A pedra no meu sapato
4 Esclarecimento
Notas iniciais
O despertador do meu celular apitava. Resolvi ignorá-lo por algum tempinho... Mas não adiantou. Gritei:
— DESLIGAR!
Ele parou de despertar. Meu celular tinha comando de voz e quando eu estava com uma preguiça extrema começava a gritar com ele.
Com muito esforço, me levantei e fiz tudo o que tinha que fazer: trocar de roupa, escovar os dentes, arrumar o cabelo, comer, pegar o material e sair.
Mas ao trancar a porta e deparar-me com o elevador, me lembrei de Peter. Lembrei de seus olhos fitando os meus enquanto as portas se fechavam. De como ele parecia querer gritar naquele momento. Mas, seria muito abuso ir visitá-lo.
Chamei um táxi e fui para a escola. Ele rejeitara qualquer contato comigo no dia anterior, então, eu não o atrapalharia. Era tudo muito confuso, mas não me impedia de pensar desesperadamente no que poderia ter acontecido.
Desci do veículo e Julie estava encostada no portão. Ainda não havia dado o sinal, e todos os alunos estavam no pátio.
— Você soube? — Ela disse vindo até mim.
— De que?
— A mãe do Peter.... Morreu.
Agora tudo fazia sentido. Ele chorou porque a mãe dele... A mãe... A minha não era importante. Mas a dele com certeza deveria ser. Eu nunca soube o que é ter amor de mãe, mas...
Agora eu via sentido no olhar triste dele. No choro dele. Em tudo...
— Sarah? — Julie fazia gestos em minha frente.
— Ah, agora faz sentido... — Eu disse colocando as duas mãos na cabeça.
— Como assim? — Ela perguntou, me encarando.
— Ontem, ele estava na minha casa e... Recebeu uma ligação. Foi embora sem dizer nada e... Eu não quis incomodar.
— Ah, sinto muito...
— Eu também. — Murmurei.
— TÁXI!
Eu e Julie nos viramos e vimos uma figura de cabelos negros e olhos castanhos adentrar o táxi que me deixara.
— Eu não.. — Julie disse dirigindo-se ao táxi. — Não... Onde você vai?!
— Até a casa do Pet.
O veículo foi embora e eu entendi quem era. Lucy.
— Hmph.
— Que foi?
— Essa Lucy. Espero que não incomode o Peter. — Julie disse.
O sinal bateu. Subimos até a sala. Meu primeiro e longo dia de aula inteira.
A professora entrou, ajeitou seu material na mesa dela e foi até o centro da sala.
— Alunos, vocês devem saber... Se não sabem, uma grande pessoa morreu hoje. Rochelle Johnson. A mãe do Peter, colega de vocês. Ela foi uma grande mulher e ajudou-nos muito todos esses anos, permitiu muitos avanços e abriu portar para nós... Não incomodem o Peter quando ele voltar, porque é muito difícil. Antes de fazer qualquer piada. Pensem como se fosse a mãe ou o pai de vocês.
Pensem como se fosse a mãe ou o pai de vocês.
Foram longas horas lá dentro, o recreio foi divertido mas, a única coisa em que eu pensava era Peter. Em que Lucy estava lá com ele e eu não. Mas... Faziam dois dias que eu o conhecia... Talvez, realmente não fosse necessário que eu fosse até lá.
O tempo passou devagar. Cada minuto parecia uma tortura. Até que eu ouvi o último sinal bater.
Juntei meu material e joguei dentro da mochila. Levantei-me da cadeira e vi a ruiva já se direcionando até mim.
— Vamos lá?
— Lá aonde? — Perguntei.
— Boba. Na casa do Peter. — Julie colocou a mão no meu ombro. — Ele precisa de você.
— Nos conhecemos a dois dias. — Eu ajeitei minha mochila. — Lucy já está fazendo companhia para ele.
— Ah, por favor. — Ela me encarou, séria. — Não seja ridícula. Ele ignora qualquer menina que chega perto dele. Ele foi até você. Tem coração de pedra. Sorriu pra você. Beijou você! Agora pega essa merda desse seu celular e chama um táxi. Nós vamos pra lá. Agora.
Ela estava furiosa. E por mais que eu não quisesse aceitar, ela estava certa. Ou não. Peter é confuso. Ah meu Deus.
— LIGA! — Ela berrou.
Todos em volta de nós na sala nos encararam e eu apenas peguei o meu celular e fiz o que a ruiva furiosa mandara. Ela foi me puxando até o portão, e quando chegamos o táxi já estava lá.
Entramos no veículo e Julie disse o endereço. Como ela sabia? Não importa. Em dez minutos chegamos até lá e havia um homem entrando no prédio. Ele foi gentil e nos deixou passar junto dele, sem precisar apertar o interfone. Subimos rapidamente de elevador até o quinto andar, que por acaso era o mesmo do homem. Contamos a ele da morte da mãe de Peter, ele soltou uma lágrima e disse que os conhecia a muito tempo.
Quando o elevador se abriu enfim, o vizinho despediu-se e foi até a sua casa. Nós percebemos que a porta estava apenas encostada e a abrimos. Vi a silhueta de Lucy sentada no sofá e fui até lá.
— Oi. — Disse quase sussurrando.
Quando cheguei de frente percebi que Peter estava encolhido no sofá com a cabeça escorada em cima das coxas dela. Grrrrr.
— Sarah. — Ele disse.
Lucy me ignorou e Julie cumprimentou-o. Ele fez o mesmo.
— Que bom que você veio. — Ele levantou-se e veio até mim.
Abraçou-me forte. Eu não esperava isso. Correspondi e percebi Julie olhando para mim boquiaberta. Quando ele afastou seu rosto de meu ombro, não me soltou. Me encarou fixamente. Ele estava com aquela expressão monótona de sempre.
— Obrigado. — Ele sorriu e me deu um beijo na bochecha.
Afastou-se de mim.
— Você está melhor, né? — Perguntei.
— Sim. — Ele respondeu.
— Então... Eu já vou indo.
— Já? — Ele me encarou novamente.
— É... Não quero estragar a companhia.
— Pois é. — Lucy se meteu.
— Não está atrapalhando nada. Eu me sinto melhor com você aqui. Antes não fazia diferença.
— Quê? — Lucy berrou, levantando-se do sofá.
Eu não me segurei e ri. Alta e nitidamente.
— Você cale a sua boca. — Ela gritou.
— Lucy, quem sabe você não vai embora e para de nos atrapalhar? — Peter sugeriu.
— Atrapalhar o que? — Ela estava vermelha de raiva. — Vai trepar com ela?
Peter a encarou e sorriu maliciosamente.
— A noite toda.
PUTA QUE PARIU! COMO ELE DIZ UMA COISA DESSAS?! Eu fiquei totalmente sem reação. E vermelha.
Julie começou a rir descontroladamente. Eu não gostava, quer dizer, não gosto desse tipo de brincadeira. Nunca gostei. E...
— Então eu vou embora. — Ela gritou, pegando seu casaco do sofá. — Boa trepada essa noite!
Ela saiu caminhando até a porta.
— Se se sentir sozinha, chama o Louis. — Peter gritou.
Lucy bufou como um touro e bateu a porta com toda a força.
Julie dirigiu-se cambaleando até Peter e levantou a mão. Ela ria sem parar.
— Toc...Toca aqui... — Ela disse em meio ao riso.
Peter bateu na mão dela e os dois riram. O Peter riu? Foi isso mesmo produção? A sua mãe morreu, ele é o cara mais triste do mundo e... Riu?
Mas, eu não posso esquecer, do que ele acabou de fazer.
— Peter?! Como você diz uma coisa dessas? — Eu gritei.
— Só queria mandar ela embora. — Ele já estava sério de novo.
— Isso é jeito? Manda ela embora usando o nome de outra pessoa. Eu to ferrada. Tenho que mudar de cidade. — Eu disse colocando a mão na testa.
— Engraçadinha. — Ele virou para Julie. — Chama o Henry aí, Julie. Vamos fazer um programa de casais.
— Bora! — Ela sorriu, pegando o telefone.
— Programa de casais? — Perguntei.
Quem ele pensa que é?
— Sim, eu e você, Henry e Julie.
— Eu e você não som...
— Não precisa namorar pra ser casal, sua burrra. Você é muito maliciosa. O que te vem a cabeça quando dizem "casal de irmãos"? Incesto?
Filho da mãe. Eu estava com vontade de mandar ele bem longe. Mas, não respondi. Julie já havia desligado o telefone e Henry já estava a caminho.
— A gente tinha essa tradição — Julie guardou o celular no bolso da saia — De programa de casais. Só que a Lucy estava incluída.
— Eca. — Peter disse. — Eu não sei o que me deu na cabeça pra namorar ela.
— Bom... Vamos te animar, Peter.
— Boa sorte. — Ele disse.
Nos sentamos no sofá, e ele começou a remexer nas gavetas da estante onde ficava a televisão. De repente ele correu até o quarto.
— Acho que tá aqui. SARAAAH! VEM CÁ! — Ele gritou.
Eu fui correndo, parecia ser algo sério, ainda mais quando Julie arregalou aqueles olhos azuis para mim. Quando cheguei lá, entrei no quarto e não viu nada. Espiei atrás da porta e Peter estava lá. Ele me empurrou, derrubando-me na cama e fechou a porta, trancando-a.
— Que bosta?!? — Gritei.
— Só quero que você fique aqui comigo. — Ele sentou do meu lado e me abraçou. — Pela primeira vez na vida, eu sinto que eu posso contar com alguém.
Ele me encarava. Aquele olhar sério, olhos azuis, e sexys... Sarah se controle.
— Eu sei que a gente mal se conhece mas, você me faz sentir bem. — Ele me abraçou mais forte.
— Igualmente. — Eu ri.
— Eu te amo.
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