A pedra no meu sapato
6 A foto
Notas iniciais
Acordei. Minha rotina havia começado. Lavei, sequei o cabelo, comi, e etc. Fui para a escola, de táxi, novamente.
Atrasada, novamente. Corri até a sala e, chegando lá, o professor me deixou entrar. Sentei no meu lindo lugar, ao lado de Peter. Assim que tirei o material da mochila, ele me cutucou.
— Você sabia que hoje tem foto?
— Como assim?
— Hoje é o dia em que tiramos fotos, de alunos, você sabe.
Droga. Me virei pra frente e voltei a prestar atenção na aula. Mais ou menos, na verdade. Eu deveria ter me preparado pra ir para a escola, pela foto. Agora, eu estava horrível. Com o cabelo amarrado, e a franja com alguns fios caindo no meu rosto.
A propósito, meus cabelos são castanhos, assim como os meus olhos. Eu realmente sou comum. Não sei o que Peter viu em mim. O professor era Tom, de novo. Ouviu-se batidas na porta, e ele foi até ela, e a abriu. Um menino de olhos verdes e cabelos castanhos — muito bonito por sinal hehe — enfiou a cabeça pra dentro da sala e disse:
— Tá na hora da turma de vocês.
Peter foi o primeiro a se levantar e dirigiu-se até o tal menino, cumprimentou-o com um aperto de mão e saiu da sala. Todos saíram atrás dele, e Julie me esperou.
— Pronta pra foto? — Ela perguntou.
— Pareço pronta?
— Você está linda. — Ela sorriu, pegou a minha mão e foi me puxando para fora da sala.
— Tem como não tirar essa foto? — perguntei.
— Não. E além do mais, não vejo problemas em fotos.
— Eu vejo.
Ela me puxou até dobrar no corredor, á direita. Uma fila enorme estava vindo até o fim daquele corredor. Saía de uma salinha la no fundo.
— Não precisamos esperar. Sou vip aqui. — Ela riu e continuou me puxando.
Corremos ao lado da fila. Até chegar no fim, entramos numa salinha onde a fila começava, Peter estava lá. Junto do moreno de olhos verdes. Eles estavam ao lado do fotógrafo, que estava atrás de um tripé com uma câmera. Em frente a ela havia um pano branco, que servia de cenário. Julie me fez ficar ali e esperar com eles. Ninguém falou uma palavra.
Quando todo o primeiro ano do ensino médio tirou as fotos, ele nos chamou. Eu era a primeira, pra variar. Ele me fez ficar na frente da câmera, e fazer uma pose. Mas que caralhos de pose eu vou fazer? Beijinho no ombro? Fazer um "paz e amor" na frente da boca e colocar a língua pra fora?
— Sua burra. Vai ficar parada aí? — Peter se aproximou de mim.
— Não fale assim com ela, Peter. — O menino falou.
— Shh. É assim. — Peter ficou do meu lado. — Tira, quando for a hora.
O fotógrafo fez um "certinho" e Peter fez-me ficar de frente para ele, virada de lado para a câmera. Ele se agachou um pouco para ficar face-a-face comigo. Seu nariz quase encostava no meu.
— Ah, eu não posso. — Ele se afastou. — Mas é uma ocasião importante.
Ele se aproximou novamente, na mesma posição.
— Você tem que virar pra lá.
Ele colocou a mão no meu queixo e empurrou minha face para frente. Foi repentino, e eu levei um susto com o flash, fazendo-me sair na foto com, provavelmente a boca aberta. O fotógrafo deu um risinho e tirou a foto da câmera, que a imprimiu. Era uma câmera de polaroide.
— Olha... — O homem encarou a fotografia em sua mão. — Ela tem que aparecer sozinha, mas...
Peter correu até ele e arrancou a foto das mãos do homem. Se afastou de todos e encarou a foto. Ele sorriu sozinho.
— Ficou linda. Faz a carteirinha com essa foto assim mesmo. — Peter disse.
— Cê que manda. — O homem disse.
— Não, a foto é minha, eu que mando. — Falei.
— Não dá, moça. Ele já pegou. — O homem sorriu pra mim e mandou Julie se posicionar.
Enquanto ela ia até o cenário eu corri até Peter.
— Me da a foto! — Eu gritei.
Ele respondeu que não. Com aquela cara séria. Sem emoção. Eu tentei arrancar das mãos dele, mas o idiota ergueu o braço que a segurava e eu fiquei pulando que nem uma tonta pra tentar alcançar, mas sem sucesso.
— Não vou te dar. Pode desistir. Ela é minha agora. — Ele disse, guardando a fotografia no bolso.
Eu já havia parado de tentar desesperadamente pegar aquela coisa de volta. Eu sei que não iria conseguir, já que, sou pequena, magra e fraca, e Peter é alto e forte. Maldito. Agora eu teria uma foto na carteirinha provavelmente horrível. Deve ter ficado parecido com uma cachorra babando.
Nós íamos voltar até a sala de aula, mas em vez disso fomos até a cobertura. Eu, Julie e Peter. Ficamos sentados lá. Por um tempo. Até eu cochilar, como sempre. Acordei e, ao abrir os olhos percebi que havia dormido no ombro de Peter. Ele estava acordado como sempre, e DE NOVO Julie não estava lá. Me afastei rapidamente dele.
— Por que você se afastou?
— Tenho que voltar pra aula.
— Mas já acabou.
— DE NOVO?!
— Sim. Você é muito esquentadinha. Te prefiro dormindo.
Ele segurou a minha cabeça e a colocou novamente no ombro dele. Ele não soltou.
— Eu tenho que ir, Peter.
— Só se você sair comigo hoje.
— Não.
— Então não vou te soltar.
— Só saio se você me mostrar a foto.
— Não.
Ele me soltou e sem nenhuma palavra esperou que eu voltasse até a sala. Quando juntei meu material e desci, os alunos ainda estavam deixando o pátio, e Peter veio ao meu encontro. Fomos caminhando no caminho de casa.
— Vem me visitar lá pelas seis horas da tarde, se não tiver o que fazer. E você não vai ter. Então vem. — Ele falou virando de frente para mim, caminhando de costas.
— Vou pensar. — Eu ri da maneira que ele caminhava.
— Por favor. — Ele disse seriamente.
— Não.
Ele parou de de caminhar, fazendo-me esbarrar nele.
— Que... Vontade... De te empurrar até aquela parede ali. — Ele falou, fechando o punho.
— Ainda bem que agora você pode se controlar.
— Espera pra ver. Você me deixa louco.
Eu não respondi.
Ele só falava dessas coisas. Continuei caminhando e ele veio do meu lado. Ele estava quieto, por um milagre.
Quando chegamos na esquina em que ele ia reto e eu para a direita, ele me deu um beijo na testa.
— Tchau. Te vejo mais tarde. — Ele piscou e foi andando.
Como ele consegue? Ter um caminhar tão sexy e, piscar sério daquele jeito? Ele me assusta às vezes.
Segui caminhando até em casa. Eu só pensava nele. Cheguei no apartamento, comi, larguei o material, não nessa ordem, enfim, peguei meu celular e me joguei na cama.
E eu só pensava nele. Como aqueles olhos extremamente azuis poderiam me afetar tanto? Eu nunca havia conhecido uma pessoa assim. Que consegue ser sério o tempo todo. Eu só fechei os olhos e apaguei. E, de novo, acordei com o zumbido do celular.
Mensagem, dele.
"Vem pra cá, to com tédio. Não vou te abusar."
Eu nem respondi e liguei pro táxi. Não era desespero, mas eu não queria mais ficar sozinha em casa.
Rapidamente o motorista chegou, e logo eu cheguei também na casa de Peter. Toquei o interfone, ele abriu o portão pra mim, subi pelo elevador e quando cheguei no quinto andar, ele já me esperava encostado na porta.
— Eaí.
— Oi. — Eu respondi já entrando.
Assim que passei por ele ele entrou e fechou a porta.
— Entediada também?
— Sim.
— Hmm.. Quer dormir aqui? — Ele disse se sentando no sofá e pegando o controle da TV, ainda me olhando.
Eu revirei os olhos.
— Sua idiota. Depois eu sou o safado aqui. Eu durmo no sofá. Só quero companhia. — Ele se virou para a TV e a ligou.
— Então sim. Mas temos que sair mais cedo pra pegar meu material em casa.
— Tá. Não fica aí de pé. Vamos assistir alguma coisa.
Eu me sentei ao lado dele e ele colocou no canal FOX. Iria começar The Walking Dead.
— Você gosta?
— De quê?
— Burra. — Ele encarou a TV, e virou-se de novo para mim. — The Walking Dead.
— Sim.
— Você olha? — Ele começou a prestar atenção no que eu estava falando.
— Sim, Peter.
— Isso é uma raridade. — Ele disse, encostando a cabeça no sofá, e descansando a mão sobre o braço do acolchoado.
— Vai começar, fica quieto.
— Fica você, se não vou te agarrar.
Eu fiquei em silêncio e o episódio começou. Aquele que o Hershel morre. De novo.
— Só passa esses velhos? — Perguntei.
— Sim. A nova temporada vai ser lançada em Setembro.
— Hmm... Interessante. — Eu ri. — Não quero ver o Hershel morrer. Vamos ver outra coisa.
— Tá bom. — Ele pegou o controle e trocou novamente de canal.
— Aqui. O Lado Bom da Vida. Ótimo filme.
— Você gosta de filmes de romance? — Me deixou curiosa.
— Mais ou menos. Desse sim. Você já olhou?
— Não. Mas pelo nome...
E ele tinha razão. Passaram-se duas horas e quando o filme acabou, era realmente muito bom. Mas, isso não era interessante e, eu teria de acordar cedo, então, resolvi dormir.
— Vou deitar.
— Já? — Ele se levantou do sofá.
— Sim. — Eu fiz o mesmo que ele.
— Tá bom. — Ele apontou em direção a porta do quarto dele.
— Meu quarto é ali.
— Eu sei. Eu já fui lá. — Falei.
— É. Esqueci que você até lembra de alguma coisa às vezes.
— Você é irritante. — O encarei seriamente.
— Você é burra. — Ele me encarou de volta, com aquele olhar...
— Vai se cagar. — Eu disse, e mostrei o dedo do meio para ele.
Ele sorriu. E, eu avermelhei.
— Eu sei que não posso sorrir — Ele continuava sorrindo. — Mas, você me deixa totalmente louco.
Ele deu dois passos até mim e parou.
— A minha vontade era de te agarrar agora. — Ele me encarava profundamente. O sorriso se desfez. Ele se aproximou de mim mais ainda, e me segurou pela cintura.
— Mas, a única coisa que vou fazer agora é...
Ele colou sua testa na minha e eu senti aquele calor subir. Ele me encarava profunda e sedutoramente.
— Dormir.
Se afastou de mim, e deitou-se no sofá, naturalmente. Colocou os dois braços atrás da cabeça, apoiando-a neles.
Ele fechou os olhos. Que coisa mais sexy, meu Deus.
Mas eu ainda deveria estar como um pimentão. Aquilo foi, repentino. Eu senti o calor do corpo dele perto do meu, mas ele disse que não faria mais isso... Se bem que, eu acho que era só pra me irritar.
Coloquei a mão no peito e senti meu coração acelerado. Vou confessar, ele me deixava excitada. Mas se fosse pra fazer alguma coisa, eu não queria passar do beijo.
Fui até o quarto dele e já haviam cobertas e travesseiros em cima da cama. Era um quarto luxuoso, uma cama box e um guarda roupa acoplado nela. Na verdade, era uma suíte. Deitei-me na cama, só sobre os travesseiros. Fitei a parede do fundo do quarto, ao lado do banheiro e, percebi uma foto colada com durex. As luzes da sala se apagaram e eu fechei a porta.
Aproximei-me da parede para ver o que era e... Era a foto de hoje cedo.

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