A onda do medo
13 Capitulo 13
Sai de casa às 7 e andei até á praia com Dóris.
Meu pai e minha mãe não gostaram da ideia de eu andar sozinha mas liguei para minha avó e eles tiveram uma longa conversa de 2 horas.
Demorei algum tempo a chegar.
Ainda era cedo e os carros andavam depressa para irem para o trabalho. Senti-me com medo e apertei a ajuda de Dóris com força.
Apenas tinha que confiar em Dóris, mas era difícil quando estávamos tão perto da estrada.
O meu coração batia com força o suficiente para eu não ouvir nada se não ele.
E se passar-mos pela praia e o, Dóris não souber?
Ou um carro se despistar e acabar por bater em nós?
Ou então Dóris correr atrás de um gato e me deixar?
Onde eu tinha a cabeça quando disse a Kiron para não me vir buscar?
Apertei os olhos com força e uma lágrima de medo escorregou-me pela bochecha.
Era muito tarde para voltar para casa.
– Clea? Clea estás bem?- A voz de Kiron chegou de algum lado.
– Kiron- Suspirei de alívio.
Senti as mãos dele nos meus braços nus.
– O que se passa? Porque estás a chorar?- Ele estava preocupado e eu agradecida de ele estar ali.
Abanei a cabeça.
– Nada. Por nada.
– Bem, então pára de apertares assim a ajuda ou vais magoar-te.
Eu diminui o meu aperto na ajuda e suspirei de alívio de novo.
– Estavas com medo- Afirmou Kiron docemente.
Dei um sorriso amarelo.
– Acho que era mais fácil andar nas montanhas. Não havia tantos carros.
Kiron suspirou e pôs uma madeixa do meu cabelo atrás da minha orelha.
– Não devias ter vindo sozinha.- Disse firmemente como se ele se odiasse.
Dei de ombros e enxuguei os olhos.
– Vamos?
– Sim. Dá-me o, Dóris.
– Porquê?- Perguntei nervosa.
– Eu estarei aqui, Clea. Vou por Dóris no meu carro e já venho. Não saias daqui.
– Nem me atrevo.- Disse passando-lhe Dóris.
Ele deu-me um beijo na testa e foi-se.
Eu abracei-me e correi um pouco.
Eu nunca estive tão próxima de Kiron, nunca.
E, bolas, seu eu não estava a gostar.
Era suposto eu ter-me esquecido dele. Mas porra, eu sou humana e sempre que ele está perto… é complicado.
Minutos se passaram e nada de Kiron.
Mordi o lábio com força.
A minha respiração acelerou.
Não gosto de ficar sozinha.
Antes gostava, mas agora?
Bolas Kiron, onde te metes-te?
– Calma Clea, cheguei. Atrasei-me mais porque ele não me queria obedecer.
Suspirei de alívio quando os braços dele me cercaram. Deixei a minha cabeça cair no peito dele e tentei acalmar-me.
Ele puxou-me mais perto e beijou-me a cabeça pondo uma mão atrás dela.
– Eu não te ia deixar, Clea. Jamais o faria. Já me sinto culpado que chegue para isso.- Ele sussurrou a última parte mas eu percebi.
– Não foi culpa tua, Kiron.
– Cada um pensa no que quer.- Resmungou.
Afastei-me com as mãos no peito dele.
– Kiron, eu não te culpo. Ninguém o faz.
Sentiu-o ficar tenso.
– Diz que não te culpas, Kiron.
– Mas a ideia foi minha, Clea.
Bati o pé no chão e dobrei os braços no peito.
– Diz!
Ele suspirou frustrado.
– Eu não me culpo- Sussurrou.
– Mais alto.- Pedi.
– Clea, não…
– KIRON!-Gritei.
Ouviu xingar e sorri.
– NÃO FOI CULPA MINHA, PORRA!
Gritou e eu sorri ainda mais.
– Ainda bem.- Comecei a andar mas ele pegou-me ao colo.
Eu dei um grito de surpresa e tremi.
– Miúda chata.- Resmungou enquanto andava.
–Põe-me no chão Kiron.- Pedi com o lábio inferior tremendo.
– Clea, estás segura.
Engoli e agarrei-me a ele com força.
Estava com raiva de mim.
Nunca tive medo na vida.
E agora passo a vida com medo.
– Não faz mal ter medo Clea. Toda a gente tem.
Disse Kiron lendo-me a mente.
– Eu não.
– TODA a gente Clea. Ter medo significa que és humana.
– Eu odeio ter medo.- Admiti.
– E quem não têm, Clea?
Suspirei e deitei a cabeça na curva do ombro dele. Ele pôs o queixo na minha cabeça e suspirou também.
O que quer que esteja a acontecer-me, a Kiron também está. E isso deixou-me mais tranquila.
– Chegámos- Avisou.
Pôs-me no chão devagar e tive de andar um pouco para estar na água.
Quando cheguei suspirei de novo, mas de felicidade.
Como eu tinha saudades disto.
Era impossível não sorrir. Sentia-me tão bem.
– Kiron?
– Sim?- A voz dele veio detrás de mim.
– Não vens?
– Eu estou bem.- Disse rouco.
Franzi a testa e virei a cintura mantendo os pés na água.
– Anda.
Ele mexeu-se mas não veio.
– Eu estou bem, Clea.
Mordi o lábio inferior.
Ele estava com medo?
– Lembras-te do que me disseste ainda á pouco? Não faz mal ter medo.
– Não uses as minhas palavras contra mim, Sullivan.
Eu sorri e estendi-lhe a mão.
– Então anda.
Ouviu prender o ar e sua mão apertou a minha.
Lentamente ele veio e ficou ao meu lado.
Ele não soltou minha mão e eu não tive intenção de o fazer também.
Ele começou a relaxar e eu sorri.
Deixa-mo-nos ficar durante vinte minutos e depois voltamos para a arreia. Deitá-mo-nos sem dizer nada.
– É por isso que não surfas? Porque tens medo?- Perguntei quebrando o silêncio.
– Eu não sou de ter medo, Clea. Eu não tenho medo da água. É outra coisa.
–O quê?
– É só que… sempre que olho para a água… é sangue que vejo.- Ele não falou mais até sussurrar.- O teu sangue.
–Tens de superar isso, Kiron.
– Eu sei, eu sei. Só que… não é fácil.
Mordi o lábio de novo e suspirei.
Eu estava a fazer isto muitas vezes.
– Alguma vez tiveste medo, Kiron?
Ele tinha o braço debaixo da minha cabeça e dobrou-o para tocar no meu cabelo.
– Duas vezes.
– Quando?
– A primeira foi quando encontrei minha mãe a gritar e a sangrar quando cheguei em casa. Tive medo de ela morrer ali, á minha frente.
A mãe de Kiron tinha câncer e morreu á dois anos atrás.
– E a segunda?
– A segunda foi em Gone Break.
– Temos razões suficientes para ter medo ali. Era a nossa vida que estava em jogo.
–Não era por mim que tinha medo.
– Não?- Sussurrei.
– Não.- Sussurrou-me ao ouvido.- E eu juro-te que nunca tive tanto medo na minha vida. Era tanto sangue, Clea. Eu pensei que…
– Que ia morrer- Conclui e ele ficou rijo- Eu também. Quando o vi vir para mim era como se a minha vida toda passasse á minha frente. Eu desejei morrer a ficar sem surf naquele dia.
– Não digas isso, Clea- Disse duramente.
– Mas é a verdade. Eu sabia que já não podia surfar antes de irmos para o hospital. Então… porque iria eu querer viver?
– Por causa da tua família, dos teus amigos. E eu nunca mais me perdoaria se isso acontecesse.
– O que desejarias tu, Kiron? Não escolherias a mesma coisa?
Ele apenas ficou mais rijo e não falou nada.
– Eu vejo-o todas as noites. Sinto a dor. Vejo a ele. Vejo o sangue. É como se fosse um filme repetitivo todas as noites.
– Contas-te aos teus pais?
Abanei a cabeça negando.
– Clea, eles precisam saber. Talvez precises de um psicólogo.
– Eu preciso da minha visão de volta.- Disse deixando as lágrimas caírem.
– O médico disse que não era para sempre. Tu podes voltar a ver.
Eu neguei com a cabeça e chorei ainda mais.
– Era mentira.
Sentá-mo-nos e ele agarrou nos meus braços.
– Como assim?
– Eu falei com o Dr. Fell depois do exame e ele contou-me a verdade. EU posso voltar a ver, mas as probabilidades são muito mais altas para o oposto. Apenas um milagre me faria voltar a ver.- Solucei e ele apertou contra ele.
– Merda- Xingou para ele- Vamos lá, Clea. Não chores. Por favor.
– O que eu vou fazer, Kiron? O que vou fazer sem o surf?- Chorei no peito dele.
– Clea…- Suspirou agarrando-me mais perto.
– Eu quero voltar a ver, eu quero.
Eu chorei e desabei tudo o que eu prendia dentro de mim. Tudo o que eu perdi naquele dia.
–Clea… anjo, eu estou aqui. Estás rodeada de pessoas que te amam, Clea. De pessoas que se preocupam contigo. E tu és forte. És mais forte que alguma vez vi. – Ele limpava as lágrimas do meu rosto delicadamente.
– Eu não sou nada- Sussurrei.
– Pára, Clea! Tu és tudo. TUDO!- A teste dele tocou a minha.- Tu és tudo para mim.
Com isso parei de chorar.
Ele disse o que eu pensei que ele disse?
– Kiron…
Ele interrompeu-me colando os lábios dele nos meus com força. Ele beijou-me com fome e desejo e eu retribui.
Já estava farta de negar que não o queria.
Já estava farta de ser forte.
Queria poder desabar um dia que fosse.
Queria-me sentir desejada um tempo.
Queria Kiron, como sempre quis, mas nunca admiti.
O meu coração batia como se tivesse corrido uma maratona, havia tanto calor, tanta paixão que eu não queria sair dali nunca.
Podia vir um tsunami que eu não me importaria.
Podia acabar o mundo que eu pouco me interessaria.
Porra, eu não me importava de morrer ali.
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