentro da empresa e entramos no primeiro prédio. Tanto eu quanto o vice-presidente não dissemos nenhuma palavra enquanto caminhávamos. Dentro daquele lugar havia algo que se assemelhava com um restaurante, quando nos sentamos em uma mesa comecei a perceber que vários funcionários olhavam para a gente como se não fosse comum ver uma pessoa tão importante naquele lugar.
“Você bebe alguma coisa alcoólica?” – O presidente me perguntou.
“Não tenho costume.”
“Então vou pedir um refrigerante para você, tudo bem?”
“Tudo.”
O homem apertou o botão de um aparelho que estava sobre a mesa e começou a falar. – “Uma cerveja e uma Cola.” – Depois ele soltou o botão.
“Não tem problema beber álcool no horário de trabalho?”
“Eu não me importo. Sinceramente, alguns dos nossos funcionários conseguem ser mais produtivos quando estão bêbados.”
“Isso é bem diferente.”
“Eu sou do tipo que acredita que se deve dar liberdade aos funcionários para conseguir extrair o máximo de sua criatividade.”
“Os estúdios de animes deveriam aprender mais com o senhor...”
“Você é roteirista, não é mesmo?” – Uma garçonete veio até nós e serviu as bebidas sem atrapalhar a nossa conversa.
“Sou, mas como você sabe?”
“A Mari-chan me contou.”
“Vocês são amigos?”
“Na verdade, não sei o que nós somos. Eu geralmente gosto de manter amizade com os meus funcionários, principalmente com os mais talentosos, mas a Mari-chan é uma pessoa difícil.”
“Eu sei bem disso...” – Dei um gole no meu refrigerante seguido de um suspiro demorado.
“Sempre que eu tento puxar algum assunto com ela eu sou ignorado ou recebo uma resposta mal-educada.”
“Desculpe-a por isso.”
“Tudo bem, eu já estou velho demais para me ofender com essas coisas. O mais interessante é que os únicos assuntos em que isso não acontece envolvem você.”
“Mas como você soube que ela namorava comigo?”
“Ela tem uma foto de vocês dois na mesa dela. Eu sou bom para lembrar de rostos, mesmo vendo poucas vezes.”
“É sério? Nem eu sabia dessa foto.”
“Uma vez eu perguntei para ela quem era aquele rapaz e depois de mais algumas perguntas nada mais fazia a Mari-chan parar de falar sobre você.” – Eu dei mais um gole no refrigerante, mas não respondi nada. – “Aquela garota realmente te ama.”
Eu acabei avermelhando com aquela frase. – “Ela não tem muitos amigos, então se apaixonaria por qualquer idiota que a desse um pouco de atenção.”
“Esse era meu medo, por isso eu quis ter essa conversa com você. Seria problemático para a empresa se um canalha estivesse manipulando a cabeça dela.”
“Como se eu conseguisse manipular a Mari de alguma forma... E o que você achou de mim? Eu sou um canalha aceitável?”
“Eu não esperava um gigante, mas tirando isso você é aceitável.”
“Obrigado, eu acho.”
“Sabe Souta, eu tenho um pouco de pena da sua namorada. As pessoas que estão em volta dela acabam a odiando e ela tenta mentir para si mesma dizendo que não se importa com isso.”
“E você não a odeia?” – Eu dei meu último gole no refrigerante, enquanto isso Ryoji-san já havia terminado sua cerveja.
“Eu realmente acho injusto que uma pessoa possa ser tão genial sem precisar se esforçar tanto, mas estou velho demais para me preocupar com isso. Eu já tenho idade para me aposentar e minha filha já está criada, agora o meu único objetivo é poder garantir a felicidade da juventude.”
“Poético... Obrigado por cuidar da Mari, agora eu preciso ir me encontrar com ela.”
“Não há de quer.”
Eu estava atrasado para me encontrar com a minha namorada, provavelmente ela saiu há dez minutos atrás. Eu fui correndo do prédio até a parte de fora e vi que ela estava me esperando no mesmo lugar que eu havia me sentado antes.
“Me desculpe pelo meu atraso!” – Eu me aproximei da Mari que não parecia estar tão mal-humorada.
“Tudo bem, mas por que você estava dentro do meu local de trabalho?”
“É uma longa história...” – Eu contei tudo o que havia acontecido. Nós fomos andando enquanto conversávamos.
“Então aquele velho veio te chatear?”
“Na verdade, eu achei ele simpático.”
“É que você não tem que conviver com ele. Aquele jeito bondoso demais me irrita.”
“É bom saber, vou começar a ser chato com você.”
“Nada disso! Eu que sou a mal-humorada do relacionamento.”
“E quando a gente resolveu isso?”
“Numa reunião que teve assim que começamos a namorar, mas você não foi convidado para ela.”
“Então quem estava na reunião? Não me diga que você estava conversando com seus bichos de pelúcia de novo...”
“Talvez...”
“Mas você disse que não fazia mais isso quando entrou no ensino médio.”
“Mas aquele era um momento especial. E como chegamos a esse assunto? Por que não falamos da sua reunião?” – Depois que a Mari perguntou sobre isso eu dei um suspiro de decepção. – “Ela foi ruim?”
“Na verdade, correu tudo bem, o único problema é que agora eu vou ter que escrever um roteiro original em apenas três semanas.”
“Só isso?”
“E o pior é que eu não faço ideia do que escrever...”
“Por que você não cria uma história baseada em nós dois?”
“Não dá, vão dizer que é uma cópia de Sakuratou.”
“Será?”
“É claro! Um cara comum e uma garota super gênio que tem dificuldades de fazer tarefas domésticas vivem embaixo do mesmo prédio. Agora só precisamos de uma senpai maluca.”
“Pensando dessa forma... E em que gênero você está pensando?”
“Eu queria fazer algo que conseguisse ser moe e tenso ao mesmo tempo...”
“Então vamos para o parque!”
“O que isso tem a ver?”
“Não tem coisa mais fofa e assustadora do que crianças brincando, talvez isso dê alguma inspiração para você.”
“Parece ser uma boa ideia...”
Nós desviamos o rumo para a nossa casa e paramos em um parque próximo. Ele lembrava muito o parque em que eu e Mari nos conhecemos, mas em proporção muito maior. Nós nos sentamos em um banco que ficava mais ao centro do parque. Não havia muitas crianças naquele horário, mas algumas estavam brincando com espadas de brinquedo.
“Eu esqueci de te contar uma coisa.” – Mari tirou a minha atenção das crianças.
“O que foi?”
“Aceitaram o meu pedido de área de estudo e hoje eu fui conhecer o prédio de realidade aumentada.”
“É sério? E como é?”
“Muito incrível! Você acredita que já estão usando os celulares mentais para criar jogos?”
“Então eu estou mais próximo de conseguir minha namorada virtual real.”
“Só por cima do meu cadáver.”
Uma voz de criança tirou a atenção minha e da Mari, ela vinha do grupo de crianças que brincavam com a espada. A voz era uma garota que brigava com os outros.
“Oni-chan, agora é a minha vez de brincar!” – A garota começou a empurrar o irmão para tentar pegar a espada.
“Mas você vai se machucar.”
“Não me importo, eu quero lutar também.”
De uma certa forma, novamente a Mari havia me ajudado. Eu tive uma ideia para a história. Ainda era uma ideia primitiva, mas que poderia ser muito bem desenvolvida.
“Ir para esse parque realmente me ajudou.” – Eu murmurei para mim mesmo.
“Por quê?”
“Eu acabei de ter uma ideia.”
“Me conte ela!”
“Ela se passaria num futuro próximo, 2030 aproximadamente, nessa época um jogo de realidade aumentada fez muito sucesso e ele consiste em você usar o seu celular mental para enxergar monstros e mata-los usando espadas que também só existem no jogo. Como nele também existem batalhas entre jogadores, existe uma comunidade competitiva muito forte.”
“Uau, realmente parece algo que você veria no futuro, mas quem seria o protagonista?”
“Estava pensando numa menina de uns onze anos.”
“Uma criança como protagonista? Parece interessante.”
“Ela teria o sonho de se tornar uma profissional nesse jogo.”
“Muito legal, mas onde fica a parte tensa?”
“Eu ainda não pensei nisso...”
“Acho que seria legal se a protagonista tivesse um mestre.”
“Talvez... Já sei! O mestre dela é um colegial psicopata.”
“Isso é tão estranho que chega a ser incrível.”
“Agora eu preciso voltar logo para casa e colocar as ideias no papel!”
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