A onda do medo
4 Capitulo 4
Vi o sangue que saia da minha barriga e afastei-me da boca dele quando senti o elástico do Leash romper.
Não olhei para a mordedora dele e nadei até á superfície. Quando comecei a ver Kiron que tinha parado e gritava o meu nome fui lançada para baixo. Não vi o tubarão apenas as rochas que me cercavam.
A minha cabeça bateu com força na pedra e a minha visão ficou turva. A escuridão no fundo do mar parecia-me tão diferente depois de tantos anos. Pela primeira vez na vida tive medo da água.
Chorei mesmo que não conseguisse ver as minhas próprias lágrimas e vi o meu sangue se misturar na água ao meu redor. A mordida do tubarão doía mas sem olhar sabia que eram apenas as marcas dos dentes dele que ficaram. Não tinha levado nada de mim, por agora.
A minha cabeça explodia, senti-me leve e começando a chegar á superfície. Quando cheguei suspirei de alívio e engoli água. Mais uma onda e eu fui mandada de novo para baixo direita às rochas afiadas. Fechei os olhos conforme elas me cortavam e rompiam a minha alma.
Queria sair dali, mas faltava-me a força. Encostada às rochas vi o tubarão do outro lado e isso deu-me um aperto no peito. Pontos negros se apoderaram da minha visão e fechei os olhos com força á espera que a dor passa-se.
Os minutos seguintes foram surreais.
Senti alguém puxar-me para cima. Uma mão grande e forte. Sabia que era Kiron sem olhá-lo por isso deixei-me ir.
– Clea? – A voz dele era de preocupação mas não permiti que abrisse os olhos.
Estava cansada.
Queria dormir.
Ele puxou-me para si.
– Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem. – Ouvi-o dizer enquanto ele nadava até á costa.
Contorci-me de dor, gritei e chorei.
Havia fogo dentro de mim e queria que isso parasse.
Mãos me pegaram e me deitaram nas pedras. Foi pior do que na água. O calor e o vento entravam pelas feridas e aumentava o fogo.
– Pára. – Chorei.
– Ó meu deus! – Ouvi Mika choramingar ao meu lado.
Haviam mãos nos meus ombros, na minha cabeça e nos meus braços.
– Clea? Clea estás a ouvir-me? – A voz do meu irmão era a que mais se destacava. Ele não gritava, apenas falava para mim, mas era a que mais se destacava porque era a que mais conhecia. A voz que cresci a ouvir.
– Pára. – Sussurrei.
– Clea abre os olhos. Por favor abre os olhos.
Eu fiz o que ele me pediu mas apenas via sombras. Duas sombras. Meu irmão do meu lado esquerdo e Kiron do outro. Vi Mika e Kai aparecerem ao lado das minhas pernas.
Fechei os olhos e comecei a respirar com dificuldade.
– TEMOS DE A LEVAR AGORA! – Ouvi Kiron gritar.
– Mas a ambulância já vem a caminho. – Ouvi Nely.
– NÃO IMPORTA!
Não sei quem me pegou apenas que o fizeram. Vozes gritavam de todos os lados mas eu senti paz de alguma forma.
Eles sentiam medo, o que era natural. A civilização ficava a duas horas e eu não sabia se aguentaria duas horas.
– Duke é melhor ligares para a tua mãe. – Sugeriu Keani.
– Não! … Importas-te de ligar?
Uma mão segurou a minha com força e eu retribuí.
Era a única coisa que podia fazer agora.
– Calma Clea. Vai dar tudo certo. – A voz de Kai chegou a mim de algum lado. Ele queria acreditar no que dizia, eu também.
– É a Clea. – Keani esforçava-se para manter a voz firme- Tubarão… Não sei… Está a sangrar muito. Estamos a caminho, devemos encontrar a ambulância a meio.
Imagens do tubarão vieram a mim e eu gritei. O ar começava a ficar mais pesado, era quase impossível respirar. Comecei a perder a força e o meu aperto á mão que segura foi ficando mais fraco.
– DEPRESSA TOM! – Gritou Kiron.
– ESTOU A ANDAR O MAIS DEPRESSA POSSÍVEL!
Apenas via sombras se abrisse os olhos. E apenas existia dor fizesse o que fizesse. Por mais que eu temesse, eu sabia que o mal já estava feito.
Uma parte de mim tinha ficado para trás e a outra estava a tentar sair viva. Mas havia algo que me dizia que, já não adiantava e que o Surf tinha ficado no meio daquelas rochas.
E de tudo, o tubarão, a dor, ficar sem o surf foi o que mais me doeu.
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