A ordem negra
1 Josh- Esse apartamento não foi roubado.
Estava tudo muito escuro, algo para se preocupar, a moça gritava por socorro – Ah, todas elas fazem – e o homem atrás dela? Mais original impossível.
Estava todo de preto, jaqueta de couro, calças escuras, e o ápice, a clássica mascara de hóquei.
Até funcionaria, se a essa altura todos não soubessem que ele é aquele garoto rico, enfim. A perseguição continuou rua abaixo – que ótimo momento para uma rua vazia, não é mesmo? –.
A garota arriscou olhar para trás e surpreendentemente seu perseguidor havia desaparecido. Nem por isso ela parou de correr. E alguns metros e frente, depois de passar pela loja de conveniência;
BUM, ele aparece magicamente na sua frente e faz o que todo assassino em série costuma fazer. Algumas pessoas viraram a cara, evitando olhar para tal atrocidade.
Mas não Josh, que estava fazendo de tudo para irritar a garota ao seu lado, que como a maioria, virou o rosto.
— Você tá perdendo a melhor parte! – disse o garoto.
— Melhor? – perguntou com uma falsa cara de intrigada. – Só você gosta dessas coisas, não sei por que aceitei vir.
— Ah, eu s…
— Shhhhhhhh… – o som veio de algum lugar as costas deles. Perceberam então, que seria melhor esperar o fim do filme para conversar.
O cinema estava razoavelmente cheio. Levaram ao menos dez minutos para chegar ao fim do estreito corredor que levava a saída da sala.
E ao sair, encontraram um mar de pessoas, certamente esperando para ver o grandioso filme daquele grande herói, que ele não tinha ideia de quem era, e nem ligava.
O caminho de saída era rodeado por cartazes e bonecos em tamanho real, que anunciavam os próximos filmes. E de vez em quando se via algum nerd com sua fantasia de herói que ressaltava suas discretas (ou nem tanto) tetas masculinas.
Quando finalmente chegaram a luz do dia foi que pode-se vê-los claramente.
A garota era bonita, usava uma regata laranja, que combinava perfeitamente no laço que envolvia seus cabelos negros brilhantes. Sua pele era clara, e seus olhos um verde vibrante. Que depois que fixados em você, faziam ser praticamente impossível desviar o olhar,
Por outro lado, o garoto chamava mais a atenção, tinha cabelos negro e ondulados, que lhe caiam em uma franja muito mal peanteada. Seu rosto era muito bem definido, com maxilares marcantes, com alguns pelos nascendo no queixo, e seus olhos castanho escuro. E seu olhar vago, dava a impressão de não prestar a atenção, certamente pensando em algo que faria depois.
Usava uma camiseta preta, desbotada, e rasgada em mais lugares do que daria para contar. E a cobria com uma jaqueta camuflada.
Com certeza um excelente visual, se ele estivesse em uma conferência de rock clássico, infelizmente, não estava. E isso rendia alguns olhares desagradados.
A garota aparentemente não se importava com isso, pois agia como se nada estivesse errado. Essa era uma das coisas que Josh gostava nela, tratava todos iguais, independente de como se apresentasse.
— Oi, tá ai? – perguntou a garota balançando a mão, com belos anéis e algumas pulseiras pretas, em frente aos seus olhos. Nem havia reparado que ha alguns segundos olhava fixamente para seu rosto.
— Que? Ah, claro. – disse ele acordando do transe. – Então, vamos?
E então partiram.
Fazia um dia realmente bonito, as árvores ao redor da rua refletiam a luz do crepúsculo, os carros passavam lentamente.
Caminharam por dez, vinte, trinta minutos. Quando viraram em uma pequena rua, onde andaram por mais alguns metros até pararem em frente a uma bela casa.
— Bem, acho que está entregue. – disse o garoto.
— É, obrigado Sir Joshua. – respondeu ela rindo. E fazendo isso, conseguia ficar impressionantemente mais bonita, se é que era possível. – Queria que pudesse entrar, sabe, meus pais adorariam te conhecer.
— Ah, seria encantador. – riu Josh. – Mas sabe, tenho que organizar as coisas, dentro de alguns dias retornarei para a escola, e não vou querer esquecer nada. Uma visita da mamãe coruja nos primeiros dias não seria nada agradável.
— Tudo bem, a gente se vê.
Eles se aproximaram, e com um pequeno beijo de despedidas terminaram o belo encontro.
— Até mais Heather.
E voltou para a estrada. Ele já sabia o que o esperava em casa, mas, mesmo assim, valia a pena.
O sol já desaparecerá, e nos minutos que antecederam a chegada em casa, pensou em todos os insultos que provavelmente ouviria em casa.
A rua estava apenas iluminada pelas lâmpadas, e priticamente deserta, e após passar o grande portão de ferro e ouvir o habitual “Boa noite Sr. Allen” do porteiro, Gus, estava chegando em casa.
Para sua sorte o elevador estava funcionando, com certeza não aguentaria subir aqueles sete andares depois de andar tanto.
Quando finalmente chegou ao sétimo andar, torceu para que estivesse vazio, não queria nenhuma testemunha. E para sua sorte, estava.
Andou alguns metros pelo corredor mal iluminado, vez ou outra desviando dos galhos das habituais flores de suas vizinhas.
E la estava, um grande espaço de parede, entre os apartamentos da Sra. Tawley e da Sra. Johnson. Nela havia apenas um suporte de extintor, que ha muito tempo estava desaparecido.
Depois de alguns instantes observando a parede branca e crua, tirou algo do interior de sua jaqueta e deu um toque centímetros abaixo do suporte.
E ali, onde há poucos instantes teria apenas uma parede, agora tinha uma porta verde, com um número zero no meio.
Ao pé da porta, encontrou quatro envelopes, três de caráter oficial e o outro nem tanto. Os recolheu entrou e fechou a porta. Que após sua passagem tornou a desaparecer.
Seu apartamento era comum, uma parede igual ao do exterior e moveis muito bem organizados. Destacava-se ali, um pouco a direita, uma bela lareira. Com suas chamas vivas alimentando todo o cômodo. Estava cercada por três belas poltronas verde-escuro.
Por toda parede haviam fotos, na maioria de duas crianças idênticas, que em algumas delas sorriam ou acenavam, e em outras apenas estavam brigando.
Depois de alguns passos foi abordado.
— Há, parece que alguém se livrou por pouco – disse a garota, que segundos antes estava escondida na cozinha. – Mamãe vai se atrasar hoje.
— Pelo menos disso eu me livrei – disse ele sem ânimo. – Serio Chloe, acho que estou realmente começando a gostar dessa.
Chloë era idêntica a Josh. E também, totalmente diferente, era difícil definir.
Usava uma roupa clássica de fim de tarde. Calção jeans, um fino moletom cinza com algumas estampas estranhas. Seu cabelo que deveria ser parecido com o do irmão, era muito diferente. Estava muito mais limpo, mais bem cuidado e mais longo. E ela tinha aquele clássico olhar de quem sabe tudo, é superior a todos.
E ela realmente era, mas não usava isso como arma. Apenas sabia que era.
— Corta essa! – riu Chloe, dando um leve soco em seu ombro – ela tinha esse péssimo costume. – Isso só vai acontecer no dia que o Todd parar de procurar a portinhola.
Falar isso, rendeu um belo miado de desapontamento de um gato preto que estava aninhado em uma poltrona, e o famoso olhar de “você está morta pra mim”, que aprendeu com ela.
Josh não achou necessidade de responder, foi direto a cozinha. Na porta da geladeira havia uma foto muito comprometedora sua em um banho qualquer aos 4 anos, e por mais que tentasse arrancá-la, parecia impossível.
Abriu, tateou a procura de algo e acabou escolhendo um pedaço de torta. Pegou-o e foi se sentar, acabou escolhendo a poltrona da direita, que possuía uma bela vista de um lago. E la, saboreou sua torta.
E então lembrou dos envelopes.
— Ei – Gritou, e em poucos segundos a figura de sua irma apareceu. – A carta chegou, suas notas devem estar aqui.
Jogou um dos envelopes a ela e olhou bem o seu.
Nele havia um brasão em cera, com um habitual H, cercado por um leão, uma águia, uma serpente e um texugo. E na parte de traz os dizeres:
“Sr. Joshua Allen, Apartamento afanado
nº zero. Edifício Stolbridge, Southmpton”
— O apartamento não é afanado – reclamou Chloe infeliz, que tinha acabado de se jogar na poltrona ao seu lado– Foi só emprestado.
— É, tipo há uns quarenta anos.
Isso rendeu boas risadas de ambos, mas logo cessou para que começasse a comemoração.
— NOVE NOM’S – gritou ela pulando da cadeira, e fazendo seus cabelos irem para todos os lados. – Isso com certeza vai render um presente.
Josh levantou.
— Bom pra você, não quero estar aqui quando a bajulação começar – disse indo em direção ao corredor. – Ate mais.
Foi em direção a escada, que como o resto da casa continha alguns quadros da sua família.
Seu quarto era o primeiro do corredor, e na porta uma placa com os dizeres “ Se entrar sem autorização, prepare-se para ser atacado pelo trasgo Tobhias “ . É claro que ainda não tivera a oportunidade de conseguir um trasgo, mas quando conseguisse, esse, com certeza, seria seu nome.
Ao abrir a porta revelou um cômodo não muito grande, mas também não pequeno. As paredes tinham um tom escuro, e os detalhes dos moveis de madeira brilhavam na luz. Por toda a parede haviam cartazes e objetos diversos dos Faumouth Falcons, seu time de quadribol favorito.
O ponto alto do quarto era uma bela cama, que aparentava ser muito confortável, estava coberta com edredons negros e travesseiros cinzas.
Josh foi em direção a ela e deixou se desabar.
E como sempre, sua atenção foi chamada por algo além da janela. Um belo lago, cercado por um grande parque, repleto de árvores.
Quando mais jovem, Josh se lembra que passava boas horas apenas observando-o e algumas vezes, jurou ver algo grande se mexer na água.
Depois de alguns minutos observando, sua atenção voltou-se para as cartas ainda não lidas, e pegou a de aspecto oficial.
Abriu-a encontrou a tradicional lista de materiais, as novidades esse ano eram.
Como não ser morto por uma fera sanguinária americana de
Kaaga McCabe.
Livro padrão de feitiços (5° série) de Miranda Goshawk.
Uma nova história da magia de Cornélia Bodarinni.
Um passeio pela amazônia de Teodoro Mattos.
Equipamentos adicionais.
— Traje a rigor.
Uma pequena veia de excitação cresceu no peito do garoto. Mais aprendizado sobre criaturas? Perfeito!
Quando ia dedicar sua atenção ao outro envelope ouviu um barulho de chamas incomum, e deduziu que sua mãe tinha chegado. E logo foi fechar a porta e apagar a luz.
Quando voltou a sua cama acendeu uma pequena luz acima da cabeceira e pegou o outro envelope, que no verso tinha apenas o seu nome. E quando abriu se deparou com uma caligrafia já conhecida.
Hey! Espero que essa carta chegue rápido o bastante.
Vou ao beco diagonal na quarta feira (dia 30) e estive pensando em comprar alguns, digamos, “artefatos para deixar a viagem um pouco menos monótona. Se é que me entende.
Mandei uma mensagem similar aos outros, e recebi respostas positivas. Cada um me mandou cerca de cinco galeões e dez nuques. Se estiver de acordo me envie uma resposta ate dia 29.
Ps. Quatrocentos e cinquenta pontos sobre os Arrows? Acho que esse ano os Falcons finalmente levam a taça, por Merlin.
Isaac.
Aquilo realmente o animou. E com certeza seria o único motivo para sair do quarto no dia seguinte e emprestar a coruja de sua mãe, e como sempre, aproveitar para escutar alguns comentários indesejados.
Apagou a luz, e sem saber se passou um minuto ou uma hora, adormeceu.
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