A onda do medo
3 Capitulo 3
No dia seguinte, passei a manhã toda na água. Bem, isso já era custo-me, só que desta vez tinha um objectivo.
– CLEA! – Ouvi Keani a chamar-me na areia.
Remai até lá e sentai-me ao lado de Kai e Mika.
– O que se passa? – Perguntei sem fôlego.
– Olha. – Ela mostrou uma folha onde se lia.
Campeonato regional de Surf.
WQS
Participantes
Abigail Bernadownson
Clea Sullivan
Dina Clarron
Freny Pretenso
Gisela Reguilho
Keani Thompson
Jéssica Fornado
Mary Kenalowa
Mikala Gana
Natasha Ventura
– Já viste. Se conseguirmos ficar entre os 3 primeiros, a ASP vai nos patrocinar. – Disse animada.
– Quando é isso? – Perguntei.
– Daqui a dois meses.
– Ainda falta muito tempo – Disse Mika deitada na sua toalha.
– Sim, mas não faz mal treinar. – Keani deu de ombros.
– Quando é a tua competição? – Perguntei a Kai.
– AO que parece… — Ele deu uma olhava no folheto de Keani e olhou-me. – Uma semana antes do vosso.
– Clea, já recebes-te a resposta da Gold Coast? – Perguntou Mika.
Deitei-me na areia.
– Não.
– Devem estar apenas com muito trabalho. És a melhor surfista que conheço. Se não te aceitarem é porque estão cegos. – Disse Kai.
Beijei-lhe na cara.
– Obrigado.
Os agentes da Gold Coast tinham vindo falar comigo depois do campeonato á um mês quando fiquei em primeiro com uma margem de 3.5 de diferença de Gisela Reguilho. Ficaram impressionados e convidaram-me a fazer uns testes. Até agora estou á espera.
– Está na hora. – Ouvi alguém atrás de nós.
Olhei para o relógio de Mika.
– Ainda faltam 2 minutos. – Avisei-o.
Ele olhou-me com raiva.
– Anda daí Sullivan. Ou já te arrependes-te?
Olhei para Duke que me olhava com receio e esperança.
– Não.
Levantei-me e enfrentei-o.
– Vamos a isso.
Gone Break tinha a melhor vista de Grand Paradise assim como tinha a maior história no surf.
O primeiro surfista a enfrentar estas águas foi Taíu que saiu sem ferida nenhuma. Mas ele treinou a vida inteira para isto, nós apenas treinamos um par de horas.
O segundo foi Duke Kahanamoku que saiu com um braço partido, um preço mínimo para um tubo perfeito.
Todos os outros que tentaram conseguiram sair com ferimentos graves ou então muito deles morreram. Nenhum deles conseguiu a sua história.
Peguei na minha prancha e desci a encosta com Kiron atrás
Parei e fiquei a ver as ondas serem destruídas pelas rochas. Entrar ali dentro seria mesmo uma loucura, mas se conseguisse fazer um tubo valeria a pena cada osso quebrado.
– Preparada? – Perguntou Kiron a meu lado.
– Isto é uma Loucura.
– Com medo?
Olhei-o com esperança de o ver sorrir orgulhoso, mas ele não estava. Tinha uma expressão séria, como nunca o vira. O cabelo preto caia-lhe nos olhos e ficava bagunçado por causa do vento. Os seus olhos cinzentos tinham um brilho de várias emoções. Por mais que eu não queria admitir. Kiron é bonito. Talvez por isso tenha sentido um fraquinho por ele, mas isso já passou. É passado! Prometo.
– Não. Apenas curiosa. E tu?
Ele sorriu o seu famoso sorriso que faria muitas miúdas ficarem sem fôlego.
A mim… bem apenas me fez contorcer por dentro.
– Estou bem.
Suspirei e voltei-me para o mar.
– Então vamos a isso.
– ACABA COM ELA! – Olhei para trás e vi Nely sentada numa rocha. Todos tinham vindo cá para baixo e ficado a uma distancia segura.
– Vamos lá ver se consegues ganhar a honra da tua dama – Disse fazendo uma pequena vénia.
Ele levantou as sobrancelhas e eu ri começando a tirar a camisola.
– Achas que estou a fazer isto por ela? – Disse apontando com a cabeça para Nely.
Suspirei e olhei-o. Ele já tinha vindo sem camisola mostrando a tatuagem perto do umbigo com a forma de um pequeno dragão.
– Francamente, não me interessa as tuas razões. Apenas quero sair daqui sem um mínimo de arranhões.- Tirei os calções e mandei-os para o pé da camisola. – Talvez um ou dois apenas para mostrar que estive aqui.
Ele riu e começou a atar Leash á perna. Eu fiz o mesmo prendendo-o um pouco acima da pulseira.
Ganhei-a de minha mãe quando ganhei a minha primeira competição aos 10.
– Começamos com uma Batida? – Perguntou-me.
Assenti e entramos na água.
Remamos até ficarmos afastados das rochas. Mas isso implicaria que elas ficavam debaixo de nós. Não podíamos fugir. Este sítio era repleto de rochas.
– Como sou um cavalheiro vou deixar-te apanhar a primeira.
Revirei os olhos.
– Obrigado. – E remai para longe dele.
Deixei a primeira passar por mim e esperei pela próxima.
Não foi preciso muito.
Entrei na água conforme a onda veio. Remai com toda a força e levantei-me quando a onda começava a formar-se.
Entrei nela depressa e fiz a batida.
– BOA CLEA!
Não sei quem gritou, mas não me importei. Se continuasse assim, ganharia a Kiron de olhos fechados.
Cheguei-me até ele sorrindo.
– Tua vez.
Ele remou para longe e esperou. Quando a onda veio fez a batida e um Bottom Turn de seguida.
– ISSO NÃO VALE! – Gritei.
Os amigos deles celebraram e ele sorriu orgulhoso e convencido.
– Prepara-te para seres minha escrava. – Disse quando se aproximou.
– Idiota – Resmunguei avançando.
O mar tinha ficado mais agitado e as gaivotas berravam. Vi Kiron tapar os ouvidos quando uma passou por cima dele.
Subi na prancha na hora em que um tubo se formava. Enquanto estava dentro da onda toquei na água com a mão, sem dúvida era a melhor sensação de todas. NO fim do tubo fiz dois Bottom Turn e acabei em pé.
Eu estava á frente.
Sorri enquanto os meus amigos gritavam. Olhei para Kiron que me olhava espantado e fiz-lhe uma vénia.
– Faz melhor.
Ele remou com raiva para longe sem dizer nada.
– CLEA! CLEA! – Olhei para trás e vi Duke correr. Segundo depois todos estavam correndo até á costa.
Olhei-os confusa.
– O QUE SE PASSA? – Gritei-lhes.
–SAINDE DAÍ! – Gritou.
–TUBARÃO! TUBARÃO! – Ouvi muitos dizerem.
Olhei para Kiron que continuava a remar. VI um clarão negro entrar dentro de água.
– Merda. KIRON! KIRON SAI DAÍ!
Ela estava muito longe para me ouvir. Comecei a remar atrás dele.
– KIRON! TUBARÃO! KIRON!
Ele olhou para trás e eu parei.
– TUBARÃO!
– O QUÊ?
– TUBARÃO, SAÍ DAI!
Ele olhou para o lado e começou a remar de volta.
– VAÌ! – Ele gritava-me mas deixei-me estar.
Só comecei a remar quando ele me apanhou.
– Vamos.
Segui-o mas fui apanhada por uma onda.
– DESPACHEM-SE!
Cai da prancha mas voltei á superfície. Não esperei pela prancha e continuei remando. Era mais difícil. Passado um tempo não pude remar mais, o meu pé tinha ficado preso por causa do Leash.
Mergulhei e tentei soltá-lo mas ficou preso numa rocha. Votei a cima para arranjar folego e voltei de novo a baixo. Enquanto tentava tirar o Leash vi um burrão preto passar na minha esquerda. Olhei com medo e paralisei.
Há poucos momentos na vida que ficam connosco, mas este, sem dúvida alguma, ficará sempre comigo.
A forma como me olhava.
Os dentes brancos.
O sangue.
E a dor.
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