A onda do medo
1 Capítulo 1: Começo
- CLEA!
Vesti os calções e corri para o andar debaixo.
Meu pai segurava uma maça no final das escadas.
— Obrigado pai. – Beijei-lhe na cara e corri para as traseiras. Dei três dentadas na maça e deitei-a no lixo.
— OWEN! – Ouvi-o gritar enquanto pegava na minha prancha.
O negócio era simples.
O primeiro a chegar á água ficava com as melhores ondas.
Mikala, Keani e Kai já estavam á espera na areia.
— O último é um Jojolão. – Disse passando por eles, a correr.
— Isso não vale – Ouvi Kai atrás de mim.
Lancei a prancha na água e comecei a remar.
Quanto mais longe nos mantivermos da costa, melhores são as ondas.
Parei e sentei-me na prancha.
— Tá Show – Disse Mika ficando ao meu lado.
Keani ficou do meu outro lado seguida por Kai.
— Já pensastes em viver aqui para sempre?- Perguntou Keani.
— Claro. – Disse Kai como se fosse a coisa mais estupida de se perguntar.
— Absolutamente- Concordou Mika.
— Não penso em mais nada – Disse.
Ficamos em silêncio a ver o sol nascer e as ondas se formarem.
— O mar cria ilusões… — Começou Mika.
-… A onda as questões… — Continuei.
-… O surf as respostas… — Continuou Keani.
-…Que eu descobrirei. – Terminou Kai.
Sorrimos uns para os outros e remamos.
Este era o nosso símbolo. A frase da nossa amizade. Não temos uma história normal de amigos. Normalmente á crianças que são amigas desde sempre, bem a nossa história é quase isso. Digamos apenas que precisamos de um pequeno empurrão do destino.
Conhecia Kai desde sempre. Foi meu vizinho a vida inteira, e antes melhor amigo do meu irmão Duke. Mas Duke é um palerma, egoísta e egocêntrico. Quando o bando do Kiron Davey começou a interessar-se por ele á uns 7 anos atrás ele deixou Kai. Kai é da minha idade e Duke é dois anos mais velho que nós, era natural que quisesse andar com idiotas da mesma idade que ele.
Mas Kiron começou a chatear Kai por alguma razão. Não uns simples palavrões mas eles batiam-lhe. Kai chegou a ir para o hospital por causa deles… e Duke nunca fez nada.
- SOCORRO!
Ouvi alguém gritar atrás de uns carros do estacionamento da praia.
— Grita á vontade. Ninguém te vai ouvir mesmo.- Conhecia a voz de Kiron para saber que era ele.
Corri até a uma carrinha azul. Kai estava deitado no chão a contorcer-se de dor. Kiron, Duke e os outros á volta dele.
— O que estais a fazer? – Exigi.
Empurrei-os para puder chegar a Kai.
— Tira-a daqui Duke – Disse Kiron.
— Vamos Clea. – Duke segurou-me no braço e puxou-me.
— O quê? Não. – Soltei-me dele e ajoelhei-me perto de Kai – Kai? Kai estás a ouvir-me?
Ele gemeu de dor e olhou-me.
— Ajuda-me – Sussurrou.
— Sois uns imbecis! – Disse olhando-os.
— Duke!
Duke ia a puxar-me outra vez mas fugi para olhar Kiron nos olhos.
— És um cabrerão.
Ele olhou-me com fúria.
— Sai daqui Clea. – Disse firmemente.
— Não. Podes ter convencido o idiota do meu irmão a fazer parte do teu bando, mas eu não sou ele. Não mandas em mim.
Kiron riu e olhou para os outros que começaram a rir também.
— És um bebezinho muito refilão – Disse balançando-me a cabeça pelo queixo.
Fiz a única coisa que me apetecia naquele momento. A única coisa que sabia que o ia calar. Bati-lhe.
Não como eles fizeram a Kai, dei-lhe uma lambada. Apenas isso.
Mas sei que lhe ficou a doer porque a mim também ficou, e não foi pouco.
Ele olhou-me chocado, mas não se mexeu. Agora já não havia mais risadas.
— Já chega Clea. – Duke puxou-me pelo braço para longe do grupo, mas voltei a soltar-me e fiquei frente a frente com ele.
— Tu também não mandas em mim.
— Só teu irmão e sou mais velho que tu. – Advertiu.
— Deixas-te de ser meu irmão e de ter autoridade em mim, no dia em que aceitas-te fazer parte de Kiron.
Afastei-me dele e ajudei Kai a levantar-se.
Virei-me para Duke uma última vez.
— Lá por a mãe nos ter deixado, não significa que não precisemos de ficar juntos. Ó que eu não precise de ti.
E a partir desse dia, Kai passou a andar comigo e Kiron e o seu bando nunca mais se meteram com ele. Mesmo que Duke não queira admitir, eu tenho a certeza que essa parte foi graças a ele.
Mika apareceu 3 anos depois. Bom, eu já a conhecia da escola, mas nunca lhe falava, ela ficou nossa amiga numa tarde depois de reunião de pais.
Os pais dela tinham brigado na frente de todos e ela saiu da sala a correr sem que ninguém a visse. Tirando eu e Kai.
— Explica-me outra vez porque estamos a fazer isto? – Perguntou Kai quando ficamos parados a uns 5 metros de Mika.
— Ela precisa de ajuda.
— Mas ela não fala connosco, praticamente nos ignora.
Suspirei e olhei para Mika. Ela estava agarrada aos joelhos e a chorar.
— Lá por ela ser assim, não quer dizer que não precise de ajuda.
Kai pareceu convencido e chegámos mais perto.
— Mikala? – Chamei sentando-me ao seu lado.
Ela olhou para nós, mas logo baixou a cabeça.
— O que quereis? Viestes gozar com a minha cara?
— Não. Não somos como tu. – Bufou Kai.
Bati-lhe com o pé e arregalei os olhos. Ele deu de ombros e sorriu timidamente.
Rolei os olhos e voltei-me para Mika. Ela olhava-nos.
— Ele tem razão – Disse calma.
— Não tem nada. Kai nunca tem razão.- Disse sorrindo.
— Ei! – Protestou Kai, mas ele também sorria.
Eu e Mika começamos a rir e Kai acompanhou.
— Eu sou a Clea, e aqui o emproado é o Kai.
Mika sorriu.
— Eu sei.
— Sabes? – Perguntou Kai espantado.
Mika assentiu.
— Vocês… vocês pareceis divertir-vos mais que todos nós.
Eu e Kai olhámo-nos.
— O mar cria as ilusões, as ondas as questões e o surf as respostas – Dissemos juntos.
— O que isso quer dizer?
— Que nós temos uma coisa em comum que gostamos de fazer juntos. Por isso nos divertimos. – Expliquei.
— O surf- Concluiu Kai.
Mika pareceu animar-se.
— Também fazeis surf?
— Toda a gente o faz. – Disse Kai.
-Nem todos. Eu gosto de fazer, mas as meninas dizem que isso é para rapazes.
— Isso é uma estupidez. – Disse.
— Exacto. Clea ganha-me facilmente.
Mika virou-se para mim e eu assenti.
— Podes vir surfar connosco.- Sugeri.
— Claro. Seria divertido.
E desde esse dia Mika tem andado connosco e nunca chegámos a falar sobre o problema que nos fez amigos. Não era preciso. Tínhamos uma coisa em comum. O surf. E isso bastava.
Keani mudou-se para cá quando tínhamos 10. Na escola todos falavam dela. A rapariga nova norte-americana. Eles falavam, mas ninguém nunca chegou perto dela. Keani era bonita e inteligente, mas aqui se não souberes surfar não te adianta de nada. Mesmo os nerds surfam e bem. Os que não fazem surf estão de alguma forma relacionados com a nossa cultura. Alguns dançam holla, alguns são hippies, outros nadadores de competição, á os skatters, mergulhadores ou sufistas. Keani não fazia nenhuma dessas coisas.
- Vamos chamá-la? – Perguntei enquanto preparava a minha prancha.
— Quem? – Perguntou Kai sem levantar os olhos da prancha.
— Ela.
Mika seguiu o meu olhar.
— Keani Noll? Ela não sabe surfar.
— Podíamos ensiná-la.
Ouvi Kiron rir atrás de nós.
— O que foi? – Perguntei-lhe.
Kiron olhava para mim com um sorriso enorme. O cabelo negro caia-lhe nos olhos e assim como todo na praia apenas tinham uns calções vestidos o que significa que as tatuagens estavam á mostra para quem quisesse ver.
— Percebe uma coisa Sullivan, ou se é surfista ou se não é.
— Pode-se aprender.
— E quem é que lhe vai ensinar, tu?- Ele riu e o seu bando também.
Olhei para Duke, ele apenas sorria.
— Sim.
Kiron levantou uma sobrancelha e sorriu.
— Quero ver isso.
— Uma aposta? – Perguntei levantando-me e estendendo-lhe a mão.
Ele olhou para a minha mão em apertou-a.
— Dou-te uma semana. Nem mais nem menos.
Uma semana era pouco para uma pessoa aprender a surfar e ele sabia disso.
— Então. Combinado? – Provocou.
— Combinado. Mas se eu ganhar tu e o teu bando ficais nossos criados durante uma semana.
— Uuuuu. – Disseram muitos.
— Aceito. Mas se tu perderes tu e os teus amiguinhos sereis nossos criados durante uma semana e olha que eu já sei o que quero que faças.
Olhei para os meus amigos e depois para Keani. Eles podiam não perceber, mas ela tinha espirito de surfista.
— Aceito.
Fui até Keani e sentei-me ao lado dela.
— EI! – Cumprimentei.
Ela assustou-se um pouco.
— Hmm, ei.
— Sou a Clea.
— Keani.
— Eu sei.
Ela corou um pouco.
— Ouve, não estás farta de ficar sempre aqui?
— O que sugeres?
— Estás a ver aqueles ali? – Apontei para um grupo de surfistas. Um deles era meu pai que acabara de fazer um 360º perfeito.
— Sim… mas eu não acho que seja boa ideia. – Disse trémula.
— Claro que não, nós somos apenas gromett, não podemos fazer aquilo ainda.
Ela olhou-me confusa.
— Grometts?
— Sim. É assim que chamamos a surfistas dos 10 aos 12.
Ela assentiu e olhou para o mar.
— Seria incrível.
— Ouve, eu sei que pode parecer assustador, mas se até o meu velho consegue, tu também consegues.
— Ele está aqui?
Eu assenti e apontei para o meu pai que estava sentado na prancha a observar Owen.
— E aquele é o meu irmão Owen.
Owen fez um 360º assim como meu pai. Era o nosso jogo preferido. Fazíamos e os outros tinham que faze-lo também.
— Uauh. – Sussurrou Keani.
— Então, o que me dizes?
Ela olhou-me com medo e esperança.
— Achas que consigo fazer aquilo?
— Eventualmente todos nós esperamos conseguir. Eu ainda não posso fazer, mas estou a trabalhar para isso. Vamos começar pelo básico e depois se quiseres continuar avançamos.
— Juntos – Disse Mika aparecendo com Kai.
Keani olhou para nós com um brilho nos seus olhos castanhos.
— Ok.
E foi assim que ficámos todos juntos. Não é preciso dizer que Keani aprendeu a surfar numa semana. Bem a surfar não, ela consegui-a por se na prancha e apanhar as ondas o que já era o suficiente. Nunca consegui saber o que Kiron queria que eu fizesse, mas também não me importei.
Tinha amigos, família, e o surf. O que mais poderia querer?
Notas finais
Não se esqueçam de me dizer BJX, SWEET`S
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