A onda do medo
8 Capitulo 8
– Precisas de alguma coisa? – Perguntou-me uma enfermeira.
– Não. Estou bem.
– Se precisares já sabes.
Encostei-me no ombro de Owen e fechei os olhos.
– Clea, eu e o teu pai vamos ter que ir falar com o Dr. Fell, mas voltamos daqui a pouco. Ok?
– Não te preocupes mãe. Podeis ir.
– Eu tomo conta dela e Duke foi buscar os outros. – Disse Owen.
– Bom. – Meu pai deu-me um beijo na testa – Porta-te bem.
Eu ri um pouco.
– OK.
Depois de um tempo ouvi a porta fechar.
– Liga a televisão. – Pedi a Owen.
– Clea é melhor não. – Senti-o enrijecer.
– Owen. Vá lá! Eu posso não ver, mas ainda ouso.
Ele hesitou mas cedeu.
– Está bem.
Deixei-me estar a ouvir o que diziam até perceber.
– “Melodia do adeus”?
– Sim. – Percebi um sorriso na sua voz.
Assenti e sorri.
– Ei Neil?
– Sim?- Perguntou timidamente.
– Anda cá.
A cama abaixou quando se sentou do meu outro lado. Encontrei o braço dele e puxei-o deitando-lhe a cabeça no meu ombro.
– Eu ainda sou a tua CleCle não é?- Perguntei fingindo raiva.
Ele riu um pouco.
– Sim. Sempre serás.
– Ainda bem. Então, Owen, quando sai-o daqui?
– Hmm, pelo que eu ouvi eles vão fazer mais alguns testes mas daqui a sete dias sais daqui.
– Sete dias? Isso é muito tempo- Reclamei fazendo beicinho.
– É para o teu bem Clea.
– Mas eu estou bem. Eu poderia correr uma maratona á vontade.
Ouvi a porta a abrir.
– Já estás a reclamar?- Ouvi Duke e percebi o seu sorriso.
– Eu nunca reclamo! Estou apenas a ser racional. Porque diabos eu preciso ficar aqui se estou bem? Hmm, Hmm?
– Precisão ter a certeza de que estás bem.- Insistiu Owen.
– Mas eu estou bem! Quer dizer, eu não morri.
Um silêncio perturbador se estendeu pela sala.
– Mas parece que eu estou a falar para as paredes.- Bufei.- Keani para de chorar, por favor.
– Como sabias que eu estava aqui?
– Instinto e… o perfume de Mika, é sempre intoxicante.
Desta vez ouve riso mas poucos.
Pus o queixo na palma da mão.
– Então, ides ficar ai especados que nem estátuas ou vindes-me abraçar?
Em segundos tinha os meus três melhores amigos a abraçarem-me por todos os lados.
– Pregaste-nos um susto.- Disse Kai.
– Não voltes a fazê-lo- Pediu Mika soluçando.
É raro as vezes em que ela chora.
– Acho improvável voltar a acontecer- Disse sorrindo um pouco – A não ser que me arme em idiota e vá para a água. O que achas Neil? Queres-te armar em idiota comigo?
Ele riu mas senti Owen enrijecer.
– Clea!
– Relaxa maninho. Estou a brincar. Vocês parecem como mortos vivos. – Bufei – Quer dizer, eu morri? Não. Então parem com essas caras de enterro e sorride um pouco. Quem quer gelado? Duke paga.
Duke riu.
– Eu pago?
– Pois. Disseste que me pagavas o maior gelado do mundo. Eu posso estar cega mas ainda ouso muito bem.
O silêncio se instalou de novo mal prenunciei a palavra cega, tirando Keani que voltou a chorar.
– De novo não- Choraminguei.- Se ides ficar assim sempre que falo sobre a minha cegueira, quero vos fora daqui.
– Clea, não…Nós apenas…- Owen desistiu de explicar e suspirou.
– Neil?
– Eu.
Eu sorri.
– Sim, tu. És meu amigo, certo?
– Sempre.
– Óptimo. Então quero que me prometas uma coisa.
– O quê?- Perguntou cauteloso.
– Se algum deles começar a chorar ou ficar estranho expulsa-lo, combinado?
– Combinado!- Disse com entusiasmo.
– Perfeito. Então que sabor vai ser?
Todos riram e eu sorri feliz por eles estarem a aceitar a minha cegueira. O pior que me podia acontecer era meus amigos deixarem de ser os meus amigos que sempre conheci e amei. Tornarem-se pessoas diferentes.
– O que foi? Tenho fome.
– Ei Dave, chega-te á frente.- Ouvi Duke falar.
– Ei Sullivan.
Talvez tenha sido a quase morte mas até estava feliz de o ter ali. Uma sensação estranha.
– EI Kiron. Então, como correu a competição?
Kai hesitou antes de responder.
– Bem.
– Bem- Repeti devagar – Só bem?
– Como querias que corresse?
– Sei lá. Altamente, incrível, Arrebentar, Amarradão, outra coisa qual quer. Não apenas… bem.
– Foi… bom.
Bom?
– Em que lugar ficas-te?
Ele suspirou.
– Em 6º.
– Não gozes comigo.
– Não estou.
Ele não estava mesmo.
Mas 6º lugar? Ele é muito melhor que isso.
– E tu Kiron?
Ouviu estalar a língua.
– Eu não participei.
Ok. Ficaram todos loucos.
Kai ficar em 6º lugar é mau, mas Kiron não participar é péssimo. Ele sempre participou, mesmo quando tinha torcido o pulso. Nunca nada o impediu.
– Porquê?
– Apenas… não me apeteceu.
– Não te apeteceu- Repeti.- Duke, e tu?
– Eu estive aqui Clea. Apenas lá foi busca-los.
–Hmm. Owen?
– Sim?
– Já apanharam o tubarão?
Senti-o suspirar cansado.
– Custou, mas sim.
– Parece que o louco Pete, não está assim tão louco afinal.
Mordi o lábio.
Se já não havia tubarão, então porque Kiron não participou? Porque Kai ficou em 6º lugar?
Pela mesma razão em que Duke não participou.
Se nada tivesse acontecido, provavelmente Kiron teria participado e ganho.
Kai conseguiria ficar nos 3 primeiros assim como Duke.
– Clea, estás de novo com dores?- A voz preocupada de Owen trouxe-me de novo á realidade.
– Hmm? Não. Mika, Keani?
– Diz- Disse MIka.
– Vocês ides participar, certo?!- Era mais uma afirmação que uma pergunta.
Não era justo que eu estragasse a vida dos meus amigos. Eu já tinha estragado a minha, não ia fazer o mesmo com eles.
– Nós… — Mika hesitou.
– Não vamos competir sem ti- Concluiu Keani.
– Isso é estupidez. Eu tenho desculpa em não poder competir, mas vocês não.
– Como não temos? Tu estás…- Keani não conseguiu acabar e começou a chorar de novo.
– Cega. Isso não é desculpa para vocês. Eu vou lá estar na mesma.
– Mas não na água.
– Ó por favor.
Dobrei os joelhos e enterrei a cabeça neles.
– Droga- Queixei-me da dor que surgiu no meu abdómen.
– Clea?- Senti as mãos de Owen nos meus braços- Estás bem?
Deitei-me para trás e fechei os olhos com força.
– Chama a enfermeira- Pediu Owen.
– Não, não. Eu estou bem.
– Tens a certeza?- A voz de Kiron estava mais perto.
– Sim, sim. Tudo bem.
– Eu não sei, não. Acho melhor chamá-la.- Ouvi Duke.
– Todos quietos. Eu estou bem. Quanto a vocês duas, ides competir.
– É decisão delas, Clea.- Disse Owen.- Se elas não querem competir, deixa-as.
– Mas é por minha causa, Owen.- Disse desesperada.
As lagrimas começavam a piscar-me nos olhos.
– Lembrai-vos? O mar cria ilusões…
– A onda as questões… — Disse Kai ajudando-me.
– O surf as respostas…- Disse Keani um pouco mais de um sussurro.
– Que eu descobrirei.- Acabou Mika e senti-a abraçar-me de novo.
– Exactamente- Sussurrei no sedoso cabelo de Mika.- Fá-lo Mika, por mim. Por favor.
– Sem ti Clea, não dá. Desculpa.
Afastei-me dela quando ouvi a porta a abrir.
– Olá a todos.- Ouvi Dr. Fell.
– Dr. Fell?
Ouviu chegar-se ao meu lado.
– Diz, Clea.
– Eu bati com a cabeça, certo?
– Sim. E foi isso que provocou a cegueira.
– Certo, então porque são eles que perderam os parafusos?
Eu podia ter suado rude, mas eles não me estavam a dar escolha. Estavam a desperdiçar a vida deles por mim.
Uma lagrima escapou do meu olho e apressei-me para a limpar.
– Ei, meu anjo.- Meu pai abraçou-me e acariciou-me o cabelo como quando era criança e tinha medo do escuro.
Eu nunca tive medo do escuro, mas depois que minha mãe se foi embora, parecia que eu tinha medo de tudo, principalmente de ficar sozinha.
– Vai ficar tudo bem- Sussurrou-me.
– Para além de mais, podes recuperar a visão- Disse minha mãe pegando-me na mão.- Tivemos a falar com o Dr. Fell e tanto ele quanto Nat têm a certeza de que a tua visão pode voltar.
–A pancada foi forte, mas Clea é uma rapariga forte. Ela vai conseguir. Não é?
–Claro- Sussurrei.- Posso descansar?
– Claro que sim, florzinha.- Disse meu pai ajudando-me.
– Estaremos aqui quando acordares, ok?- Disse minha mãe beijando-me na cabeça.
– Ok- Sussurrei e fechei os olhos virando-me de lado.
As coisas não podiam ficar piores, mas como alguém disse uma vez, já nada me pode deitar abaixo mais do que já fizeram.
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